quarta-feira, 19 de abril de 2006

New born

Quando nasceste não eras bonito. Sempre disse que os recém nascidos não são bonitos e de parto natural muito menos. Eras uma bola de carne escura e não tinhas aquele cheiro bom de bebé.

Estavas amassado com a cabeça espalmada e foi estranho saber que eu tinha contribuído para te gerar. Não te consigo explicar a sensação, vais ter que passar por ela para saberes e tudo o que te estou a contar é com um alheamento de escritor, nunca com a presença emocional de um pai.

Gostei de ti desde o primeiro momento em que te vi, toquei, cheirei, exactamente como tinha acontecido com a tua mãe. À nossa volta estavam os teus avós, babados em conformidade com a situação e admiravam a continuidade genética ali deitada no berço. A enfermeira que estava a tratar de ti dizia que tinha os olhos do pai e o nariz da mãe. Eu suspirava e pensava no ridículo da situação, ninguém consegue discernir esses traços só de olhar para um ser tão pequeno, amassado e que só assume as características físicas identificadoras muito mais tarde.

Os teus olhos cinzentos reagiam à luz e pouco mais que isso, no entanto as pessoas diziam “já reconhece a mãe, olha que lindo”.

O engraçado disto tudo é que isto é tudo imaginação minha, afinal eu não estava lá para te ver nascer, para te ver crescer, não acompanhei a tua mãe e se queres saber porquê eu vou-te contar.

terça-feira, 18 de abril de 2006

as palavras que nunca Te direi

Por muito que tente nunca fiquei louco, pelo menos no cânone que rege o resto da humanidade. Sou salubremente regido por uma lei que não se aplica ao resto das pessoas. A quantidade de insanidade que me atinge seria suficiente para deitar abaixo um animal de pequeno porte, todos os humanos que convivem à minha volta, mas a mim… isto é coisa pouca, atinge de raspão e poucas marcas deixa.

Não tenho antídoto para isso, a não ser que se considere a escrita como algo incluso nesta prateleira de boticário.

Muitas vezes tentei chorar, só para saber que não tinha essa capacidade; que estava seco como um pequeno deserto, que nada brotaria da minha nascente, pouco importa. Não sou insensível nem nada que se assemelhe, sou eu igual a mim e a ninguém que conheço, no entanto não me sinto mais forte por ser assim (muito menos fraco).

Não te conhecia mas sinto que já tinha conversado milhões de vezes contigo; nunca te tinha visto mas a tua face transparece familiaridade a cada sorriso ou expressão mais carregada.

Apaixonei-me por letras tuas que aos poucos me iam preenchendo bocadinhos, lacunas que cá estavam. Desde miúdo que sempre li muito, que os meus amigos e paixões foram os livros, naqueles momentos em que me sentia mais só eles socorriam-me, os meus amigos imaginários, reais, que cheiravam a papel e ainda hoje cheiram… a recordação que tenho deles é o cheiro e o lugar na prateleira para aqueles que nunca comprei (amigos não se compram, conquistam-se) …

O mesmo se passa com as nossas relações especiais… há pessoas que nos conquistam inexplicavelmente de um dia para o outro, sem que percebamos porquê nem como: descobrimos que já conhecemos o seu cheiro como livro e que era uma história que estávamos à espera de ler.

Abrimos o livro e encontrámos palavras familiares, de uma vida que é nossa mas não é de hoje. Conheço-te não sei de onde mas reconheço-te.

Tenho força para isto e muito mais, não são só palavras escritas, são sentidas e declamadas com fogo, cor e muito vermelho e cheiro à mistura.

Ronrono só de pensar.

note that a cApital is use to emphasize a diviNity or someone similAr.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Biclas II


Bem me avisaram que ali havia um buraco!



Candeia que vai à frente ilumina duas vezes!

Ora bem... Na boa tradição da Páscoa, fomos ao "Lava Pés".

Mais uma voltinha de bicicleta, desta vez com mais meia hora. Comecei com uma revisão cuidada à bicla e depois vamos lá que se faz tarde. Fomos mais numa onda de vamos por aqui a ver o que isto dá.

Chegámos ao rio Neiva e aconteceu o primeiro percalço: Asfalto na água (até tive medo que fosse com a enxurrada). - Consultar imagem 1.

Pude exercitar a minha expressão favorita: "Eu bem te avisei".

Mais ou menos 45 minutos depois, ia eu à frente e resolvi arriscar tudo e meter-me no lago: toca a espremer as meias e rir. - Consultar imagem 2

Entretanto planeámos uma coisa mais extensa, ir até Vila Verde, a muitos quilómetros da nossa "home base" e vir por aí abaixo a ver as azenhas.

