quarta-feira, 11 de maio de 2005

Publicidade

Estava eu no meu zapping pós-queima das fitas quando o escândalo e a dor bateram à minha porta, para já não falar da estupefacção.

O motivo desta reacção estranha foi um anúncio, não de pensos higiénicos, que eu acho ser o supra sumo da estupidez em matéria de publicidade, mas de bandas depilatórias.

Porque será que os anúncios com maior carga de estupidez são dirigidos às mulheres? Serão feitos por criativos machistas?!

Mas continuando. Estava eu acompanhado da minha cervejinha quando de repente aparece uma rapariga com uma perna engessada, com um rapaz imberbe a preparar-se para lhe retirar o dito - acho que ele não tem idade para ter qualificações para efectuar o serviço - e ela está preocupada com os pelos que possa ter na perna.

A voz off relata que ela usou bandas depilatórias que duram quatro semanas. A perna direita está impecável, sem um pelo que se veja, e se não me engano os pelos das duas crescem ao mesmo ritmo, a não ser que ela seja maluca e depile mais vezes a esquerda, então porque se preocupa?

Mas não é aqui que eu quero chegar. Quando se retira o gesso descobre-se, com grande surpresa, que não há pelos nenhuns, que surpresa!!!!

E logo de seguida o rapaz que descobrimos que é ortopedista, muito embora ele não tenha idade para ter o 12 ano, dá-lhe a marteladela da praxe no joelho e leva um pontapé nas partes baixas.
A voz off limita-se a dizer "Se ao menos todas as sensações durassem tanto tempo".

Estes publicitários são doidos. Sabem a dor que é levar um chuto nos TOMATES!!!???????

Penso eu de que

O amor é um pêndulo afiado que corta devagar o coração.

Penso eu de que

Errar não é humano, é estúpido.

Penso eu de que

Pensar é uma fraqueza, os ingénuos dormem melhor.

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Queima do Porto II

Vocês sabiam que até sexta-feira dia 6, penúltimo dia de Queima já tinham entrado 250 000 pagantes no recinto?
Isto significa que a FAP encaixou cerca de 2 000 000€, a fazer contas de €8 por bilhete, já que tem que se fazer uma média entre os bilhetes de estudante entre os 5 e 6 e os gerais 10 e 12.
Espero ver o que FAP vai fazer com este dinheiro todo!!!
Afinal, na moeda antiga só são 400 000 contos!

Queima do Porto

Que dizer desta grande instituição?
Estivemos lá à procura de inspiração e de cerveja e já vos digo que foi de morte!
Uma bonita média de 20 cervejas por noite, das quais creio que só para aí umas três é que forma pagas...
Nunca subestimem o poder de persuasão de uma pessoa com muita sede!
Ou seja... 6 noites vezes 20 dá qualquer coisa como cerca de 120 cervejas que dá para aí 30 litros de cerveja!!!! Como se diz na minha terra "vai beber a uma bouça".
Tenho a acrescentar que dos concertos pouco vi e fodi a minha roupa toda. pareço um molho de podas ambulante.
Agradecimentos:
Ao pessoal da "Dura Moca", do "Kop's", e de mais algumas barracas das quais não me lembro do nome; ao pessoal da PSP que fez com que eu entrasse duas vezes de borla no recinto; ao Zeca pela credencial de domingo; à Cláudia pela credencial de sábado; e a todas as gajas a quem eu estive a chatear a cabeça!!!!
P.S. Marta se vires isto entra em contacto LOL

terça-feira, 26 de abril de 2005

Escritor semi-inspirado procura escritora transpirada

Escritor com um quarto de inspiração para partilhar procura escritora transpirada para dividir a renda de um blog em remodelação constante.

Responder para este endereço.

Agora sei o que escrever

Caros leitores:

A falta de inspiração foi chão que já deu uvas;
Não há fome que não dê em fartura;
A escrita é como as cerejas, quando escrevemos um texto não conseguimos parar.

Pois somados todos estes pressupostos, garanto-vos que o meu bloqueio cabou, pelo menos para já e durante esta semana vou voltar a atazanar-vos o juízo, com mais pérolas discursivas, daquelas que já me caracterizam.

Até lá leiam os outros blogs.

Miguel de Terceleiros

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Não sei que mais escrever III

É desesperante tentar escrever e não nos vir nada à cabeça. Escreves e riscas logo a seguir. Escreves, riscas, escrevesriscas, que merda que borrão!!!!!!!
Desculpas… pedes uma cerveja. Bebes, bebes, bebes até que os teus sentidos se embotam e começam as ideias a fluir. Precisas é de um calço mental para poder deixar que tudo que está dentro de ti saia a bem.
Começas a rir, primeiro por dentro e depois gargalhas, metralhas tudo à tua volta, agarram-te pelos colarinhos e põem-te na rua.
Para além de não conseguires escrever também não consegues falar. Só consegues rir, rir, rir, rir, rir e começas a lavar-te em lágrimas, de tanto rir e não conseguir parar.

Não sei que mais escrever II

Ao contrário do que era usual, tudo o desconcentrava.
Uma criança de colo chorava e a mãe teimava em não o acalmar. Com a indiferença no olhar continuava a falar com a amiga e de quando em vez soltava um “o raio da criança não se cala” e continuava na sua estagnação de espírito que já lhe advinha da nascença. A estupidez momentânea, que passa por toda a gente sazonalmente, por álcool, sono ou distracção, até é aceitável e ludibriável, mas a congénita, nem pena se deve ter, não há solução e ponto final.
Cansou-se de observar aquela estupidez de cavalgadura e dirigiu a sua atenção para o papel em branco que devia encher-se de letras. Aquela alvura gritava-lhe aos olhos e deixava-o louco. Quanto mais olhava menos ideias lhe vinham à cabeça.

terça-feira, 15 de março de 2005

Não sei que mais escrever

Foi exactamente naquele dia de Janeiro que as coisas começaram a aquecer. Saíra de casa com uma vontade de se desintegrar em mil pedaços. Não fazia sentido nenhum o que tentara escrever. Como escritor que era, a escrita é que lhe dava de comer, e sem fazer sentido, não ia muito longe. Tentou organizar as ideias e compreender o que estava mal, mas não conseguia.
Seguiu rua fora, com os camiões, a alta velocidade, a deslocar-lhe o centro de gravidade e a afastar os insistentes mosquitos que proliferavam junto à sua casa. Sentou-se na pastelaria do costume e começou a rabiscar as primeiras palavras, e deixou-se entrar numa imobilidade introspectiva que costumava obter o efeito desejado.

Os três períodos do homem

As várias correntes da Filosofia/Psicologia criaram várias teorias acerca do crescimento do homem, mas numa manobra de bastidores vamos tentar revolucionar completamente as teorias instituídas e relegá-las para um plano insignificante da nossa volátil memória.
O homem, entende-se sexo masculino, só pressupõe três fases na sua vida madura, que giram em torno da esfera sexual, como não podia deixar de ser. A primeira fase é o chamado Período Pré-ejaculatório. Neste período o homem atinge um grau de obsessão preocupante na constante procura da cópula. Atinge normalmente o grau 7 da escala de Kerosaltarparaacuecadealguémrápidoantesqueosmeustestículosrebentem. O macho tem uma ideia fixa que é copular com alguém seja de que forma for. Dirige-se às Gafarias, vulgo discotecas e atira-se ao bando na esperança de concretizar o seu objectivo. Qualquer espécime serve em alternativa ao Five Fingered Jack, amigo de qualquer bolso das calças.
A segunda fase é o Período Ejaculatório, propriamente dito, em que o macho já está efectivamente na cópula a saciar a sua gula como um abutre no pico do Outono. Nesta altura registam-se níveis entre 4 e 9 da escala Daquinãosaiodaquiningémmetira. O macho pensa que já está a fazer aquilo para que foi criado.A fase três, a última, para quem estava distraído é o Período Pós-ejaculatório, em que o macho acorda do cansaço e da bebedeira, olha para o lado e com uma onda de choque, que lha atravessa o corpo e lhe entorta as orelhas em nuances de caos, grita a plenos pulmões AI QUE ELA É TÃO FEIA!!!!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

14 Euro de Táxi II

Uma operação stop. Começas a ver a tua vida a andar para trás.

“Não diga nada, deixe-me falar.”

“Boa noite. Os seus documentos e os da viatura.”

“Boa noite senhor agente, é para já.”

“O senhor sabe que vinha em excesso de velocidade?!”

“Devo ter-me distraído, sabe como é, engatámos na conversa” aponta para ti “e devo ter carregado mais um bocadinho no acelerador.”

“Pois é, mas o senhor é um profissional e não se pode distrair, vou ter que o autuar.”
Pensas na mulher que está na tua cama e resolves intervir.

“Senhor agente, se me permite, a culpa é minha. Vim do Sul em negócios e fui beber um copo. A certa altura uma ruiva, daquelas poderosas, veio ter comigo. Perguntou-me alguma coisa em inglês. Era croata. Está cá também em negócios e vai-se embora amanhã. Conversamos um bocado e eu gostei dela e ela de mim. Convidei-a para ir para o meu hotel e ela achou boa ideia. Quando cheguei ao quarto descobri que não tinha preservativos e foi nessa altura que contratei este senhor para me levar a uma bomba de gasolina para os comprar. Como vê é uma emergência.”

“Amigo, não diga mais nada, se eu tivesse um que fosse dava-lho já, mas espere um pouco que vou ver se o desenrasco.” Resultou! A solidariedade entre homens é a melhor coisa que existe. Ainda estás a tentar perceber como tiveste a lata para dizer aquilo tudo quando o agente volta.

“Falei com os meus colegas e nenhum tem, mas já ali à frente há uma bomba de gasolina que tem.”Encolhes os ombros, fechas a boca, o taxista sorri porque não vai ser multado e recebidas as indicações o teu companheiro volta a pisar no acelerador.

14 Euro de Táxi I

Baixa do Porto. Olhas para o relógio da Câmara e descobres que faltam três minutos para as cinco da manhã.

O Jack Daniel’s diz-te o que deves fazer, diriges-te ao Mercedes creme e abres a porta. Um homem dos seus quarenta e muitos está lá sentado. Barba cuidada, mas com as manchas amareladas típicas de fumador, rugas que marcam os que optam pelos turnos da noite e o inevitável casaco de cabedal preto, está a fumar e faz o gesto para deitar fora o cigarro.

“Boa noite. Deixe estar, eu também sou fumador”. Ele agradece com o olhar e pergunta “para onde”. “Vou-lhe ser muito sincero. Tenho no quarto do hotel uma rapariga lindíssima e preciso de preservativos. Leve-me a uma bomba de gasolina!” O homem arregala os olhos e irrompe numa gargalhada que te dá vontade de rir também, no entanto ficas sério o que faz com que o taxista se sinta mal por ter rido. Sorris e o ambiente desanuvia-se.

“Ok vamos a uma aqui perto que me parece que estás bem fornecida. Mas diga-me o senhor não é de cá pois não?!”

Abres a boca para falar e reparas que tens falado com sotaque do Sul, involuntariamente disfarçaste-o porque achas que deves passar incógnito nesta delicada missão. Resolves alinhar na conversa dele.

“Sou do Sul, já estudei cá, mas agora trabalho e vivo lá em baixo. Venho cá de vez em quando em negócios e hoje, quando menos esperava, vem uma mulher ter comigo, e sabe como são estas coisas…” Mentes com todos os dentes que tens na boca mas achas que foi bem improvisado. Acrescentaste que viveste na cidade para assegurar qualquer falha no sotaque e para o taxista não se pôr a dar voltas desnecessárias para te comer o dinheiro.
“Pois amigo, se eu tivesse a sua idade também aproveitava. Até é pecado recusar uma mulher que nos cai nos braços vinda dos céus. Eu, no meu tempo, também fiz das minhas e digo-lhe que nestas coisas temos é que ser uns para os outros. Estamos com azar.”

