terça-feira, 20 de julho de 2004

Vilar de Mouros


Quem não foi devia ir. Quem já foi devia voltar. Quem esteve lá este fim de semana devia ter juízo e estar a dormir! Não há explicação possível para tal estado de euforia que contagia pessoas de todos os credos, idades e mentalidade anarco-social. A cerveja e os vários tipos de drogas que por lá se vêem não são desculpa suficiente para todo e qualquer tipo de cenários que se constróem de um momento para o outro.
Primeira regra de Vilar de Mouros, não há coincidências. Todas as pessoas que se encontram lá não o fazem ao acaso, há uma arquitectura sobrenatural que faz com que aquilo que procurámos não venha ter connosco, e as companhias indesejadas, vulgo cromos, colam-se a nós como cola, parafraseando um amigo "se fossem moluscos eram lapas". Não falo ao acaso, já que um cromo, perseguiu-nos desde a primeira noite aparecendo nos locais mais insuspeitos, acreditando piamente que eu era holandês, mea culpa, e sempre que eu mencionava esta personagem, lá aparecia ele do nada. Foi visto pela última vez em direcção à festa de Trance agarrado a um camião do lixo. Espero que tenha sido despejado bem longe. Perguntaram-me a certa altura se eu não me perdia dos meus amigos, ao que respondi que eles me encontravam sempre, quando acabei a frase lá vinham eles na minha direcção, o que provocou a gargalhada geral, já que isto estava sempre a acontecer, nos momentos mais estranhos.
Pior ainda foi quando descobrimos que éramos mais conhecidos que o termómetro, eu sei que não é assim que se diz, mas quando tentei dizer a frase correcta, não me conseguia sair a palavra tremoço. Coisas da vida.
Aconteceu este episódio numa das muitas barracas de SuperBock do recinto quando uma menina perguntou ao Pedro, que lá foi sozinho, se "os outros dois já tinham desistido". Foi uma constatação de que devíamos ir lá imensas vezes, mas não nos dávamos conta, mas não era difícil de reparar no Capuchinho Vermelho e nos dois Moicanos, um ruivo e um moreno. Segunda regra de Vilar de Mouros: não há mosquitos em lado nenhum! Há Vampiros, e aos milhares! Quando se chega à vila começa-se a constatar que se é atacado a cada dois segundos por uma espécie baptizada prontamente de Mosquito Cão, porque morde e não larga. Quem inventou a anedota "Qual é a diferença entre uma loira e um mosquito", não esteve em Vilar de Mouros, porque quando se bate nestes mosquitos eles continuam a chupar como as loiras da anedota. Aliás a organização, para o próximo ano,  vai substituir as pulseiras amarelas e vermelhas porque as mordidelas que toda a gente tinha dava para ver quem estava no festival!

sábado, 17 de julho de 2004

Os Pseudo-Forinhas

-Continuação-
Pior que os Forinhas só os Pseudo-Forinhas!
Os Pseudo-Forinhas... coitados, sem imaginação para mais, são o chocolate Avianense em comparação com o verdadeiro e único chocolate, o Toblerone, são o sucedâneo dos Forinhas. Optaram por copiar os Forinhas mas de uma forma que os torna um pouco tristes. TRISTES sim, são uns tristes. Tiraram a beleza toda aos Forinhas. Os PF’s são os meninos bem que resolveram enfrentar os paizinhos e então decidiram ser rebeldes. Fazem quase tudo que os Forinhas fazem, mas não colam cartazes, tomam banho, têm namoradas carneiras, são incapazes de dormir na rua, e têm a puta da mania que são rebeldes, como se nunca puseram sebo no cabelo? Se nunca viram um piercing infectado; se nunca mijaram nos pés para os aquecer no inverno?
Estes moços e moças gostam das mesmas coisas menos dos sacrifícios, que são poucos. Se eu fosse Forinha e conhecesse algum destes PF’s tirava-lhe o cartão de sócio!!! Imitadores baratos é o que é!!! Aliás caros, já que as ropitas que usam são de boas lojas sendo imitações dos grandes ícones e vagas culturais anarco-rebelde-estoucontratudooqueseconhece. Perceberam.aliás o estoucontratudooqueconheço, vai ao cúmulo de nos casos mais graves de PF’s de se tornar num estoucontratudooqueconheçoatécontramimpróprio. São estúpidos, mas faz parte.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Os Forinhas

