sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias IX

“É claro, caros confrades, não tenho que vos referir, que todo o meu ego, bem como outras partes do corpo, rejubilou de alegria. Fiquei ligeiramente preocupado, já que o seu companheiro se encontrava na mesma sala que nós, e para fazerem idéia do respeito que difundia, afirmo-vos com veracidade, que Polifemo ao seu lado sentir-se-ia um qualquer anão ao serviço do panteão de Asgard.

Naquele momento de mata ou morre, a única situação que me assomou a mente semi-entorpecida pelo álcool, foi o gigantesco talhante a desfazer-me as rótulas à cutelada, como se de uma vaca me tratasse. No entanto o desejo foi sempre maior que a prudência e propus àquela Circe de olhos verdes que se encontrasse comigo no jardim.
Garanto-vos, excelsos e devotos desta causa tão nobre, que fiquei siderado de agrado ao constatar que ela correspondera ao meu pedido.

Estava uma noite fantástica com a lua em quarto de crescente e pensei que nunca mais me iria esquecer do momento que passaria em tão devotada companhia. Segundo os cânones da sedução e da conquista, avancei primeiro e degustei a ambrósia dos seus lábios, fazendo com que gemesse de prazeer e remorso pela traição que estava a levar a cabo.

Entrados em jogos mais íntimos, começamos a ouvir ruídos que se assemelhavam aos nossos, e com prazer unimo-nos na sinfonia, que o casal de amantes que não viamos mas podiamos sentir, num recanto do jardim ali próximo cumpriam com deslavada paixão, idêntica à nossa.

Cansados e satisfeitos com o nosso pecado, levantamo-nos e digo-vos que o destino tem insuspeitos caminhos, e deparamo-nos com o casal que reflectia o mesmo pecado de satisfação e cansaço, Não eram nem mais nem menos que uma belissíma morena de olhos verdes acompanhada pelo amante do momento, o gigantesco talhante, namorado do prazer da minha noite.

Olharam-se primeiro espantados e depois divertidos, deram as mãos e afastaram-se, e eu com as rótulas a gargalhar de alívio encolhi os ombros e propus uma bebida à morena entretanto confusa com aquela situação de loucos."

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias VIII

Eram tiradas sortes para o primeiro relato a ser exposto, depois rodava à esquerda, sempre com solenidade, devendo cada um apresentar uma cópia em papel, manuscrita de preferência, par anexar à acta. Os Faustos indicaram que Minotauro seria o primeiro a expor.

“Cavalheiros desta mui nobre e sempre leal Liga: sem mais delongas, transmitir-vos-ei os acontecimentos que tornaram a noite de vinte e sete dos idos de Novembro, de um ano que não é para aqui chamado, num facto inultrapassável e acima de tudo digno de registo em tão ilustre panegírico alternativo a que pomposamente apelidamos de realidade.

Eis pois que, estando eu já cronologicamente exausto de seduzir, através de múltiplas e variadas formas a fêmea digna de um calendário Pirelli, comprometida de uma forma quase irreversível com um talhante, seu concubino de há longo tempo, e não vislumbrando forma do meu objectivo se concretizar, eis que a possuidora de toda a minha pulsão sexual, por um golpe inesperado do Destino, se embriaga.
Confidenciou-me ao ouvido que acima de todas as coisas, o que mais almejava nesse momento era devorar-me até ao tutano, nem que eu fosse uma pedra envolta em cueiros.”
Os oradores tinham que referir nas suas histórias situações de uma qualquer mitologia, certificando-as com bibliografia apropriada, se por um acaso não fossem do conhecimento comum.

Liga das Quecas Extraordinárias VII

O sigilo em torno das reuniões era total, embora por vezes tenham sido surpreendidos na sede por conhecidos de um ou outro, mas o vinho era a melhor desculpa para a presença dos cinco no mesmo sítio. As actas eram escritas à vez em toalhas de mesa, e guardadas num cofre portátil com combinação e chave, que desde sempre estivera à vista de todos na tasca de Anfitrião, que não sabia nem queria saber o que lá estava. Tinha consciência que era uma carolice dos rapazes que lhes reforçava a amizade e lhe preenchia as horas mortas da tarde e os bolsos com mais algum uma vez por mês.

O nome das envolvidas nas histórias nunca poderia ser referido, se bem que indirectamente havia algumas, como o Penedo de Tântalo, que era impossível esconder. Não eram permitidas descrições de actos sexuais ao pormenor, mas esta regra nem era muito difícil de cumprir, primeiro pela educação cuidada dos membros e depois porque não havia mulheres no grupo.

Os homens são naturalmente boca-de-incêndio, contam, falam e voltam a contar, com mulheres no grupo ou não, as suas aventuras sexuais. As mulheres por seu lado, escandalizam-se com a abertura dos homens em relação ao tema, mas quando estão acompanhadas só pleo seu sexo, chegam aos limites do pormenor, tanto é que, por vezes, os homens sentem-se por completo despidos pela melhor amiga da namorada com aquele olhar…”com que então perdeste cacete na noite de 23 de Novembro de 1933 por volta das 23:15!”

