segunda-feira, 17 de outubro de 2005

CA - Comentadores Anónimos

O Monte da Lua

Vem daqui

Como blogger, e já lá vai algum tempo, sempre mantive o meu anonimato. Durante todo o tempo que mantive este blog (bem como o outro) resolvi “esconder-me” atrás de um pseudónimo e de uma imagem que não é a minha.
Já muitas vezes me perguntaram o que quer dizer o pseudónimo, e desenganem-se, não foi criado para o blog: tem 13 anos. Foi criado quando publiquei o meu primeiro texto no Jornal de Esposende, com a preciosa ajuda do meu professor de Latim, director do jornal na altura.
O meu Tio sugeriu o nome; Miguel é o meu segundo nome; Terceleiros é o micro-topónimo onde está localizada a casa dos meus pais que significa acima do Celeiro.
Como devem ter reparado, finalmente pus uma foto minha no Blog.
Isto tudo para quê?! Não sei se têm notado mas tenho sido invadido por anónimos, que presumo sejam do género feminino.

Isto dá-me alento. Gosto de descobrir, sou curioso, procurar no sitemeter e descobrir não a cara mas, por cruzamento de dados, a localização. Esta Internet é um Big Brother!

O Hugo dizia há dias que os comentários são um outro post, quando não são a continuação. No post Livro surgiu um Anónimo(a) que originou esta bela conversa.

Anónimo(a)
Ficaste preso nos meus favoritos, e cada vez que teclo um “t”, cá estou eu... Pena não ter olhos que cheguem para ler os teus textos todos...

Terceleiros
Anónimo(a): Fico contente por gostares, aliás feliz. Os meus leitores é que me inspiram na maior parte das vezes. Para a próxima uma assinatura, se não for pedir muito.

Anónimo(a)
Não estou no anonimato para me esconder... Por agora, quero apenas estar aqui, no meu sossegadinho cantinho... Escreve-me :)... se precisares de dar vida ao teu livro no mundo das figuras!!! Bom fim de Semana

Terceleiros
Anónimo(a): Não digo que te estejas a esconder. Peço uma assinatura para poder saber se é sempre o mesmo anónimo :). Posso escrever-te a tinta ou a caracteres, como preferes?!Desenhar a tua imagem com letras. Posso:idealizar; infra-idealizar; supra idealizar... Qual o teu tipo de idealização perfeita?

Anónimo(a)
Para alem de ser amante das tintas, prefiro que me escrevas em carácter. É mais rápido e indolor... A imaginação é perfeita... dá-me tu um nome!!

Terceleiros
Anónimo(a): Seja, caracter será. (é andrógino) Nunca se soube se era realmente uma mulher ou se era a cara do Leonardo por isso como não sei o teu sexo ficas Mona Lisa. Para além disso aquela aura de mistério...agrada-me.
Mona Lisa. pinta-me manda a cor por mail. Miguelterceleiros@gmail.com A moeda tem sempre duas faces. Pode ser com pincéis de photoshop.

Mona Lisa
Tu és da cor da folha da arvore outonal, da lua e do sol. Da chuva e da noite. Tinta fresca que vai secando na tela rabiscada por ti próprio. Afinal não somos todos assim?! Sim... o mistério muitas vezes é o que nos guia na imaginação... Já ouviste falar do monte da lua?

Terceleiros
Mona Lisa: Monte da Lua?! Gostava de conhecer. Boa pintura a tua, é Impressionismo?

Mona Lisa
É abstracção do ser humano para representar imagens :D. O monte da lua é o nome que designa a uma Serra... Onde lutaram Mouros e cristão... e viveram reis e rainhas... onde existem duendes mágicos e mouras encantadas a espera do derradeiro beijo. É onde existem castelos protegidos por gárgulas que acordam do sono profundo com o brilho da lua... O monte da lua é envolto num mistério fantástico e poucos são aqueles que se aventuram a andar por lá depois do sol posto. É o cenário perfeito para um dos teus contos...

Se quiseres, mais tarde envio-te imagens... e som...

Terceleiros
Mona Lisa: O Monte da Lua onde a Pena é mais forte que a Espada?! Palácios e castelos ameados... já passeei por lá numa outra vida mas morri pelos olhos de uma encantada. Manda o reflexo de um espelho, as imagens em anagrama lógico.beijo
Só uma coisa para os anónimos. O mistério é óptimo até cansar.

