quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

Liga das Quecas Extraordinárias XVIII

“E não havia de o fazer porquê? É sempre a mesma merda, metes-te em cada confusão! Ia dizer que não percebo porque raio é que continuas com ela, mas a pergunta deve ser porque continua ela contigo?”
“Nisto estou como o Narciso, acho que o Penedo se humilha demais. Já viste a quantidade de merda que tens feito? Passas a vida nisto!”
“Olha que tens muita moral para falar, a roubar namoradas aos outros, que nem sequer é roubar porque dás a queca pões-te a andar. Para além disso nunca disse ao Penedo que ela era a única mulher da minha vida. Ela fica irritada é por as outras pessoas descobrirem as minhas facadas.”
“Não estamos aqui para julgar ninguém, por isso vamos tentar descodificar a última intervenção da noite, afinal já sabemos que temos de estar atentos para perceber o que o Midas escreve.”

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Medicina, Piso 8 cama 15

Às três da tarde entrou na recepção do hospital uma rapariga que aparentava uma idade que se enquadrava no espaço etário entre os 20 e os 30 anos. Dirigiu-se à recepção, disse o nome do doente que vinha visitar, perguntaram-lhe qual era o parentesco e pediram-lhe uma identificação como contrapartida para obter o cartão de visitante.

“Esposa” declarou. “Não tem um cartão mais recente” perguntou o funcionário, “não, é tudo o que tenho comigo” respondeu a rapariga, que pelo que vestia parecia ser contemporânea do cartão que apresentava, ou então retirada dos confins de uma serra esquecida pelos homens. O recepcionista encolheu os ombros e deu-lhe o livre-trânsito para medicina, piso 8 cama 15.

Caminhou, arrastando as socas com ruído, como se não sentisse quem passava por ela, mas quem por ela se cruzava também parecia não dar importância à sua presença, muito embora fosse uma personagem descontextualizada daquele ambiente. Como se conhecesse o caminho dirigiu-se ao local definido pelo recepcionista e excitou a sua memória numerária para identificar o 15.

Entrou e viu três camas com três cortinas a fazer meia separação entre os três corpos que ali descansavam. Aproximou-se da cama que ficava entre a 14 e a 16 e afagou a cabeça do homem que lá estava deitado. Sorriu ternamente e sussurrou-lhe “então homem, como estás?”
O homem deixou de olhar para o vazio e perguntou-lhe o que fazia ali “como vieste, que estás aqui a fazer” resmungou com surpresa.

“Vindo, omessa! Não me digas que não estás contente por me ver?”. Tirou-lhe os tubos todos e em segundos aquele velho corpo começou a respirar melhor, da posição de decúbito dorsal, a que estava condicionado há já largos anos, saiu e sentou-se na cama olhando de frente para ela, com um brilho radioso nos olhos.

“Hoje vais ter alta” disse a rapariga “até tenho aqui o cartão para ti.” Estendeu-lhe um cartão azul celeste que foi aceite com um sorriso de garoto. “Nem preciso de roupa, estou tão farto de aqui estar que vou mesmo de pijama.” Levantou-se e agarrou a mão da rapariga, saiu porta fora e quando transpôs o limiar, olhou para trás e viu, entre a 14 e a 16, o corpo de um octogenário, seco, já sem respiração, olhos a fixar o vazio, balão esvaziado de tanta vida, sofrida e completa... Feliz.

Olhou para o lado e viu a sua esposa de há sessenta anos atrás, perdida cedo demais, a dizer-lhe com o olhar “finalmente juntos, foste teimoso mas estás comigo, para sempre.”

Liga das Quecas Extraordinárias XVII

Dez minutos e muitos quilómetros depois, tinha ultrapassado dezasseis carruagens com esforço, devido ao balanço pendular imprimido pela velocidade do comboio aliada ao esforço dos carris em manterem o monstro metálico na linha.

Pedi uma cerveja e sentei-me no sofá semicircular que parecia retirado de uma casa de alterne. Dois goles na cerveja e entrou o reflexo da ruiva e um segundo bastou para o corpo se juntar à imagem. Olhou para mim e acenei-lhe com a cabeça.

Pediu uma cerveja e pensei “é cá das minhas”. Com um olhar sugestivo sentou-se no banco virado para o exterior. Pelo reflexo da janela íamos medindo forças, não desviávamos o olhar e com paciência tentávamos reconhecer no olhar alguma coisa que nos desse coragem para dar o primeiro passo.

Devem estar a pensar que estou a fazer filmes onde eles não existem e com frequência é assim... Quando necessitados vemos convites e sedução em todos os olhares e assim estava a acontecer.
Nem por momentos me lembrei que tinha namorada. A emoção de uma mulher nova, de uma conquista, corria já no meu sangue a toda a velocidade, ultrapassando o comboio.