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

Liga das Quecas Extraordinárias XIX

«Pedalas como se a estrada nunca mais tivesse fim. É uma recta enorme, sem fim, interminável. Ao teu lado vês mais três pessoas, que pedalam com mais ou menos esforço, mas que teimam em acompanhar a tua corrida que não tem meta definida. Sentes-te estúpido porque tens a intensa sensação que a velocidade que manténs não te vai levar a lado nenhum ou acrescentar nada ao que já sabes.

Analisas as caras de quem pedala ao teu lado e vês expressões de esforço, que não levam a nada, a lugar nenhum. Circunspectos fazem a sua viagem interior sem nenhum interesse pelo esforço que estás a fazer, pelas calorias que queimas, pela velocidade a que vais, afinal pensam o mesmo que tu, não vão a lado nenhum com aquela correria maluca, de alguma forma vão pôr os pés no mesmo lugar em que montaram na bicicleta, o mesmo espaço, o mesmo ar rarefeito pela respiração dos companheiros de pedalada.
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É apologista da velha máxima Mens sana in corpus sanus. Estava a ficar preocupado com a barriguinha que tinha vindo a desenvolver. Cerveja, muita, francesinhas e falta de exercício, levaram-no a este estado semi-vegetativo de pedalanço.

A barriga, que ao início definia como mochila, crescia a olhos vistos, e do six pack de superbock, que ele tão orgulhosamente apregoava, que trazia lá dentro, passou-se para um invólucro bem mais grave. Transformou-se numa espécie de saco amniótico com um nascituro prestes a ver a luz do dia, só que nunca mais nascia.

Como um pai babado dizia: “Se for menino chama-se Super Bock, e se for menina Heineken”. Um dia acordou mal disposto e resolveu fazer um aborto.

Foi para o ginásio, um pouco às aranhas, não fazia a mínima ideia do que lá ia encontrar ou fazer. A sua primeira impressão foi de que acabara de entrar numa exposição de tortura medieval. Ainda procurou a Iron Maiden, mas não a encontrou em lado nenhum. Aquela maquinaria toda intimidou-o, mas não o fez desistir.

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Saltas da bicicleta, olhas-te ao espelho e vês os indícios do peso da idade mas não da condição física, afinal tratas muito bem do teu corpo, não por escolha própria mas por circunstâncias da vida que a isso te obrigam. Não tens carro por isso tens que andar para todo o lado com os atributos que o criador te forneceu, pernas.
Pernas bem modeladas, perfeitas, dirias tu, não há ponta de celulite, adivinha-se através do fato de treino de malha justa, consegues identificar os músculos em esforço. A máquina de adutores dá-te uma perspectiva deles a trabalhar bem como outros que te interessam bem mais.

A humidade do suor faz com que o tecido se cole à pele sugerindo tudo e mais qualquer coisa, as pernas tentam contrariar os 35 quilos de peso mas voltam naturalmente à posição de 90 graus, a posição de parturiente. Sugestão, sugestão, sugestão. Começas a imaginar muitas coisas naquela posição. Ela repara em ti. Fecha a boca, limpa a baba. Ela sorri, ficas da cor da tua t-shirt, será que já tem dezoito anos, pensas.


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Este homem de vez em quando tem paragens de cérebro, de certeza. “Ela” como ele lhe chama está no ginásio desde que ele o frequenta. É nova, mas já tem o curso de Educação Física, por isso pelo menos 22 tem.
Ele já devia ter reparado que ela é uma das monitoras do ginásio, ou é qualquer frequentador que ajuda as velhinhas e os novos alunos com os seus programas? Este tipo, o que tem de inteligente também tem de falta de perspicácia.

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No dia seguinte entras no ginásio e está deserto mas não é de espantar, a seguir ao almoço é comum teres as máquinas todas para ti. Vais para a passadeira e escolhes o programa de caminhada/corrida, colocas a fita de medição de batimentos cardíacos e ela acusa os 134 da praxe, já em esforço.
Um ruído estranho à música chama a tua atenção. Umas calças de malha entram na sala e sorrindo vão colocar-se na máquina de adutores, mesmo à tua frente. Começam o exercício lentamente e ao mesmo ritmo o suor começa a provocar o efeito já bem conhecido. A máquina dispara para os 150 batimentos por minuto. Já sentes sangue por todo o corpo.

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Está perto dos 30. Olha para mim como se quisesse devorar-me até ao âmago. Sei que quer fazer parte de mim. Já estou farta de reparar no olhar disfarçado e guloso com que me olha e nem sei se por insegurança ou por outra razão que me passa ao lado, não dá o passo em frente.
Já há um mês que me despe com os olhos e começo a temer que isto não passe de mais de um caso inacabado para juntar aos muitos que já tenho.

Todos os dias me visto de forma a provocá-lo mas não há maneira de se chegar a mim, nem sequer dirigir-me a palavra. Há dias passou-me pela cabeça que se calhar me acha nova demais, mas que raio (!), com vinte e três anos já não se é nova, pelo menos já se sabe o que se quer e ninguém tem nada a ver com isso.

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A perspicácia que lhe falta a ele tem-na ela, afinal isto tem que ser equilibrado. Não pensem que o jovem está entusiasmado por qualquer uma. Como mediador desta conversa tenho que informar o leitor que a rapariga é um pedaço. Infelizmente, como escritor, personagem invisível que trata um por tu e ao outro não se atreve a dizer nada, já que a moça tomou as rédeas da narração, não posso fazer nada para a seduzir. Tenho que esperar sentado que aquele burro se decida a avançar, mas não lhe posso dizer nada dos pensamentos dela.

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Sinto-me mais segura, hoje surpreendi-o de boca aberta, posso até arriscar que se babava. Corou quando reparou que o fixava, não há dúvida nenhuma que me deseja da mesma forma que o desejo a ele. Sorri para o encorajar, mas nem assim investiu no que devia, acho que é altura de ser eu a arriscar.

Entrei no ginásio e, ao contrário do que é costume aquela hora da tarde, não estava deserto. O meu Adónis está na passadeira. Fico alguns segundos a admirá-lo, deste ângulo não me consegue ver. Como está sozinho está só de calções, a t-shirt repousa no chão ao seu lado. O suor escorre-lhe pelas costas em direcção ao rabo firme e bem feito. Fico excitada. Uma ideia passa pela minha cabeça e, acto contínuo, vou à entrada e tranco a porta.

Escolho a máquina que mais efeito produz nele e começo o exercício com o olhar fixo nele.
Sinto o meu corpo em esforço e mantenho as pernas abertas mais tempo do que o necessário, a humidade toma conta de mim e consigo apalpar as minhas feromonas que, em demasia, já ocupam o espaço aéreo.
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Estás… a ficar maluco! A máquina acusa 164, daqui a pouco começa a apitar feita doida. É agora ou nunca, não consegues resistir. Sais da passadeira com ela ainda a funcionar e já só consegues pensar com um dos membros inferiores.
Tonto, devido à saída repentina do tapete, diriges-te a ela e perguntas “Quantos anos tens?”.
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A pedofilia, hoje em dia, é capaz de castrar o maior dos garanhões. Respondi-lhe com a verdade, ele agarrou-me, tirou-me da cadeira, com beijos de conaisseur, despiu-me de roupas, de suor e colou-se a mim sentando-nos na máquina na sua posição fetiche por que tanto se babava.

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Bem e assim acaba. Desta vez Midas não precisou do seu toque de ouro porque a rapariga já tinha atingido o estado maior de maturidade. Todavia ele não sabia, mas também não era eu que lhe ia dar a informação.
Como escritor tenho que escrever sempre distanciado destas personagens, por muita simpatia que nutra por elas. Se me apetecer matar alguém vai-me custar, mesmo que tenha um a personalidade muito má, mas mato. E nem sei porque estou a escrever isto, afinal a aparte que interessa já está dita…»

Liga das Quecas Extraordinárias XVIII

“E não havia de o fazer porquê? É sempre a mesma merda, metes-te em cada confusão! Ia dizer que não percebo porque raio é que continuas com ela, mas a pergunta deve ser porque continua ela contigo?”
“Nisto estou como o Narciso, acho que o Penedo se humilha demais. Já viste a quantidade de merda que tens feito? Passas a vida nisto!”
“Olha que tens muita moral para falar, a roubar namoradas aos outros, que nem sequer é roubar porque dás a queca pões-te a andar. Para além disso nunca disse ao Penedo que ela era a única mulher da minha vida. Ela fica irritada é por as outras pessoas descobrirem as minhas facadas.”
“Não estamos aqui para julgar ninguém, por isso vamos tentar descodificar a última intervenção da noite, afinal já sabemos que temos de estar atentos para perceber o que o Midas escreve.”

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Medicina, Piso 8 cama 15

Às três da tarde entrou na recepção do hospital uma rapariga que aparentava uma idade que se enquadrava no espaço etário entre os 20 e os 30 anos. Dirigiu-se à recepção, disse o nome do doente que vinha visitar, perguntaram-lhe qual era o parentesco e pediram-lhe uma identificação como contrapartida para obter o cartão de visitante.

“Esposa” declarou. “Não tem um cartão mais recente” perguntou o funcionário, “não, é tudo o que tenho comigo” respondeu a rapariga, que pelo que vestia parecia ser contemporânea do cartão que apresentava, ou então retirada dos confins de uma serra esquecida pelos homens. O recepcionista encolheu os ombros e deu-lhe o livre-trânsito para medicina, piso 8 cama 15.

Caminhou, arrastando as socas com ruído, como se não sentisse quem passava por ela, mas quem por ela se cruzava também parecia não dar importância à sua presença, muito embora fosse uma personagem descontextualizada daquele ambiente. Como se conhecesse o caminho dirigiu-se ao local definido pelo recepcionista e excitou a sua memória numerária para identificar o 15.

Entrou e viu três camas com três cortinas a fazer meia separação entre os três corpos que ali descansavam. Aproximou-se da cama que ficava entre a 14 e a 16 e afagou a cabeça do homem que lá estava deitado. Sorriu ternamente e sussurrou-lhe “então homem, como estás?”
O homem deixou de olhar para o vazio e perguntou-lhe o que fazia ali “como vieste, que estás aqui a fazer” resmungou com surpresa.

“Vindo, omessa! Não me digas que não estás contente por me ver?”. Tirou-lhe os tubos todos e em segundos aquele velho corpo começou a respirar melhor, da posição de decúbito dorsal, a que estava condicionado há já largos anos, saiu e sentou-se na cama olhando de frente para ela, com um brilho radioso nos olhos.

“Hoje vais ter alta” disse a rapariga “até tenho aqui o cartão para ti.” Estendeu-lhe um cartão azul celeste que foi aceite com um sorriso de garoto. “Nem preciso de roupa, estou tão farto de aqui estar que vou mesmo de pijama.” Levantou-se e agarrou a mão da rapariga, saiu porta fora e quando transpôs o limiar, olhou para trás e viu, entre a 14 e a 16, o corpo de um octogenário, seco, já sem respiração, olhos a fixar o vazio, balão esvaziado de tanta vida, sofrida e completa... Feliz.

Olhou para o lado e viu a sua esposa de há sessenta anos atrás, perdida cedo demais, a dizer-lhe com o olhar “finalmente juntos, foste teimoso mas estás comigo, para sempre.”

Liga das Quecas Extraordinárias XVII

Dez minutos e muitos quilómetros depois, tinha ultrapassado dezasseis carruagens com esforço, devido ao balanço pendular imprimido pela velocidade do comboio aliada ao esforço dos carris em manterem o monstro metálico na linha.

Pedi uma cerveja e sentei-me no sofá semicircular que parecia retirado de uma casa de alterne. Dois goles na cerveja e entrou o reflexo da ruiva e um segundo bastou para o corpo se juntar à imagem. Olhou para mim e acenei-lhe com a cabeça.

Pediu uma cerveja e pensei “é cá das minhas”. Com um olhar sugestivo sentou-se no banco virado para o exterior. Pelo reflexo da janela íamos medindo forças, não desviávamos o olhar e com paciência tentávamos reconhecer no olhar alguma coisa que nos desse coragem para dar o primeiro passo.

