sexta-feira, 27 de agosto de 2004

C.O.R.O. - Conquistas Originais da Retina Ocular

Numa sociedade onde o Imperialismo machista já não é o que era, tendo ido juntar-se à tradição no mesmo ermitério, em grande parte devido ao fantasma da emancipação feminina, resolvi eu, vosso modesto escravo, acrescentar uma pérolas de sabedoria a uma das mais antigas actividades do mundo: o Coro, ou Coiro, como preferirem. Com a esperança que estas parcas linhas promovam o renascer do romantismo, dos jantares à luza das velas, das serenatas, da tentativa de seduzir a mulher mais feia do mundo sob o efeito do álcool, aqui vai.

Em primeiro há que definir este acto. É mais que lógico que não estamos a falar de um conjunto de pessoas que se junta para cantar, nem de uma parte arquitectónica de uma igreja. O Coro é antes de mais sinónimo de sedução. É a tentativa de convencer uma pessoa do sexo oposto ou não, a ter qualquer tipo de relação connosco, seja uma noite de copos, um beijo com todos, umas pequenas explorações tácteis (leia-se marmelada, em vernáculo), ou mesmo deliciar a outra parte, com a nossa vida super emocionante de lambedor de selos nos Correios.

Passemos então ao que interessa, como se faz!?
Vá para casa, tome banho, faça a barba ou a depilação, compre roupa peça emprestada. Por favor não tente exercitar o Coro depois de ter estado a cozinhar Tripas à Moda do Porto. Não coma cebola, nem peixe e muito menos alho. Saia à rua, vire à direita ou à esquerda, e dirija-se ao território de caça mais próximo (discotecas, bares, arraiais, etc.).
Chegado lá instale-se confortavelmente no balcão com um cotovelo apoiado, um cigarro no canto da boca e uma cerveja na mão correspondente ao braço que não estiver apoiado no balcão.
Fixe uma miúda feia. O quê, não quer!? Para chegar às bonitas e boazonas tem que se trabalhar, ou acha que quando entra numa empresa se passa logo a director? Tem que se começar por paquete ou algo do género. Olhe lá. Já está? Olhe para ela como se estivesse cheio de sono, com os olhos semicerrados. Quando ela olhar para si, pisque-lhe o olho esquerdo, já que está do lado do coração (é mais romântico mas elas nunca reparam no pormenor).
Ela não está a olhar? Ainda não reparou em si, não obstante a poça de baba em que o empregado escorregou? Deixe cair o copo. Ela está a olhar (esta resulta sempre), pisque o olho, pisque! Ah! Já reparou em si, olhou outra vez e sorriu-lhe ao reparar na sua subtil piscadela, mostrando uma dentadura perfeita se fecharmos os olhos à falta dos dentes laterais, mas veja o lado positivo, é uma porta para a sua alma. Vá ter com ela e aborde-a de uma forma muito subtil. Escreva num papel as seguintes frases:

- Como te chamas?
- Posso oferecer-te uma bebida?
- O teu apartamento é longe daqui?
- O que diriam os teus pais se te vissem na cama comigo?
- Sabias que os escaravelhos do Nilo fazem bolinhas com merda?

A aparente complexificação das frases não é casual, mas propositada. Note como a sua inteligência e desinibição parece evoluir de frase para frase. Se não levar uma bofetada entre questões continue, se chegar à última sem conseguir o que queria, é o mesmo que dizer “volte à casa de partida sem receber os dois contos da praxe”.
Se lhe aparecer uma sabidolas, finja que é dinamarquês ou kuala-lumpurense, e mostre-lhe uma frese de que cada vez. Se no dia seguinte ela lhe surpreender uma frase em português, alegue que a transferência de fluídos foi tão intensa que aprendeu uma lígua nova por osmose. Este papel pode servir em caso de embaraço, de cábula, quando não se sabe o que dizer a seguir.

Para além destas frases básicas há o pormenor da conversa propriamente dita. Comece por dar um nome falso, de preferência Quim. Nel, Ambrósio, Epanimondas, para ela pensar que o tem na mão; pergunte o nome, o nº de telemóvel (só no fim); diga-lhe que é a primeira vez que faz aquilo; que é virgem (resulta bem no Algarve na época alta); que é gay (é estranho mas resulta); que é engenheiro, porque todas andam ao cheiro do €; que é filho do conde da Bracalândia; e fale na terceira pessoa às betinhas e tias.

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Haxixe II

«Todas as manhãs o eunuco tirava de um certo armário uns vasos de prata que continham uma pasta densa como o mel, mas de cor esverdeada, passava diante de cada um dos prisioneiros e nutria-o daquela substância. Eles saboreavam-na, e começavam a contar a si próprios e aos outros as delícias de que falava a lenda. [...] passavam o dia de olhos abertos, sorrindo felizes. Pela tardinha sentiam-se cansados. Começavam a rir-se, umas vezes baixinho, outras imoderadamente, e depois adormeciam.1
[...] creio que o mel verde faz ver o que alguém deseja bem do fundo do coração.»2


Agora é a vez do meu tão adorado Umberto Eco referir o haxixe. Este é um pequeno parágrafo que escolhi deste livro, mas as referências ao mel verde multiplicam-se. De facto, Baudolino, mentiroso compulsivo, com a ajuda dos amigos, todos drogados com o misterioso mel verde, inventam maravilhosos mundos, como só o haxixe consegue fazer, à colherada.