Levantei-me e segui para o meu lugar. A covardia estava a conduzir-me, decidira não arriscar. Já perto da minha carruagem reparei no reflexo das portas que estava a ser seguido, por ela.
Abri a porta da casa de banho e vi os olhos dela a fixar-me. Entrou sem uma palavra, beijou-me avidamente e em frémitos de prazer desapertou-me as calças, levantei-lhe a saia de ganga…

Trezentos e trinta e sete gemidos depois, abri a porta e ouvi “podias ter sido mais discreto, ouvia-se na carruagem do bar”. Joelhada nos tomates, soco num olho, olhar de desdém para a saia amarrotada e foi-se, comigo atrás dela, a gemer agora de dor.
Perdoou-me.”

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

Liga das Quecas Extraordinárias XVI

O grupo olhou ansiosamente para Tântalo, começava a remexer nos seus catrapássios. As suas histórias costumavam ser uma mescla trágico/cómico, com alguns laivos de loucura saudável.
“No dia 29 de Dezembro meti-me no comboio com destino a ******, com o intuito de passar o fim de ano num sítio diferente. Sentia-me cansado de fazer sempre a mesma coisa, ver sempre as mesmas caras, respirar o mesmo ar, e não me ia fazer mal mover-me num ambiente diferente.

Apanhei o comboio rápido a meio da tarde, e como a viagem demorava pelo menos quatro horas, recostei-me confortavelmente, na medida do possível, no meu banco, com o Penedo ao meu lado, encostada ao meu ombro.

Acho que não há necessidade de explicar como as mulheres tornam as coisas mais difíceis do que elas tem que ser. É fodido quando temos namorada nestas alturas. Ninguém no seu perfeito juízo leva areia para a praia. Queremos ir para a rambóia com os amigos, conhecer outras pessoas, de preferência do sexo oposto, mas a namorada começa com aquela chantagem psicológica que só ela consegue fazer, ela e todas as namoradas do mundo. Choraminguices, lamúrias, “não gostas de mim”, “dás mais importância aos teus amigos que a mim”, maldito umbiguismo!!! Olhar para o seu próprio umbigo é nestas situações uma característica eminentemente feminina.

Então, e como era inevitável, bati o pé, discuti, esperneei, e acabei por lhe fazer a vontade, mais uma vez. Não há nada mais desgastante que o capricho de uma mulher, às vezes preferia que um abutre me devorasse as vísceras todos os dias, o efeito seria mais suave, nem nada tão eficaz como a vontade delas, senão vejam o papel de Helena na guerra de Tróia.

Estava eu a considerar alguns dos aspectos da minha tese, quando descobri um olhar feminino que me ia fixando com atenção. Tinha cerca de quarenta anos, cabelo pintado com aqueles reflexos de acaju, olhos castanhos e uns lábios finos mas bem desenhados. Não obstante a idade estava bem conservada e pela roupa que usava, notava-se um gosto requintado mas descontraído.

A certa altura o olhar dela começou a desconcentrar-me. Ao meu lado, a minha senhora já ressonava com suavidade, e já que estavam a tentar gozar comigo ia entrar no jogo. Olhei-a com interesse e sorriu enigmaticamente, tirou um cigarro e anuiu com um gesto da cabeça. Com suavidade desviei a cabeça da minha companheira e segredei-lhe que ia ao bar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XV

Segui-a sem comprar um livro que fosse e observei com interesse as suas linhas, enquanto íamos falando de livros. Se tivesse uma armadura e um cavalo era uma Valquíria e sem dúvida que montaria como uma. Comecei a imaginar mil e uma coisas até que chegámos a sua casa.

Uma vivenda típica daquela zona com grades de ferro forjado dos finais do século XIX a proteger as janelas, azulejos art deco, uma porta única de entrada com um vitral fabuloso na bandeira, que mostrava uma cena de batalha entre harpias e homens. Sugestivo…

Levou-me para o seu quarto e pediu-me para esperar. A janela, ampla dava para as traseiras onde se via um jardim de buxo com aqueles desenhos espiralados típicos que só se conseguem fazer com este tipo de sebe, aliás quem viu um viu todos. Na parede do lado direito uma grande estante de mogno castanho mimetizava tomos castanhos de variadíssimos autores.