Liga das Quecas Extraordinárias VI

Narciso cumprimentou com alegria na voz e no coração, os amigos, e como era uso sentou-se no topo da mesa.

Anfitrião chegou com o seu copo e a multa. Nomeou-se o escriba da acta, e com solenidade sorrida, Narciso, declamou a fórmula de abertura.

“Aos doze dos idos de Dezembro de um ano que não é para aqui chamado, na sede deste incomum organismo, com a assistência etílica de Anfitrião e com as presenças dos ilustres membros Tântalo, Midas, Minotauro, Cloaca Massima, antes conhecido como Édipo, e eu próprio, Narciso, presidente desta pandilha de bêbados e putanheiros, declaro solenemente iniciada esta reunião da Liga das Quecas Extraordinárias. Que as putas e o vinho verde estejam convosco.”

Nos primeiros anos de faculdade o grupo, em conversa de ressaca, descobriu que cada um tinha a propensão especial para histórias de cama no mínimo rocambolescas. Numa tentativa de não as deixar escapar em qualquer tradição oral, resolveram criar reuniões mensais, para se rirem uns dos outros e passar para o papel as aventuras e desventuras de tão heterogéneo grupo.

Liga da Quecas Extraordinárias V

Em frente a Midas estava Minotauro, especialista em trincar mulheres comprometidas, era tão bom a fazê-lo que os cornos da mitológica criatura lhe subiram à cabeça, de forma que se empenhou ainda mais na tarefa.
Todos os homens que o conheciam com a namorada por perto coçavam acto contínuo a cabeça, já que Minotauro se gabava à boca cheia de caçar sempre a sua presa, só bastava tentar. O resto do grupo nunca percebeu muito bem como é que conseguia, já que não era nada de especial, mas o certo é conseguia sempre o que se propunha.
Para completar a equipa faltava só C.M., diminutivo de Cloaca Massima. No início da fraternidade tomou o nome de Édipo, porque pelo andar da carruagem até era capaz de saltar à espinha da própria mãe, mas depois, com o tempo, como ia para a cama com tudo o que lhe aparecia à frente, cagaram na mitologia e foi baptizado com o nome do maior esgoto de Roma antiga.
O seu lema era "com duas garrafas de vinho qualquer uma se torna numa bota da tropa, marcha".
Bem, só falta explicar a origem da alcunha Narciso... era tão vaidoso e egocêntrico que trocava a melhor das ninfas por uma Segóvia ao espelho.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias IV

Ao seu lado esquerdo estava Midas, que granjeara o nome por ter uma especial apetência pelo culto da imagem dos outros e por raparigas ainda a desabrochar. Note-se que não se metia com menores de dezoito anos, mas apanhava-as quando acabavam de perfazer esta etapa cronológica. Segundo palavras suas "eram mais apertadinhas e moldáveis". Por incrível que pareça, todas em que tocava, por muito pouco tempo que fosse, passavam de Gata Borralheira a princesa em três tempos. Nunca falhou uma que fosse, era o toque de Midas.

Alto, fisicamente irrepreensível, chamava a atenção a tudo o que fosse mulher, mas não era a todas que dava o privilégio de privar com ele, afinal, onde há fartura há sempre escolha.

Liga das Quecas Extraordinárias III

Tântalo, loiro, com o cabelo em desalinho, estava no momento a preparar o doutoramento num insuspeito tema que agora não vem ao caso. Ria com voz de tenor e olhos azul água. Era o mais novo do grupo, mas sem dúvida, o que melhor tirara proveito dos ensinamentos académicos.

Sempre cheio de ideias virtuosas, quando bebia deixava a imaginação cavalgar os devaneios do disparate, fazendo, no entanto, questão de tornar explícitas os mesmos. A sua inocência era uma capa para esconder os mais íntimos desejos que a sociedade proibia com mão de ferro, bem como a educação cuidada.

Ganhara o epíteto devido ao seu eterno caso amoroso. Rebolava a mesma namorada pela colina da vida acima há anos sem conta. Quando chegava a um certo ponto olhava para outra e lá lhe escapava o penedo por entre os dedos. O remorso fazia com que descesse a colina e voltasse a rebolar o batólito pela colina acima. Vezes sem conta acontecia, as escapadelas eram constantes, e o Penedo, assim chamava o grupo à eterna namorada, era uma apaixonada invencível, em linguagem de homem, crente.

Liga das Quecas Extraordinárias II

Cumprimentou Anfitrião, o dono da tasca, que com a sua penca proeminente reconhecia todos os bons clientes quando entravam na rua, e com simpatia fazia-os sentir em casa. Era um refúgio para estudantes com os seus preços sociais e arroz de feijão à terça-feira. Todas as faculdades da zona lhe conheciam o baixo preço e o cheiro a comida caseira que se
agarrava à roupa, ao corpo e à alma.