ECO, Umberto, Baudolino, Difel, Algés, 2002, p. 87.
Idem, p. 88.

Haxixe

«Ele levantou a tampa e viu uma pasta esverdeada semelhante a compota de angélica, mas que lhe era totalmente desconhecida.1
[...] Aquela conserva verde não é nada menos do que a ambrósia que a mítica Hebe servia à mesa de Júpiter. [...] prove isto e os limites da possibilidade desaparecerão. Os campos do espaço infinito abrem-se para si, caminha com o coração liberto, em direcção aos reinos ilimitados de devaneios livres. [...] Sem se curvar aos pés de Satanás, será o rei e o dono de todos os reinos da terra.2
[...] É haxixe, o mais puro e não adulterado haxixe de Alexandria, o haxixe de Abou-Gor, o célebre produtor, o único homem, o homem para quem deveria ser construído um palácio, com a inscrição destas palavras: um mundo agradecido ao negociante da felicidade.»3

É assim que Alexandre Dumas, um dos românticos do Século XIX francês, descreve o Haxixe. Não é do desconhecimento geral, que a escrita do século XIX está recheado de referências a estupefacientes, e que o ópio e o absinto puro, que é branco e espesso, e não verde como o que vemos hoje a ser servido em qualquer bar, faziam as delícias de qualquer boémio desta época. Desconhecido para mim era que o haxixe fizesse parte dos hábitos da sociedade da altura. Foi pois, a reler “O Conde de Monte Cristo” que me deparei com este facto e deixo-o ao vosso cuidado, para ficarmos com a certeza que esta droga que é fumada em grandes quantidades nos festivais de Verão, tem uma história certificada pela literatura.

1 DUMAS, Alexandre, O Conde de Monte Cristo, Vol. I, Colecção Geração Público, Público, Porto,2004, p. 385.
2 Idem, p. 386.
3 Idem, p. 387.

terça-feira, 24 de agosto de 2004

Traição do Destino IV

Perdido nestas contemplações, deparou-se com uma cena deveras curiosa. Um casal de namorados insultava-se em altos berros no meio da rua, chamando para si a atenção dos transeuntes. Repentinamente o rapaz irrompe pelo corredor dos autocarros a gritar “sempre foste uma grande puta”, e é pronta e violentamente abalroado pelo 78 que vinha a descer a alta velocidade em direcção ao Campo 24 de Agosto. Parou uns metros à frente, completamente inerte, como se não tivesse sentido o que acabara de acontecer. Os curiosos aproximaram-se para ver o espectáculo, neste caso a tragédia, notando da vidraça do táxi, a falta dos corifeus para lamentar o sucedido. Lamentando dele para ele o sucedido, reparou que afinal os havia. Uns consolavam a menina, que entretanto se prostrara para arrancar o último suspiro ao desgraçado, outros perguntavam “como se passou esta desgraça”, e concluiu que “afinal os gregos eram uns gajos do caraças, criaram estilos teatrais que não precisam ser encenados para funcionar”.
Reparou que a menina dizia as deixas da praxe, e por momentos frio e distante achou aquilo ridículo, e perante o pasmo de todos dirigiu-se ao corpo e deu-lhe um chuto para se certificar que aquela inércia não era fingida. Realmente depois daquele impacto o homem só podia estar vivo a beber cervejas na esplanada cheia de miúdas a comentar o acidente e a mandar as primeiras piadas a frio.
Recompondo a compostura, insistiu mentalmente com o trânsito para que se demorasse e não o fizesse chegar ao ninho da viúva negra, já que de certeza que a mulher ia descobrir a trama e o ia comer vivo. Imerso nestas confrontações internas, esbofeteou-se acordando do estupor. Tinha que enfrentar o touro pelos cornos. Ir rapidamente para casa e resolver a questão de uma vez por todas. Indicou ao taxista um caminho alternativo. Pela primeira vez aquele caminho que sempre lhe facilitara a vida, tornou-a mais difícil. Doeu-lhe o coração à medida que se aproximava do destino.
O taxista falava da esposa de um futebolista e das farras que este fazia em casa. Desatento a estas futilidades continuou a remoer a sua traição e o destino daí decorrente. A quebra do Continuum provocada pela sua atitude, ia reflectir-se na sua vida, e na de todos de forma irremediável. Chegou a casa. O arrumador pediu-lhe a “moedinha para a cerveja”, e sendo ignorado, respondeu um cabrão de ricochete, que numa outra altura teria um potente gancho de esquerda encravado no nariz. Mas o nosso herói não estava para isso. Preocupava-o mais a fera enjaulada no seu lar cor de rosa.
Meteu a chave na porta e reparou que não estava trancada, Ela estava em casa. Sentiu o odor familiar de truta assada com bacon a entrar-lhe pelas narinas, e pensou que não conseguiria saborear o repasto. Um odor adocicado e ferrugento invadiu-lhe os sentidos e a estranheza fê-lo correr para a cozinha. Entrou de rompante, escorregou num líquido vermelho e caiu de bruços sobre a mulher. Sentiu a falta dos corifeus, das deixas da praxe, dela e de tudo. Não sentiu falta da amante. Olhou em volta à procura do 78, e viu-o claramente. Um rolo da massa ensanguentado, que provavelmente iria ser usado nele se por acaso ela sonhasse...! Mas não sonhava... nunca mais sonharia.
As lágrimas caíram-lhe e o amor por ela voltou... tarde de mais!