Comecei a percorre com o olhar os títulos, para perceber qual seria o Arché da rapariga. Tulcídides, Júlio César, S. Tomás de Aquino, S. Bento, Dante Aghlieri, Petrarca, Dumas, Salgari, Eça… e tantos mais que fiquei boquiaberto. Folheei os mais sonantes e vi uma série de anotações em vários tipos de caligrafia e descobri que pelo menos três pessoas haviam lido a maior parte dos livros. Pela data cheguei à conclusão que a minha recém desconhecida amiga tomava o nome de Jocasta. Nem de propósito caros amigos.

“Estou a ver que já descobriste a surpresa… mas vamos ver de que surpresa gostas mais”. Estava de roupão e com o cabelo preto preso à amazona. Aproximou-se e beijou-me e o meu corpo todo respondeu àquele toque. Começamos a tirar a roupa e com olhos delirantes descobri que ela cobrira todo o corpo com uma camada de latéx que a tornava ainda mais sensual do que já me parecia.

Ao passar as mãos pelo seu corpo descobri algo estranho, que não tinha o seio esquerdo como as amazonas que o cortavam para melhor poder atirar com o arco. Fiquei doido e tive a melhor tarde e noite e tarde e noite outra vez que já tive na minha vida. De vez em quando nos momentos de descanso a minha Valquíria dizia-me ao ouvido “Tu és o homem mais sábio que conheço em todos os campos” ao que eu lhe respondia “Enganaste-me bem com aquela conversa dos livros, e eu a pensar que te estava a ensinar alguma coisa…”.

Não quis saber porque não tinha seio, resolvi arquivar isso na minha mente como uma coincidência para fortalecer a minha fantasia Wagneriana.

“Como sempre excedeste-te! Não sabes escrever pouco? É sempre a mesma merda, preocupas-te demais com os pormenores e com os preliminares.”

“Deixa estar, se assim não fosse não era ele. É a puta da mania de que escreve numa revista, mas bem vistas as coisas só lhe fica bem.”

Tântalo saiu como era costume em defesa do ataque de Minotauro que tinha que meter a sua colherada crítica.

“Gostei muito daquele trocadilho entre o Cérbero e o cérebro. Achei de uma qualidade a toda a prova. Como raio é que te foste lembrar disso?”

“Pois é, isto não é para todos, isto de ser bom tem que se lhe diga!”

Liga das Quecas Extraordinárias XIV

“Estou a ver que tem também uma visão muito crítica das leituras que faz. Gosto de homens assim, críticos e com ideias próprias. Pensei que tinha lido muito, mas pela amostra, estou a ver que ao meu lado você é a biblioteca de Alexandria e eu uma simples alfarrabista de rua” é escusado dizer que me babei por dentro, afinal que melhor elogio podia ter do que um à minha cultura “mas diga-me, gostava de ler um livro de fantasia relativo à mitologia nórdica, o que me aconselha?” senti-me poderoso, como é óbvio. O meu cavalo de Tróia entrara em grande estilo dentro da sua cidade e os meus soldados estavam já com o nervoso miudinho para fazer o saque.

“Sobre mitologia nórdica, confesso que não lhe posso indicar nada de especial” disse com humildade disfarçada, para não parecer muito seguro de mim e não afastar a caça “mas em contrapartida posso-lhe dizer que um senhor chamado John Ronald Reuel Tolkien escreveu uma série de livros inspirados nessa Mitologia.

“O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis”, um livro só e não três livros como muitos pensam, ou o “Silmarillion”, a bíblia que explica o Génesis de um fantástico mundo, criado de raiz, com língua, mitos e geografia próprios, tudo inventado a partir dessa interessante história sobre-humana que é o panteão de Odin e seus congéneres. Tolkien leu na língua original as sagas nórdicas e a partir daí criou uma alegoria do mundo industrializado contra a tradição, apoiado nas suas vivências nas trincheiras da primeira guerra mundial.

É interessante lê-lo à luz desses acontecimentos e tentar ver os paralelismos que existem. Dá também um alento para ler as mitologias nórdicas e ver o que é original, adaptado ou criado.”“Já deu para perceber que percebes muito de literatura e não és um leitor muito comum para a tua idade. Desculpa estar a tratar-te por tu mas temos os dois a mesma idade, mais coisa menos coisa. Não queres dar um salto até minha casa, tenho lá algo que vais gostar de ver.” Não me perguntou, ordenou.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XIII

“Como começar caros colegas? Reportar-me-ei aos acontecimentos do dia 22 de Outubro deste ano insuspeito.

Nesse dia saíra como já era costume para fazer a minha actualização mensal na biblioteca municipal e nas minhas livrarias de eleição. Na biblioteca fiz a resenha das novas publicações e nas livrarias fiz a recolha das publicações dos livros que iria ler nos próximos trinta dias.