- Já cá estão os seus sócios, sorriu Anfitrião.
- Então mande para dentro o meu copo e a multa.

A multa era uma caneca de receita de vinho verde, feita com uvas que nunca viram arames, que era paga pelo último a chegar aos conciliábulos da primeira terça do mês, dia instituído das reuniões.

Escolheu a porta da esquerda, de batente a meio corpo, para a entrada em triunfo, muito de acordo com a sua personalidade exibicionista.

Encontrou-se na sala tão bem conhecida, onde inúmeras vezes matara a fome a crédito. Era um compartimento atípico das salas dos restaurantes e tascas da cidade. Não tinha televisão e em seu lugar autocolantes alusivos a tunas, associações académicas faculdades e afins, digladiando-se com fotografias crucificadas em placards de corticite, de convívios estudantis. Ao fundo, no canto, um aquário com um peixinho dourado, que se alimentava com os vapores da cozinha e as conversas díspares dos comensais.

E lá estavam os sócios.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Liga das Quecas Extraordinárias


Narciso caminhava a passos largos, e quem o visse trajado e com um sorriso nos lábios indagaria o motivo de tão expressiva alegria que se divertia a difundir via telemóvel, no seu inglês fluente, para um receptor que até ele mesmo desconhecia.


Tinha tomado com hábito ligar para o seu voice-mail e contar toda a parafernália de ideias que lhe assolavam a cabeça. Condensava-as e falava com o seu amigo imaginário, no fundo o seu alter-ego, e mais tarde ouvia-se e colhia ideias para uma nova sementeira de palavras dispersas na revista literária da faculdade.


No fundo não era mais que uma fraude, fingia que estava inscrito, e como nunca ninguém lhe tinha pedido credenciais, frequentava aulas, organismos académicos e festas estudantis de pleno direito, com o peito inchado de vaidade e os tomates mirrados de medo.

Entrou no tasco para o encontro mensal que costumava ter com os colegas e grandes amigos, partilhantes de ideologias, ideias e ideais, já desde o primeiro ano.


sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Haxixe IV

Quando se começa a escrever sobre um tema e se faz alguma investigação sobre este, descobrem-se coisas muito engraçadas, senão vejamos.

Na minha quest pelo haxixe, descobri que uma história narrada por Umberto Eco no Baudolino, é realmente fundada em factos reais e não uma delirante ideia que lhe surgiu numa noite de insónia descontrolada.
Assim foi com um gáudio fora do normal que descobri que a palavra “Assassino” deriva da palavra árabe “haššāšīn”, que se escreve desta forma حشّاشين, embora não interesse por aí além, e que significa numa tradução à letra, os comedores de haxixe. Lindo, não é?

Esta nem é a parte gira da história, porque este nome advém de uma seita religiosa fundada por um dos dois filhos, Nizar, de Hasan-Ibn Sabbah, entre 1090 e 1094. quanto a isto ninguém se entende muito bem, mas datas... é uma diferença de quatro anos, se fosse há cinquenta anos atrás quatro anos era muito, em novecentos e tal... em relação ao nome do pai também não se tem a certeza disso mas pode-se tentar esclarecer isto com mais exactidão no futuro.
O que interessa da historinha é que os membros da seita eram viciados em haxixe desde jovens, misturando o narcótico com mulheres bonitas, vinho e mel, eram convencidos que este cenário era uma aproximação ao paraíso muçulmano, e que se morressem a matar um inimigo de Alá, voltariam para lá instantaneamente. Não acredito muito na parte do vinho, afinal a religião proíbe-o.

Se isto não tem a ver com a Jihad, guerra santa ou na tradução literal luta, então já não percebo nada.

Hasan-Ibn Sabbah, era também conhecido como o “Velho da Montanha”, que é referido no Baudolino. Os alvos desta seita eram indiferenciados, tanto facções muçulmanas inimigas, como cristãos, os Cruzados. Aliás o território dos Hashshashin era perto do famoso Krak dos Cavaleiros, uma das mais belas fortificações do Médio-Oriente, pertença dos Cruzados.
Reza a lenda que os nossos amigos tiraram a tosse a Conrad de Montferrat, rei de Jerusalém, e que foram provavelmente contratados para dar o mesmo xarope a Ricardo Coração de Leão.
Em meados do século XIII deram um tiro no joelho, mataram Jigati, um dos filhos de Genghis Khan, e os Mongóis que não tinham o hábito de se ficarem, dizimaram quase todos os Hashshashin e destruíram as suas fortalezas. Correu mal.
Se quiserem saber mais façam como eu, procurem! Mas se calhar é interessante ver estes dois endereços.

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Haxixe III

Voltando a esta temática mas numa onda envolta em conteúdos de Semiótica, cabe-me agora definir a forma como se explora o haxixe pelos dois autores que referi em dois post com este mesmo título, nomeadamente Haxixe e Haxixe II.