Voltámos à onda das críticas, sociais ou não, o que interessa é que transmitam algo de útil. Estava eu a beber as minhas cervejas de sábado à noite quando de repente surge à conversa um tema de que me orgulho de ter uma opinião muito crítica e por vezes muito cáustica. Os Forinhas.
O que são Forinhas, ainda me perguntava eu há poucos meses, já que todos os dias se criam novas terminologias, transformando palavras que deviam ser vulgarmente usadas, em palavras vulgares desprovidas de uso, porque é mais fahion dizer Forinhas em detrimento de deslocados. No fundo é o mesmo mas com muito mais estilo.
A juventude de hoje cria uma série de novas palavras, ou melhor, reinventa-as para fazer frente ao poder instituído. O que dizer do principal ninho de Forinhas do mundo, o Bloco de Esquerda. Aliás estou a meter os pés pelas mãos, porque os bloquistas não são Forinhas, são Pseudo-Forinhas, já que os Forinhas ingressam e engrossam, não muito, as fileiras do Partido Comunista Português.
Mas isto não é um artigo sobre política, nem é minha intenção dar-vos uma grande seca. Eu passo a explicar o que tentou a tentar dizer/escrever.
A sociedade é limitada e delimitada pelo conjunto social de pessoas que tem gostos, ideias, convenções e conveniências muito similares, bem como conceitos morais e hermenêuticos que não tem disparidades muito visíveis, comportando no seu tecido a noção de normalidade. Em suma é um bando de carneiros que come erva do mesmo prado, bebe no mesmo lago, caga no mesmo canto e é comido, depois de muito bem temperado, senão é um cheiro que não se aguenta, da mesma forma que os seus correligionários amigos, colegas, companheiros, palhaços, carneiros!
Estas pessoas ditas normais, que a partir de agora passamos a designar por Carneiros, tendem como todo o ser humano a etiquetar as pessoas que estão à sua volta com um título, que faz a clivagem cultural, social, you name it, de modo a poder haver diferenças. Agora é que vem os Forinhas.
O que são então os Forinhas? São todos aqueles deslocados que não se enquadram no tecido social normalmente aceite pela maioria. Ou seja são todos aqueles que não gostam de comer tomates de carneiro e não aguentam o cheiro a burro morto que a carne de carneiro exala antes e depois de morto.
Temos então o redil dos carneiros, vulgo sociedade, e fora do limite da linha que delimita o redil, denominada de linha de Fora, estão... os Forinhas. Percebem agora? Vestem de forma diferente, com roupas herdadas dos punk’s, skinheads, hippies, usam todo e qualquer item que seja minimamente étnico, põem dentro da misturadora, com umas rastas no cabelo com sebo quanto baste, uns piercings e voilá o Forinha. Filiam-se prioritariamente no PCP. Depois dá-lhes uma aragem e mudam para o Bloco, mas já lá vamos. Metem-se nas associações de estudantes, nos movimentos anti-praxe, na Greenpeace, no Movimento de Protecção das Cadelas que Têm Cio Seis Meses Ininterruptamente e Ninguém Lhes Liga Puto, etc. Frequentam bares que tem sempre uma instalação, uma exposição, uma performance, qualquer coisa, mesmo que seja atirar latas de sardinha vazias do quarto andar para a rua, desde que seja arte... têm namorados/as do mesmo anti-grupo social, geralmente nem carneiros de signo querem conhecer. Em resumo, são os idealistas que enchem as ruas de murais contestatários, que fazem manifestações antiglobalização, anti-guerra, anti-estáticas, que mandam email's a avisar que a coca-cola é um veneno, que compram a revista cânhamo, que se recusam a comer no MacDonald’s e todo e qualquer um deles enfiaria uma pinha em brasa no cu do Bush pelas merdas que tem andado a fazer.