Às vezes não é fácil escolher o que ler, principalmente quando a oferta é tanta. “Memorias de mis putas tristes”, “O velho e o mar”, “O Pêndulo de Foucault”, “Juliano”, “Os jardins de Luz”, “o Conde de Monte Cristo”, “A Voz dos Deuses”… cada um ao seu estilo chamava por mim e tornava cada vez mais difícil a decisão do que levar.

Ao meu lado uma rapariga de cabelos negros olhava de soslaio para a minha indecisão. Continuei a ler as anotações na contracapa dos volumes para ter alguma ajuda até que a rapariga, como a revelação da pitonisa de Delfos, me esclareceu.

“Umberto Eco é um óptimo autor, se bem que de vez em quando se torna muito denso.” Falava tão rápido que a frase lhe soou a “UmbertoEcoéumóptimoautorsebemquedevezemquandosetornamuitodenso".
“Desculpe menina, mas está a falar deste livro em particular ou dos outros títulos que existem na sua extensa bibliografia?”

“Estava-me a lembrar especificamente de um… “A ilha do dia antes.” Pensei que seria um teste à minha cultura e como sabem que não gosto de me ficar quando o tema é a minha cultura literária, senti aquilo como um desafio e resolvi entrar no jogo.

“Se acha que esse livro é denso é porque ainda não passou os olhos por este. Estava a pensar comprá-lo para o reler.
A primeira vez que passei os olhos por ele foi quando tinha dezasseis anos e confesso que muita coisa me passou ao lado, mas ao mesmo tempo atraiu-me para tudo que tivesse a ver com este autor. Este sim, é na realidade denso. Começa pela temática, que misturando Templários, Rosa-cruzes, sinarquias, satanismo e afins a torna numa obra per si densa e hermética. A forma como Eco brinca com a escrita e com as personagens e como introduz informação de várias áreas que vai cruzando, ainda complica mais a leitura e não há dúvida que o faz de forma magistral.”

“Muito bem… já me deixou com vontade de pegar nele e começar a ler. Li o nome da Rosa e a impressão que fiquei depois de ter lido a ilha foi que ele adensa muito a escrita por isso é que nunca mais peguei… num livro seu.

Mas tem aí um dos meus autores favoritos. Já leu “A Criação”?” Mais um teste. Estava mesmo tentado a dar-lhe uma lição de literatura. Senti-me como Édipo em frente à esfinge, com todas aquelas questões, mas isso excitava-me. O Cérbero é o maior dos órgãos sexuais e mulheres deste tipo despertam-me o desejo.

“Gostei, muito embora é uma perspectiva demasiado americanizada da cultura europeia. Gore Vidal é um bom crítico se bem que de vez em quando exagere. Não há dúvida que minimiza a cultura grega em relação às culturas do Médio e Extremo Oriente suas contemporâneas, como calara intenção de dizer que os europeus estariam mais bem servidos se estudassem melhor as filosofias orientais.Não discordo que a cultura de história europeia não dá atenção nenhuma a parte oriental da história universal, mas também não é assim tão grave para Vidal dizer que os gregos eram uma cambada de corruptos e homossexuais e que os orientalistas, esses sim eram porreiros. Há que haver um meio-termo.”

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XII

Minotauro entrou logo a matar, talvez como vingança por C.M. questionar o seu conhecimento sobre mitologia nórdica. "Desculpa lá mas achas que S. Macário é uma referência mitológica?"

"Não acho, tenho a certeza. É claro que é uma referência mitológica! Ou achas que o cristianismo por ser a religião dominante deste país e tentar calcar as outras religiões não deixa de ter a sua mitologia? Se a Mitologia é uma expressão de uma ideia, doutrina ou teoria filosófica sob forma imaginativa onde a fantasia sugere e simboliza a verdade que se pretende transmitir, porque raio é que o cristianismo não se enquadra aqui? É isento? É uma religião como outra qualquer!

Os santos não são mais que prometeus, que não tendo roubado o fogo dos deuses, agiram em consonância com os objectivos e ideais de um Deus parte de uma trindade copiada doutras mitologias. Aliás, o cristianismo não é mais do que uma reciclagem de mitos de outras religiões e correntes filosóficas anteriores. O dilúvio existe em muitas religiões... Os dez mandamentos estão implícitos em todas as teorias discursivas das várias correntes que expicam a realidade. São tudo metáforas.

É claro que o S. Macário esteve em cima de uma coluna tempos sem conta para se purificar, e por isso se tornou mártir entrando pela porta grande no panteão cristão. Sim porque o Deus castigador e vingativo só existe no cristianismo. É o supra-sumo mas mais valia ter os defeitos que os deuses das outras religiões tinham e ostentavam. Assim torna-se num Deus hipócrita, já que ninguém pode acreditar que um deus não tem defeitos.