Devem estar a pensar que estou a fazer filmes onde eles não existem e com frequência é assim... Quando necessitados vemos convites e sedução em todos os olhares e assim estava a acontecer.
Nem por momentos me lembrei que tinha namorada. A emoção de uma mulher nova, de uma conquista, corria já no meu sangue a toda a velocidade, ultrapassando o comboio.

Levantei-me e segui para o meu lugar. A covardia estava a conduzir-me, decidira não arriscar. Já perto da minha carruagem reparei no reflexo das portas que estava a ser seguido, por ela.
Abri a porta da casa de banho e vi os olhos dela a fixar-me. Entrou sem uma palavra, beijou-me avidamente e em frémitos de prazer desapertou-me as calças, levantei-lhe a saia de ganga…

Trezentos e trinta e sete gemidos depois, abri a porta e ouvi “podias ter sido mais discreto, ouvia-se na carruagem do bar”. Joelhada nos tomates, soco num olho, olhar de desdém para a saia amarrotada e foi-se, comigo atrás dela, a gemer agora de dor.
Perdoou-me.”

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

Liga das Quecas Extraordinárias XVI

O grupo olhou ansiosamente para Tântalo, começava a remexer nos seus catrapássios. As suas histórias costumavam ser uma mescla trágico/cómico, com alguns laivos de loucura saudável.
“No dia 29 de Dezembro meti-me no comboio com destino a ******, com o intuito de passar o fim de ano num sítio diferente. Sentia-me cansado de fazer sempre a mesma coisa, ver sempre as mesmas caras, respirar o mesmo ar, e não me ia fazer mal mover-me num ambiente diferente.

Apanhei o comboio rápido a meio da tarde, e como a viagem demorava pelo menos quatro horas, recostei-me confortavelmente, na medida do possível, no meu banco, com o Penedo ao meu lado, encostada ao meu ombro.

Acho que não há necessidade de explicar como as mulheres tornam as coisas mais difíceis do que elas tem que ser. É fodido quando temos namorada nestas alturas. Ninguém no seu perfeito juízo leva areia para a praia. Queremos ir para a rambóia com os amigos, conhecer outras pessoas, de preferência do sexo oposto, mas a namorada começa com aquela chantagem psicológica que só ela consegue fazer, ela e todas as namoradas do mundo. Choraminguices, lamúrias, “não gostas de mim”, “dás mais importância aos teus amigos que a mim”, maldito umbiguismo!!! Olhar para o seu próprio umbigo é nestas situações uma característica eminentemente feminina.

Então, e como era inevitável, bati o pé, discuti, esperneei, e acabei por lhe fazer a vontade, mais uma vez. Não há nada mais desgastante que o capricho de uma mulher, às vezes preferia que um abutre me devorasse as vísceras todos os dias, o efeito seria mais suave, nem nada tão eficaz como a vontade delas, senão vejam o papel de Helena na guerra de Tróia.

Estava eu a considerar alguns dos aspectos da minha tese, quando descobri um olhar feminino que me ia fixando com atenção. Tinha cerca de quarenta anos, cabelo pintado com aqueles reflexos de acaju, olhos castanhos e uns lábios finos mas bem desenhados. Não obstante a idade estava bem conservada e pela roupa que usava, notava-se um gosto requintado mas descontraído.

A certa altura o olhar dela começou a desconcentrar-me. Ao meu lado, a minha senhora já ressonava com suavidade, e já que estavam a tentar gozar comigo ia entrar no jogo. Olhei-a com interesse e sorriu enigmaticamente, tirou um cigarro e anuiu com um gesto da cabeça. Com suavidade desviei a cabeça da minha companheira e segredei-lhe que ia ao bar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XV

Segui-a sem comprar um livro que fosse e observei com interesse as suas linhas, enquanto íamos falando de livros. Se tivesse uma armadura e um cavalo era uma Valquíria e sem dúvida que montaria como uma. Comecei a imaginar mil e uma coisas até que chegámos a sua casa.

Uma vivenda típica daquela zona com grades de ferro forjado dos finais do século XIX a proteger as janelas, azulejos art deco, uma porta única de entrada com um vitral fabuloso na bandeira, que mostrava uma cena de batalha entre harpias e homens. Sugestivo…

Levou-me para o seu quarto e pediu-me para esperar. A janela, ampla dava para as traseiras onde se via um jardim de buxo com aqueles desenhos espiralados típicos que só se conseguem fazer com este tipo de sebe, aliás quem viu um viu todos. Na parede do lado direito uma grande estante de mogno castanho mimetizava tomos castanhos de variadíssimos autores.

Comecei a percorre com o olhar os títulos, para perceber qual seria o Arché da rapariga. Tulcídides, Júlio César, S. Tomás de Aquino, S. Bento, Dante Aghlieri, Petrarca, Dumas, Salgari, Eça… e tantos mais que fiquei boquiaberto. Folheei os mais sonantes e vi uma série de anotações em vários tipos de caligrafia e descobri que pelo menos três pessoas haviam lido a maior parte dos livros. Pela data cheguei à conclusão que a minha recém desconhecida amiga tomava o nome de Jocasta. Nem de propósito caros amigos.

“Estou a ver que já descobriste a surpresa… mas vamos ver de que surpresa gostas mais”. Estava de roupão e com o cabelo preto preso à amazona. Aproximou-se e beijou-me e o meu corpo todo respondeu àquele toque. Começamos a tirar a roupa e com olhos delirantes descobri que ela cobrira todo o corpo com uma camada de latéx que a tornava ainda mais sensual do que já me parecia.

Ao passar as mãos pelo seu corpo descobri algo estranho, que não tinha o seio esquerdo como as amazonas que o cortavam para melhor poder atirar com o arco. Fiquei doido e tive a melhor tarde e noite e tarde e noite outra vez que já tive na minha vida. De vez em quando nos momentos de descanso a minha Valquíria dizia-me ao ouvido “Tu és o homem mais sábio que conheço em todos os campos” ao que eu lhe respondia “Enganaste-me bem com aquela conversa dos livros, e eu a pensar que te estava a ensinar alguma coisa…”.

Não quis saber porque não tinha seio, resolvi arquivar isso na minha mente como uma coincidência para fortalecer a minha fantasia Wagneriana.

“Como sempre excedeste-te! Não sabes escrever pouco? É sempre a mesma merda, preocupas-te demais com os pormenores e com os preliminares.”

“Deixa estar, se assim não fosse não era ele. É a puta da mania de que escreve numa revista, mas bem vistas as coisas só lhe fica bem.”

Tântalo saiu como era costume em defesa do ataque de Minotauro que tinha que meter a sua colherada crítica.

“Gostei muito daquele trocadilho entre o Cérbero e o cérebro. Achei de uma qualidade a toda a prova. Como raio é que te foste lembrar disso?”

“Pois é, isto não é para todos, isto de ser bom tem que se lhe diga!”

Liga das Quecas Extraordinárias XIV

“Estou a ver que tem também uma visão muito crítica das leituras que faz. Gosto de homens assim, críticos e com ideias próprias. Pensei que tinha lido muito, mas pela amostra, estou a ver que ao meu lado você é a biblioteca de Alexandria e eu uma simples alfarrabista de rua” é escusado dizer que me babei por dentro, afinal que melhor elogio podia ter do que um à minha cultura “mas diga-me, gostava de ler um livro de fantasia relativo à mitologia nórdica, o que me aconselha?” senti-me poderoso, como é óbvio. O meu cavalo de Tróia entrara em grande estilo dentro da sua cidade e os meus soldados estavam já com o nervoso miudinho para fazer o saque.

“Sobre mitologia nórdica, confesso que não lhe posso indicar nada de especial” disse com humildade disfarçada, para não parecer muito seguro de mim e não afastar a caça “mas em contrapartida posso-lhe dizer que um senhor chamado John Ronald Reuel Tolkien escreveu uma série de livros inspirados nessa Mitologia.

“O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis”, um livro só e não três livros como muitos pensam, ou o “Silmarillion”, a bíblia que explica o Génesis de um fantástico mundo, criado de raiz, com língua, mitos e geografia próprios, tudo inventado a partir dessa interessante história sobre-humana que é o panteão de Odin e seus congéneres. Tolkien leu na língua original as sagas nórdicas e a partir daí criou uma alegoria do mundo industrializado contra a tradição, apoiado nas suas vivências nas trincheiras da primeira guerra mundial.

É interessante lê-lo à luz desses acontecimentos e tentar ver os paralelismos que existem. Dá também um alento para ler as mitologias nórdicas e ver o que é original, adaptado ou criado.”“Já deu para perceber que percebes muito de literatura e não és um leitor muito comum para a tua idade. Desculpa estar a tratar-te por tu mas temos os dois a mesma idade, mais coisa menos coisa. Não queres dar um salto até minha casa, tenho lá algo que vais gostar de ver.” Não me perguntou, ordenou.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XIII

“Como começar caros colegas? Reportar-me-ei aos acontecimentos do dia 22 de Outubro deste ano insuspeito.

Nesse dia saíra como já era costume para fazer a minha actualização mensal na biblioteca municipal e nas minhas livrarias de eleição. Na biblioteca fiz a resenha das novas publicações e nas livrarias fiz a recolha das publicações dos livros que iria ler nos próximos trinta dias.

Às vezes não é fácil escolher o que ler, principalmente quando a oferta é tanta. “Memorias de mis putas tristes”, “O velho e o mar”, “O Pêndulo de Foucault”, “Juliano”, “Os jardins de Luz”, “o Conde de Monte Cristo”, “A Voz dos Deuses”… cada um ao seu estilo chamava por mim e tornava cada vez mais difícil a decisão do que levar.

Ao meu lado uma rapariga de cabelos negros olhava de soslaio para a minha indecisão. Continuei a ler as anotações na contracapa dos volumes para ter alguma ajuda até que a rapariga, como a revelação da pitonisa de Delfos, me esclareceu.

“Umberto Eco é um óptimo autor, se bem que de vez em quando se torna muito denso.” Falava tão rápido que a frase lhe soou a “UmbertoEcoéumóptimoautorsebemquedevezemquandosetornamuitodenso".
“Desculpe menina, mas está a falar deste livro em particular ou dos outros títulos que existem na sua extensa bibliografia?”

“Estava-me a lembrar especificamente de um… “A ilha do dia antes.” Pensei que seria um teste à minha cultura e como sabem que não gosto de me ficar quando o tema é a minha cultura literária, senti aquilo como um desafio e resolvi entrar no jogo.

“Se acha que esse livro é denso é porque ainda não passou os olhos por este. Estava a pensar comprá-lo para o reler.
A primeira vez que passei os olhos por ele foi quando tinha dezasseis anos e confesso que muita coisa me passou ao lado, mas ao mesmo tempo atraiu-me para tudo que tivesse a ver com este autor. Este sim, é na realidade denso. Começa pela temática, que misturando Templários, Rosa-cruzes, sinarquias, satanismo e afins a torna numa obra per si densa e hermética. A forma como Eco brinca com a escrita e com as personagens e como introduz informação de várias áreas que vai cruzando, ainda complica mais a leitura e não há dúvida que o faz de forma magistral.”

“Muito bem… já me deixou com vontade de pegar nele e começar a ler. Li o nome da Rosa e a impressão que fiquei depois de ter lido a ilha foi que ele adensa muito a escrita por isso é que nunca mais peguei… num livro seu.

Mas tem aí um dos meus autores favoritos. Já leu “A Criação”?” Mais um teste. Estava mesmo tentado a dar-lhe uma lição de literatura. Senti-me como Édipo em frente à esfinge, com todas aquelas questões, mas isso excitava-me. O Cérbero é o maior dos órgãos sexuais e mulheres deste tipo despertam-me o desejo.

“Gostei, muito embora é uma perspectiva demasiado americanizada da cultura europeia. Gore Vidal é um bom crítico se bem que de vez em quando exagere. Não há dúvida que minimiza a cultura grega em relação às culturas do Médio e Extremo Oriente suas contemporâneas, como calara intenção de dizer que os europeus estariam mais bem servidos se estudassem melhor as filosofias orientais.Não discordo que a cultura de história europeia não dá atenção nenhuma a parte oriental da história universal, mas também não é assim tão grave para Vidal dizer que os gregos eram uma cambada de corruptos e homossexuais e que os orientalistas, esses sim eram porreiros. Há que haver um meio-termo.”