Não é de todo estranho que esta substância que provoca o delírio, introspecção, até loucura, seja perfeitamente nomeada na obra de Alexandre Dumas. É explícito mas por que necessidade? Enquanto Eco se limita a chamar-lhe “mel verde”, Dumas dá ao boi o seu merecido e mundialmente conhecido nome.
Bem não é muito difícil de explicar se pensarmos que no século XIX o haxixe seria conhecido muito provavelmente por uma minoria, e ainda por cima intelectual. Poetas, prosadores, pintores, escultores, compunham uma elite que transmitia de certeza as suas novas descobertas, não só na sua arte mas também no resto, dentro deste círculo restrito.
É claro que Dumas necessitava de dar nome à substância.
Já Eco o faz de uma forma diferente. O seu romance é publicado na transição do século XX para o XXI, e sabe à partida que o seu leitor modelo de nível 1 tem na sua grande maioria este conceito na sua cultura. Ora bem... substância verde que provoca dependência, alucinações e pode ser comida à colherada? Cannabis? Cocaína? Heroína? Haxixe em Bruto!!!
Se o leitor modelo de nível 1 não o sabe, pelo menos desconfia e quando descobre de certeza que salta do banho a gritar Eureka pela casa fora. Não é difícil.

O que acontece é que Dumas tinha que dar um nome à substância, ou os seus leitores ficariam a pensar numa coisa verde e não teriam como nomeá-la, enquanto que Eco joga com o poder da informação da actualidade, dá pistas para toda a gente chegar ao nome. Qualquer procura na WEB acerca de Cannabis vai remeter para Haxixe e explicar que o composto mais puro é verde, a resina.
Mas fiquemos por aqui, por agora.

segunda-feira, 27 de setembro de 2004

Tecidos sexy?


Há tecidos que são naturalmente sexy...
A licra por exemplo, pela forma como se cola ao corpo e se torna viscosa ao toque faz-nos lembrar a textura de uma pele não natural mas muito próxima. É sexy instantaneamente.
Doutra forma o linho é daqueles tecidos que antes de se tocar na pessoa que o está a usar já estamos a antever a sensação de prazer táctil que experienciaremos. Este tecido é, de uma qualquer forma irreal que ainda não consegui perceber, semitransparente e ao toque reproduz aquilo que se imagina. É sexy por sugestão.
A ganga ao toque não é nada de especial, mas consegue ser muito sugestiva quando em contacto com outra ganga. É um tecido duro e áspero que em contacto com um similar provoca a ilusão de som, de electricidade estática. Todos os electrões se juntam numa harmonia de preliminares... É sexy por contacto.
Sugestivo, não?