E mais, digo-te mais, se Deus fez o homem à sua imagem, eu olho à minha volta e chego à conclusão que Ele não deve ser nada mais nada menos que barro misturado com terra, mais dia menos dia apodrece e parte!"

"Bem, escusas de ser tão agressivo. Aceito perfeitamente a tua explicação. Embora seja católico reconheço que a minha religião cometeu os seus erros mas como tu dizes, e muito bem, o cristianismo apoia-se em correntes anteriores. É acima de tudo um conjunto de regras de conduta. Não me faz prurido nenhum reconhecer isso, só queria saber a tua justificação para a história de S. Macário."

"Está dito, e muito bem dito," conciliou Narciso "vamos continuar e se tivermos tempo voltamos a este tema no final.
Acho que chegou a minha vez."

domingo, 28 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XI

"Farrapos que do tecido vieste e pela reciclagem haveis de voltar ao tecido. Vou contar o que me aconteceu na noite de S. Macário, o estilita que passava a vida numa coluna a tentar perceber que raio é que ali estava a fazer, um pouco da mesma forma que Baudolino, no fim do livro, seu homónimo, fez, muito embora este joe estivesse à cata do dinheiro dos incautos que por ali transitavam.

Nessa noite saí, como é costume às quintas, à caça. Fui para aquela gafaria insuspeita que toma o nome de *******. Gafaria porque, como sabem, todas as gajas que não valem a ponta de um corno - desculpa a referência aos teus ornamentos Minotauro - as leprosas desta sociedade, vão lá parar. É certo e sabido que em altura de crise sexual, sem dúvida que esta é a melhor coutada da cidade.

Entrei como de costume já meio bêbado, porque não é nada barato um gajo emborrachar-se com os preços que são praticados, e impraticáveis para os nossos bolsos, neste antro.
Comecei com uma cerveja, virtuosa oferta de Ceres e comecei a prospectar aquele quadro que parecia pintado por Caravaggio nos seus melhores dias de putas e vinho. As bacantes estavam por todo o lado, e eu sentia-me Baco a escrever as linhas mestras desta partitura orgíaca. Clinicamente olhei e escolhi a vítima para essa noite. Ruiva, flamejante, transpirava tanto sexo que eu conseguia cheirar as suas feromonas a cinco metros de distância, pelo menos era o que o etilismo me deixava ver.

Tenho uma teoria acerca deste tipo de espaços de diversão nocturna. Todas as gajas com que entabulamos conversa são razoáveis, mas depois de as levarmos para a cama, no dia seguinte ao acordar, só nos apetece arrancar o braço, que lhe serve de almofada, à dentada. Acho que vi isto num filme, mas não interessa porque a mistura das bebidas com as luzes das dicotecas criam uma ilusão atraente e depois, no dia seguinte é o que se vê, vamos para a cama com Vênus e acordamos com a Medusa!

Eis pois que me decidi a seduzir esta Pandora e ver se lhe podia abrir a caixa... Fui ter com ela, e qual não foi o meu espanto quando cheguei perto dela, e fui assediado com violência tal, que até pensei que devia sair mais vezes à rua com o perfume que estava a usar.

De possível sedutor passei a seduzido, mas como o que é oferecido não deve ser recusado preguei-lhe um beijo de tirar o fôlego, e qual não foi o meu espanto, tirei-lho mesmo, de tal forma que a desgraçada caiu desamparada, desmaiada no meio do chão.

Acordei do estupor com uma voz masculina - Ah Campeão, puseste-a Knockout com um só beijo - fiquei corado e saí dali com ela ao colo em direcção ao hospital.

Adormeci na Cadeira ao lado da cama, e quando acordei, não precisei de roer o braço para me safar desta Medusa, já que este não lhe estava a servir de almofada. Que feia!!!
É a história da minha vida."

Liga das Quecas Extraordinárias X

Acabado o relato, Minotauro bebeu um gole da sua receita e esperou as reacções. após os comentários avulso acerca da validade da história, e fazendo-se a contabilidade das referências mitológicas, Narciso perguntou quem eram os anões de Asgard.
"Os ferreiros da mitologia nórdica. Por várias vezes aliaram-se a Loki, deus do caos e da loucura, mas segundo a lenda foram os artifíces das armas dos deuses, inclusive o martelo de Thor, Mjolnir."

"Isso não é muita banda desenhada na tua cabeça?" perguntou C.M., que de mitologia nórdica sabia o que tinha lido nas aventuras da Marvel.