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XII

Minotauro entrou logo a matar, talvez como vingança por C.M. questionar o seu conhecimento sobre mitologia nórdica. "Desculpa lá mas achas que S. Macário é uma referência mitológica?"

"Não acho, tenho a certeza. É claro que é uma referência mitológica! Ou achas que o cristianismo por ser a religião dominante deste país e tentar calcar as outras religiões não deixa de ter a sua mitologia? Se a Mitologia é uma expressão de uma ideia, doutrina ou teoria filosófica sob forma imaginativa onde a fantasia sugere e simboliza a verdade que se pretende transmitir, porque raio é que o cristianismo não se enquadra aqui? É isento? É uma religião como outra qualquer!

Os santos não são mais que prometeus, que não tendo roubado o fogo dos deuses, agiram em consonância com os objectivos e ideais de um Deus parte de uma trindade copiada doutras mitologias. Aliás, o cristianismo não é mais do que uma reciclagem de mitos de outras religiões e correntes filosóficas anteriores. O dilúvio existe em muitas religiões... Os dez mandamentos estão implícitos em todas as teorias discursivas das várias correntes que expicam a realidade. São tudo metáforas.

É claro que o S. Macário esteve em cima de uma coluna tempos sem conta para se purificar, e por isso se tornou mártir entrando pela porta grande no panteão cristão. Sim porque o Deus castigador e vingativo só existe no cristianismo. É o supra-sumo mas mais valia ter os defeitos que os deuses das outras religiões tinham e ostentavam. Assim torna-se num Deus hipócrita, já que ninguém pode acreditar que um deus não tem defeitos.

E mais, digo-te mais, se Deus fez o homem à sua imagem, eu olho à minha volta e chego à conclusão que Ele não deve ser nada mais nada menos que barro misturado com terra, mais dia menos dia apodrece e parte!"

"Bem, escusas de ser tão agressivo. Aceito perfeitamente a tua explicação. Embora seja católico reconheço que a minha religião cometeu os seus erros mas como tu dizes, e muito bem, o cristianismo apoia-se em correntes anteriores. É acima de tudo um conjunto de regras de conduta. Não me faz prurido nenhum reconhecer isso, só queria saber a tua justificação para a história de S. Macário."

"Está dito, e muito bem dito," conciliou Narciso "vamos continuar e se tivermos tempo voltamos a este tema no final.
Acho que chegou a minha vez."

domingo, 28 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias XI

"Farrapos que do tecido vieste e pela reciclagem haveis de voltar ao tecido. Vou contar o que me aconteceu na noite de S. Macário, o estilita que passava a vida numa coluna a tentar perceber que raio é que ali estava a fazer, um pouco da mesma forma que Baudolino, no fim do livro, seu homónimo, fez, muito embora este joe estivesse à cata do dinheiro dos incautos que por ali transitavam.

Nessa noite saí, como é costume às quintas, à caça. Fui para aquela gafaria insuspeita que toma o nome de *******. Gafaria porque, como sabem, todas as gajas que não valem a ponta de um corno - desculpa a referência aos teus ornamentos Minotauro - as leprosas desta sociedade, vão lá parar. É certo e sabido que em altura de crise sexual, sem dúvida que esta é a melhor coutada da cidade.

Entrei como de costume já meio bêbado, porque não é nada barato um gajo emborrachar-se com os preços que são praticados, e impraticáveis para os nossos bolsos, neste antro.
Comecei com uma cerveja, virtuosa oferta de Ceres e comecei a prospectar aquele quadro que parecia pintado por Caravaggio nos seus melhores dias de putas e vinho. As bacantes estavam por todo o lado, e eu sentia-me Baco a escrever as linhas mestras desta partitura orgíaca. Clinicamente olhei e escolhi a vítima para essa noite. Ruiva, flamejante, transpirava tanto sexo que eu conseguia cheirar as suas feromonas a cinco metros de distância, pelo menos era o que o etilismo me deixava ver.

Tenho uma teoria acerca deste tipo de espaços de diversão nocturna. Todas as gajas com que entabulamos conversa são razoáveis, mas depois de as levarmos para a cama, no dia seguinte ao acordar, só nos apetece arrancar o braço, que lhe serve de almofada, à dentada. Acho que vi isto num filme, mas não interessa porque a mistura das bebidas com as luzes das dicotecas criam uma ilusão atraente e depois, no dia seguinte é o que se vê, vamos para a cama com Vênus e acordamos com a Medusa!

Eis pois que me decidi a seduzir esta Pandora e ver se lhe podia abrir a caixa... Fui ter com ela, e qual não foi o meu espanto quando cheguei perto dela, e fui assediado com violência tal, que até pensei que devia sair mais vezes à rua com o perfume que estava a usar.

De possível sedutor passei a seduzido, mas como o que é oferecido não deve ser recusado preguei-lhe um beijo de tirar o fôlego, e qual não foi o meu espanto, tirei-lho mesmo, de tal forma que a desgraçada caiu desamparada, desmaiada no meio do chão.

Acordei do estupor com uma voz masculina - Ah Campeão, puseste-a Knockout com um só beijo - fiquei corado e saí dali com ela ao colo em direcção ao hospital.

Adormeci na Cadeira ao lado da cama, e quando acordei, não precisei de roer o braço para me safar desta Medusa, já que este não lhe estava a servir de almofada. Que feia!!!
É a história da minha vida."

Liga das Quecas Extraordinárias X

Acabado o relato, Minotauro bebeu um gole da sua receita e esperou as reacções. após os comentários avulso acerca da validade da história, e fazendo-se a contabilidade das referências mitológicas, Narciso perguntou quem eram os anões de Asgard.
"Os ferreiros da mitologia nórdica. Por várias vezes aliaram-se a Loki, deus do caos e da loucura, mas segundo a lenda foram os artifíces das armas dos deuses, inclusive o martelo de Thor, Mjolnir."

"Isso não é muita banda desenhada na tua cabeça?" perguntou C.M., que de mitologia nórdica sabia o que tinha lido nas aventuras da Marvel.

"A mitologia a que te estás a referir é um bocado romanceada mas tem um fundo de verdade, aliás a única coisa que ainda não consegui tirar a limpo é uma coisa que tem a ver com a Espada de Surtur, um gigante daqueles a sério, correspondente aos titãs gregos, maléfico, mas isso fica para outra história. Porém a mitologia nórdica é extensa como todas aquelas que conheces, fundamentada e tão importante que J.R.R. Tolkien, que deves conhecer" ironizou, "estudou-a a fundo e toda a sua obra é inspirada nas histórias destas loiras divindades."

Narciso, como líder que era terminou a discussão e propôs que se passasse ao próximo relato.

Cloaca com o seu ar de cigano de Kusturica sacou dos seus manuscritos e com um esgar divertido aclarou a garganta, com uma tossidela seca de fumador e começou.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Inferno


Saiu da discoteca com a acidulência a queimar o estômago, os olhos a arder nas chamas do Inferno de Alighieri e respeitosamente amaldiçoou a sua sorte.

Olhou ao redor e viu toda a esterquície humana a esvair-se pela porta pútrida daquele antro de dinheiro mal gasto e álcool na demoníaca proporção.

Meteu-se num táxi e à medida que o seu condutor se lamuriava da crise instalada por todo o lado, que não me dá uma noite de trabalho em condições há muito tempo, conduziu a sua mente para pensamentos mais elevados, procurando encontrar o que tinha perdido no meio da música.

Os ouvidos zumbiam num síndrome de dependência síncopado e o pulso aumentava quando pensava no que tinha acabado de fazer. Saiu na lota e entrou no primeiro tasco aberto.

Pescadores de caras vincadas por rugas de suor e sal, comiam a bucha da noite, afastando assim o frio ao mesmo tempo que consolavam o estômago. As vozes grossas de muitos anos de mar, criavam um ambiente sónico que lhe embalava a mente.

Sorriu ao pensar que mais uma vez ia trabalhar sem dormir.

Liga das Quecas Extraordinárias IX

“É claro, caros confrades, não tenho que vos referir, que todo o meu ego, bem como outras partes do corpo, rejubilou de alegria. Fiquei ligeiramente preocupado, já que o seu companheiro se encontrava na mesma sala que nós, e para fazerem idéia do respeito que difundia, afirmo-vos com veracidade, que Polifemo ao seu lado sentir-se-ia um qualquer anão ao serviço do panteão de Asgard.

Naquele momento de mata ou morre, a única situação que me assomou a mente semi-entorpecida pelo álcool, foi o gigantesco talhante a desfazer-me as rótulas à cutelada, como se de uma vaca me tratasse. No entanto o desejo foi sempre maior que a prudência e propus àquela Circe de olhos verdes que se encontrasse comigo no jardim.
Garanto-vos, excelsos e devotos desta causa tão nobre, que fiquei siderado de agrado ao constatar que ela correspondera ao meu pedido.

Estava uma noite fantástica com a lua em quarto de crescente e pensei que nunca mais me iria esquecer do momento que passaria em tão devotada companhia. Segundo os cânones da sedução e da conquista, avancei primeiro e degustei a ambrósia dos seus lábios, fazendo com que gemesse de prazeer e remorso pela traição que estava a levar a cabo.

Entrados em jogos mais íntimos, começamos a ouvir ruídos que se assemelhavam aos nossos, e com prazer unimo-nos na sinfonia, que o casal de amantes que não viamos mas podiamos sentir, num recanto do jardim ali próximo cumpriam com deslavada paixão, idêntica à nossa.

Cansados e satisfeitos com o nosso pecado, levantamo-nos e digo-vos que o destino tem insuspeitos caminhos, e deparamo-nos com o casal que reflectia o mesmo pecado de satisfação e cansaço, Não eram nem mais nem menos que uma belissíma morena de olhos verdes acompanhada pelo amante do momento, o gigantesco talhante, namorado do prazer da minha noite.

Olharam-se primeiro espantados e depois divertidos, deram as mãos e afastaram-se, e eu com as rótulas a gargalhar de alívio encolhi os ombros e propus uma bebida à morena entretanto confusa com aquela situação de loucos."

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias VIII

Eram tiradas sortes para o primeiro relato a ser exposto, depois rodava à esquerda, sempre com solenidade, devendo cada um apresentar uma cópia em papel, manuscrita de preferência, par anexar à acta. Os Faustos indicaram que Minotauro seria o primeiro a expor.

“Cavalheiros desta mui nobre e sempre leal Liga: sem mais delongas, transmitir-vos-ei os acontecimentos que tornaram a noite de vinte e sete dos idos de Novembro, de um ano que não é para aqui chamado, num facto inultrapassável e acima de tudo digno de registo em tão ilustre panegírico alternativo a que pomposamente apelidamos de realidade.

Eis pois que, estando eu já cronologicamente exausto de seduzir, através de múltiplas e variadas formas a fêmea digna de um calendário Pirelli, comprometida de uma forma quase irreversível com um talhante, seu concubino de há longo tempo, e não vislumbrando forma do meu objectivo se concretizar, eis que a possuidora de toda a minha pulsão sexual, por um golpe inesperado do Destino, se embriaga.
Confidenciou-me ao ouvido que acima de todas as coisas, o que mais almejava nesse momento era devorar-me até ao tutano, nem que eu fosse uma pedra envolta em cueiros.”
Os oradores tinham que referir nas suas histórias situações de uma qualquer mitologia, certificando-as com bibliografia apropriada, se por um acaso não fossem do conhecimento comum.

Liga das Quecas Extraordinárias VII

O sigilo em torno das reuniões era total, embora por vezes tenham sido surpreendidos na sede por conhecidos de um ou outro, mas o vinho era a melhor desculpa para a presença dos cinco no mesmo sítio. As actas eram escritas à vez em toalhas de mesa, e guardadas num cofre portátil com combinação e chave, que desde sempre estivera à vista de todos na tasca de Anfitrião, que não sabia nem queria saber o que lá estava. Tinha consciência que era uma carolice dos rapazes que lhes reforçava a amizade e lhe preenchia as horas mortas da tarde e os bolsos com mais algum uma vez por mês.