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Raivoso

Saiu de casa vespertinamente, com atitudes algo raivosas. Tinha estado, em sonhos, a matutar naquelas pequenas coisas, que todas juntas formavam uma gigantesca bola de neve, prestes a derreter com o calor da sua raiva.
Desfizera a barba com raiva e sentiu o sangue a aquecer-lhe a cara. Cortara-se. Merda, ponto de exclamação. É sempre isto, por isso é que fazer este tipo de tarefa lhe provoca raiva. Devem ser poucas as pessoas que se escanhoam por prazer.
Tomou café do outro lado da rua. No Bela Cruz, é claro. Para poder olhar, com raiva incontida, aqueles snobs amorfos e clonados, que nem sequer sabem a que sabe um bom café. Senão não tomavam café precisa e religiosamente ali! É para se poderem mostrar.
Comprou O Público e, raivosamente metódico, fez as duas palavras cruzadas e saiu. Com raiva, lembrou-se que não tinha lido o jornal. Como de costume aliás. Cento e quarenta paus para fazer palavras cruzadas e ler o Calvin. Raivoso meteu-se no carro e dirigiu-se à reunião.
Lá estava ela à espera dele. Sempre com aquele sorriso trocista de quem diz num subtil piscar de olhos, quero-te mas não te vou dar esse gostinho. Mais uma betinha armada aos caganatos. É assim que eu quero que se diga! Estou-me a cagar para os cágados, muito sinceramente! Realmente!
Era isto todos os dias. Uma menina da “socialite” (e é assim que me apetece escrever!), muito bem vestida, diga-se, olhava-o de alto a baixo, tirava-lhe as medidas e escarnecia do seu desejo. Todo o santo dia dava de caras com esta senhora. Impressionantemente olhava para ela, corava e arrancava. Até esse dia nunca tinha tido coragem para lhe dirigir palavra. Mas nesse dia raivoso, inundado por sombras violeta, parou no semáforo... e foi ter com ela. Com a mesma raiva incontida do despertar.
Riu-se. Nervosamente. O volume das calças tornou-se visível. Deu meia volta e corado voltou para o carro. Monologou e convenceu o chumaço a desaparecer. Arremeteu segunda vez e raios partam esta merda toda, pensou. O raio dos telemóveis que vibram! A sua relação com aquelas maquinetas sempre fora muito problemática. Nem por uma vez aquela volatilidade infernal lhe dera uma boa nova, ou um momento de descanso. Sempre aquele toque irritante, e ele impotente, voluntariamente não conseguindo abafar aquele misto de som e sensação. A guerra tinha sido declarada e não havia avizinhar de armistício. Atirou o telemóvel para dentro do carro.
Entretanto a senhora ria-se à gargalhada de algo que nos está a passar ao lado. Um pensamento estúpido, mas lógico passa pela cabeça do raivoso. Está-se a rir de mim. De certezinha absoluta. Atacou a rua pela terceira vez, com todas aquelas vontades de adolescente a florescerem lenta e turbilhantemente, com a adrenalina a secar-lhe a boca e a colar-lhe a língua, como se tivesse lambido uma pauta de Vivaldi, com as rosas da “Primavera” a arranhar-lhe impiedosamente a garganta e as “Quatro Estações” a cilindrar-lhe o estômago, numa azia em sol sustenido.
Engolindo o medo, num lampejo de coragem disfarçada com uma boa dose de machismo, perguntou-lhe se estaria interessada num café mais para o fim da tarde, que o desculpasse pelo atrevimento, que ele não costumava ser assim e que se calhar a menina tinha namorado, ou pior, era casada, e que não tinha o direito de a estar a incomodar desta forma e... retorquiu-lhe com uma gargalhada bem disposta e tão genuína que parecia retirada de uma farsa. Teria muito prazer, mas... não tomava café. Ele gaguejou, engoliu em seco, e reflectiu-se no seu espelho interior de miséria, vergonha, humilhação...mas terei muito gosto em acompanha-lo com uma água, disse num sorriso encantador, próprio de um flautista de serpentes.
Desajeitadamente marcou para as seis e tropeçou atabalhoadamente numa boca de incêndio e na lembrança de se ter esquecido de perguntar o nome à desconhecida. Raivosamente maldisse-se. Pensou com raiva que não tinha sorte nenhuma. Que teria que namorar com ela, que seria o fim do mundo, quer mais tarde ou mais cedo tudo iria acabar e que iria voltar à sua vidinha raivosa de sempre. Pensou que poderia ter as suas mãos em cima daqueles seios rijos como limões tisnado s pelo sol do mundo. Aleluia, finalmente ia acabar o mês de provações.
O telemóvel começou a medodiar raivosamente um excerto da Carmina Burana, a música do Old Spice, o perfume que lhe lembrava o avô. Enquanto pensava nele procurou o telemóvel em desespero por baixo dos assentos. Encontrou-o e esqueceu-se dele, do avô. Do outro lado uma voz feminina, bem disposta por sinal, dizia qualquer coisa relativa a um café e uma água.
Reconciliou-se com a maquineta e assinou o armistício.

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Não sei que título dar a isto...II

Acordou nessa tarde com a cabeça fora do sítio. As remelas nos olhos mostraram-lhe, sem surpresas, que nessa noite chorara durante o sono. O karaoke da noite anterior fora óptimo, com uma mulata a aplaudir-lhe sedutoramente ao ouvido, a sua prestação. Educadamente agradeceu, e ao contrário do que era hábito nem troco lhe deu.
Exagerara no Martini e sentia o estômago a amaldiçoar o excesso. Levantou-se a custo, insultando-se de bêbado e alcoólico, tomou a porta à direita e entrou na casa de banho. Pôs a água a correr na banheira, foi buscar um cigarro e os documentos que andava a transcrever e sentou-se na marquise. Abriu uma janela e o ar fresco da manhã ajudou-o a corrigir quatro palavras que tiveram o condão de explicar ao texto como devia estruturar-se para fazer sentido. Ao olhar pela vidraça viu o sol a ser enganado por uma nuvem mais atrevida. Pensou no sonho estranho que tivera, e que se tornava recorrente nessa última semana. Escolheu um CD da secretária e melancolicamente sorriu, com a escolha involuntária. Estamos saudosos de algo? “The Cult”. Escolheu a faixa e pôs no repeat.
O vapor indicou-lhe que a água já estava à temperatura. Deixou-se envolver pela água e as recordações tocaram-lhe o coração. Abriu a água fria e acordou para o dia que se avizinhava.
Saiu de casa com a ideia fixa de terminar com aquele sonho recorrente que lhe atormentava a alma.
Meteu o carro à estrada e conduziu pela marginal à velocidade do seu pensamento conturbado.
-CONTINUA DEPOIS DO INTERVALO-

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Não sei que título dar a isto...