Insurgimento

Tenho que escrever isto. Os bois que me andam a pôr Spam na caixa são os mais deslavados descaradões à face da Internet.
Não é que me mandam um spam com 124 (!) links e no fim, ironicamente, dois deles rezam o seguinte:
- 122 PAL Popup Eliminator - Blocks all pop-up and pop-under ads.
- 124 PAL Spyware Remover - Every day internet surfers install SpyWare and AdWare components on their PC's without even knowing it by clicking on pop up ads, downloading music files, installing free programs and so on.

Só cá faltava um a dizer:
PAL Spam Remover.

São estes caralhos que fazem o Spam, os reservoir oxes de merda que depois nos obrigam a comprar a cura para a doença que eles criaram.

Apeteceu-me dizer uns palavrões.

Só fizeram com que activasse o Word Verification do Blogger.

P. S. Carreguem nos links vão ter uma boa surpresa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Livro


Acorda num sítio muito estranho. Por muito que queira descrevê-lo não tem sucesso (satisfatório). No centro da divisão (acha) encontram-se duas estantes que devem ter dois metros e meio de altura. Tocam o tecto. Aí está colocada uma série de livros que devem contabilizar 450 volumes em cada face da estante (se bem que possa estar enganado), num total de 900 mais coisa menos coisa.

Todos os livros são diferentes em tamanho e cor, formando um arco-íris desordenado, uma manta de retalhos de cultura (assim julga). As formas, uma muralha de legos misturados com blocos de construção lógica infantis e meccano. Uma Babilónia lógica; tem que haver uma lógica nisto.

Quando se aproxima, o tecto transforma-se num gigantesco espelho, fazendo com que os livros se tornem numa gigantesca torre infinita. Todo o conhecimento está ali em reflexo.
Com mais atenção vê que os livros se invertem, como é natural num espelho, criando ilusão: os reflexos não correspondem à imagem original.

Olha em redor e toda a sala é um gigantesco e único espelho multiplicando os livros e a sua imagem até à exaustão. O medo acorda-lhe a mente. Tem que sair dali. Tacteia, bate com os nós dos dedos para sair, não para entrar, obtendo sempre o mesmo resultado, nada. Está preso.
Um sonho, espero estar num sonho maluco.

Dirige-se às estantes e retira o primeiro livro do topo esquerdo. Não tem título nem autor, mas sim, índice.
Ao que parece é um livro de Contos.

Absorto na leitura descobre, com espanto, que a sua história, desde que acordara na sala espelhada, está lá escrita, mas por alguma razão interrompida no ponto em que ele pega no livro.
Os contos acabam todos de uma forma que indica que o autor tem gosto em brincar com a vida das personagens que cria. Vai criando expectativas dando migalhas, semeando a confusão para, no final, os deixar com a vida destroçada ou com uma experência traumática que lhes mude a vida.

Pega numa esferográfica e resolve escrever.

15.00
Está sentado como é costume em frente ao computador. A sala é decorada com azulejos do Estado Novo; citações de Salazar e outros coevos da Ideologia.
Com a rotina no rato e a retina no monitor, liga o Messenger, o Morpheus e o Media player.; clica no Firefox e escreve
gmail.com
Durante trinta minutos consulta os mail's e troca algumas palavras com os habitués. Muda o estado para ocupado e escreve o post para o blog. 15 minutos de escrita, dez de correcções; google images para encontrar o quadro relativo ao texto; formata e publica.
Passa agora para a ronda pelos blogs habituais. O primeiro fá-lo esfregar os olhos, o segundo arregalá-los; vai clicando em pânico em todos e as mãos crispam-se sobre o rato com tanta força que um estalido revela que o partiu em vários fragmentos.
Confere a hora dos posts e comprova através das lágrimas de raiva que todos foram escritos antes do seu. Ele é a cópia, uma farsa. O seu texto estava em todos os blogs.

Ora toma lá que é para não andares a torturar as tuas personagens. Vê lá se gostas quando brincam contigo.

Acabara o livro do escritor deconhecido e nada o podia mudar. Esgotara o espaço para texto a tinta preta sobre o papel amarelo. Não havia correcção possível.
Com um sorriso nos lábios volta a colocar o livro na prateleira. Volta-se com um sentimento de justiça e, no espelho, vê tinta preta a escorrer pela lombada do livro.
Volta a segurá-lo e algumas letras estão a compor palavras lentamente na lombada.