O nome das envolvidas nas histórias nunca poderia ser referido, se bem que indirectamente havia algumas, como o Penedo de Tântalo, que era impossível esconder. Não eram permitidas descrições de actos sexuais ao pormenor, mas esta regra nem era muito difícil de cumprir, primeiro pela educação cuidada dos membros e depois porque não havia mulheres no grupo.

Os homens são naturalmente boca-de-incêndio, contam, falam e voltam a contar, com mulheres no grupo ou não, as suas aventuras sexuais. As mulheres por seu lado, escandalizam-se com a abertura dos homens em relação ao tema, mas quando estão acompanhadas só pleo seu sexo, chegam aos limites do pormenor, tanto é que, por vezes, os homens sentem-se por completo despidos pela melhor amiga da namorada com aquele olhar…”com que então perdeste cacete na noite de 23 de Novembro de 1933 por volta das 23:15!”

Liga das Quecas Extraordinárias VI

Narciso cumprimentou com alegria na voz e no coração, os amigos, e como era uso sentou-se no topo da mesa.

Anfitrião chegou com o seu copo e a multa. Nomeou-se o escriba da acta, e com solenidade sorrida, Narciso, declamou a fórmula de abertura.

“Aos doze dos idos de Dezembro de um ano que não é para aqui chamado, na sede deste incomum organismo, com a assistência etílica de Anfitrião e com as presenças dos ilustres membros Tântalo, Midas, Minotauro, Cloaca Massima, antes conhecido como Édipo, e eu próprio, Narciso, presidente desta pandilha de bêbados e putanheiros, declaro solenemente iniciada esta reunião da Liga das Quecas Extraordinárias. Que as putas e o vinho verde estejam convosco.”

Nos primeiros anos de faculdade o grupo, em conversa de ressaca, descobriu que cada um tinha a propensão especial para histórias de cama no mínimo rocambolescas. Numa tentativa de não as deixar escapar em qualquer tradição oral, resolveram criar reuniões mensais, para se rirem uns dos outros e passar para o papel as aventuras e desventuras de tão heterogéneo grupo.

Liga da Quecas Extraordinárias V

Em frente a Midas estava Minotauro, especialista em trincar mulheres comprometidas, era tão bom a fazê-lo que os cornos da mitológica criatura lhe subiram à cabeça, de forma que se empenhou ainda mais na tarefa.
Todos os homens que o conheciam com a namorada por perto coçavam acto contínuo a cabeça, já que Minotauro se gabava à boca cheia de caçar sempre a sua presa, só bastava tentar. O resto do grupo nunca percebeu muito bem como é que conseguia, já que não era nada de especial, mas o certo é conseguia sempre o que se propunha.
Para completar a equipa faltava só C.M., diminutivo de Cloaca Massima. No início da fraternidade tomou o nome de Édipo, porque pelo andar da carruagem até era capaz de saltar à espinha da própria mãe, mas depois, com o tempo, como ia para a cama com tudo o que lhe aparecia à frente, cagaram na mitologia e foi baptizado com o nome do maior esgoto de Roma antiga.
O seu lema era "com duas garrafas de vinho qualquer uma se torna numa bota da tropa, marcha".
Bem, só falta explicar a origem da alcunha Narciso... era tão vaidoso e egocêntrico que trocava a melhor das ninfas por uma Segóvia ao espelho.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias IV

Ao seu lado esquerdo estava Midas, que granjeara o nome por ter uma especial apetência pelo culto da imagem dos outros e por raparigas ainda a desabrochar. Note-se que não se metia com menores de dezoito anos, mas apanhava-as quando acabavam de perfazer esta etapa cronológica. Segundo palavras suas "eram mais apertadinhas e moldáveis". Por incrível que pareça, todas em que tocava, por muito pouco tempo que fosse, passavam de Gata Borralheira a princesa em três tempos. Nunca falhou uma que fosse, era o toque de Midas.

Alto, fisicamente irrepreensível, chamava a atenção a tudo o que fosse mulher, mas não era a todas que dava o privilégio de privar com ele, afinal, onde há fartura há sempre escolha.

Liga das Quecas Extraordinárias III

Tântalo, loiro, com o cabelo em desalinho, estava no momento a preparar o doutoramento num insuspeito tema que agora não vem ao caso. Ria com voz de tenor e olhos azul água. Era o mais novo do grupo, mas sem dúvida, o que melhor tirara proveito dos ensinamentos académicos.

Sempre cheio de ideias virtuosas, quando bebia deixava a imaginação cavalgar os devaneios do disparate, fazendo, no entanto, questão de tornar explícitas os mesmos. A sua inocência era uma capa para esconder os mais íntimos desejos que a sociedade proibia com mão de ferro, bem como a educação cuidada.

Ganhara o epíteto devido ao seu eterno caso amoroso. Rebolava a mesma namorada pela colina da vida acima há anos sem conta. Quando chegava a um certo ponto olhava para outra e lá lhe escapava o penedo por entre os dedos. O remorso fazia com que descesse a colina e voltasse a rebolar o batólito pela colina acima. Vezes sem conta acontecia, as escapadelas eram constantes, e o Penedo, assim chamava o grupo à eterna namorada, era uma apaixonada invencível, em linguagem de homem, crente.

Liga das Quecas Extraordinárias II

Cumprimentou Anfitrião, o dono da tasca, que com a sua penca proeminente reconhecia todos os bons clientes quando entravam na rua, e com simpatia fazia-os sentir em casa. Era um refúgio para estudantes com os seus preços sociais e arroz de feijão à terça-feira. Todas as faculdades da zona lhe conheciam o baixo preço e o cheiro a comida caseira que se
agarrava à roupa, ao corpo e à alma.

- Já cá estão os seus sócios, sorriu Anfitrião.
- Então mande para dentro o meu copo e a multa.

A multa era uma caneca de receita de vinho verde, feita com uvas que nunca viram arames, que era paga pelo último a chegar aos conciliábulos da primeira terça do mês, dia instituído das reuniões.

Escolheu a porta da esquerda, de batente a meio corpo, para a entrada em triunfo, muito de acordo com a sua personalidade exibicionista.

Encontrou-se na sala tão bem conhecida, onde inúmeras vezes matara a fome a crédito. Era um compartimento atípico das salas dos restaurantes e tascas da cidade. Não tinha televisão e em seu lugar autocolantes alusivos a tunas, associações académicas faculdades e afins, digladiando-se com fotografias crucificadas em placards de corticite, de convívios estudantis. Ao fundo, no canto, um aquário com um peixinho dourado, que se alimentava com os vapores da cozinha e as conversas díspares dos comensais.

E lá estavam os sócios.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias


Narciso caminhava a passos largos, e quem o visse trajado e com um sorriso nos lábios indagaria o motivo de tão expressiva alegria que se divertia a difundir via telemóvel, no seu inglês fluente, para um receptor que até ele mesmo desconhecia.


Tinha tomado com hábito ligar para o seu voice-mail e contar toda a parafernália de ideias que lhe assolavam a cabeça. Condensava-as e falava com o seu amigo imaginário, no fundo o seu alter-ego, e mais tarde ouvia-se e colhia ideias para uma nova sementeira de palavras dispersas na revista literária da faculdade.


No fundo não era mais que uma fraude, fingia que estava inscrito, e como nunca ninguém lhe tinha pedido credenciais, frequentava aulas, organismos académicos e festas estudantis de pleno direito, com o peito inchado de vaidade e os tomates mirrados de medo.

Entrou no tasco para o encontro mensal que costumava ter com os colegas e grandes amigos, partilhantes de ideologias, ideias e ideais, já desde o primeiro ano.


sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Haxixe IV

Quando se começa a escrever sobre um tema e se faz alguma investigação sobre este, descobrem-se coisas muito engraçadas, senão vejamos.

Na minha quest pelo haxixe, descobri que uma história narrada por Umberto Eco no Baudolino, é realmente fundada em factos reais e não uma delirante ideia que lhe surgiu numa noite de insónia descontrolada.
Assim foi com um gáudio fora do normal que descobri que a palavra “Assassino” deriva da palavra árabe “haššāšīn”, que se escreve desta forma حشّاشين, embora não interesse por aí além, e que significa numa tradução à letra, os comedores de haxixe. Lindo, não é?

Esta nem é a parte gira da história, porque este nome advém de uma seita religiosa fundada por um dos dois filhos, Nizar, de Hasan-Ibn Sabbah, entre 1090 e 1094. quanto a isto ninguém se entende muito bem, mas datas... é uma diferença de quatro anos, se fosse há cinquenta anos atrás quatro anos era muito, em novecentos e tal... em relação ao nome do pai também não se tem a certeza disso mas pode-se tentar esclarecer isto com mais exactidão no futuro.
O que interessa da historinha é que os membros da seita eram viciados em haxixe desde jovens, misturando o narcótico com mulheres bonitas, vinho e mel, eram convencidos que este cenário era uma aproximação ao paraíso muçulmano, e que se morressem a matar um inimigo de Alá, voltariam para lá instantaneamente. Não acredito muito na parte do vinho, afinal a religião proíbe-o.

Se isto não tem a ver com a Jihad, guerra santa ou na tradução literal luta, então já não percebo nada.

Hasan-Ibn Sabbah, era também conhecido como o “Velho da Montanha”, que é referido no Baudolino. Os alvos desta seita eram indiferenciados, tanto facções muçulmanas inimigas, como cristãos, os Cruzados. Aliás o território dos Hashshashin era perto do famoso Krak dos Cavaleiros, uma das mais belas fortificações do Médio-Oriente, pertença dos Cruzados.
Reza a lenda que os nossos amigos tiraram a tosse a Conrad de Montferrat, rei de Jerusalém, e que foram provavelmente contratados para dar o mesmo xarope a Ricardo Coração de Leão.
Em meados do século XIII deram um tiro no joelho, mataram Jigati, um dos filhos de Genghis Khan, e os Mongóis que não tinham o hábito de se ficarem, dizimaram quase todos os Hashshashin e destruíram as suas fortalezas. Correu mal.
Se quiserem saber mais façam como eu, procurem! Mas se calhar é interessante ver estes dois endereços.

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Haxixe III

Voltando a esta temática mas numa onda envolta em conteúdos de Semiótica, cabe-me agora definir a forma como se explora o haxixe pelos dois autores que referi em dois post com este mesmo título, nomeadamente Haxixe e Haxixe II.

Não é de todo estranho que esta substância que provoca o delírio, introspecção, até loucura, seja perfeitamente nomeada na obra de Alexandre Dumas. É explícito mas por que necessidade? Enquanto Eco se limita a chamar-lhe “mel verde”, Dumas dá ao boi o seu merecido e mundialmente conhecido nome.
Bem não é muito difícil de explicar se pensarmos que no século XIX o haxixe seria conhecido muito provavelmente por uma minoria, e ainda por cima intelectual. Poetas, prosadores, pintores, escultores, compunham uma elite que transmitia de certeza as suas novas descobertas, não só na sua arte mas também no resto, dentro deste círculo restrito.
É claro que Dumas necessitava de dar nome à substância.
Já Eco o faz de uma forma diferente. O seu romance é publicado na transição do século XX para o XXI, e sabe à partida que o seu leitor modelo de nível 1 tem na sua grande maioria este conceito na sua cultura. Ora bem... substância verde que provoca dependência, alucinações e pode ser comida à colherada? Cannabis? Cocaína? Heroína? Haxixe em Bruto!!!
Se o leitor modelo de nível 1 não o sabe, pelo menos desconfia e quando descobre de certeza que salta do banho a gritar Eureka pela casa fora. Não é difícil.

O que acontece é que Dumas tinha que dar um nome à substância, ou os seus leitores ficariam a pensar numa coisa verde e não teriam como nomeá-la, enquanto que Eco joga com o poder da informação da actualidade, dá pistas para toda a gente chegar ao nome. Qualquer procura na WEB acerca de Cannabis vai remeter para Haxixe e explicar que o composto mais puro é verde, a resina.
Mas fiquemos por aqui, por agora.

segunda-feira, 27 de setembro de 2004

Tecidos sexy?