É que é sempre bom ver o que de bonito temos por cá, até nos esquecemos de alguns ex libris.

Conclusão, vamos tentar andar de bicla várias vezes por semana e sobreviver com os pés secos.
Inscrições para futuras cirandagens aqui ou aqui.

A foto relativa ao NoAsfalto foi censurada por vontade do protagonista.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Biclas

Ora bem, o bom tempo voltou, por uns momentos, e com ele a vontade de fazer exercício. Eu e o companheiro No Asfalto, já nos vamos queixando da falta de combustão nos músculos e resolvemos pegar nas biclas e fazer-nos à estrada e ao monte.

Isto tem muito que se diga, nem é assim tão fácil como isso, e quando estamos com meio pé nos 30 as coisas deixam de ser como eram.

Havia duas alternativas de percurso, a subir ou a descer; é claro que escolhemos a subir porque no fim quando estamos mais cansados é sempre a descer e como a neste sentido todo o panteão dos canonizados ajuda, lá fomos.

800 metros depois, os pulmões, e o coração rebentavam e fizemos a primeira paragem com imprecações como "porque raio é que não vivemos na Holanda ou em Barcelona", "porque é que não há descidas nesta p#$% desta terra!".

Até há uns tempos atrás podíamos estar imenso tempo sem fazer exercício que tudo estava bem, pegávamos na bicla como se não fosse nada, agora a idade, o tabaco e o castrol pesam e de que maneira.

Já mais lá para a frente, dois ou três quilometros depois, começámos a descer e aí começou a diversão, saltos, solavancos e muita muita lama. Feliz ideia a minha de levar t-shirt branca, ficou castanha!

Quando erámos miúdos levávamos uma rabecada das mamãs por chegar todos enlameados a casa e agora elas até acham piada. É uma das vantagens da idade, poder fazer o que fazíamos em putos sem queixas ou recriminações das progenitoras.
Conclusão filosófica possível: na altura não havia máquinas de lavar roupa aos pontapés.

Depois desta reflexão, cheguei à conclusão que devo comprar uma bicicleta nova, o pedal direito não está nada saudável, ameaça sair a cada pedalada.

Fotografias tiradas ao depois da aventura, e toca a descer para o ponto de partida numa descida vertiginosa e convidativa à velocidade.
Uma hora depois da saída lá estávamos nós no tasco a beber uma água e a desgarrar mais alguns elementos castrólicos para a próxima voltinha que será um dia destes, quando não nos lembramos das dores no corpo.

Quem disse que a vida saudável era boa estava enganado.
Duas cervejas para a mesa 1 por favor!

Números:
15 km's mais ou menos;
10 fotografias;
7 paragens;
95 subidas, uma recta e 3 descidas;
7425 solavancos;
23 apertanços no pedal;
453672 salpicos de lama na roupa e na boca;
1 hora em cima da bicla.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

1º caso de Gripe das Aves no Norte!

Miguel de Terceleiros - Correspondente.

Sexta-Feira passada a pacata Vila de Forjães, concelho de Esposende, acordou em sobressalto, quando uma galinha apareceu morta em circunstâncias algo suspeitas.

O espécime foi encontrado com uma corda ao pescoço pendurada na porta Norte da Igreja da referida Vila.
Uma missiva foi encontrada horas depois na tarimba da vítima dizendo o seguinte:

Adeus mundo cruel. Descobri agora que tenho a Vogel Grip (que é como quem diz gripe das aves) e vou pôr termo à minha vida.

A equipa do CSI - Vila Chã entrou em campo e reconstituiu o crime. "A vítima dirigiu-se à igreja para receber os últimos sacramentos e vendo a porta fechada resolveu enforcar-se ali mesmo. Ainda andámos à procura do cúmplice, porque uma galinha não se consegue enforcar sem ajuda." comentou José Batana, o criminalista de serviço.

Fontes próximas da vítima declararam que esta ficou inconsolável quando lhe foi diagnosticada a terrível doença.

Estão afastadas, para já, todas as suspeitas de uma cabala relacionada com queijos limianos e um grupo terrorista chamado Hamens.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Catalunha I

Voltei finalmente. Cansado, muito cansado para não dizer esgotado. Foi uma vida muito dura, ter que conhecer sítios lindos e ser pago para isso. O que me cansou foi o horário de trabalho e os quilómetros que andei.
Para abrir o apetite, ficam algumas fotos dos Pirinéus e arredores, que as de Barcelona ainda andam à deriva.

