terça-feira, 13 de julho de 2004

O Papel

Estava sentado na sua costumeira esplanada, a saborear o café. Eram quatro da tarde e àquela hora os transeuntes eram muitos. Sentava-se ali cerca de meia hora por dia, a bisbilhotar discretamente os afazeres das outras pessoas.
Lembrava-se sempre daquela senhora, que morava numa rua estreitinha, na sua já há muito esquecida freguesia, perdida nos confins da serra Amarela, que parcimoniosamente observava as andanças das outras pessoas, e entre um dedo e outro de prosa, recolhia todos os boatos que se transformavam em notícias e todas as notícias que se transformavam em boatos, tal era a habilidade da senhora para deturpar as coisas. Não se lembrava do seu nome, mas na aldeia chamavam-lhe a Emissora Nacional. Não tinha muito crédito na praça mas havia uma notícia ou outra que lá acabava por passar para bocas mais limpas.
Não era propriamente a afinidade com a conterrânea que o fazia estar ali sentado quase todos os dias. Gostava de observar as pessoas e imaginar para onde iriam, o que faziam ali, ler-lhes na cara as emoções para inventar personagens que pudessem encher páginas escritas de histórias fantásticas.
Pousou a chávena e abriu o livro que estava na cadeira ao lado. “Baudolino” de Umberto Eco. Curiosa personagem esta que mentia compulsivamente e se achava o criador de inúmeros acontecimentos do século XII. Quantos Baudolinos não nos passaram já pela frente e continuam a passar? A Emissora Nacional, lá na sua terra era um.
Deixou os pensamentos para trás já que, entretanto pelo canto do olho, reparou numa criatura atípica no seio daquela mole de pessoas que se comportavam todas da mesma forma. Um sem abrigo, com a perna esquerda amputada pelo joelho e pela vida, aproximou-se e por cima do ombro tentou discernir o que ele estava a ler. O Leitor ignorou a respiração etílica que sobre si caía e continuou a ler, só acordando quando o Amputado lhe perguntou:
- Então o que está a achar desse livro?
- Não é o melhor livro deste autor, mas também não é o pior, gaguejou, espantado com a questão.
Estava à espera de tudo menos daquilo, mas quem diz que os sem abrigo são incultos? Não é uma verdade absoluta, mas a sociedade torna-a quase um dogma, um mundo de aparências é o que é. Foi interrompido novamente.
- Quando não tinha ainda desgraçado a minha vida costumava ler muito, mas agora já não o posso fazer, disse com tristeza. Agora, vou lendo uns jornais que apanho no lixo, ou com muita sorte, vou encontrando uns livros abandonados. É a vida.
- Pois é, mas olhe, não se quer sentar aqui cinco minutos a tomar qualquer coisa que eu venho já? Peça o que quiser que eu falo com o senhor do café.
Entrou informou o senhor do café que servisse o seu convidado, e três lanches mistos, uma fatia de bola e uma cerveja depois, voltava ofegante. Pousou dois livros iguais na mesa e ofereceu um deles ao senhor que se desfez em lágrimas. Ele evitou os agradecimentos, e pacientemente ouviu a história que ele tinha para lhe contar. Cinco minutos depois pelo meio de uma chuva de agradecimentos, pediu desculpa e educadamente continuou a sua jornada para fazer dinheiro, quanto mais não fosse para o almoço do dia seguinte, porque para o jantar já ia bem servido. Levava no bolso alguns pastéis e sandes.
Entretanto na mesa ao lado a cena toda tinha sido seguida com atenção. Uma morena de cabelo castanho liso, por cima das lentes dos óculos de sol, ia tirando as medidas e estudando todo o envolvimento em volta daquela personagem. Brincava com o cigarro que tinha na mão e ia tirando fumaças de fumo azulado de cada vez que tirava uma passa. Pensativa olhou em volta e vendo que não era alvo de atenção, pensou que se lixe e escreveu qualquer coisa num papel.
Um cigarro depois o Benemérito levantou-se e ela ficou com a adrenalina aos saltos. Quando reparou que ele se dirigia à casa de banho, levantou-se e rapidamente colocou a marcar o livro o Papel, não sem antes ter levado com um sorriso de um casal de namorados que entretanto tinha reparado nas suas movimentações.
Setenta e três pessoas que passavam na rua (entre as quais dois polícias em ronda, dois cães pegados por um osso e três betas de argolas vestidas exactamente da mesma forma) depois, lá voltou ele. Mais aliviado, ao que parecia.
Ele aliviado e ela nervosa. Ele abriu o livro e ficou espantado, estranho café onde acontecem coisas tão sui generis, pensou. Ela com o coração a saltar-lhe pela boca, ele com a testa enrugada a olhar em volta. Mas o que é que tem o raio do papel escrito? Eu sou o narrador desta história, acho que tenho o direito de saber! Ou não? Estás a ler um livro interessante, gostei muito, se bem que ás vezes o autor cansa. Sabias que és muito giro? Desculpa o atrevimento mas gostava de te conhecer melhor.
Olhou em volta e tentou ver quem teria sido a autora da façanha. Olhou para o lado e viu um casal de namorados que olhavam para ele com cara de caso sorrindo. Na outra mesa estava uma rapariga morena de cabelos castanhos escuros lisos, de óculos de sol, que tanto quanto lhe parecia estava compenetrada num ponto no infinito. As outras mesas estavam vazias, mas tanto quanto lhe cabia saber até poderia ter sido alguém que passara na rua, até a empregada do café. E se Ela o queria conhecer como é que ele poderia dizer que sim?
Pediu um Jack Daniels, e pediu-lhe conselhos. O sorriso maroto de miúdo que está prestes a fazer asneiras, e que tão bem o caracterizava, iluminou-lhe o rosto. Entrou no café, e dois minutos depois saiu triunfante. Três voos rasantes de pombos (sobre a cabeça dos transeuntes) depois, uma garrafa de água com gás num pires, com um malmequer e um papel com “tira os óculos de sol e podes conhecer-me” escrito, chega à mesa da vizinha. A surpresa estampou-se na cara da jovem e ele teve a certeza.
Ela tirou os óculos, ele levantou-se, sentou-se na mesa dela. O casal de namorados na mesa ao lado, foi ao balcão ao pagou a despesa das três mesas. Um cigano que ia a passar tropeçou, por ir a discutir com a mulher, e partiu os dois dentes de ouro quando bateu no balde do lixo que rolou para o meio da estrada e fez com que um carro batesse num boca de incêndio, enchendo a boca de cena de água, mas nem o Leitor nem a Escritora se mexeram. Já estavam a ter uma de muitas conversas que os iria ligar um ao outro para sempre.