Há tecidos que são naturalmente sexy...
A licra por exemplo, pela forma como se cola ao corpo e se torna viscosa ao toque faz-nos lembrar a textura de uma pele não natural mas muito próxima. É sexy instantaneamente.
Doutra forma o linho é daqueles tecidos que antes de se tocar na pessoa que o está a usar já estamos a antever a sensação de prazer táctil que experienciaremos. Este tecido é, de uma qualquer forma irreal que ainda não consegui perceber, semitransparente e ao toque reproduz aquilo que se imagina. É sexy por sugestão.
A ganga ao toque não é nada de especial, mas consegue ser muito sugestiva quando em contacto com outra ganga. É um tecido duro e áspero que em contacto com um similar provoca a ilusão de som, de electricidade estática. Todos os electrões se juntam numa harmonia de preliminares... É sexy por contacto.
Sugestivo, não?

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Raivoso

Saiu de casa vespertinamente, com atitudes algo raivosas. Tinha estado, em sonhos, a matutar naquelas pequenas coisas, que todas juntas formavam uma gigantesca bola de neve, prestes a derreter com o calor da sua raiva.
Desfizera a barba com raiva e sentiu o sangue a aquecer-lhe a cara. Cortara-se. Merda, ponto de exclamação. É sempre isto, por isso é que fazer este tipo de tarefa lhe provoca raiva. Devem ser poucas as pessoas que se escanhoam por prazer.
Tomou café do outro lado da rua. No Bela Cruz, é claro. Para poder olhar, com raiva incontida, aqueles snobs amorfos e clonados, que nem sequer sabem a que sabe um bom café. Senão não tomavam café precisa e religiosamente ali! É para se poderem mostrar.
Comprou O Público e, raivosamente metódico, fez as duas palavras cruzadas e saiu. Com raiva, lembrou-se que não tinha lido o jornal. Como de costume aliás. Cento e quarenta paus para fazer palavras cruzadas e ler o Calvin. Raivoso meteu-se no carro e dirigiu-se à reunião.
Lá estava ela à espera dele. Sempre com aquele sorriso trocista de quem diz num subtil piscar de olhos, quero-te mas não te vou dar esse gostinho. Mais uma betinha armada aos caganatos. É assim que eu quero que se diga! Estou-me a cagar para os cágados, muito sinceramente! Realmente!
Era isto todos os dias. Uma menina da “socialite” (e é assim que me apetece escrever!), muito bem vestida, diga-se, olhava-o de alto a baixo, tirava-lhe as medidas e escarnecia do seu desejo. Todo o santo dia dava de caras com esta senhora. Impressionantemente olhava para ela, corava e arrancava. Até esse dia nunca tinha tido coragem para lhe dirigir palavra. Mas nesse dia raivoso, inundado por sombras violeta, parou no semáforo... e foi ter com ela. Com a mesma raiva incontida do despertar.
Riu-se. Nervosamente. O volume das calças tornou-se visível. Deu meia volta e corado voltou para o carro. Monologou e convenceu o chumaço a desaparecer. Arremeteu segunda vez e raios partam esta merda toda, pensou. O raio dos telemóveis que vibram! A sua relação com aquelas maquinetas sempre fora muito problemática. Nem por uma vez aquela volatilidade infernal lhe dera uma boa nova, ou um momento de descanso. Sempre aquele toque irritante, e ele impotente, voluntariamente não conseguindo abafar aquele misto de som e sensação. A guerra tinha sido declarada e não havia avizinhar de armistício. Atirou o telemóvel para dentro do carro.
Entretanto a senhora ria-se à gargalhada de algo que nos está a passar ao lado. Um pensamento estúpido, mas lógico passa pela cabeça do raivoso. Está-se a rir de mim. De certezinha absoluta. Atacou a rua pela terceira vez, com todas aquelas vontades de adolescente a florescerem lenta e turbilhantemente, com a adrenalina a secar-lhe a boca e a colar-lhe a língua, como se tivesse lambido uma pauta de Vivaldi, com as rosas da “Primavera” a arranhar-lhe impiedosamente a garganta e as “Quatro Estações” a cilindrar-lhe o estômago, numa azia em sol sustenido.
Engolindo o medo, num lampejo de coragem disfarçada com uma boa dose de machismo, perguntou-lhe se estaria interessada num café mais para o fim da tarde, que o desculpasse pelo atrevimento, que ele não costumava ser assim e que se calhar a menina tinha namorado, ou pior, era casada, e que não tinha o direito de a estar a incomodar desta forma e... retorquiu-lhe com uma gargalhada bem disposta e tão genuína que parecia retirada de uma farsa. Teria muito prazer, mas... não tomava café. Ele gaguejou, engoliu em seco, e reflectiu-se no seu espelho interior de miséria, vergonha, humilhação...mas terei muito gosto em acompanha-lo com uma água, disse num sorriso encantador, próprio de um flautista de serpentes.
Desajeitadamente marcou para as seis e tropeçou atabalhoadamente numa boca de incêndio e na lembrança de se ter esquecido de perguntar o nome à desconhecida. Raivosamente maldisse-se. Pensou com raiva que não tinha sorte nenhuma. Que teria que namorar com ela, que seria o fim do mundo, quer mais tarde ou mais cedo tudo iria acabar e que iria voltar à sua vidinha raivosa de sempre. Pensou que poderia ter as suas mãos em cima daqueles seios rijos como limões tisnado s pelo sol do mundo. Aleluia, finalmente ia acabar o mês de provações.
O telemóvel começou a medodiar raivosamente um excerto da Carmina Burana, a música do Old Spice, o perfume que lhe lembrava o avô. Enquanto pensava nele procurou o telemóvel em desespero por baixo dos assentos. Encontrou-o e esqueceu-se dele, do avô. Do outro lado uma voz feminina, bem disposta por sinal, dizia qualquer coisa relativa a um café e uma água.
Reconciliou-se com a maquineta e assinou o armistício.

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Não sei que título dar a isto...II

Acordou nessa tarde com a cabeça fora do sítio. As remelas nos olhos mostraram-lhe, sem surpresas, que nessa noite chorara durante o sono. O karaoke da noite anterior fora óptimo, com uma mulata a aplaudir-lhe sedutoramente ao ouvido, a sua prestação. Educadamente agradeceu, e ao contrário do que era hábito nem troco lhe deu.
Exagerara no Martini e sentia o estômago a amaldiçoar o excesso. Levantou-se a custo, insultando-se de bêbado e alcoólico, tomou a porta à direita e entrou na casa de banho. Pôs a água a correr na banheira, foi buscar um cigarro e os documentos que andava a transcrever e sentou-se na marquise. Abriu uma janela e o ar fresco da manhã ajudou-o a corrigir quatro palavras que tiveram o condão de explicar ao texto como devia estruturar-se para fazer sentido. Ao olhar pela vidraça viu o sol a ser enganado por uma nuvem mais atrevida. Pensou no sonho estranho que tivera, e que se tornava recorrente nessa última semana. Escolheu um CD da secretária e melancolicamente sorriu, com a escolha involuntária. Estamos saudosos de algo? “The Cult”. Escolheu a faixa e pôs no repeat.
O vapor indicou-lhe que a água já estava à temperatura. Deixou-se envolver pela água e as recordações tocaram-lhe o coração. Abriu a água fria e acordou para o dia que se avizinhava.
Saiu de casa com a ideia fixa de terminar com aquele sonho recorrente que lhe atormentava a alma.
Meteu o carro à estrada e conduziu pela marginal à velocidade do seu pensamento conturbado.
-CONTINUA DEPOIS DO INTERVALO-

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Não sei que título dar a isto...

Acordou nessa manhã com uma sensação estranha, meio física, meio psicológica. Olhou para o lado e a cama vazia, já há tempo demais, provocou-lhe um arrepio na pele clara.
Levantou-se tomou a porta à esquerda e entrou na casa de banho, enquadrada pelo pijama masculino de tartan escocês. Rotinamente aninhou-se e ligou o rádio. Pôs um CD e arrependendo-se resolveu tomar um banho de nostalgia. Convidou Jeff Buckley e abriu a torneira. A água começou a correr e a percorrer-lhe o corpo como se fossem as mãos que tanto desejava. A sua imagem condensava-se no espelho e séries de imagens fotográficas percorreram-lhe a memória, desenterrando um passado feliz com um terminus brusco e doloroso.
As lágrimas misturaram-se numa parafernália agridoce, com a água que corria em pequenos feixes sobre o cabelo arruivado. Escorreram de mãos dadas, a doce e a salgada, em direcção a uma calma, que lhe devolvia o equilíbrio, que neste dia e nos últimos, estava cada vez mais forte e coeso, como se a corda bamba em que caminhava constantemente engrossasse à medida que a recordação ficava lá para trás, enterrada.
O toalhão turco secou-lhe as curvas do corpo, bem conservadas para quem estava no limiar dos trinta, e com um sorriso amargo afastou todas as lembranças do passado.
A indecisão sobre o que vestir ficou para trás 16 peças de roupa depois, e foi encontrar a mãe na cozinha com o pequeno almoço na mesa. Relatou-lhe o fluxo anormal de recordações, que lhe causava estranheza e um pouco de aflição.
A mãe era uma imagem, de puro brilho, fazendo lembrar com a sua boa disposição uma amora no início do Verão, avermelhada mas não madura, com muito para viver, saudando o mundo a cada dia como se fosse sempre resplandecente e feliz. Comentou então, fugazmente, que nas recordações deve dar-se importância às boas e reportar o rancor e a mágoa para as costas da vida, aprendendo, todavia, sempre com estas coisas más. Anos de amargura e pensamentos mesquinhos tornam a memória enrugada e mordaz para nós próprios.
Continuaram a conversa recordando as pequenas coisas boas que tinham alimentado óptimos momentos, naquele passado longínquo e tão próximo.
-CONTINUA NÃO SEI QUANDO-

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

C.O.R.O. - Conquistas Originais da Retina Ocular II

Fingir que se é estrangeiro é uma técnica muito fácil, basta ler o papelinho com um sotaque esquisito e não dizer mais nada a não ser consentir com gestos. Agora... conquistar uma estrangeira é obra, mas não é impossível. Aí vão as frases básicas:

- Inglês - Dú iú uona faque uíde mi?
- Francês - És se que boles te coxere abéque muá?
- Holandês - Bil iú noukene mite mi?

Se elas quiserem, querem, se não, não querem. Mas muito cuidado, como a mulher é um bicho estranho, nunca sabemos o que ela está a pensar. Quando diz não é sim e quando diz sim é porque é sim. Devido a estas premissas é que este método é infalível. É claro que se um brutamontes vos partir os dentinhos todos, é porque ela estava a dizer não, mas não se conseguia exprimir correctamente.

Se na abordagem começar a dar para o torto, retire mas com dignidade:

- Já te disseram que és bonita?
- Já.
- Ah, então enganaram-te!!

- Queres dançar comigo?
- Não!
- Então ir para a cama está fora de questão!?

- Mas eu tenho namorado!
- Então pode-se juntar a nós...

- Vou chamar o segurança!
- Quem o Pedro ou o João?

O Coro, esse grande animal das estepes africanas... Oops, não era isto que queria dizer. O Coro esse grande argumento das mentes viciosas e profundamente necessitadas de relações físicas, guiões intermináveis e multi-facetados dos teatros nocturnos e soturnos dos nossos ideais lúbricos. Libertador das nossas ambições mais secretas como: ai a Cindy Crawford; podias ser a minha almofada; a Supertaça Europeia para o Futebol Clube do Porto!
Usem e abusem dos Coros, façam reviver este bastião da masculinidade, lutem até à morte pelo estandarte do romantismo, juntem-se aos bombeiros e vão roçar mato para o monte, bebam água e corram como os cavalos pelas pradarias de arranha-céus da vossa imaginação!

O texto é da exclusiva responsabilidade do meu alter-ego louco, declino pois qualquer responsabilidade nas palavras que aqui estão escritas.