Traição do Destino III

Com este pensamento fixo devaneou a sua mente através do que ele lhe poderia dizer acerca de tão obtuso caso. Conhecia histórias do seu grande amor por uma colega de curso, dos seus percursos boémios da Praia da Rocha, com festanças orgíacas de não mais acabar, convenientemente regadas como manda a lei, por bons copos de Cabeça de Burro, e Duas Quintas. Ouviu muitas vezes com interesse a sordidez de casos de professores de faculdade, perguntando-se, se alguma vez diversificaria os seus horizontes de uma forma tão pérfida, e simultaneamente aliciante, porque convenhamos, os homens sentem um je ne sai quois por este tipo de coisas. Muitas lágrimas mancharam a sua caríssima camisa Pierre Cardin, ao ouvir as mágoas inconfessadas aos comuns mortais deste brilhante homem, que tudo tinha, mas que estava amputado do amor por sua própria culpa.
Mais uma prova da inexistência de um Inferno telúrico, já que tudo o que fazemos de mal, tanto aos outros como a nós mesmos, sente-se na pele, mais dia menos dia, e todos os dias da nossa vida, quando confrontados com o erro cometido. Era o caso do Professor, que devido a uma infidelidade do passado, numa altura em que a cabeça tinha o centro de gravidade deslocado, perdera a mulher da vida dele, e até hoje chorava baba e ranho por isso. Um Inferno, digo eu!

Traição do Destino II

Chegou ao Porto depois de muitas voltas à cabeça estômago e outros órgãos menos importantes. Cuidadosamente, tentara eliminar todos os vestígios da traição, e reviu vezes sem conta todos os passos que tinha dado. Calmamente, tanto quanto lhe era possível, e com a minúcia de leitor de livros policiais, verificou, ao espelho, se não tinha marcas, lavou a cara, cheirou a roupa. Lá estava o cheiro dela quase imperceptível, mas passava. Rasgou os bilhetes, e deitou-os ao lixo. Reviu mais uma vez o que tinha feito e sentiu-se tão preparado como um condenado Guilhotina.
Pensou em todas as perguntas, situações imprevistas com que podia ser confrontado e inventou desculpas para elas. Pensou em todo o conhecimento e experiência própria, ou emprestada, que a sua esposa teria.
Chamou um táxi. Entrou e mandou-o parar no próximo quiosque aberto. Quando parou, saiu com um - Espere! - e foi socorrer-se de tabaco. Não havia dinheiro no Multibanco da estação, por isso não fumava à hora e meia.
Voltou a entrar no táxi e pensou na melhor pessoa para esvaziar aquela confusão que lhe enchia o espírito. Sabia que um assunto destes devia ficar entre duas pessoas, mas isto queimava. Queimava-o por dentro ao ponto de necessitar urgentemente de alguém mais maduro, para como um farol o guiar, para porto seguro. Tirou duas passas no cigarro e enquanto observava a sua vida a desvanecer-se no fumo, encontrou o confidente certo.
- Estou sim?... Doutor? Sim sou eu! Está tudo bem consigo? Estava-lhe a telefonar para o convidar para comer uma francesinha! Amanhã à noite? Tudo bem, eu telefono-lhe! Adeus.
O Professor! Um senhor. Tinha sido seu professor em 1988, um ano antes de se casar. Conheceram-se nas aulas, jantaram várias vezes juntos, em convívios de professores e alunos, e mostrou-se um bom amigo desde o primeiro momento, não obstante o fosso de idades que os separava. Daí até o escolher para padrinho de curso, foi um tirinho. Também conhecia a sua esposa, que fora sua aluna, mas nunca houve muita convivência entre eles. Entretanto, muito lentamente, tinham perdido o contacto, cumprimentando-se à pressa quando se cruzavam, não sem um sorriso caloroso e a promessa de um jantar ementado a francesinha e cerveja.

Traição do Destino

Pensava num plano idóneo que não fizesse a mulher desconfiar do que se tinha passado nessas escassas horas, em que o seu espírito tinha estado preso àquela carne escaldante que se agarrava a ele em tentação sobre-humana. Conseguira evitar danos de maior, não por responsabilidade, mas por pânico e planos mal traçados, mas necessários. Foi aí que o pânico lhe voltou a toldar a razão. O telefone tocou. Mentiu atabalhoadamente à esposa, de acordo com o plano que tinha traçado, enquanto revia os horários dos comboios cuidadosamente, fazendo uma conexão válida entre linhas para encobrir a sua escapadela convincentemente.
Como um relâmpago tinha visitado aquela que agora, também na carne, era a sua amante. Estranho era que o choque e o bloqueio provocados pelo confronto, não lhe facilitaram a clareza de ideias e a frieza que lhe eram características.
Estava destroçado! Rezou para que o táxi se atrasasse, não chegasse a tempo, que houvesse filas intermináveis, enfim tudo que adiasse a sua chegada a casa. Também destroçado e desfeito, porque a vida que levara até ali era uma grande mentira. Uma capa que se detinha sobre ele e não lhe permitia respirar. A usual veia alegre e divertida estava soterrada por toneladas de convenções e aparências, que no entanto o tinham mantido iludido durante tanto tempo. Esta capa telúrica fora finalmente esburacada, pela vontade de correr atrás daquilo que lhe moía as entranhas lenta e dolorosamente.
A azia continuava a atacá-lo impiedosamente, o sentido de culpa engalfinhava-lhe as ideias e a vontade de ter cedido ao seu desejo e ao da amante fustigava-o por todos os lados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2004