Acordou nessa manhã com uma sensação estranha, meio física, meio psicológica. Olhou para o lado e a cama vazia, já há tempo demais, provocou-lhe um arrepio na pele clara.
Levantou-se tomou a porta à esquerda e entrou na casa de banho, enquadrada pelo pijama masculino de tartan escocês. Rotinamente aninhou-se e ligou o rádio. Pôs um CD e arrependendo-se resolveu tomar um banho de nostalgia. Convidou Jeff Buckley e abriu a torneira. A água começou a correr e a percorrer-lhe o corpo como se fossem as mãos que tanto desejava. A sua imagem condensava-se no espelho e séries de imagens fotográficas percorreram-lhe a memória, desenterrando um passado feliz com um terminus brusco e doloroso.
As lágrimas misturaram-se numa parafernália agridoce, com a água que corria em pequenos feixes sobre o cabelo arruivado. Escorreram de mãos dadas, a doce e a salgada, em direcção a uma calma, que lhe devolvia o equilíbrio, que neste dia e nos últimos, estava cada vez mais forte e coeso, como se a corda bamba em que caminhava constantemente engrossasse à medida que a recordação ficava lá para trás, enterrada.
O toalhão turco secou-lhe as curvas do corpo, bem conservadas para quem estava no limiar dos trinta, e com um sorriso amargo afastou todas as lembranças do passado.
A indecisão sobre o que vestir ficou para trás 16 peças de roupa depois, e foi encontrar a mãe na cozinha com o pequeno almoço na mesa. Relatou-lhe o fluxo anormal de recordações, que lhe causava estranheza e um pouco de aflição.
A mãe era uma imagem, de puro brilho, fazendo lembrar com a sua boa disposição uma amora no início do Verão, avermelhada mas não madura, com muito para viver, saudando o mundo a cada dia como se fosse sempre resplandecente e feliz. Comentou então, fugazmente, que nas recordações deve dar-se importância às boas e reportar o rancor e a mágoa para as costas da vida, aprendendo, todavia, sempre com estas coisas más. Anos de amargura e pensamentos mesquinhos tornam a memória enrugada e mordaz para nós próprios.
Continuaram a conversa recordando as pequenas coisas boas que tinham alimentado óptimos momentos, naquele passado longínquo e tão próximo.
-CONTINUA NÃO SEI QUANDO-

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

C.O.R.O. - Conquistas Originais da Retina Ocular II

Fingir que se é estrangeiro é uma técnica muito fácil, basta ler o papelinho com um sotaque esquisito e não dizer mais nada a não ser consentir com gestos. Agora... conquistar uma estrangeira é obra, mas não é impossível. Aí vão as frases básicas:

- Inglês - Dú iú uona faque uíde mi?
- Francês - És se que boles te coxere abéque muá?
- Holandês - Bil iú noukene mite mi?

Se elas quiserem, querem, se não, não querem. Mas muito cuidado, como a mulher é um bicho estranho, nunca sabemos o que ela está a pensar. Quando diz não é sim e quando diz sim é porque é sim. Devido a estas premissas é que este método é infalível. É claro que se um brutamontes vos partir os dentinhos todos, é porque ela estava a dizer não, mas não se conseguia exprimir correctamente.

Se na abordagem começar a dar para o torto, retire mas com dignidade:

- Já te disseram que és bonita?
- Já.
- Ah, então enganaram-te!!

- Queres dançar comigo?
- Não!
- Então ir para a cama está fora de questão!?

- Mas eu tenho namorado!
- Então pode-se juntar a nós...

- Vou chamar o segurança!
- Quem o Pedro ou o João?

O Coro, esse grande animal das estepes africanas... Oops, não era isto que queria dizer. O Coro esse grande argumento das mentes viciosas e profundamente necessitadas de relações físicas, guiões intermináveis e multi-facetados dos teatros nocturnos e soturnos dos nossos ideais lúbricos. Libertador das nossas ambições mais secretas como: ai a Cindy Crawford; podias ser a minha almofada; a Supertaça Europeia para o Futebol Clube do Porto!
Usem e abusem dos Coros, façam reviver este bastião da masculinidade, lutem até à morte pelo estandarte do romantismo, juntem-se aos bombeiros e vão roçar mato para o monte, bebam água e corram como os cavalos pelas pradarias de arranha-céus da vossa imaginação!

O texto é da exclusiva responsabilidade do meu alter-ego louco, declino pois qualquer responsabilidade nas palavras que aqui estão escritas.

C.O.R.O. - Conquistas Originais da Retina Ocular

Numa sociedade onde o Imperialismo machista já não é o que era, tendo ido juntar-se à tradição no mesmo ermitério, em grande parte devido ao fantasma da emancipação feminina, resolvi eu, vosso modesto escravo, acrescentar uma pérolas de sabedoria a uma das mais antigas actividades do mundo: o Coro, ou Coiro, como preferirem. Com a esperança que estas parcas linhas promovam o renascer do romantismo, dos jantares à luza das velas, das serenatas, da tentativa de seduzir a mulher mais feia do mundo sob o efeito do álcool, aqui vai.

Em primeiro há que definir este acto. É mais que lógico que não estamos a falar de um conjunto de pessoas que se junta para cantar, nem de uma parte arquitectónica de uma igreja. O Coro é antes de mais sinónimo de sedução. É a tentativa de convencer uma pessoa do sexo oposto ou não, a ter qualquer tipo de relação connosco, seja uma noite de copos, um beijo com todos, umas pequenas explorações tácteis (leia-se marmelada, em vernáculo), ou mesmo deliciar a outra parte, com a nossa vida super emocionante de lambedor de selos nos Correios.