-CONTINUA-

terça-feira, 13 de julho de 2004

Raiva

Encontrava-se confuso como nunca se encontrara até ao momento. A sua cabeça volteava em turbilhão, dirigindo-se lentamente em espirais finitas para um ponto com um fundo bem definido. Mancava de um olho enquanto fixava o futuro incerto e conhecido de antemão. Era o ponto final e de partida porque tanto ansiava. Lentamente sentia os frios dedos do destino a fixar-se na sua garganta. Riu-se temerariamente não sentindo ainda os seus efeitos.
Calculou com parcimónia todas as jogadas que ainda lhe restavam. Autobiograficamente olhou para o punhal que se lhe enterrava lentamente nas costas e reconheceu o executante com a precisão milimétrica de quem fazia um desenho técnico. Gargalhou na sua direcção e sentiu-se mais calmo. A veia que se lhe dilatava no crânio acalmou e o sentimento de vingança encheu-lhe todos os sentidos mesuráveis.
Enquanto escrevia toda a raiva se esvaziava e com determinação tomava decisões que lhe iam mudar a vida de qualquer forma. É impressionante como num momento de estagnação a tentativa de espezinhar alguém desperta nela todo que de bom e mau existe e a faz evoluir. A traição funciona como motivação.
Recolheu-se num casulo a aperfeiçoar todas as suas capacidades, habilidades, capacidades, para se tornar na borboleta venenosa que desferiria o golpe final. Rilhou os dentes lentamente e sentiu o marfim a ceder. Estalou os dedos e pensou nas capacidades que teria para executar tão agridoce tarefa.
Tantos anos de assassino profissional não lhe deram, ainda, o treino suficiente para poder encarar desafios pessoais. Tentou escrever, mas as gralhas eram constantes. Os dedos atropelavam-se nas teclas, como se a guerra de letras se tratasse de uma sopa, com as vogais a rir das consoantes.
Abriu a porta da sua vivenda Art Nova, decorada com portentosos azulejos, decorados com cornucópias floridas de amarelo arabizadas de azul vinoso e guiado pelo pensamento de todas as afrontas e atropelos cometidos por aquele que considerava seu amigo, agora inimigo pseudo-declarado deixou-se conduzir ao ambiente da futura felicidade e calma desfigurada pelo destino atroz desenhado a terracota por um dedo desse Judas ainda não queimado. Mas prestes a sê-lo.
Encontrou a porta fechada e chorou, chorou lágrimas ácidas que derreteram o puxador, chutou a porta e entrou de rompante no corredor como um vendaval interior. Procurou o objectivo e com raiva encontrou-o estrangulou-o crispando os dedos depois de ter lido Valquíria estou no cemitério. Adiado! Adiado, mais uma vez adiados o tormento e o prazer.
Freneticamente andou, correu, passeou e entrou no cemitério de Agramonte. Deixou-se envolver pelo silêncio, pelo chilrear dos pardais, e com toda a calma deste mundo congelou a envolvência até à vigésima quinta secção. Estacou ao vislumbre. Lá estava ele semi-encoberto por uma japoneira. Orava com a sua hipocrisia a alguém que lhe era completamente indiferente. O busto revelava uma senhora morta dois anos antes, vestida com uma capa negra de estudante. O negro da capa contrastava com o branco do mármore. O olhar vazio pressentia a tragédia que se seguiria. As flores caídas com a providencial ajuda do Outono pejavam o chão de rosa e o seu olhar tingiu-se de vermelho...
Aproximou-se e disparou. Disparou todas as palavras de repreensão e recriminação que estavam contidas pela raiva contida até ao momento. Vomitou todas as emoções com uma dor de estômago infernal que lhe moeu o íntimo da consciência e do raciocínio. Espalhou os sonhos do traidor pelo chão e nunca mais foi feliz com a vingança.