TLP VII

Olho agora para o casalinho. O Jack deixou-me assentar ideias. Rio-me com a cena. Ela levanta-se e vem na direcção da mesa dele. Ele fica branco, confundindo-se com a tela do projector que está por trás dele. Ela diz-lhe qualquer coisa, e ele, vendo uma rosa vermelha na mão dela, percebe que há uma terceira pessoa. O espanto volta a instalar-se, agora na face dela, olham para mim e eu, muito naturalmente, sorrio e pisco-lhes o olho. Sentam-se e começam a conversar com um sorriso nos lábios. Parecem parvinhos nervosos, mas que é que se há-de fazer? Três minutos depois, o barman, que me deu as rosas e me advertiu que aquilo não era uma florista, põe-me uma garrafa de Jack Daniel’s à frente com os cumprimentos do casalinho.
Sou mesmo podre, o que eu não faço por uma garrafa de bourbon.

TLP VI

- Quem é que o gajo pensa que é? Deve achar que é a merda do Caravaggio! Olha-me este agora a mandar rosas vermelhas. Daqui a pouco vem para aqui com uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe! Cá para mim é daqueles paneleiros que tem a mulher em casa, e anda para aqui no engate. Tenho a certeza que tem aliança.
- Já viste bem a idade dele? Tem para aí vinte e quatro anos... e coitado do moço, quem te diz que foi ele?
- Tenho a certeza que se não estiver anilhado, é porque tirou a aliança. Vocês vão ver a marca na pele. Deve ser burro que chegue, para se esquecer que o sol deixa marca. Não duvido.
- E como é que sabes isso? Andas muito bem informado, se calhar já fizeste o mesmo! Olha que isso ligado com aquela história do Brasil...
- Sabes que mais? Vou mijar!
Olho para a Sandra e agora é ela que está hipnotizada. Com as parvoíces do Rui, nem percebi que ela nem se dignou a abrir a boca. Acho que lhe bateu. Toco-lhe num braço e ela não tem reacção.
CONTINUA

TLP V

Calmamente e sem muito estrilho , volto-me para ver se realmente estou a ser observado. Sinto o olhar penetrante a despir-me mais uma vez. Tento sorrir mas fico gelado. Petrifico-me e sinto-me a ser banhado por nitrogénio líquido. Acho que se alguém me tocar, me vou partir em mil bocadinhos, como aquele do Exterminador Implacável II. Devia ter vergonha de sequer ter uma referência cultural destas na cabeça. Como diz um amigo meu, “o saber ocupa espaço”, e eu tenho tanta merda a boiar em forma de informação, que a minha cabeça já deve ser a porra da Cloaca Massima de Roma. Assim, sim, já gosto mais. Isto é uma referência cultural.
O empregado que me tem conspurcado o cartão com rabiscos, põe-me à frente uma cerveja e uma rosa vermelha. Diz-me em surdina que foi uma cliente que ofereceu. Fico parvo para a minha vida! O quê agora os papéis invertem-se? Olho para a mesa da jovem com a secreta esperança que tenha sido ela e não uma gorda qualquer, ou pior, a Tia da Mala. Raios! não consigo vê-la!
CONTINUA

TLP IV

Bem me parecia que havia marosca... Aquela morenaça que está lá ao fundo, está a olhar apara o meu amigo aqui em frente. Que se passa? Será que já se conhecem? Ele ainda não topou, mas quase de certeza que é isso. Olha, olha, já topou... Jovem! Hello! Um sorriso para a menina por favor. Fica-te bem. Não? Nada de sorrisos? É sempre a mesma coisa. Vê-se que a moça está interessada, e este camelo, como qualquer homem que se preze, consegue topar quando qualquer badalhoca está interessada, mas quando aparece uma com pinta, é claro que não. Até podia ser um comboio que ele não via na mesma. Chamo-lhe estúpido mentalmente e burra a ela. Deve ser daquelas que tem a mania que as mulheres é que devem ser abordadas pelos homens. Até acho que há um nome para isso... Românticas! Que raios, para que caralho é que as mulheres se emanciparam, alguém me explica? Se gostam de romantismo, os homens também! Esta monólogo está-me a dar cabo da cabeça.
- Dê-me mais um Jack Daniel’s, por favor.
CONTINUA