Casas de Posada, neste caso as Casas Altas, junto a uma albufeira linda de morrer, muito perto de Sant Llorenç de Morunys; vila que esteve sobre a alçada dos monges de Montserrat, aquele mosteiro encaixado na rocha, qual Alamuth qual quê, que se vê quando se toma a estrada para Barcelona, proveniente de França.

Tuxiént: pueblo perdido no meio das montanhas, no início da Serra de Cadí, onde as pessoas ainda guardam inimizades da Guerra Civil, bem como um catalão cerrado, incompreensível e umas expressões deliciosas "Què sè se entrenava no podria ser mas tonto" - alusão a um menino da nossa equipa que era ditador até ao tutano.

Cal de Jovell: mais um pueblo simpático sem vivalma, encaixado nas entranhas de Cadí.

El Parador de La Seu d'Urgell: Hotel de 4 estrelas, de Design, fugindo um pouco à austeridade do Grupo Parador, que escolhe castelos e afins para fazer as delícias dos seus hóspedes. Neste caso só resta um claustro que dá um ambiente esquizofrénico, aliando a tradição à contemporaneidade.
Para que conste o meu quarto até Jacuzzi tinha, azares da profissão.

Hotel Riberies - Llavorsi: o melhor atendimento do planeta e arredores. Cozinha de fusão (francesa e catalã) , uma carta de vinhos fantástica (recomendo qualquer um dos Penedês) e o melhor pequeno almoço que já tive na minha vida (15 tipos de queijos, todo o tipo de fruta do mundo - fresquinha - sumos naturais à escolha e um cozinheiro disponível para satisfazer os nossos desejos na hora).
O melhor foi o preço... Jantar, dormida, pequeno almoço e uma cama de 2,5 x 2,5 m... 70 €!

Gerri de la Sal: pueblo de exploração mineira, muito perto de Andorra e de uma estância de ski bem conhecida, Espot (good espot for ski). Palavras para quê?

La Seu d'Urgell com a Serra de Cadí ao Fundo...
Mais informações nos próximos dias.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Catalunha!

Casa dos meus pais, 11 da manhã, hoje.

Toca-me o telefone e vejo o toque mágico das holandas:

- Hello Ricardo, this is Miranne from (empresa que não posso dizer o nome).
Eu já sabia que me ia ligar, era uma questão de tempo. Tínhamos que combinar os detalhes para o trabalho que se avizinha.
- Olha, já cá tenho os teus dados para marcar o voo para Barcelona, só me falta mesmo saber de onde queres voar.
- De Copenhaga, pode ser?
- Copenhaga, estás em Copenhaga?
- Claro que não! Sabes muito bem que voo sempre do Porto, não percebo é porque me estás a fazer essa pergunta.
- Desculpa, foi mesmo uma pergunta estúpida.


Bem, o que é certo é que na terça-feira de manhã tenho um voo marcado para Barcelona e vou estar um mês sem poder actualizar este panegírico de realidades alternativas.

Mais ainda, façam o favor de não me enviar mails que eu não respondo; para onde vou não tenho acesso à internet, por isso até à minha volta cerca de 18 de Março.

O Senhor Gaudêncio que se cuide



Até à minha volta!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

5

A pedido da Rita (encravaste-me!)

5 Traços de Personalidade (Nem sei se tenho isto)

1 - Sou completamente impulsivo (se me apetecer tirar a roupa toda no Sudoeste é isso que faço!)
2 - Sou louco (Para escrever as coisas que escrevo só posso ser)
3 - Sincero (quando posso e me deixam - Não gosto nada que me convidem para cadeias!)
4 - Carinhoso para quem merece FDP para quem merece!
5 - Esquizofrénico assumido (as pessoas não sabem se devem rir ou chorar com as coisas que digo)

5 Hábitos estranhos

1 - Enrolar a pratinha do tabaco com o plástico - Sempre!
2 - Acordar a resmungar (quando não acompanhado pela companhia certa)
3 - Beber sempre cerveja pela garrafa (à trolha!)
4 - Insistir em ter objectos que não funcionam (como o meu Zippo)
5 - Alinhar em cenas de cadeia embora choquem com a minha religião!

5 desgraçados a quem vou passar isto:

Posso ficar cem anos sem dar uma mas não passo a ninguém!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Portugal em Coma Profundo #2 O Comboio

Sempre gostei de viajar de comboio. Os outros transportes públicos fazem-me confusão mas o Quim deixa-me à vontade.