O Papel

Estava sentado na sua costumeira esplanada, a saborear o café. Eram quatro da tarde e àquela hora os transeuntes eram muitos. Sentava-se ali cerca de meia hora por dia, a bisbilhotar discretamente os afazeres das outras pessoas.
Lembrava-se sempre daquela senhora, que morava numa rua estreitinha, na sua já há muito esquecida freguesia, perdida nos confins da serra Amarela, que parcimoniosamente observava as andanças das outras pessoas, e entre um dedo e outro de prosa, recolhia todos os boatos que se transformavam em notícias e todas as notícias que se transformavam em boatos, tal era a habilidade da senhora para deturpar as coisas. Não se lembrava do seu nome, mas na aldeia chamavam-lhe a Emissora Nacional. Não tinha muito crédito na praça mas havia uma notícia ou outra que lá acabava por passar para bocas mais limpas.
Não era propriamente a afinidade com a conterrânea que o fazia estar ali sentado quase todos os dias. Gostava de observar as pessoas e imaginar para onde iriam, o que faziam ali, ler-lhes na cara as emoções para inventar personagens que pudessem encher páginas escritas de histórias fantásticas.
Pousou a chávena e abriu o livro que estava na cadeira ao lado. “Baudolino” de Umberto Eco. Curiosa personagem esta que mentia compulsivamente e se achava o criador de inúmeros acontecimentos do século XII. Quantos Baudolinos não nos passaram já pela frente e continuam a passar? A Emissora Nacional, lá na sua terra era um.
Deixou os pensamentos para trás já que, entretanto pelo canto do olho, reparou numa criatura atípica no seio daquela mole de pessoas que se comportavam todas da mesma forma. Um sem abrigo, com a perna esquerda amputada pelo joelho e pela vida, aproximou-se e por cima do ombro tentou discernir o que ele estava a ler. O Leitor ignorou a respiração etílica que sobre si caía e continuou a ler, só acordando quando o Amputado lhe perguntou:
- Então o que está a achar desse livro?
- Não é o melhor livro deste autor, mas também não é o pior, gaguejou, espantado com a questão.
Estava à espera de tudo menos daquilo, mas quem diz que os sem abrigo são incultos? Não é uma verdade absoluta, mas a sociedade torna-a quase um dogma, um mundo de aparências é o que é. Foi interrompido novamente.
- Quando não tinha ainda desgraçado a minha vida costumava ler muito, mas agora já não o posso fazer, disse com tristeza. Agora, vou lendo uns jornais que apanho no lixo, ou com muita sorte, vou encontrando uns livros abandonados. É a vida.
- Pois é, mas olhe, não se quer sentar aqui cinco minutos a tomar qualquer coisa que eu venho já? Peça o que quiser que eu falo com o senhor do café.
Entrou informou o senhor do café que servisse o seu convidado, e três lanches mistos, uma fatia de bola e uma cerveja depois, voltava ofegante. Pousou dois livros iguais na mesa e ofereceu um deles ao senhor que se desfez em lágrimas. Ele evitou os agradecimentos, e pacientemente ouviu a história que ele tinha para lhe contar. Cinco minutos depois pelo meio de uma chuva de agradecimentos, pediu desculpa e educadamente continuou a sua jornada para fazer dinheiro, quanto mais não fosse para o almoço do dia seguinte, porque para o jantar já ia bem servido. Levava no bolso alguns pastéis e sandes.
Entretanto na mesa ao lado a cena toda tinha sido seguida com atenção. Uma morena de cabelo castanho liso, por cima das lentes dos óculos de sol, ia tirando as medidas e estudando todo o envolvimento em volta daquela personagem. Brincava com o cigarro que tinha na mão e ia tirando fumaças de fumo azulado de cada vez que tirava uma passa. Pensativa olhou em volta e vendo que não era alvo de atenção, pensou que se lixe e escreveu qualquer coisa num papel.
Um cigarro depois o Benemérito levantou-se e ela ficou com a adrenalina aos saltos. Quando reparou que ele se dirigia à casa de banho, levantou-se e rapidamente colocou a marcar o livro o Papel, não sem antes ter levado com um sorriso de um casal de namorados que entretanto tinha reparado nas suas movimentações.
Setenta e três pessoas que passavam na rua (entre as quais dois polícias em ronda, dois cães pegados por um osso e três betas de argolas vestidas exactamente da mesma forma) depois, lá voltou ele. Mais aliviado, ao que parecia.
Ele aliviado e ela nervosa. Ele abriu o livro e ficou espantado, estranho café onde acontecem coisas tão sui generis, pensou. Ela com o coração a saltar-lhe pela boca, ele com a testa enrugada a olhar em volta. Mas o que é que tem o raio do papel escrito? Eu sou o narrador desta história, acho que tenho o direito de saber! Ou não? Estás a ler um livro interessante, gostei muito, se bem que ás vezes o autor cansa. Sabias que és muito giro? Desculpa o atrevimento mas gostava de te conhecer melhor.
Olhou em volta e tentou ver quem teria sido a autora da façanha. Olhou para o lado e viu um casal de namorados que olhavam para ele com cara de caso sorrindo. Na outra mesa estava uma rapariga morena de cabelos castanhos escuros lisos, de óculos de sol, que tanto quanto lhe parecia estava compenetrada num ponto no infinito. As outras mesas estavam vazias, mas tanto quanto lhe cabia saber até poderia ter sido alguém que passara na rua, até a empregada do café. E se Ela o queria conhecer como é que ele poderia dizer que sim?
Pediu um Jack Daniels, e pediu-lhe conselhos. O sorriso maroto de miúdo que está prestes a fazer asneiras, e que tão bem o caracterizava, iluminou-lhe o rosto. Entrou no café, e dois minutos depois saiu triunfante. Três voos rasantes de pombos (sobre a cabeça dos transeuntes) depois, uma garrafa de água com gás num pires, com um malmequer e um papel com “tira os óculos de sol e podes conhecer-me” escrito, chega à mesa da vizinha. A surpresa estampou-se na cara da jovem e ele teve a certeza.
Ela tirou os óculos, ele levantou-se, sentou-se na mesa dela. O casal de namorados na mesa ao lado, foi ao balcão ao pagou a despesa das três mesas. Um cigano que ia a passar tropeçou, por ir a discutir com a mulher, e partiu os dois dentes de ouro quando bateu no balde do lixo que rolou para o meio da estrada e fez com que um carro batesse num boca de incêndio, enchendo a boca de cena de água, mas nem o Leitor nem a Escritora se mexeram. Já estavam a ter uma de muitas conversas que os iria ligar um ao outro para sempre.