terça-feira, 3 de agosto de 2004

TLP III








- Não concordo. O Caravaggio era completamente doido. Um tipo que passava a vida enfiado nas tabernas com prostitutas e bêbados e só pintava quando precisava de dinheiro... acho que até chegou a estar preso...
- Mas dentro dessa loucura que até acho saudável, não podes deixar de concordar comigo, que o homem era genial. Já prestaste atenção às composições dele?
- Olha, e não é o que continuámos a fazer? Não continuámos nós metidos em antros de putas e bêbados? Como podemos recriminar um Caravaggio do século XVI que frequentava sítios desses, quando nós não fazemos melhor? Olha para aquela tia que ali está. Não achas que tem o seu quê de puta? Tenho a certeza absoluta que é o marido que lhe paga as contas todas, e que a senhora, a única coisa que faz , é ir às compras. É entrar em qualquer loja da Foz que vês uma igual a experimentar as roupinhas, e o maridinho, que a correr bem é só unicórnio, a passar o cheque para ela não lhe foder muito a cabeça. Assim ele tem a senhora em casa, amordaçada com artigos de luxo, e vai de férias para o Brasil, com amigos do mesmo calibre, para ir onde? Às putas!! Não somos nós uma cambada de bêbados saudáveis? Sistematicamente vamos a um bar e bebemos até nos acabar o dinheiro ou estarmos num estado em que o melhor é beber água. No entanto não produzimos o que o Caravaggio produziu, tenha sido preso ou não. Para além disso não podemos julgar à luz da nossa mentalidade uma sociedade de há 400 anos atrás. Os hábitos eram diferentes, o sistema era diferente e ele tinha a puta da mania que era diferente!
- Estamos muito críticos hoje...
- Lá está... sabem como é, tirem-me as pilhas.
- Mas porque é que passas a vida a falar mal das pessoas?
- O grande problema é que eu não faço isso. Achas que o que acabei de fazer é dizer mal das pessoas? Com um pouco de sorte até as estou a elogiar. Não sou o senhor da verdade mas também não sou burro nenhum. Pelo que tenho visto, setenta por cento das pessoas que estão neste bar têm qualquer coisa que se lhe diga. Olha, por falar nisso, o que é que este quer?
- Quem?
Quem faz esta pergunta é uma amiga minha, que veio jantar a minha casa com o meu namorado. É bonita, tem uns olhos lindíssimos e é muito charmosa. Tem um sorriso que é uma delícia, sendo muito expressiva devido à forma como usa as mãos para falar. O “Este” a quem o meu namorado se está a referir, é um rapaz moreno de grandes olhos castanhos que está especado a olhar para a Sandra. Coitado é mais um que caiu no feitiço dos seus olhos profundos. Aposto que o Rui se vai passar se ele continua a olhar daquela forma. Não é que tenha mal o moço estar a olhar, mas parece que está hipnotizado.
- Ainda bem que o gajo se foi, senão...
- É sempre a mesma coisa, é só garganta. O que é que lhe ias fazer?
- Perguntar se nunca tinha visto! Pelo amor de Deus, é sempre a mesma coisa quando saímos contigo. De vez em quando lá vem um parvinho que fica a olhar como se fosses a última mulher do mundo.
- Mas olha... este até é giro... e deixa ver... lá vai ele. Até tem um rabinho bem feito.
- Rabinho... nunca percebi porque raio é que vocês mulheres, dizem rabinho. Não percebo porque não dizem cú. Pronto, dizem tem um cú bem feito, ou não é assim que se chama ao fundo das costas? E quanto ao gajo, tenho a certeza que é mais um daqueles bêbados de que estávamos a falar. Vão ver que daqui a pouco anda por aí aos caídos. E não vai ser com água na mão de certeza, porque tem aspecto de a usar só para uso exterior.Deixo o Rui a falar com a Sandra e reparo que ela também não está a ouvir. Está a fingir que o ouve mas tem a cabeça noutro lugar.
CONTINUA


sexta-feira, 30 de julho de 2004

TLP II


Entrei encostei-me ao balcão. Um rapaz moreno está parado junto à casa de banho a fixar  qualquer coisa, que do angulo onde me encontro, não me permite perceber o que é. Espera aí! É aquele que há bocado estava a tentar irritar aquela tia da Foz, que me deu um encontrão com aquela carteira horrorosa, cujo nome não consigo pronunciar. Entro na casa de banho. Deixá-lo ir.
Começo a ouvir a conversa das duas tipas que estão ao meu lado. Se as julgasse pela aparência, nem sequer me dava ao trabalho de ouvir. A mistura de cores que comportam nos seus pequeninos corpos faria o arco-íris corar de vergonha. Com um ar muito pseudo-intelectualóide vão comentando a música. Até sabem umas coisinhas...O rapaz sai da casa de banho, passa disparado e senta-se na mesa vazia até agora, cheia com um livro, um maço de tabaco, um Zippo prateado e o indispensável telemóvel. Pede uma cerveja com sotaque do Norte. Tem pinta. Veste bem, com um estilo original e percebe-se que sabe que está bem, embora só. Espera. Alguém o está a observar, para além de mim, até é capaz de ter piada...
CONTINUA