C.O.R.O. - Conquistas Originais da Retina Ocular

Numa sociedade onde o Imperialismo machista já não é o que era, tendo ido juntar-se à tradição no mesmo ermitério, em grande parte devido ao fantasma da emancipação feminina, resolvi eu, vosso modesto escravo, acrescentar uma pérolas de sabedoria a uma das mais antigas actividades do mundo: o Coro, ou Coiro, como preferirem. Com a esperança que estas parcas linhas promovam o renascer do romantismo, dos jantares à luza das velas, das serenatas, da tentativa de seduzir a mulher mais feia do mundo sob o efeito do álcool, aqui vai.

Em primeiro há que definir este acto. É mais que lógico que não estamos a falar de um conjunto de pessoas que se junta para cantar, nem de uma parte arquitectónica de uma igreja. O Coro é antes de mais sinónimo de sedução. É a tentativa de convencer uma pessoa do sexo oposto ou não, a ter qualquer tipo de relação connosco, seja uma noite de copos, um beijo com todos, umas pequenas explorações tácteis (leia-se marmelada, em vernáculo), ou mesmo deliciar a outra parte, com a nossa vida super emocionante de lambedor de selos nos Correios.

Passemos então ao que interessa, como se faz!?
Vá para casa, tome banho, faça a barba ou a depilação, compre roupa peça emprestada. Por favor não tente exercitar o Coro depois de ter estado a cozinhar Tripas à Moda do Porto. Não coma cebola, nem peixe e muito menos alho. Saia à rua, vire à direita ou à esquerda, e dirija-se ao território de caça mais próximo (discotecas, bares, arraiais, etc.).
Chegado lá instale-se confortavelmente no balcão com um cotovelo apoiado, um cigarro no canto da boca e uma cerveja na mão correspondente ao braço que não estiver apoiado no balcão.
Fixe uma miúda feia. O quê, não quer!? Para chegar às bonitas e boazonas tem que se trabalhar, ou acha que quando entra numa empresa se passa logo a director? Tem que se começar por paquete ou algo do género. Olhe lá. Já está? Olhe para ela como se estivesse cheio de sono, com os olhos semicerrados. Quando ela olhar para si, pisque-lhe o olho esquerdo, já que está do lado do coração (é mais romântico mas elas nunca reparam no pormenor).
Ela não está a olhar? Ainda não reparou em si, não obstante a poça de baba em que o empregado escorregou? Deixe cair o copo. Ela está a olhar (esta resulta sempre), pisque o olho, pisque! Ah! Já reparou em si, olhou outra vez e sorriu-lhe ao reparar na sua subtil piscadela, mostrando uma dentadura perfeita se fecharmos os olhos à falta dos dentes laterais, mas veja o lado positivo, é uma porta para a sua alma. Vá ter com ela e aborde-a de uma forma muito subtil. Escreva num papel as seguintes frases:

- Como te chamas?
- Posso oferecer-te uma bebida?
- O teu apartamento é longe daqui?
- O que diriam os teus pais se te vissem na cama comigo?
- Sabias que os escaravelhos do Nilo fazem bolinhas com merda?

A aparente complexificação das frases não é casual, mas propositada. Note como a sua inteligência e desinibição parece evoluir de frase para frase. Se não levar uma bofetada entre questões continue, se chegar à última sem conseguir o que queria, é o mesmo que dizer “volte à casa de partida sem receber os dois contos da praxe”.
Se lhe aparecer uma sabidolas, finja que é dinamarquês ou kuala-lumpurense, e mostre-lhe uma frese de que cada vez. Se no dia seguinte ela lhe surpreender uma frase em português, alegue que a transferência de fluídos foi tão intensa que aprendeu uma lígua nova por osmose. Este papel pode servir em caso de embaraço, de cábula, quando não se sabe o que dizer a seguir.

Para além destas frases básicas há o pormenor da conversa propriamente dita. Comece por dar um nome falso, de preferência Quim. Nel, Ambrósio, Epanimondas, para ela pensar que o tem na mão; pergunte o nome, o nº de telemóvel (só no fim); diga-lhe que é a primeira vez que faz aquilo; que é virgem (resulta bem no Algarve na época alta); que é gay (é estranho mas resulta); que é engenheiro, porque todas andam ao cheiro do €; que é filho do conde da Bracalândia; e fale na terceira pessoa às betinhas e tias.

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Haxixe II

«Todas as manhãs o eunuco tirava de um certo armário uns vasos de prata que continham uma pasta densa como o mel, mas de cor esverdeada, passava diante de cada um dos prisioneiros e nutria-o daquela substância. Eles saboreavam-na, e começavam a contar a si próprios e aos outros as delícias de que falava a lenda. [...] passavam o dia de olhos abertos, sorrindo felizes. Pela tardinha sentiam-se cansados. Começavam a rir-se, umas vezes baixinho, outras imoderadamente, e depois adormeciam.1
[...] creio que o mel verde faz ver o que alguém deseja bem do fundo do coração.»2


Agora é a vez do meu tão adorado Umberto Eco referir o haxixe. Este é um pequeno parágrafo que escolhi deste livro, mas as referências ao mel verde multiplicam-se. De facto, Baudolino, mentiroso compulsivo, com a ajuda dos amigos, todos drogados com o misterioso mel verde, inventam maravilhosos mundos, como só o haxixe consegue fazer, à colherada.

ECO, Umberto, Baudolino, Difel, Algés, 2002, p. 87.
Idem, p. 88.

Haxixe

«Ele levantou a tampa e viu uma pasta esverdeada semelhante a compota de angélica, mas que lhe era totalmente desconhecida.1
[...] Aquela conserva verde não é nada menos do que a ambrósia que a mítica Hebe servia à mesa de Júpiter. [...] prove isto e os limites da possibilidade desaparecerão. Os campos do espaço infinito abrem-se para si, caminha com o coração liberto, em direcção aos reinos ilimitados de devaneios livres. [...] Sem se curvar aos pés de Satanás, será o rei e o dono de todos os reinos da terra.2
[...] É haxixe, o mais puro e não adulterado haxixe de Alexandria, o haxixe de Abou-Gor, o célebre produtor, o único homem, o homem para quem deveria ser construído um palácio, com a inscrição destas palavras: um mundo agradecido ao negociante da felicidade.»3

É assim que Alexandre Dumas, um dos românticos do Século XIX francês, descreve o Haxixe. Não é do desconhecimento geral, que a escrita do século XIX está recheado de referências a estupefacientes, e que o ópio e o absinto puro, que é branco e espesso, e não verde como o que vemos hoje a ser servido em qualquer bar, faziam as delícias de qualquer boémio desta época. Desconhecido para mim era que o haxixe fizesse parte dos hábitos da sociedade da altura. Foi pois, a reler “O Conde de Monte Cristo” que me deparei com este facto e deixo-o ao vosso cuidado, para ficarmos com a certeza que esta droga que é fumada em grandes quantidades nos festivais de Verão, tem uma história certificada pela literatura.

1 DUMAS, Alexandre, O Conde de Monte Cristo, Vol. I, Colecção Geração Público, Público, Porto,2004, p. 385.
2 Idem, p. 386.
3 Idem, p. 387.

terça-feira, 24 de agosto de 2004

Traição do Destino IV

Perdido nestas contemplações, deparou-se com uma cena deveras curiosa. Um casal de namorados insultava-se em altos berros no meio da rua, chamando para si a atenção dos transeuntes. Repentinamente o rapaz irrompe pelo corredor dos autocarros a gritar “sempre foste uma grande puta”, e é pronta e violentamente abalroado pelo 78 que vinha a descer a alta velocidade em direcção ao Campo 24 de Agosto. Parou uns metros à frente, completamente inerte, como se não tivesse sentido o que acabara de acontecer. Os curiosos aproximaram-se para ver o espectáculo, neste caso a tragédia, notando da vidraça do táxi, a falta dos corifeus para lamentar o sucedido. Lamentando dele para ele o sucedido, reparou que afinal os havia. Uns consolavam a menina, que entretanto se prostrara para arrancar o último suspiro ao desgraçado, outros perguntavam “como se passou esta desgraça”, e concluiu que “afinal os gregos eram uns gajos do caraças, criaram estilos teatrais que não precisam ser encenados para funcionar”.
Reparou que a menina dizia as deixas da praxe, e por momentos frio e distante achou aquilo ridículo, e perante o pasmo de todos dirigiu-se ao corpo e deu-lhe um chuto para se certificar que aquela inércia não era fingida. Realmente depois daquele impacto o homem só podia estar vivo a beber cervejas na esplanada cheia de miúdas a comentar o acidente e a mandar as primeiras piadas a frio.
Recompondo a compostura, insistiu mentalmente com o trânsito para que se demorasse e não o fizesse chegar ao ninho da viúva negra, já que de certeza que a mulher ia descobrir a trama e o ia comer vivo. Imerso nestas confrontações internas, esbofeteou-se acordando do estupor. Tinha que enfrentar o touro pelos cornos. Ir rapidamente para casa e resolver a questão de uma vez por todas. Indicou ao taxista um caminho alternativo. Pela primeira vez aquele caminho que sempre lhe facilitara a vida, tornou-a mais difícil. Doeu-lhe o coração à medida que se aproximava do destino.
O taxista falava da esposa de um futebolista e das farras que este fazia em casa. Desatento a estas futilidades continuou a remoer a sua traição e o destino daí decorrente. A quebra do Continuum provocada pela sua atitude, ia reflectir-se na sua vida, e na de todos de forma irremediável. Chegou a casa. O arrumador pediu-lhe a “moedinha para a cerveja”, e sendo ignorado, respondeu um cabrão de ricochete, que numa outra altura teria um potente gancho de esquerda encravado no nariz. Mas o nosso herói não estava para isso. Preocupava-o mais a fera enjaulada no seu lar cor de rosa.
Meteu a chave na porta e reparou que não estava trancada, Ela estava em casa. Sentiu o odor familiar de truta assada com bacon a entrar-lhe pelas narinas, e pensou que não conseguiria saborear o repasto. Um odor adocicado e ferrugento invadiu-lhe os sentidos e a estranheza fê-lo correr para a cozinha. Entrou de rompante, escorregou num líquido vermelho e caiu de bruços sobre a mulher. Sentiu a falta dos corifeus, das deixas da praxe, dela e de tudo. Não sentiu falta da amante. Olhou em volta à procura do 78, e viu-o claramente. Um rolo da massa ensanguentado, que provavelmente iria ser usado nele se por acaso ela sonhasse...! Mas não sonhava... nunca mais sonharia.
As lágrimas caíram-lhe e o amor por ela voltou... tarde de mais!

Traição do Destino III

Com este pensamento fixo devaneou a sua mente através do que ele lhe poderia dizer acerca de tão obtuso caso. Conhecia histórias do seu grande amor por uma colega de curso, dos seus percursos boémios da Praia da Rocha, com festanças orgíacas de não mais acabar, convenientemente regadas como manda a lei, por bons copos de Cabeça de Burro, e Duas Quintas. Ouviu muitas vezes com interesse a sordidez de casos de professores de faculdade, perguntando-se, se alguma vez diversificaria os seus horizontes de uma forma tão pérfida, e simultaneamente aliciante, porque convenhamos, os homens sentem um je ne sai quois por este tipo de coisas. Muitas lágrimas mancharam a sua caríssima camisa Pierre Cardin, ao ouvir as mágoas inconfessadas aos comuns mortais deste brilhante homem, que tudo tinha, mas que estava amputado do amor por sua própria culpa.
Mais uma prova da inexistência de um Inferno telúrico, já que tudo o que fazemos de mal, tanto aos outros como a nós mesmos, sente-se na pele, mais dia menos dia, e todos os dias da nossa vida, quando confrontados com o erro cometido. Era o caso do Professor, que devido a uma infidelidade do passado, numa altura em que a cabeça tinha o centro de gravidade deslocado, perdera a mulher da vida dele, e até hoje chorava baba e ranho por isso. Um Inferno, digo eu!