Tem espaço para as pernas (os autocarros são feitos para anões, eu com o meu metro e oitenta e um vejo-me desgraçado para caber naquele espaço), dá para esticar as pernas, para ler, para fumar um cigarro (já deu, agora é proibido) e não há perigo de um qualquer condutor provocar um acidente, afinal é só manter a máquina dentro dos carris.

Podemos conhecer montes de pessoas, é muito fácil, em especial naqueles que tem os bancos virados uns para os outros. Olha-se com interesse para a pessoa da frente, diz-se “ah e tal parece que vai chover” e passado pouco já se arranjou companhia.

Há uma espécie que é indissociável dos comboios, devido às tarifas reduzidas, os militares, vulgo “tropas”. Pelas histórias que ouço do meu pai (que foi paraquedista) no tempo dele é que era: porrada entre marinha e paraquedistas, feijões verdes (infantaria), era uma festa. Até combinavam. Agora hoje…

Já há uns anos que viajo de comboio e há coisas que não mudam. Os militares são uma coisa à parte. Andam sempre em rebanho, carregados de tralha e onde entram acabam logo com o sossego do resto das pessoas.

Sempre acreditei que só os cristãos novos é que podiam ir para a tropa porque afinal tem todos nomes de objectos. Tratam-se todos pelo apelido Oliveira, Castanheira, Silva, Laranjeira, Fogareiro. Nunca conheci nenhum tropa chamado Telles de Menezes, Marialva, Alenquer, o que me faz pensar que só a raia miúda é que vai cumprir o serviço militar. Os mancebos com nome mais elaborado vão logo para oficiais. Tenho a secreta certeza que é para não melindrar os instrutores.

Olhem lá se eu fosse para a tropa, dois minutos depois estava toda a gente a rir-se à gargalhada com as tentativas frustradas do senhor instrutor dizer o meu nome:

- Ó Treceleirus!
- Terceleiros meu primeiro.
- Ou isso.
Já para não falar dos serviços administrativos (ehehehehhe).

Outra coisa que me faz confusão: “Sim meu primeiro”. Primeiro quê? O primeiro a comer na cantina, o primeiro a mandar toda a gente fazer 3564 flexões?! Não percebo.

Também se dedicam a insultar e a ameaçar os superiores lá da caserna:
“Se apanho o sargento Tainha num canto escuro limpo-lhe o sebo, aquele filho da puta!”. Tudo em vão, parece que faz parte da cartilha dos recos.

A idade conta, estão naquela fase em que as hormonas começam a ficar irrequietas, graças a isto, têm a genitália muito perto da boca e cá vai aço. Uma rapariga que se encontre entre os 15 e os 30 e poucos é logo alvo de uma tentativa de graça (invariavelmente é desgraça), cá vem o galanteio fácil. Atrevo-me a dizer mais, basta ser uma mulher para os senhores se porem logo com coisas. Se por acaso a menina tiver uma saia com uma racha mais perto da homónima, a hipótese da qualidade e quantidade de bocas, centuplica. Note-se que é neste momento que estes senhores se parecem mais com lobos, atacam sempre em alcateia, um sozinho não se atreve a abrir a boca.

A seguir vem a praga dos telemóveis. Sempre que sai um modelo novo, lá vem eles comparar, toques, wallpapers, fotografias, enfim tudo. O militar é especialmente apto em relação a este tipo de equipamento. Conhecem tão bem todas as suas funcionalidades como conhecem a sua G3. Estou convencido que eles são os principais e únicos clientes dos 3939, 4002 e 6969.
“Envia ração de combate para o 4343 e receberás wallpapers camuflados no teu telemóvel”.

O tempo faz com que as coisas mudem um pouco. A nova moda são os computadores portáteis. De início é comprado para descarregar as fotos 41x41 pixel do telemóvel. Depois começam a comprar acessórios, pen drive, microfone, impressora, rato sem fios, gravador externo de DVD, placa wireless de infravermelhos para não usar cabos a passar as fotos… You name it!
Tudo isto é patrocinado pelo finório lá do quartel, o primeiro-cabo Azevinho, que só não vende a mãe porque ainda não encontrou o recibo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Rua 5

E foram pacientes até que não se contiveram mais. Passavam a noite a produzir o amor e a manhã a discutir o que iam lendo. Ele alimentava-a com o que ia escrevendo e ela alimentava-lhe a inspiração com o que sentia. Ela chamava-lhe Garfield, porque só comia, dormia e escrevia. Raras eram a vezes que saía de casa. Os textos para a revista da faculdade mandava-os por Email, o tabaco chegava-lhe a casa pelas mãos dela e o amor compelia-o a fazer exercício, o melhor dos exercícios.