TLP

 
São dez da noite e ela não promete nada de especial. Encontro-me circunspecto a observar toda a gente que entra e sai. Vou na segunda cerveja, e as caras que me rodeiam fazem-me desejar que se resumam a borrões de tinta azul marinho, espalhados pelo chão e pelo balcão.
A música versa qualquer coisa como “yeah, yeah”. Muse outra vez. Podiam por qualquer coisa menos depressiva. Olho para o DJ e faço-lhe sinal para mudar a música, ao mesmo tempo que faço o esgar de tudo_menos_Marco_Paulo. Ele ri-se e diz para esperar.
Duas músicas depois, entra uma senhora com uma mala Louis Vuitton, e a forma afectada como me olha, dá-me vontade de lhe vomitar para dentro da carteira, todo o nojo que sinto por pessoas afectadas e snobs. Pego no telemóvel e finjo que ligo para alguém, crio uma conversa imaginária e rio-me à gargalhada, só para incomodar a senhora. Consigo-o e rio com um gosto desmesurado e cruel. Pergunto-me porque raio é que as pessoas não podem ser autênticas sem ser julgadas pelo olhar afiado e acutilante deste tipo de gente. Que se fodam todas! Provavelmente está a pensar que estou bêbado. Que vá dar uma volta ao bilhar grande que eu não estou para me preocupar com a opinião das outras pessoas. Nunca me incomodei e não é hoje que vou começar. Para além disso com um cú daquele tamanho não deve cagar na sanita, mas sim na banheira. O meu espírito crítico parece um fórmula 1.
Vou à casa de banho e reparo numa jovem interessante, sentada numa mesa com um casal. A mesa é daquelas que se usa para  o jogo do copo, mas a jovem tem todo o aspecto que não de bruxa. Está a falar com as mãos e sorri ao mesmo tempo que o vai fazendo. Há qualquer coisa que me fascina... Olha primeiro de relance, e notando que eu tinha ficado estacado a observá-la,  devolve-me um olhar profundo que me deixa despido. O meu coração acelera como uma bicicleta sem travões numa descida íngreme. Deixo o estupor para trás e vou descarregar uma cerveja. Um cartaz cita Shakespeare “My greatest love is the result of my only hate.”, Romeu e Julieta. Há uma linha muito ténue entre o amor e o ódio, podemos rapidamente passar rapidamente do primeiro para o segundo, e raramente do ódio para o amor. Para além disso, o que amámos não deixa de ser aquilo de que mais temos medo.
Saio e reparo que ela continua a ter um vislumbre de interesse. Pudera, se eu visse alguém estupidificado a olhar para mim, também ficaria interessado. Quem visse a minha cara naquele momento, provavelmente acharia que eu tinha sofrido uma comoção cerebral. Não é que eu seja feio, mas momentos antes a minha cara parecia um lago num dia de vento, à espera da pedrada para quebrar a estaticidade.
Voltei para a minha mesa e pedi outra cerveja. Não é assim que se perde barriga mas... paciência. Percebi que estava a ser observado. Era aquela sensação, que mesmo quando estamos de costas, parece que nos estão a fazer pressão na parte anterior do pescoço.Virei-me para ver quem era...
CONTINUA

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Saldos

Porque raio é que quando começam os saldos, eu estou sempre sem dinheiro? Tenho a mais absoluta das certezas que uma mente mesquinha, diabólica e maquiavélica, de certeza que é uma mulher, está todos os dias da minha vida a inspeccionar a minha conta bancária, e quando vê que estou sem dinheiro, telefona para as minhas lojas preferidas, aos berros e engasgada com uma gargalhada demoníaca, a dizer ponham as placas, façam descontos o gajo já não tem dinheiro, esperem até ver a cara dele quando passar aí na loja. Ah! Ah! Ah! Ah! (deve gargalhar-se com sotaque nosferatu).