"A mitologia a que te estás a referir é um bocado romanceada mas tem um fundo de verdade, aliás a única coisa que ainda não consegui tirar a limpo é uma coisa que tem a ver com a Espada de Surtur, um gigante daqueles a sério, correspondente aos titãs gregos, maléfico, mas isso fica para outra história. Porém a mitologia nórdica é extensa como todas aquelas que conheces, fundamentada e tão importante que J.R.R. Tolkien, que deves conhecer" ironizou, "estudou-a a fundo e toda a sua obra é inspirada nas histórias destas loiras divindades."

Narciso, como líder que era terminou a discussão e propôs que se passasse ao próximo relato.

Cloaca com o seu ar de cigano de Kusturica sacou dos seus manuscritos e com um esgar divertido aclarou a garganta, com uma tossidela seca de fumador e começou.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Inferno


Saiu da discoteca com a acidulência a queimar o estômago, os olhos a arder nas chamas do Inferno de Alighieri e respeitosamente amaldiçoou a sua sorte.

Olhou ao redor e viu toda a esterquície humana a esvair-se pela porta pútrida daquele antro de dinheiro mal gasto e álcool na demoníaca proporção.

Meteu-se num táxi e à medida que o seu condutor se lamuriava da crise instalada por todo o lado, que não me dá uma noite de trabalho em condições há muito tempo, conduziu a sua mente para pensamentos mais elevados, procurando encontrar o que tinha perdido no meio da música.

Os ouvidos zumbiam num síndrome de dependência síncopado e o pulso aumentava quando pensava no que tinha acabado de fazer. Saiu na lota e entrou no primeiro tasco aberto.

Pescadores de caras vincadas por rugas de suor e sal, comiam a bucha da noite, afastando assim o frio ao mesmo tempo que consolavam o estômago. As vozes grossas de muitos anos de mar, criavam um ambiente sónico que lhe embalava a mente.

Sorriu ao pensar que mais uma vez ia trabalhar sem dormir.

Liga das Quecas Extraordinárias IX

“É claro, caros confrades, não tenho que vos referir, que todo o meu ego, bem como outras partes do corpo, rejubilou de alegria. Fiquei ligeiramente preocupado, já que o seu companheiro se encontrava na mesma sala que nós, e para fazerem idéia do respeito que difundia, afirmo-vos com veracidade, que Polifemo ao seu lado sentir-se-ia um qualquer anão ao serviço do panteão de Asgard.

Naquele momento de mata ou morre, a única situação que me assomou a mente semi-entorpecida pelo álcool, foi o gigantesco talhante a desfazer-me as rótulas à cutelada, como se de uma vaca me tratasse. No entanto o desejo foi sempre maior que a prudência e propus àquela Circe de olhos verdes que se encontrasse comigo no jardim.
Garanto-vos, excelsos e devotos desta causa tão nobre, que fiquei siderado de agrado ao constatar que ela correspondera ao meu pedido.

Estava uma noite fantástica com a lua em quarto de crescente e pensei que nunca mais me iria esquecer do momento que passaria em tão devotada companhia. Segundo os cânones da sedução e da conquista, avancei primeiro e degustei a ambrósia dos seus lábios, fazendo com que gemesse de prazeer e remorso pela traição que estava a levar a cabo.

Entrados em jogos mais íntimos, começamos a ouvir ruídos que se assemelhavam aos nossos, e com prazer unimo-nos na sinfonia, que o casal de amantes que não viamos mas podiamos sentir, num recanto do jardim ali próximo cumpriam com deslavada paixão, idêntica à nossa.

Cansados e satisfeitos com o nosso pecado, levantamo-nos e digo-vos que o destino tem insuspeitos caminhos, e deparamo-nos com o casal que reflectia o mesmo pecado de satisfação e cansaço, Não eram nem mais nem menos que uma belissíma morena de olhos verdes acompanhada pelo amante do momento, o gigantesco talhante, namorado do prazer da minha noite.

Olharam-se primeiro espantados e depois divertidos, deram as mãos e afastaram-se, e eu com as rótulas a gargalhar de alívio encolhi os ombros e propus uma bebida à morena entretanto confusa com aquela situação de loucos."

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias VIII

Eram tiradas sortes para o primeiro relato a ser exposto, depois rodava à esquerda, sempre com solenidade, devendo cada um apresentar uma cópia em papel, manuscrita de preferência, par anexar à acta. Os Faustos indicaram que Minotauro seria o primeiro a expor.

“Cavalheiros desta mui nobre e sempre leal Liga: sem mais delongas, transmitir-vos-ei os acontecimentos que tornaram a noite de vinte e sete dos idos de Novembro, de um ano que não é para aqui chamado, num facto inultrapassável e acima de tudo digno de registo em tão ilustre panegírico alternativo a que pomposamente apelidamos de realidade.