Passavam a vida a rir e eram felizes com a vida que tinham.

Ela gabava-lhe a inteligência e ele gabava-lhe o corpo. Valera a pena a espera, o troféu por que tanto esperara estava ali nos seus braços, para sempre, pelo menos julgava ele. Mas o ser humano é um ser muito estranho e toda aquela felicidade começou a fazer-lhe confusão. Voltou aos seus antigos contactos e começou a sair à noite.

Na altura o Grupo frequentava um dos mais conhecidos tascos da cidade.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Rua 4

- Eu? - Seguira a história com um brilho crescente nos olhos e percebera que a história que lhe estava a ser declamada por aquele gigante moreno, tinha algo a ver com ela. As suas histórias já se haviam cruzado numa das encruzilhadas do Destino.
- Minha doce Rita… se soubesses quantas vezes sonhei contigo e qual teria sido o teu percurso… Sonhei milhares de vezes com o teu sorriso, com a tua cara e as palavras a brotarem dos teus lábios em torrentes contínuas de sentimentos que me atingiam no eixo do coração.
Sonhei, escrevi, descrevi idealizei-te e aqui estás, sem dúvida muito melhor que o produto da minha imaginação, porque és de carne e osso e não um sonho que quando acaba nunca é retomado como querias porque não tens controle sobre o teu inconsciente…
- Nunca pensei que podia despertar paixões deste tipo… Nunca ninguém me tinha dito o que disseste de uma forma tão apaixonada como tu. De qualquer das formas também eu perdi o contacto contigo Miguel, gostava de voltar a conhecer-te com o risco implícito que corremos, que é conhecer um homem e não um miúdo. A alegria do reencontro pode envenenar-nos mas vamos com calma. Do futuro ainda ninguém mandou cartas por isso vamos ser pacientes.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Rua 3

Vem daqui

Estivera tempo demais à espera daquele momento, mas calibrava as emoções para não correr o risco de parecer precipitado.

- Tudo isto te pode parecer demasiado estranho, mas acredita que no momento em que te vi a sorrir para mim naquele pálido reflexo do que eu sou, toda uma série de recordações de como seria ou como será me assolou como uma avalanche de sentimentos descontínuos mas acima de tudo coerentes.

Deve ser confuso para ti que um homem a quem ministras casualmente um curativo, se apresente à tua frente como o maior dos apaixonados sem nunca sequer lhe teres posto a vista em cima.

Há muitos anos atrás conheci uma rapariga que se tornou no primeiro amor platónico da minha vida, tinha eu então uma idade muito tenra para perceber os meandros da produção do Amor.
Assim como entrou na minha vida saiu, devagar e com calma mas ao mesmo tempo de chofre. Perguntei-me várias vezes o que seria feito dela e não consegui ter resposta, e concerteza que também não fiz o esforço que deveria e que faria hoje em dia para atingir um objectivo, enfim… maturidade.

Quando menos se procura mais se encontra, e foi o que aconteceu, ainda bem. Num momento em que eu já não tinha na ideia encontrar-te aqui estás tu.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Rua 2

A noite caiu e o dia entrou-lhe pela alma sem pedir licença. A sua natureza noctívaga rejubilou com a ausência do sol. Estava sentado há tempo sem conta à porta da loja. O passeio gelara-lhe os glúteos, mantendo-se desperto em considerações várias sobre aqueles olhos verde pinheiro nórdico que lhe trespassaram a alma.
Sete e um quarto. Com passo seguro saiu pavoneando com simplicidade o corpo bem feito, mas não demais, que corava de inveja devido aos olhos que comandavam toda a mole de carne com energia categórica.
Miguel cortou-lhe o caminho e agradeceu o curativo feito há horas sem conta.
- Gostas de surpresas?
- Sim. Testa-me - e sorriu.
Minutos e poucas palavras depois, um empregado com um impecável avental/macacão azul-escuro dirigiu-se-lhes com uma bandeja carregada com o esplendor de dois cálices âmbar de Vinho do Porto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Rua


"La Rue Mosnier aux Paveurs" Manet.

Nessa tarde foi para a sua costumeira esplanada e o Destino quis que algo de insólito lhe acontecesse. Estava havia já duas horas repartindo o tempo entre a leitura de “Viver para contá-la” de Garcia Marquez e as suas anotações esporádicas no seu Moleskine, oferecido por uma amante sazonal. A ansiedade mental divergia-lhe, com matreirice, a atenção para a plateia do proscénio.