Algo Familiar

Tudo corria muito bem nessa noite. O álcool corria que era uma maravilha. Os seus dedos contavam a décima quinta cerveja que tinha em mãos, desde que saíra do jantar. Aos poucos a embriaguez tomava conta do seu corpo. Este movia-se num frenetismo africano ao som do “pay my dues” da Anastasia. Absorto do que à volta se passava deixava-se levar pela música e embebedava-se com ela. Rapidamente subiu para o banco corrido encostado parede, e começou a chamar as atenções para si. Não tardou muito e todas estavam viradas para ele e para o seu estado alcoolicamente muito bem disposto.
Confusamente ouviu algo familiar. O ar frio da noite toldava-lhe o pensamento, e a cerveja ajudava. Esvaziou-a do copo e encheu-o a custo na fonte junto ao Passeio das Virtudes. Repetiu o gesto de muitas noites de copos, que o tinham tornado habitue nessa fonte na penosa assunção de cerveja até casa. Prosseguiu a jornada, e os primeiros raios de luz amplificaram algo familiar, que era embotado pela falta dos benditos óculos de sol.
Finalmente acabara-se a longa subida e já na plana Rua do Rosário, prosseguiu a desenhar esses e zes pela rua fora, a reprimir-se em monólogo pelo excesso da noite. Algo Familiar tocou-lhe no ombro e perguntou se era sempre assim tão duro com ele próprio.
Acordou com a sensação que lhe tinha passado um rolo compressor por cima. A princípio não reconheceu o quarto onde estava, e nos momentos seguintes também não. Estava perdido num quarto que não era o dele, nem de ninguém que conhecesse, e ainda por cima, a meia luz não fazia a mínima ideia onde estava o bendito interruptor. Tacteou e encontrou-o na mesa de cabeceira, ao maldito interruptor! AHHH, A LUZ, gritou-lhe o cérebro quase a explodir. Algo Familiar se moveu e pareceu-lhe vislumbrar um corpo deitado ao seu lado...
E aí discerniu Algo Familiar, uma mulher bonita de arrepiar todos os pelos das pernas, a dormir com os cabelos negros em desalinho, com a alma perfeitamente enquadrada por uns olhos verde esmeralda, estava a acordar e os olhos brilhavam e sorriam de malandrice dizendo bom dia.
Olhou para si, para debaixo dos lencóis e com um ar nada ensaiado, atrapalhou-se e corou ao descobrir que nada tinha vestido. Rapidamente vieram-lhe à cabeça todas as coisas que podiam ter acontecido com ele como actor principal. Encarou-a e perguntou o que tinha ele feito. Muitas vezes, foi a resposta bem disposta dela, que se ria com atrapalhação dele.
Rompendo com todas as convenções, perguntou se também tinha sido bom para ele. Ela riu-se à gargalhada e que estava convencida que sim. Perguntou o nome à bela desconhecida, que lhe respondeu Algo Familiar. Era o nome dela a partir daquele momento, já que fora a única coisa que ele lhe dissera na noite anterior, que ela era Algo Familiar. Enquanto dizia isto levantou-se e por momentos ele sentiu-se numa galeria de arte, a apreciar peças magníficas. Na parede em frente estava A Passagem do Tempo do Dali, do lado esquerdo uma Primavera do Boticelli, e acabada de se levantar a escultura mais excitante do mundo, talhada de um só bloco como o David, mostrava em todo o seu esplendor a anatomia mais perfeita que já vira numa mulher. Ficou sem palavras com tanto à vontade e seguiu-a até à casa de banho.
Tropeçou em corpos gementes, espalhados aleatoriamente no chão da sala, e lembrou-se de um convite para uma rave. Algo Familiar abraçou-o pelas costas e arrastou-o para a cozinha. Tirou um cigarro e serviu-se de leite gelado do frigorífico tentando restabelecer a lucidez. Ouviu uma voz a dizer-lhe que gostava da sua forma de se alhear na dança da forma sexy como dançava, olhava, beijava e sorria, e viu algo familiar a ler-lhe os pensamentos, absorta nos seus. Beijou-o e deu-lhe o seu número de telefone, para quando quiseres estar comigo. Adoro-te.
Foi a última vez que sentiu Algo Familiar...