Algo Familiar

Tudo corria muito bem nessa noite. O álcool corria que era uma maravilha. Os seus dedos contavam a décima quinta cerveja que tinha em mãos, desde que saíra do jantar. Aos poucos a embriaguez tomava conta do seu corpo. Este movia-se num frenetismo africano ao som do “pay my dues” da Anastasia. Absorto do que à volta se passava deixava-se levar pela música e embebedava-se com ela. Rapidamente subiu para o banco corrido encostado parede, e começou a chamar as atenções para si. Não tardou muito e todas estavam viradas para ele e para o seu estado alcoolicamente muito bem disposto.
Confusamente ouviu algo familiar. O ar frio da noite toldava-lhe o pensamento, e a cerveja ajudava. Esvaziou-a do copo e encheu-o a custo na fonte junto ao Passeio das Virtudes. Repetiu o gesto de muitas noites de copos, que o tinham tornado habitue nessa fonte na penosa assunção de cerveja até casa. Prosseguiu a jornada, e os primeiros raios de luz amplificaram algo familiar, que era embotado pela falta dos benditos óculos de sol.
Finalmente acabara-se a longa subida e já na plana Rua do Rosário, prosseguiu a desenhar esses e zes pela rua fora, a reprimir-se em monólogo pelo excesso da noite. Algo Familiar tocou-lhe no ombro e perguntou se era sempre assim tão duro com ele próprio.
Acordou com a sensação que lhe tinha passado um rolo compressor por cima. A princípio não reconheceu o quarto onde estava, e nos momentos seguintes também não. Estava perdido num quarto que não era o dele, nem de ninguém que conhecesse, e ainda por cima, a meia luz não fazia a mínima ideia onde estava o bendito interruptor. Tacteou e encontrou-o na mesa de cabeceira, ao maldito interruptor! AHHH, A LUZ, gritou-lhe o cérebro quase a explodir. Algo Familiar se moveu e pareceu-lhe vislumbrar um corpo deitado ao seu lado...
E aí discerniu Algo Familiar, uma mulher bonita de arrepiar todos os pelos das pernas, a dormir com os cabelos negros em desalinho, com a alma perfeitamente enquadrada por uns olhos verde esmeralda, estava a acordar e os olhos brilhavam e sorriam de malandrice dizendo bom dia.
Olhou para si, para debaixo dos lencóis e com um ar nada ensaiado, atrapalhou-se e corou ao descobrir que nada tinha vestido. Rapidamente vieram-lhe à cabeça todas as coisas que podiam ter acontecido com ele como actor principal. Encarou-a e perguntou o que tinha ele feito. Muitas vezes, foi a resposta bem disposta dela, que se ria com atrapalhação dele.
Rompendo com todas as convenções, perguntou se também tinha sido bom para ele. Ela riu-se à gargalhada e que estava convencida que sim. Perguntou o nome à bela desconhecida, que lhe respondeu Algo Familiar. Era o nome dela a partir daquele momento, já que fora a única coisa que ele lhe dissera na noite anterior, que ela era Algo Familiar. Enquanto dizia isto levantou-se e por momentos ele sentiu-se numa galeria de arte, a apreciar peças magníficas. Na parede em frente estava A Passagem do Tempo do Dali, do lado esquerdo uma Primavera do Boticelli, e acabada de se levantar a escultura mais excitante do mundo, talhada de um só bloco como o David, mostrava em todo o seu esplendor a anatomia mais perfeita que já vira numa mulher. Ficou sem palavras com tanto à vontade e seguiu-a até à casa de banho.
Tropeçou em corpos gementes, espalhados aleatoriamente no chão da sala, e lembrou-se de um convite para uma rave. Algo Familiar abraçou-o pelas costas e arrastou-o para a cozinha. Tirou um cigarro e serviu-se de leite gelado do frigorífico tentando restabelecer a lucidez. Ouviu uma voz a dizer-lhe que gostava da sua forma de se alhear na dança da forma sexy como dançava, olhava, beijava e sorria, e viu algo familiar a ler-lhe os pensamentos, absorta nos seus. Beijou-o e deu-lhe o seu número de telefone, para quando quiseres estar comigo. Adoro-te.
Foi a última vez que sentiu Algo Familiar...