Traição do Destino II

Chegou ao Porto depois de muitas voltas à cabeça estômago e outros órgãos menos importantes. Cuidadosamente, tentara eliminar todos os vestígios da traição, e reviu vezes sem conta todos os passos que tinha dado. Calmamente, tanto quanto lhe era possível, e com a minúcia de leitor de livros policiais, verificou, ao espelho, se não tinha marcas, lavou a cara, cheirou a roupa. Lá estava o cheiro dela quase imperceptível, mas passava. Rasgou os bilhetes, e deitou-os ao lixo. Reviu mais uma vez o que tinha feito e sentiu-se tão preparado como um condenado Guilhotina.
Pensou em todas as perguntas, situações imprevistas com que podia ser confrontado e inventou desculpas para elas. Pensou em todo o conhecimento e experiência própria, ou emprestada, que a sua esposa teria.
Chamou um táxi. Entrou e mandou-o parar no próximo quiosque aberto. Quando parou, saiu com um - Espere! - e foi socorrer-se de tabaco. Não havia dinheiro no Multibanco da estação, por isso não fumava à hora e meia.
Voltou a entrar no táxi e pensou na melhor pessoa para esvaziar aquela confusão que lhe enchia o espírito. Sabia que um assunto destes devia ficar entre duas pessoas, mas isto queimava. Queimava-o por dentro ao ponto de necessitar urgentemente de alguém mais maduro, para como um farol o guiar, para porto seguro. Tirou duas passas no cigarro e enquanto observava a sua vida a desvanecer-se no fumo, encontrou o confidente certo.
- Estou sim?... Doutor? Sim sou eu! Está tudo bem consigo? Estava-lhe a telefonar para o convidar para comer uma francesinha! Amanhã à noite? Tudo bem, eu telefono-lhe! Adeus.
O Professor! Um senhor. Tinha sido seu professor em 1988, um ano antes de se casar. Conheceram-se nas aulas, jantaram várias vezes juntos, em convívios de professores e alunos, e mostrou-se um bom amigo desde o primeiro momento, não obstante o fosso de idades que os separava. Daí até o escolher para padrinho de curso, foi um tirinho. Também conhecia a sua esposa, que fora sua aluna, mas nunca houve muita convivência entre eles. Entretanto, muito lentamente, tinham perdido o contacto, cumprimentando-se à pressa quando se cruzavam, não sem um sorriso caloroso e a promessa de um jantar ementado a francesinha e cerveja.

Traição do Destino

Pensava num plano idóneo que não fizesse a mulher desconfiar do que se tinha passado nessas escassas horas, em que o seu espírito tinha estado preso àquela carne escaldante que se agarrava a ele em tentação sobre-humana. Conseguira evitar danos de maior, não por responsabilidade, mas por pânico e planos mal traçados, mas necessários. Foi aí que o pânico lhe voltou a toldar a razão. O telefone tocou. Mentiu atabalhoadamente à esposa, de acordo com o plano que tinha traçado, enquanto revia os horários dos comboios cuidadosamente, fazendo uma conexão válida entre linhas para encobrir a sua escapadela convincentemente.
Como um relâmpago tinha visitado aquela que agora, também na carne, era a sua amante. Estranho era que o choque e o bloqueio provocados pelo confronto, não lhe facilitaram a clareza de ideias e a frieza que lhe eram características.
Estava destroçado! Rezou para que o táxi se atrasasse, não chegasse a tempo, que houvesse filas intermináveis, enfim tudo que adiasse a sua chegada a casa. Também destroçado e desfeito, porque a vida que levara até ali era uma grande mentira. Uma capa que se detinha sobre ele e não lhe permitia respirar. A usual veia alegre e divertida estava soterrada por toneladas de convenções e aparências, que no entanto o tinham mantido iludido durante tanto tempo. Esta capa telúrica fora finalmente esburacada, pela vontade de correr atrás daquilo que lhe moía as entranhas lenta e dolorosamente.
A azia continuava a atacá-lo impiedosamente, o sentido de culpa engalfinhava-lhe as ideias e a vontade de ter cedido ao seu desejo e ao da amante fustigava-o por todos os lados.

sexta-feira, 13 de agosto de 2004

TLP VII

Olho agora para o casalinho. O Jack deixou-me assentar ideias. Rio-me com a cena. Ela levanta-se e vem na direcção da mesa dele. Ele fica branco, confundindo-se com a tela do projector que está por trás dele. Ela diz-lhe qualquer coisa, e ele, vendo uma rosa vermelha na mão dela, percebe que há uma terceira pessoa. O espanto volta a instalar-se, agora na face dela, olham para mim e eu, muito naturalmente, sorrio e pisco-lhes o olho. Sentam-se e começam a conversar com um sorriso nos lábios. Parecem parvinhos nervosos, mas que é que se há-de fazer? Três minutos depois, o barman, que me deu as rosas e me advertiu que aquilo não era uma florista, põe-me uma garrafa de Jack Daniel’s à frente com os cumprimentos do casalinho.
Sou mesmo podre, o que eu não faço por uma garrafa de bourbon.

TLP VI

- Quem é que o gajo pensa que é? Deve achar que é a merda do Caravaggio! Olha-me este agora a mandar rosas vermelhas. Daqui a pouco vem para aqui com uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe! Cá para mim é daqueles paneleiros que tem a mulher em casa, e anda para aqui no engate. Tenho a certeza que tem aliança.
- Já viste bem a idade dele? Tem para aí vinte e quatro anos... e coitado do moço, quem te diz que foi ele?
- Tenho a certeza que se não estiver anilhado, é porque tirou a aliança. Vocês vão ver a marca na pele. Deve ser burro que chegue, para se esquecer que o sol deixa marca. Não duvido.
- E como é que sabes isso? Andas muito bem informado, se calhar já fizeste o mesmo! Olha que isso ligado com aquela história do Brasil...
- Sabes que mais? Vou mijar!
Olho para a Sandra e agora é ela que está hipnotizada. Com as parvoíces do Rui, nem percebi que ela nem se dignou a abrir a boca. Acho que lhe bateu. Toco-lhe num braço e ela não tem reacção.
CONTINUA

TLP V

Calmamente e sem muito estrilho , volto-me para ver se realmente estou a ser observado. Sinto o olhar penetrante a despir-me mais uma vez. Tento sorrir mas fico gelado. Petrifico-me e sinto-me a ser banhado por nitrogénio líquido. Acho que se alguém me tocar, me vou partir em mil bocadinhos, como aquele do Exterminador Implacável II. Devia ter vergonha de sequer ter uma referência cultural destas na cabeça. Como diz um amigo meu, “o saber ocupa espaço”, e eu tenho tanta merda a boiar em forma de informação, que a minha cabeça já deve ser a porra da Cloaca Massima de Roma. Assim, sim, já gosto mais. Isto é uma referência cultural.
O empregado que me tem conspurcado o cartão com rabiscos, põe-me à frente uma cerveja e uma rosa vermelha. Diz-me em surdina que foi uma cliente que ofereceu. Fico parvo para a minha vida! O quê agora os papéis invertem-se? Olho para a mesa da jovem com a secreta esperança que tenha sido ela e não uma gorda qualquer, ou pior, a Tia da Mala. Raios! não consigo vê-la!
CONTINUA

TLP IV

Bem me parecia que havia marosca... Aquela morenaça que está lá ao fundo, está a olhar apara o meu amigo aqui em frente. Que se passa? Será que já se conhecem? Ele ainda não topou, mas quase de certeza que é isso. Olha, olha, já topou... Jovem! Hello! Um sorriso para a menina por favor. Fica-te bem. Não? Nada de sorrisos? É sempre a mesma coisa. Vê-se que a moça está interessada, e este camelo, como qualquer homem que se preze, consegue topar quando qualquer badalhoca está interessada, mas quando aparece uma com pinta, é claro que não. Até podia ser um comboio que ele não via na mesma. Chamo-lhe estúpido mentalmente e burra a ela. Deve ser daquelas que tem a mania que as mulheres é que devem ser abordadas pelos homens. Até acho que há um nome para isso... Românticas! Que raios, para que caralho é que as mulheres se emanciparam, alguém me explica? Se gostam de romantismo, os homens também! Esta monólogo está-me a dar cabo da cabeça.
- Dê-me mais um Jack Daniel’s, por favor.
CONTINUA

terça-feira, 3 de agosto de 2004

TLP III








- Não concordo. O Caravaggio era completamente doido. Um tipo que passava a vida enfiado nas tabernas com prostitutas e bêbados e só pintava quando precisava de dinheiro... acho que até chegou a estar preso...
- Mas dentro dessa loucura que até acho saudável, não podes deixar de concordar comigo, que o homem era genial. Já prestaste atenção às composições dele?
- Olha, e não é o que continuámos a fazer? Não continuámos nós metidos em antros de putas e bêbados? Como podemos recriminar um Caravaggio do século XVI que frequentava sítios desses, quando nós não fazemos melhor? Olha para aquela tia que ali está. Não achas que tem o seu quê de puta? Tenho a certeza absoluta que é o marido que lhe paga as contas todas, e que a senhora, a única coisa que faz , é ir às compras. É entrar em qualquer loja da Foz que vês uma igual a experimentar as roupinhas, e o maridinho, que a correr bem é só unicórnio, a passar o cheque para ela não lhe foder muito a cabeça. Assim ele tem a senhora em casa, amordaçada com artigos de luxo, e vai de férias para o Brasil, com amigos do mesmo calibre, para ir onde? Às putas!! Não somos nós uma cambada de bêbados saudáveis? Sistematicamente vamos a um bar e bebemos até nos acabar o dinheiro ou estarmos num estado em que o melhor é beber água. No entanto não produzimos o que o Caravaggio produziu, tenha sido preso ou não. Para além disso não podemos julgar à luz da nossa mentalidade uma sociedade de há 400 anos atrás. Os hábitos eram diferentes, o sistema era diferente e ele tinha a puta da mania que era diferente!
- Estamos muito críticos hoje...
- Lá está... sabem como é, tirem-me as pilhas.
- Mas porque é que passas a vida a falar mal das pessoas?
- O grande problema é que eu não faço isso. Achas que o que acabei de fazer é dizer mal das pessoas? Com um pouco de sorte até as estou a elogiar. Não sou o senhor da verdade mas também não sou burro nenhum. Pelo que tenho visto, setenta por cento das pessoas que estão neste bar têm qualquer coisa que se lhe diga. Olha, por falar nisso, o que é que este quer?
- Quem?
Quem faz esta pergunta é uma amiga minha, que veio jantar a minha casa com o meu namorado. É bonita, tem uns olhos lindíssimos e é muito charmosa. Tem um sorriso que é uma delícia, sendo muito expressiva devido à forma como usa as mãos para falar. O “Este” a quem o meu namorado se está a referir, é um rapaz moreno de grandes olhos castanhos que está especado a olhar para a Sandra. Coitado é mais um que caiu no feitiço dos seus olhos profundos. Aposto que o Rui se vai passar se ele continua a olhar daquela forma. Não é que tenha mal o moço estar a olhar, mas parece que está hipnotizado.
- Ainda bem que o gajo se foi, senão...
- É sempre a mesma coisa, é só garganta. O que é que lhe ias fazer?
- Perguntar se nunca tinha visto! Pelo amor de Deus, é sempre a mesma coisa quando saímos contigo. De vez em quando lá vem um parvinho que fica a olhar como se fosses a última mulher do mundo.
- Mas olha... este até é giro... e deixa ver... lá vai ele. Até tem um rabinho bem feito.
- Rabinho... nunca percebi porque raio é que vocês mulheres, dizem rabinho. Não percebo porque não dizem cú. Pronto, dizem tem um cú bem feito, ou não é assim que se chama ao fundo das costas? E quanto ao gajo, tenho a certeza que é mais um daqueles bêbados de que estávamos a falar. Vão ver que daqui a pouco anda por aí aos caídos. E não vai ser com água na mão de certeza, porque tem aspecto de a usar só para uso exterior.Deixo o Rui a falar com a Sandra e reparo que ela também não está a ouvir. Está a fingir que o ouve mas tem a cabeça noutro lugar.
CONTINUA