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Euforia

Euforia, a palavra certa para caracterizar o momento. Numa cidade onde se respira futebol, não é estranho o sentimento, mesmo neste Estranho que se tornava frio quando em contacto com as multidões. Estudioso das atitudes dos outros, achava que não se devia envolver, e que o seu espírito científico devia prevalecer sobre toda e qualquer forma de emoção.
Naquele momento tornava-se impossível, e sendo arrastado pela turba em movimento assíncrono, que inexoravelmente o conduzia para um destino incerto mas ao mesmo tempo desejado, pensava – que se lixe uma vezes não são vezes.
Gritou, abraçou, chorou, tropeçou e foi calcado, empurrado, esmagado, beliscado, apalpado e sentado num restaurante para o merecido repasto, da noite. Aí a Lentidão tomou conta da situação.
Um empregado abriu uma garrafa de Duas Quintas, deixou-a respirar durante meia hora, para condignamente ser beijada pelo amante dessa noite.

É esta a beleza do vinho, tem que ser tratado como uma mulher, com carinho, recheado de atenções especiais para poder ser condignamente apreciado. Toda uma série de pequenos quês que fazem toda a diferença. É sinónimo de classe saber como escolher um vinho e que tratamento lhe dar, porque a informação pode ser transferida para o trato com o sexo oposto, o único senão é que o vinho pode ser partilhado, o mesmo não deve ser feito com as mulheres.
Pediu pato assado no forno recheado com pinhões e amêndoas, prato lento, desde o tempero ao cozinhar, até à própria carne, tornam o prato lento e extremamente requintado como a maior parte das mulheres. Está visto que este parágrafo vai ser só sobre comida, bebida e... mulheres.
Sobremesa Jack Daniel’s e um Havana, tudo muito lento... e incómodo, como o silêncio e a solidão que estava a sentir.
Salta para a rua e é abordado - deixa-me adivinhar... por uma gaja? por uma rapariga, que sem papas na língua lhe dá a mão ternamente, revelando-lhe todas as loucuras e desejos deste mundo que o rodeia, pensando que conseguiria arrebatá-lo deste marasmo consciencialista-científico que o prendia ao quotidiano com as grilhetas frias, apertadas e lúgubres do auto-conservadorismo – tanta coisa para dizer que o gajo era chato comó caraças.
Chocado puxa de um cigarro e com raiva declama todas as dores que lhe oprimem o peito, fazendo ressurgir toda a impaciência e loucura dos seus tempos de adolescente. Sem medos envolve-a com a sua alma e percorre as ruas do desejo em espirais de êxtase - daqui a pouco pareces o Richard Bach, o do Fernão Capelo Gaivota. Sorrindo, beija-a como beijara o copo de vinho, e arrepia-se com a simplicidade do toque, do sabor, da magia de um simples tocar de dois lábios.
Ri-se e abstrai-se do mundo à volta e pensa... pensa em quê? há que pensar? Que lamechas que me saíste, a moça quer é acção, tudo bem que haja um pouco de romantismo, classe and so on, mas o que é demais é moléstia. CHATO! Não pensa, porque este momento não é para pensar, e´ para sentir, viver e não racionalizar, vive não penses, sente, depois olha para trás e não julgues, assimila. Mas fora isso, pelo menos tocaste-lhe no ponto, pelo menos foi mais que uns beijinhos?