Eis pois que, estando eu já cronologicamente exausto de seduzir, através de múltiplas e variadas formas a fêmea digna de um calendário Pirelli, comprometida de uma forma quase irreversível com um talhante, seu concubino de há longo tempo, e não vislumbrando forma do meu objectivo se concretizar, eis que a possuidora de toda a minha pulsão sexual, por um golpe inesperado do Destino, se embriaga.
Confidenciou-me ao ouvido que acima de todas as coisas, o que mais almejava nesse momento era devorar-me até ao tutano, nem que eu fosse uma pedra envolta em cueiros.”
Os oradores tinham que referir nas suas histórias situações de uma qualquer mitologia, certificando-as com bibliografia apropriada, se por um acaso não fossem do conhecimento comum.

Liga das Quecas Extraordinárias VII

O sigilo em torno das reuniões era total, embora por vezes tenham sido surpreendidos na sede por conhecidos de um ou outro, mas o vinho era a melhor desculpa para a presença dos cinco no mesmo sítio. As actas eram escritas à vez em toalhas de mesa, e guardadas num cofre portátil com combinação e chave, que desde sempre estivera à vista de todos na tasca de Anfitrião, que não sabia nem queria saber o que lá estava. Tinha consciência que era uma carolice dos rapazes que lhes reforçava a amizade e lhe preenchia as horas mortas da tarde e os bolsos com mais algum uma vez por mês.

O nome das envolvidas nas histórias nunca poderia ser referido, se bem que indirectamente havia algumas, como o Penedo de Tântalo, que era impossível esconder. Não eram permitidas descrições de actos sexuais ao pormenor, mas esta regra nem era muito difícil de cumprir, primeiro pela educação cuidada dos membros e depois porque não havia mulheres no grupo.

Os homens são naturalmente boca-de-incêndio, contam, falam e voltam a contar, com mulheres no grupo ou não, as suas aventuras sexuais. As mulheres por seu lado, escandalizam-se com a abertura dos homens em relação ao tema, mas quando estão acompanhadas só pleo seu sexo, chegam aos limites do pormenor, tanto é que, por vezes, os homens sentem-se por completo despidos pela melhor amiga da namorada com aquele olhar…”com que então perdeste cacete na noite de 23 de Novembro de 1933 por volta das 23:15!”

Liga das Quecas Extraordinárias VI

Narciso cumprimentou com alegria na voz e no coração, os amigos, e como era uso sentou-se no topo da mesa.

Anfitrião chegou com o seu copo e a multa. Nomeou-se o escriba da acta, e com solenidade sorrida, Narciso, declamou a fórmula de abertura.

“Aos doze dos idos de Dezembro de um ano que não é para aqui chamado, na sede deste incomum organismo, com a assistência etílica de Anfitrião e com as presenças dos ilustres membros Tântalo, Midas, Minotauro, Cloaca Massima, antes conhecido como Édipo, e eu próprio, Narciso, presidente desta pandilha de bêbados e putanheiros, declaro solenemente iniciada esta reunião da Liga das Quecas Extraordinárias. Que as putas e o vinho verde estejam convosco.”

Nos primeiros anos de faculdade o grupo, em conversa de ressaca, descobriu que cada um tinha a propensão especial para histórias de cama no mínimo rocambolescas. Numa tentativa de não as deixar escapar em qualquer tradição oral, resolveram criar reuniões mensais, para se rirem uns dos outros e passar para o papel as aventuras e desventuras de tão heterogéneo grupo.

Liga da Quecas Extraordinárias V

Em frente a Midas estava Minotauro, especialista em trincar mulheres comprometidas, era tão bom a fazê-lo que os cornos da mitológica criatura lhe subiram à cabeça, de forma que se empenhou ainda mais na tarefa.
Todos os homens que o conheciam com a namorada por perto coçavam acto contínuo a cabeça, já que Minotauro se gabava à boca cheia de caçar sempre a sua presa, só bastava tentar. O resto do grupo nunca percebeu muito bem como é que conseguia, já que não era nada de especial, mas o certo é conseguia sempre o que se propunha.
Para completar a equipa faltava só C.M., diminutivo de Cloaca Massima. No início da fraternidade tomou o nome de Édipo, porque pelo andar da carruagem até era capaz de saltar à espinha da própria mãe, mas depois, com o tempo, como ia para a cama com tudo o que lhe aparecia à frente, cagaram na mitologia e foi baptizado com o nome do maior esgoto de Roma antiga.
O seu lema era "com duas garrafas de vinho qualquer uma se torna numa bota da tropa, marcha".
Bem, só falta explicar a origem da alcunha Narciso... era tão vaidoso e egocêntrico que trocava a melhor das ninfas por uma Segóvia ao espelho.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias IV