Passemos então ao que interessa, como se faz!?
Vá para casa, tome banho, faça a barba ou a depilação, compre roupa peça emprestada. Por favor não tente exercitar o Coro depois de ter estado a cozinhar Tripas à Moda do Porto. Não coma cebola, nem peixe e muito menos alho. Saia à rua, vire à direita ou à esquerda, e dirija-se ao território de caça mais próximo (discotecas, bares, arraiais, etc.).
Chegado lá instale-se confortavelmente no balcão com um cotovelo apoiado, um cigarro no canto da boca e uma cerveja na mão correspondente ao braço que não estiver apoiado no balcão.
Fixe uma miúda feia. O quê, não quer!? Para chegar às bonitas e boazonas tem que se trabalhar, ou acha que quando entra numa empresa se passa logo a director? Tem que se começar por paquete ou algo do género. Olhe lá. Já está? Olhe para ela como se estivesse cheio de sono, com os olhos semicerrados. Quando ela olhar para si, pisque-lhe o olho esquerdo, já que está do lado do coração (é mais romântico mas elas nunca reparam no pormenor).
Ela não está a olhar? Ainda não reparou em si, não obstante a poça de baba em que o empregado escorregou? Deixe cair o copo. Ela está a olhar (esta resulta sempre), pisque o olho, pisque! Ah! Já reparou em si, olhou outra vez e sorriu-lhe ao reparar na sua subtil piscadela, mostrando uma dentadura perfeita se fecharmos os olhos à falta dos dentes laterais, mas veja o lado positivo, é uma porta para a sua alma. Vá ter com ela e aborde-a de uma forma muito subtil. Escreva num papel as seguintes frases:

- Como te chamas?
- Posso oferecer-te uma bebida?
- O teu apartamento é longe daqui?
- O que diriam os teus pais se te vissem na cama comigo?
- Sabias que os escaravelhos do Nilo fazem bolinhas com merda?

A aparente complexificação das frases não é casual, mas propositada. Note como a sua inteligência e desinibição parece evoluir de frase para frase. Se não levar uma bofetada entre questões continue, se chegar à última sem conseguir o que queria, é o mesmo que dizer “volte à casa de partida sem receber os dois contos da praxe”.
Se lhe aparecer uma sabidolas, finja que é dinamarquês ou kuala-lumpurense, e mostre-lhe uma frese de que cada vez. Se no dia seguinte ela lhe surpreender uma frase em português, alegue que a transferência de fluídos foi tão intensa que aprendeu uma lígua nova por osmose. Este papel pode servir em caso de embaraço, de cábula, quando não se sabe o que dizer a seguir.

Para além destas frases básicas há o pormenor da conversa propriamente dita. Comece por dar um nome falso, de preferência Quim. Nel, Ambrósio, Epanimondas, para ela pensar que o tem na mão; pergunte o nome, o nº de telemóvel (só no fim); diga-lhe que é a primeira vez que faz aquilo; que é virgem (resulta bem no Algarve na época alta); que é gay (é estranho mas resulta); que é engenheiro, porque todas andam ao cheiro do €; que é filho do conde da Bracalândia; e fale na terceira pessoa às betinhas e tias.

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Haxixe II

«Todas as manhãs o eunuco tirava de um certo armário uns vasos de prata que continham uma pasta densa como o mel, mas de cor esverdeada, passava diante de cada um dos prisioneiros e nutria-o daquela substância. Eles saboreavam-na, e começavam a contar a si próprios e aos outros as delícias de que falava a lenda. [...] passavam o dia de olhos abertos, sorrindo felizes. Pela tardinha sentiam-se cansados. Começavam a rir-se, umas vezes baixinho, outras imoderadamente, e depois adormeciam.1
[...] creio que o mel verde faz ver o que alguém deseja bem do fundo do coração.»2


Agora é a vez do meu tão adorado Umberto Eco referir o haxixe. Este é um pequeno parágrafo que escolhi deste livro, mas as referências ao mel verde multiplicam-se. De facto, Baudolino, mentiroso compulsivo, com a ajuda dos amigos, todos drogados com o misterioso mel verde, inventam maravilhosos mundos, como só o haxixe consegue fazer, à colherada.

ECO, Umberto, Baudolino, Difel, Algés, 2002, p. 87.
Idem, p. 88.