Ia atentando a todas as pessoas e imaginava as razões ocultas que as faziam permanecer, como figurantes de uma ópera, habituadas ao som e à imagem mas permanecendo porque realmente ali tinham que estar para compor o cenário.

Fartou-se daquela estaticidade, levantou-se em direcção a um objectivo que não discernia mas lhe parecia melhor que a falta de inspiração que lhe transcorria a mente. Deu dois passos e uma das enormes janelas do terceiro andar caiu no sítio onde estivera sentado. Ficou branco e afastou-se alheio à reacção das pessoas que lhe diziam que era um homem de sorte.

Parou para reparar que sangrava da face. Um estilhaço de vidro fixara-se abaixo do olho direito, a dor aguda fê-lo praguejar. Com a ajuda do reflexo de uma montra retirou-o. Dentro da loja uma rapariga olhava-a com o reconhecimento estampado no sorriso. Saiu e perguntou se estava bem.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

A Galeria

Recortes esparsos, descritivos da realidade ali vivida por uns e outros boémios da cidade, estavam afixados com cola branca nas paredes.
O dono, mais uma personagem característica daquela zona ribeirinha, com o seu penteado estilo ponte, - a careca era coberta pelos fios de cabelo resistentes do lado esquerdo e faziam a ponte para o lado direito da cabeça, cobrindo de uma forma cómica a calvície que não alastraria mais – recebia com simpatia os boémios universitários. Vendia vinho a copo atraindo assim todos os apreciadores de vinho a martelo, jovens. Conseguira manter uma resistência tácita aos velhos bêbados, tarefa hercúlea mas conseguida e, a sua clientela cingia-se aos jovens universitários, bem-educados, pensantes e falantes.
Do que ele gostava era de ter os seus meninos a dar brilho à casa. Vendia também traçadinhos (anis com bagaço), ginginhas (licor de ginja) e Eduardinhos, segredo da casa. Bebia-se com gosto e pelo barato.
A sua esposa, sentada sempre no seu cadeirão de veludo, era conhecida como a Madrinha, todos os que lá entravam tinham que a cumprimentar com dois beijos e pedir-lhe a bênção. Quando soube do epíteto que os boémios lhe haviam dado “os marotos dos rapazes” entrou no jogo e começou a dar-lhes o folar todas as Páscoas, um traçadinho por cabeça. É claro que interpretou mal a analogia que se fazia com Don Corleone de Scorcese, mas era a sua simplicidade a falar.
Miguel, depois de inserido naquele microcosmos, pediu um dia aos senhores que lhe deixassem escrever, numa parede vazia, um conto sobre aquele tasco. Com o apoio do Grupo lá os convenceram e lá foi escrita, a marcador a álcool, uma história sobre que lá passava. Tornou-se tradição e uns meses depois o negócio aumentou. Pintores, escritores e fotógrafos deixaram lá a sua marca e o tasco transformou-se num espaço de exposição e mudou o nome para A Galeria.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Sei lá

O tempo está nublado e o sol que vai permeando os flocos de algodão no céu, ilumina algumas zonas do bosque dando-lhe uma coloração esquizofrénica, matizando as várias árvores de cores que não são de todo reais.

Os carvalhos, azinheiras, castanheiros e sobreiros, pejam o solo com as folhas douradas, reticuladas, caídas do Outono; estão húmidas e sentes a pontada familiar do reumático no joelho. Já estavas a precisar de espairecer e sempre soubeste que este sítio estranho, que transpira algo que não identificas, te deixa sempre mais tranquilo.

O mar está ali a cinquenta metros, sentes o sal na boca, o cheiro da maresia e o que mais te agrada, o som das ondas a bater nas rochas. Desde muito novo que vens aqui e patilhas os teus segredos com o mar e com a terra, invocando um velho rito pagão de partilha com os elementos. Há uns anos conseguiste conjugar o que te faltava.

Tiras um cigarro e lambes a superfície. Não é a primeira, nem será a última vez, juntas a pedra já queimada, minutos depois, invocas o fogo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Homens com problemas de nomenclatura

A esplanada está cheia de pessoas a comer areia. Há pouco alguém mandou um chuto no areal, quando o vento ainda estava calmo e acabou por provocar esta algazarra de sílica voadora.

Tudo estava a correr muito bem. O dia bonito, o almoço saboroso, algumas lágrimas de ressaca, teimosas, a querer sair e um belo dia de praia a perspectivar-se. Miguel chega e dá um pontapé na areia e de um minuto para o outro, sem pré-aviso nem carta registada, o bom tempo despede-se e lá vem a ventania.