Ao seu lado esquerdo estava Midas, que granjeara o nome por ter uma especial apetência pelo culto da imagem dos outros e por raparigas ainda a desabrochar. Note-se que não se metia com menores de dezoito anos, mas apanhava-as quando acabavam de perfazer esta etapa cronológica. Segundo palavras suas "eram mais apertadinhas e moldáveis". Por incrível que pareça, todas em que tocava, por muito pouco tempo que fosse, passavam de Gata Borralheira a princesa em três tempos. Nunca falhou uma que fosse, era o toque de Midas.

Alto, fisicamente irrepreensível, chamava a atenção a tudo o que fosse mulher, mas não era a todas que dava o privilégio de privar com ele, afinal, onde há fartura há sempre escolha.

Liga das Quecas Extraordinárias III

Tântalo, loiro, com o cabelo em desalinho, estava no momento a preparar o doutoramento num insuspeito tema que agora não vem ao caso. Ria com voz de tenor e olhos azul água. Era o mais novo do grupo, mas sem dúvida, o que melhor tirara proveito dos ensinamentos académicos.

Sempre cheio de ideias virtuosas, quando bebia deixava a imaginação cavalgar os devaneios do disparate, fazendo, no entanto, questão de tornar explícitas os mesmos. A sua inocência era uma capa para esconder os mais íntimos desejos que a sociedade proibia com mão de ferro, bem como a educação cuidada.

Ganhara o epíteto devido ao seu eterno caso amoroso. Rebolava a mesma namorada pela colina da vida acima há anos sem conta. Quando chegava a um certo ponto olhava para outra e lá lhe escapava o penedo por entre os dedos. O remorso fazia com que descesse a colina e voltasse a rebolar o batólito pela colina acima. Vezes sem conta acontecia, as escapadelas eram constantes, e o Penedo, assim chamava o grupo à eterna namorada, era uma apaixonada invencível, em linguagem de homem, crente.

Liga das Quecas Extraordinárias II

Cumprimentou Anfitrião, o dono da tasca, que com a sua penca proeminente reconhecia todos os bons clientes quando entravam na rua, e com simpatia fazia-os sentir em casa. Era um refúgio para estudantes com os seus preços sociais e arroz de feijão à terça-feira. Todas as faculdades da zona lhe conheciam o baixo preço e o cheiro a comida caseira que se
agarrava à roupa, ao corpo e à alma.

- Já cá estão os seus sócios, sorriu Anfitrião.
- Então mande para dentro o meu copo e a multa.

A multa era uma caneca de receita de vinho verde, feita com uvas que nunca viram arames, que era paga pelo último a chegar aos conciliábulos da primeira terça do mês, dia instituído das reuniões.

Escolheu a porta da esquerda, de batente a meio corpo, para a entrada em triunfo, muito de acordo com a sua personalidade exibicionista.

Encontrou-se na sala tão bem conhecida, onde inúmeras vezes matara a fome a crédito. Era um compartimento atípico das salas dos restaurantes e tascas da cidade. Não tinha televisão e em seu lugar autocolantes alusivos a tunas, associações académicas faculdades e afins, digladiando-se com fotografias crucificadas em placards de corticite, de convívios estudantis. Ao fundo, no canto, um aquário com um peixinho dourado, que se alimentava com os vapores da cozinha e as conversas díspares dos comensais.

E lá estavam os sócios.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias


Narciso caminhava a passos largos, e quem o visse trajado e com um sorriso nos lábios indagaria o motivo de tão expressiva alegria que se divertia a difundir via telemóvel, no seu inglês fluente, para um receptor que até ele mesmo desconhecia.


Tinha tomado com hábito ligar para o seu voice-mail e contar toda a parafernália de ideias que lhe assolavam a cabeça. Condensava-as e falava com o seu amigo imaginário, no fundo o seu alter-ego, e mais tarde ouvia-se e colhia ideias para uma nova sementeira de palavras dispersas na revista literária da faculdade.


No fundo não era mais que uma fraude, fingia que estava inscrito, e como nunca ninguém lhe tinha pedido credenciais, frequentava aulas, organismos académicos e festas estudantis de pleno direito, com o peito inchado de vaidade e os tomates mirrados de medo.

Entrou no tasco para o encontro mensal que costumava ter com os colegas e grandes amigos, partilhantes de ideologias, ideias e ideais, já desde o primeiro ano.