Haxixe

«Ele levantou a tampa e viu uma pasta esverdeada semelhante a compota de angélica, mas que lhe era totalmente desconhecida.1
[...] Aquela conserva verde não é nada menos do que a ambrósia que a mítica Hebe servia à mesa de Júpiter. [...] prove isto e os limites da possibilidade desaparecerão. Os campos do espaço infinito abrem-se para si, caminha com o coração liberto, em direcção aos reinos ilimitados de devaneios livres. [...] Sem se curvar aos pés de Satanás, será o rei e o dono de todos os reinos da terra.2
[...] É haxixe, o mais puro e não adulterado haxixe de Alexandria, o haxixe de Abou-Gor, o célebre produtor, o único homem, o homem para quem deveria ser construído um palácio, com a inscrição destas palavras: um mundo agradecido ao negociante da felicidade.»3

É assim que Alexandre Dumas, um dos românticos do Século XIX francês, descreve o Haxixe. Não é do desconhecimento geral, que a escrita do século XIX está recheado de referências a estupefacientes, e que o ópio e o absinto puro, que é branco e espesso, e não verde como o que vemos hoje a ser servido em qualquer bar, faziam as delícias de qualquer boémio desta época. Desconhecido para mim era que o haxixe fizesse parte dos hábitos da sociedade da altura. Foi pois, a reler “O Conde de Monte Cristo” que me deparei com este facto e deixo-o ao vosso cuidado, para ficarmos com a certeza que esta droga que é fumada em grandes quantidades nos festivais de Verão, tem uma história certificada pela literatura.

1 DUMAS, Alexandre, O Conde de Monte Cristo, Vol. I, Colecção Geração Público, Público, Porto,2004, p. 385.
2 Idem, p. 386.
3 Idem, p. 387.

terça-feira, 24 de agosto de 2004

Traição do Destino IV

Perdido nestas contemplações, deparou-se com uma cena deveras curiosa. Um casal de namorados insultava-se em altos berros no meio da rua, chamando para si a atenção dos transeuntes. Repentinamente o rapaz irrompe pelo corredor dos autocarros a gritar “sempre foste uma grande puta”, e é pronta e violentamente abalroado pelo 78 que vinha a descer a alta velocidade em direcção ao Campo 24 de Agosto. Parou uns metros à frente, completamente inerte, como se não tivesse sentido o que acabara de acontecer. Os curiosos aproximaram-se para ver o espectáculo, neste caso a tragédia, notando da vidraça do táxi, a falta dos corifeus para lamentar o sucedido. Lamentando dele para ele o sucedido, reparou que afinal os havia. Uns consolavam a menina, que entretanto se prostrara para arrancar o último suspiro ao desgraçado, outros perguntavam “como se passou esta desgraça”, e concluiu que “afinal os gregos eram uns gajos do caraças, criaram estilos teatrais que não precisam ser encenados para funcionar”.
Reparou que a menina dizia as deixas da praxe, e por momentos frio e distante achou aquilo ridículo, e perante o pasmo de todos dirigiu-se ao corpo e deu-lhe um chuto para se certificar que aquela inércia não era fingida. Realmente depois daquele impacto o homem só podia estar vivo a beber cervejas na esplanada cheia de miúdas a comentar o acidente e a mandar as primeiras piadas a frio.
Recompondo a compostura, insistiu mentalmente com o trânsito para que se demorasse e não o fizesse chegar ao ninho da viúva negra, já que de certeza que a mulher ia descobrir a trama e o ia comer vivo. Imerso nestas confrontações internas, esbofeteou-se acordando do estupor. Tinha que enfrentar o touro pelos cornos. Ir rapidamente para casa e resolver a questão de uma vez por todas. Indicou ao taxista um caminho alternativo. Pela primeira vez aquele caminho que sempre lhe facilitara a vida, tornou-a mais difícil. Doeu-lhe o coração à medida que se aproximava do destino.
O taxista falava da esposa de um futebolista e das farras que este fazia em casa. Desatento a estas futilidades continuou a remoer a sua traição e o destino daí decorrente. A quebra do Continuum provocada pela sua atitude, ia reflectir-se na sua vida, e na de todos de forma irremediável. Chegou a casa. O arrumador pediu-lhe a “moedinha para a cerveja”, e sendo ignorado, respondeu um cabrão de ricochete, que numa outra altura teria um potente gancho de esquerda encravado no nariz. Mas o nosso herói não estava para isso. Preocupava-o mais a fera enjaulada no seu lar cor de rosa.
Meteu a chave na porta e reparou que não estava trancada, Ela estava em casa. Sentiu o odor familiar de truta assada com bacon a entrar-lhe pelas narinas, e pensou que não conseguiria saborear o repasto. Um odor adocicado e ferrugento invadiu-lhe os sentidos e a estranheza fê-lo correr para a cozinha. Entrou de rompante, escorregou num líquido vermelho e caiu de bruços sobre a mulher. Sentiu a falta dos corifeus, das deixas da praxe, dela e de tudo. Não sentiu falta da amante. Olhou em volta à procura do 78, e viu-o claramente. Um rolo da massa ensanguentado, que provavelmente iria ser usado nele se por acaso ela sonhasse...! Mas não sonhava... nunca mais sonharia.
As lágrimas caíram-lhe e o amor por ela voltou... tarde de mais!