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Euforia

Euforia, a palavra certa para caracterizar o momento. Numa cidade onde se respira futebol, não é estranho o sentimento, mesmo neste Estranho que se tornava frio quando em contacto com as multidões. Estudioso das atitudes dos outros, achava que não se devia envolver, e que o seu espírito científico devia prevalecer sobre toda e qualquer forma de emoção.
Naquele momento tornava-se impossível, e sendo arrastado pela turba em movimento assíncrono, que inexoravelmente o conduzia para um destino incerto mas ao mesmo tempo desejado, pensava – que se lixe uma vezes não são vezes.
Gritou, abraçou, chorou, tropeçou e foi calcado, empurrado, esmagado, beliscado, apalpado e sentado num restaurante para o merecido repasto, da noite. Aí a Lentidão tomou conta da situação.
Um empregado abriu uma garrafa de Duas Quintas, deixou-a respirar durante meia hora, para condignamente ser beijada pelo amante dessa noite.

É esta a beleza do vinho, tem que ser tratado como uma mulher, com carinho, recheado de atenções especiais para poder ser condignamente apreciado. Toda uma série de pequenos quês que fazem toda a diferença. É sinónimo de classe saber como escolher um vinho e que tratamento lhe dar, porque a informação pode ser transferida para o trato com o sexo oposto, o único senão é que o vinho pode ser partilhado, o mesmo não deve ser feito com as mulheres.
Pediu pato assado no forno recheado com pinhões e amêndoas, prato lento, desde o tempero ao cozinhar, até à própria carne, tornam o prato lento e extremamente requintado como a maior parte das mulheres. Está visto que este parágrafo vai ser só sobre comida, bebida e... mulheres.
Sobremesa Jack Daniel’s e um Havana, tudo muito lento... e incómodo, como o silêncio e a solidão que estava a sentir.
Salta para a rua e é abordado - deixa-me adivinhar... por uma gaja? por uma rapariga, que sem papas na língua lhe dá a mão ternamente, revelando-lhe todas as loucuras e desejos deste mundo que o rodeia, pensando que conseguiria arrebatá-lo deste marasmo consciencialista-científico que o prendia ao quotidiano com as grilhetas frias, apertadas e lúgubres do auto-conservadorismo – tanta coisa para dizer que o gajo era chato comó caraças.
Chocado puxa de um cigarro e com raiva declama todas as dores que lhe oprimem o peito, fazendo ressurgir toda a impaciência e loucura dos seus tempos de adolescente. Sem medos envolve-a com a sua alma e percorre as ruas do desejo em espirais de êxtase - daqui a pouco pareces o Richard Bach, o do Fernão Capelo Gaivota. Sorrindo, beija-a como beijara o copo de vinho, e arrepia-se com a simplicidade do toque, do sabor, da magia de um simples tocar de dois lábios.
Ri-se e abstrai-se do mundo à volta e pensa... pensa em quê? há que pensar? Que lamechas que me saíste, a moça quer é acção, tudo bem que haja um pouco de romantismo, classe and so on, mas o que é demais é moléstia. CHATO! Não pensa, porque este momento não é para pensar, e´ para sentir, viver e não racionalizar, vive não penses, sente, depois olha para trás e não julgues, assimila. Mas fora isso, pelo menos tocaste-lhe no ponto, pelo menos foi mais que uns beijinhos?