- Isto passa, diz Hugo com areia a invadir os seus caracóis, já de si revoltos, que de preto passam a loiro com tanta areia que o fustiga.

Pepe nem precisa de convite, deita-se sem tirar a roupa, cobre-se com a toalha e agarra-se à ressaca para dormir uns vinte minutos que sejam. Hugo abana a cabeça e ri-se da posição que Pepe arranjou; Miguel gargalha.

- Só mesmo ele para dormir nestas condições.

Dois minutos de sono e já tem a cara com areia por todo o lado; Hugo enquanto vai trincado alguma informa:

- Acho que provocaste aqui uma revolução. Aquele chuto que deste perturbou os camaridinhos e agora estamos fodidos.

- Ando eu a perturbar este microcosmos sem necessidade nenhuma. Olha se tivesse dado um chuto num penedo, aí é que estávamos fodidos.

Armaram a tenda à canadiana e foram-se rindo até que a situação se tornou incomportável; a areia fina invadira tudo e Pepe acordou a cuspir que já tinha areia nas pregas dos sacos, o que bastou para se porem a caminho para ambientes mais livres de particularidades.

Como eu estava a dizer ali em cima: a esplanada está cheia de pessoas a comer areia, por isso vou mandar estes três senhores para dentro do bar, não há cá esplanada para ninguém.

Estamos em Caminha, mais em concreto, na praia do Camarido, com vista para a Galiza e para o estuário do rio Minho que se permeia com o mar já ali, uns metros à frente. Estão os três acampados no parque já bem conhecido, com muitas histórias para contar a quem as quiser escutar, e agora querem qualquer coisa para molhar o bico de caçadores insaciáveis.

Sentam-se e pousam todas as tralhas na mesa, nas cadeiras, trazendo o pandemónio do exterior em forma de objectos.

- Lembrei-me agora de um sketch para o Gato Fedorento… - diz Miguel enquanto se engasga com a Super Bock e com o riso – Homens com problemas de nomenclatura!

- Ora explica lá isso – ri-se Pepe com as suas características gargalhadas mudas.

- Já vais ver.

Miguel faz sinal à empregada, moça dos seus vinte e muito poucos anos, que deve muito à beleza e nada à simpatia. Aponta para a garrafa vazia, ela entende o que bem entende e dirige-se ao balcão.

- Sempre com sede caralho.

Pepe é lento como mel a escorrer pelo vidro, era bom para ir buscar a morte, e às vezes há um lampejo de espanto quando vê Miguel e Hugo a emborcar cerveja.

A rapariga chega com uma Super acabada de abrir.

- Desculpe… - Diz Miguel quando ela já deu meia volta – Eu só queria que visse que a minha garrafa estava vazia.

As faces da rapariga passam por toda a paleta cromática do photoshop e diz timidamente:

- Desculpe… mas… eu pensei que queria outra.

- Estava a brincar! Deixe ficar.

Miguel ri-se e a rapariga suspira de alívio. Afasta-se e Hugo comenta:

- És fodido…

- Estava só a brincar, e não me parece que ela tenha ficado chateada.

- Olha, mas que raio é que isto tem a ver com os homens com problemas de nomenclatura?

- Esqueci-me disso… já sabes que as minhas ressacas são assim, dá-me assim umas brancas; mas já te mostro.

Passados dois minutos a rapariga volta a cirandar ali perto e Miguel volta ao ataque:

- Desculpe!?

- Sim – a voz dela denuncia insegurança, como se Miguel lhe fosse fazer um pedido difícil.

- Olhe menina… Eu quero uma coisa mas não me lembro do nome.

- Sabe é que ele tem problemas de nomenclatura – Pepe resolve, com o seu ar sério e neutro, deitar algumas achas para a fogueira.

- Nomencla quê?

- Nomenclatura: por vezes não consegue dar nomes às coisas… Não se lembra dos nomes.

- Bem, eu quero (não sei como se chama)… é um líquido meio castanho, quase preto; geralmente vem dentro de um recipiente branco, com desenhos ou letras por fora, em cima de um disco branco, e depois vêm acompanhado por um invólucro colorido que pode ser de papel ou plástico com uns grãos brancos no interior, que misturados com o líquido o tornam doce.

- Café – Pergunta a rapariga a medo.

- É isso mesmo, enfim, alguém que me compreende!