Sou um Vampiro

Sou um vampiro. Anseio pelo sangue das pessoas. Invento mil e um estratagemas retorcidos para lhes roubar a essência da vida.
Dou por mim a vaguear na noite, ouço e sinto as pessoas a falar, farejo-as e observo com atenção todo e qualquer pormenor importante para a minha subsistência.
Saio do autocarro e sigo uma loiraça de 21 anos, que vinha a contar que ia fazer um escândalo com o gajo, quando chegasse à discoteca. Andou uns metros, olhou por cima do ombro, e senti a marosca descoberta. Furtivamente evaporei-me num salto felino, para trás de uma árvore, e sai logo a seguir a fechar a braguilha. Não fosse ela desconfiar das minhas intenções. Parece que não. Seguiu caminho. Segui-a e entrou no Tomate. Entrei também disfarçando um ar de habitué de sexta-feira à noite, à cata de uma mulher para levar para casa e aquecer-me os pés e outras coisas também embora com o síndroma de abstinência que me estava a roer, só a ideia de aquecer fosse o que fosse, me enojava. E com o que conhecia daquilo, jurara a mim próprio não fazer mais cenas tristes num local daqueles. Pensei nos engates de cotas que já se estavam a efectuar. Com nojo, pensei, que se todos fossem vampiros como eu, tudo seria melhor, e escusavam ter acções recriminadas por eles próprios. A composição da sociedade era a coisa mais estúpida e hipócrita que já senti a pesar sobre mim.
Pedi um Jack Daniels, e beberriquei, enquanto ia seguindo com os olhos, a loira deliciosa, que com um ar decidido, francamente duro, e sexy, procurava algo com o olhar, brilhante, semicerrado.
Não tardou e levou um apalpão de um quarentão de cabelo grisalho e ar de engatatão da feira da Vandoma, que se deslocou rapidamente ao Pedro Hispano, depois de ter chocado de frente com um copo de bourbon. Pedi outro Jack, e comecei a tratá-lo por você. Reparei que a loiraboacumóraioquehá-devirumdiadestesparameiluminar, continuava à procura da sua presa dessa noite. Amassada vezes sem conta até conseguir vislumbrar pelo canto do olho, o seu objectivo, sacou da sua side arm e cilindrou-o com uma bofetada que abafou a música. Ouvi-a claramente dizer que ele não tinha vergonha, que era um cafageste. Brasileirismo desnecessário. Acho que pulha estava mais adequado, ou até mesmo cabrão como que insinuasse que ele tinha um par extremamente retorcido de chifres, e que podia, porventura, pôr os boxers a secar num estendal providencialmente montado entre hastes.
Que não tinha o direito de lhe fazer aquilo, logo agora que ela era feliz. Que lhe roubara a esperança no amor. Como é que ela ia poder viver dali para a frente... saiu desesperada a chorar, e o vampiro do meu ego acordou.
Segui-a pela última vez e paguei atentamente a aglomerar todas as reacções da rapariga. Saí atrás dela e abordei-a com uma oferta de boleia. Que ela não estava nada bem, que se quisesse podia desabafar comigo. Muitos anos de experiência convenceram a rapariga a aceitar a simpatia.
Contou-me que namorava com a rapariga que estava com o seu melhor amigo, na marmelada na discoteca. Não fora ela que a traíra, mas sim ele que com a experiência de beto estúpido, achara aquilo um desafio e intrometera-se na sua relação. Agora dizia a plenos pulmões que conseguira comer uma fufa, e mantinha-a ao seu lado. Ganhara uma grade de cerveja e a admiração dos seus colegas de trunfa estúpida a cair sobre os olhos, bíceps horrorosamente deformados pelo culturismo, encaixilhados em pólos da Sacoor Brothers.
Deixe estar que são todos uns clones uns dos outros. E não se preocupe, há-de arranjar melhor. Pedi ao taxista que me levasse ao meu palacete na Foz, e levei-a para a varanda, que ela não estava em condições para ir já para casa. Sentei-me no meu cadeirão preferido, e preparei com cuidado o fim da partida.
No fundo não podia negar a minha natureza. Era um vampiro. Muito especial. Sugava todos os pormenores das pessoas. Era atraído por todos os pormenores sórdidos e interessantes da vida de cada ser humano, e convenhamos, os sórdidos são os mais interessantes. Ao longo dos anos desenvolvi um sexto sentido, que estava latente em mim, que me permitia julgar as pessoas e perceber onde estavam as histórias mais sui generis. A partir daí tornou-se um vício. Todas as noites tinha que sair de casa para curar a ressaca. Procurava uma pessoa, que escolhia criteriosamente, e deliciava-me a dissecar a história mais impressionante da vida dela. Sugava aquilo, com a sofreguidão de um naufrago morto de sede, rodeado de água salgada que não lhe serve de nada. Dia após dia, história após história ia sugando aquilo como se sangue fosse.
Muitas vidas vivem dentro de mim. Cada história que se interliga com as pré-existentes, e formam uma imbrincada teia de sentimentos, dores e felicidades...
Mas este caso... é diferente. Um desafio!
Falei-lhe ao ouvido. Disse-lhe que era uma mulher muito atraente. Fui buscar um Jack, deixando de parte as formalidades e voltando a tratá-lo por tu. Voltei a falar-lhe ao ouvido. Segredei-lhe qualquer coisa imperceptível até para mim, de tão baixo que foi dito. No entanto, ela percebeu-me perfeitamente.
No dia seguinte, juntei-me com os meus amigos, que me deram os parabéns na forma de uma grade de cerveja. Com as suas trunfas a cair sobre os olhos, perguntaram-me os pormenores...

A melhor amiga do Homem

Beber cerveja é uma arte. É duro mas é verdade. Não nos podemos abstrair de que o simples gesto de lamber a espuma e dar o primeiro beijo num fino acabadinho de tirar, é um momento mágico, melhor que o primeiro beijo que damos a uma mulher. Bem, a tua vida sexual deve estar a correr às mil maravilhas... A bem da verdade a coisa mais aproximada que tive com sexo nos últimos tempos, foi a injecção de penicilina que apanhei na semana passada.
Mas voltando à cerveja, há que pensar que as cervejas não são todas iguais e que servem para fins completamente diferentes. Por exemplo, a Guiness tem tantos nutrientes que constitui um pequeno almoço completo, e tão espessa que devia ser comida e não bebida. A Carlsberg, provavelmente a melhor cerveja do mundo, é uma cerveja para ser bebida à noite, sem comida. O seu sabor tem que ser simples, sem acompanhamentos, para não estragar a sua degustação. A Super Bock, a acompanhar francesinhas, a meio da tarde, de manhã, em qualquer momento é a melhor companhia do homem e uma alta promotora da mochila (leia-se barriga).