Ela retira-se na demanda do líquido blá bá blá, e os três ficam a rir-se.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Untitled

Ninguém tem o mapa que indica o caminho, este tem que ser trilhado de uma forma muito própria e bem ou mal o teu tinha sido bem calcorreado, até hoje.
As dúvidas voltam e desta vez com uma dimensão própria da idade, com todas as consequências, mais importante ainda, com todas as causas, frutos do teu livre arbítrio.
Nunca ninguém disse que era fácil viver, mas rápido se chega à conclusão que é bem mais difícil sobreviver.
A rua está iluminada, e a escuridão amarela dos lampiões entra-te pelos olhos cegando-os. Sentes a alma negra e cáustica e, olhando à volta, sabes exactamente o passo que vais dar a seguir.

Não tens medo e orgulhas-te, peito inchado, de nunca o teres sentido. À nascença retiraram-te esse sentimento, nunca to deram. Ficaste isento desse mal que nos corrói a todos, os humanos, e por consequência nunca foste cobarde.
Quando miúdo não medias as consequências dos teus actos. Trepavas sempre à árvore mais alta, galgavas o fosso mais largo, transpunhas todos os obstáculos porque sabias que conseguias, tudo por não teres medo. Nos testes ias carregado de confiança, era indiferente que tirasses boa ou má nota, porque não tinhas medo.
Agora estás aqui à espera. O orgulho já se misturou com a auto-confiança, sabes que podes fazer tudo.
O cemitério é igual a muitos que viste durante a tua vida. Já viste muitas lágrimas e verteste-as tu próprio. Este está aberto vinte e quatro horas por dia, as pessoas tem a oportunidade de ver os Seus no momento em que desejarem, pelo menos a campa marmórea, branca, cinza ou granítica, fria. Não a quentura dos corpos antes do rigor, mas o frio para lembrar os visitantes que o ente querido nunca mais terá sangue quente, rápido a correr-lhe nas veias.
As grades, de ferro forjado em forma de setas estilizadas, elevam-se ameaçadoras aos céus, como que apontado o caminho aos jacentes. A lua oferece-te uma perspectiva fantasmagórica do ambiente, com a luz a incidir em tons de azul, mostrando a amálgama de cores dos túmulos.
“Carlos da Silva Santos – nascido a 23 de Junho de1933, falecido a 26 de Agosto de 1966.”
Trinta e três anos, a idade que se presume Cristo teria quando desfaleceu na cruz.
É aqui o local indicado. Acendes um cigarro ao mesmo tempo que ouves passos à tua direita. Viras a cabeça e nada vês. Apuras o ouvido naquela direcção e identificas a sua proveniência, mas lá não está ninguém. O som é de passos numa superfície com areia. O raspar é característico e em relação aos sons é raro enganares-te. Outra pessoa começaria a correr daí para fora, mas o teu medo, que não existe, deixa-te investigar.
Os passos, por estranho que pareça, continuam no mesmo sítio, e tanto quanto te é dado a entender, soam a uma marcha de pés invisíveis no mesmo local.
À medida que te aproximas o som está mais nítido; quase que ameaçador. Localizas a origem do som: uma torneira pinga sobre uma garrafa de plástico produzindo o ruído que te chamou a atenção. Ris e voltas-te em direcção ao teu posto de espera e, com surpresa, vês uma figura branca no sítio onde estavas; aproximas-te.
- Obrigado por ter vindo, especialmente nestas condições.
Um sorriso rasga-se no rosto do desconhecido, com uns lábios carnudos que se tornam finos dada a amplitude da abertura; se fosse mulher quando sorrisse pintava as orelhas com batôn.
- Meu caro, sabe que a curiosidade é um dos meus piores defeitos…
Estudas o teu interlocutor: veste um fato branco de linho, uma camisa simples do mesmo material, sapatos de sarja da mesma cor; a cara é estranhamente morena, encimada por fios de cabelo alvos como a neve; os olhos saltam à vista de um azul água que encovam naquela tez escura. Figura estranha, transpira decisão e serenidade.
- Não sei se será um defeito. Estou certo que já foi recompensado por seguir essa curiosidade.
- Não está longe da verdade, mas também já sofri alguns desaires, por isso lhe chamo defeito.
- Tudo o que é em excesso é um defeito em potência, pecamos sempre por excesso ou defeito, é irónico.
Apetece-te avançar na conversa e no que proporcionou o encontro; as palavras do homem de branco envolvem-te.
- Cá estamos nós no sítio onde tudo acaba e começa. Já sei que não é muito dado à metafísica mas eu acredito que aqui começa muita coisa, por isso o convidei para cá vir.