Campo Minado

Quase todas as pessoas que conheço usam perfume. Até aqui tudo bem, mas o que não consigo entender é porque raio as mulheres o usam em pontos estratégicos. De certeza absoluta que, quando estão a pôr a essência, estão com um esgar de sadismo a pensar no efeito que aquilo vai ter no sexo oposto.
Acho que todos os homens já passaram pela situação de estar com uma mulher e de repente, ter a urgente vontade de lavar a boca com álcool etílico. Pois é, acho que elas fazem de propósito quando põem o perfume no pescoço, ou entre os seios, é um repelente de certeza, vai um tipo todo lampeiro, e qual não é a surpresa, BLAAARGH, é a onomatopeia certa para exprimir o sentimento. É das piores rasteiras, traições, merdas que se pode fazer a um homem, tirar-lhe toda a pujança sexual com uma gota de perfume. Já as estou a ver a rir sarcasticamente com o campo minado que criaram.
Não é justo!

quarta-feira, 21 de julho de 2004

Vilar de Mouros II

 Mas afinal que é que Vilar de Mouros tem de bom para além de Cerveja, muita; poeirada, de todos os tipos possíveis e imaginários; pessoas sem tomar banho, parece que fazem questão; tabaco, mais tabaco e ainda mais tabaco; e música, para além dos mosquitos, cachorros quentes e pessoas desmaiadas?

Realmente, este foi provavelmente o Vilar de Mouros mais memorável, e se não foi vai ser. Primeiro o Peter Gabriel está quase a bater as botas; o Robert Smith já nem usa maquilhagem para dar aquele ar de Góticomaismortoquevivo, aliás está morto e ainda ninguém lhe telefonou a avisar; e quanto ao Bob Dylan... acho que sou uma das muitas pessoas que está convencida que ele nem esteve em palco, porque muito sinceramente não o vi, e ele fez questão de apagar os monitores laterais para preservar a sua mitificada imagem. Por isso vou dizer, daqui a alguns anos, que estive nos últimos concertos destas três personagens.Quanto aos outros, bem... Enquanto que todos os participantes padeciam de um problema de mosquitos, a Macy Gray debatia-se com um grave problema de ratos, porque com aquela juba... sinceramente nem me lembro da música, de tal maneira estava compenetrado no cabelo da senhora. Os Chemical Brothers fizeram jus ao nome, porque só quem mete muitos químicos para dentro é que consegue fazer aquele tipo de música. P J Harvey, estava muito ocupado a tentar levantar dinheiro e foi com grande pena que não vi. E depois temos mais qualquer coisinha que para mim foi o verdadeiro FESTIVAL: Toranja, muito bom, e os Clã arrasaram, transformaram o recinto numa discoteca!!!! Brilhante!

terça-feira, 20 de julho de 2004

Vilar de Mouros


Quem não foi devia ir. Quem já foi devia voltar. Quem esteve lá este fim de semana devia ter juízo e estar a dormir! Não há explicação possível para tal estado de euforia que contagia pessoas de todos os credos, idades e mentalidade anarco-social. A cerveja e os vários tipos de drogas que por lá se vêem não são desculpa suficiente para todo e qualquer tipo de cenários que se constróem de um momento para o outro.
Primeira regra de Vilar de Mouros, não há coincidências. Todas as pessoas que se encontram lá não o fazem ao acaso, há uma arquitectura sobrenatural que faz com que aquilo que procurámos não venha ter connosco, e as companhias indesejadas, vulgo cromos, colam-se a nós como cola, parafraseando um amigo "se fossem moluscos eram lapas". Não falo ao acaso, já que um cromo, perseguiu-nos desde a primeira noite aparecendo nos locais mais insuspeitos, acreditando piamente que eu era holandês, mea culpa, e sempre que eu mencionava esta personagem, lá aparecia ele do nada. Foi visto pela última vez em direcção à festa de Trance agarrado a um camião do lixo. Espero que tenha sido despejado bem longe. Perguntaram-me a certa altura se eu não me perdia dos meus amigos, ao que respondi que eles me encontravam sempre, quando acabei a frase lá vinham eles na minha direcção, o que provocou a gargalhada geral, já que isto estava sempre a acontecer, nos momentos mais estranhos.
Pior ainda foi quando descobrimos que éramos mais conhecidos que o termómetro, eu sei que não é assim que se diz, mas quando tentei dizer a frase correcta, não me conseguia sair a palavra tremoço. Coisas da vida.
Aconteceu este episódio numa das muitas barracas de SuperBock do recinto quando uma menina perguntou ao Pedro, que lá foi sozinho, se "os outros dois já tinham desistido". Foi uma constatação de que devíamos ir lá imensas vezes, mas não nos dávamos conta, mas não era difícil de reparar no Capuchinho Vermelho e nos dois Moicanos, um ruivo e um moreno. Segunda regra de Vilar de Mouros: não há mosquitos em lado nenhum! Há Vampiros, e aos milhares! Quando se chega à vila começa-se a constatar que se é atacado a cada dois segundos por uma espécie baptizada prontamente de Mosquito Cão, porque morde e não larga. Quem inventou a anedota "Qual é a diferença entre uma loira e um mosquito", não esteve em Vilar de Mouros, porque quando se bate nestes mosquitos eles continuam a chupar como as loiras da anedota. Aliás a organização, para o próximo ano,  vai substituir as pulseiras amarelas e vermelhas porque as mordidelas que toda a gente tinha dava para ver quem estava no festival!