O Livro e outros contos – Miguel de Terceleiros
Pega na carteira, como que duvidando da própria identidade, e os espelhos partem-se.
Ricardo Brochado AKA Miguel de Terceleiros

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Somos todos malucos

Guarany 21.30

Não sou das pessoas mais pontuais mas desta vez cheguei a tempo. Sento-me com os meus iscos na mão. O meu caderninho e caneta; Ficções de Jorge Luís Borges. Não sei qual foi o sinal combinado mas qualquer pessoa com dois dedos de testa chega lá.
Ora porra, ninguém no seu perfeito juízo vem para o Guarany escrever e ler, a não ser que tenha um propósito obscuro por trás disso.
Observo tudo em volta e começo a adivinhar. Será que é este, aquele; os cromos do portátil?! Desisto. Hugo entra e não me vê. Estou a um metro dele e penso que a melhor forma de ficar invisível é ficar no sítio mais visível, na mesa da entrada.
- Então?!
- Nada ainda. Somos os primeiros.
- Um descafeínado.
O empregado vai e volta com o líquido.
Fico só outra vez. Amie e Freddy entram e sentam-se.
- Estás sozinho?!
- Não já cá está o Hugo. Olha.
Apresentações e mudamos para uma mesa maior. Apostas e mais apostas de quem seria e eu aposto no desconhecido na mesa do canto. Depois de cinco minutos de risota e punchlines para tirar a dúvida Amie lá se enche de coragem e vai lá.
Não sei o que disse mas era mesmo. Cláudio senta-se e junta-se à conversa. Mais uns minutos chega a guerrilheira de serviço, Guevara e uma pessoa que não esteve lá (esta é private mas estiveste lá).
Piadas nervosas; que fazes; qual é o teu blog e tal; porquê o nome, enfim tudo o que queriamos saber, mas acima de tudo a curiosidade satisfeita de conhecer fisicamente as pessoas que estão por trás dos teclados e monitores.
Mais tarde chegou Malamack e ficou (quase) completa a pandilha.
Ernesto traidor! Onde te meteste!!!! Estivemos à tua espera montes de tempo. Imaginámos que fosses o saxofonista, o tipo de óculos no canto, a comer com a boca cheia de dentes, que estavas dentro do piano, que eras o empregado e não eras.
Isto não se faz! Deixar assim as pessoas à espera!
00.00
Fechou o Guarany e fomos expulsos com promessas de repetir a dose.
Gostei muito, diverti-me e vamos lá trocar uns poemas (lol) e mais umas coisas (lol).

terça-feira, 11 de outubro de 2005

21

Andrajosamente lúcido revira os olhos à procura da página certa. Lê na diagonal, com pressa, embora saiba que esta leitura nunca resulta (pelo menos com ele). Obtém produtividade na leitura com atenção; ao sobrevoar as páginas sente que está a perder tempo; não vai encontrar o que deseja mas teima.

O mofo invade as narinas e fá-lo abafar um espirro. Não podem saber que está ali, pelo menos agora. Há que esticar (alargar) os limites cronológicos para lá do razoável. Esquartejar os relógios do mundo para ter o tempo multiplicado por quatro. Não é possível nesta história, nesta sala, com este corpo; há que aproveitar [(explorar (exaurir)] ao máximo, o tempo.
Demorara a encontrar o livro e agora, que o tinha na mão, a passagem teimava e escapava. Procura nas entrelinhas.

Olhou para as linhas e atingiu a forma de encontrar o que queria. Da pasta de couro coçada e áspera como a vida, retirou papel pautado, com um allegro que estava a compor já há anos, e colocou-o sobre as páginas do livro. Semitransparente, misturava as letras com os símbolos musicais e concentrava nas entrelinhas só o essencial.

Esta procura tornava-se uma obsessão e instava-o a prolongar a demanda. A felicidade dependia daquilo ou talvez não. Da mesma forma que outros procuravam Graal’s de múltiplas formas e conteúdos, este era o seu.

Horas sem fio nem textura aparente entraram nos seus olhos atingindo os neurónios construindo cansaço com tijolos de informação. 110 páginas absorvidas com atenção, lidas de uma forma nunca antes lida; música e letra em conjunção absoluta de uma forma que agora a música era lida pelos olhos e a leitura pelos ouvidos.

Vinte e um anagramas. Aqui está a linha que procurava. Nunca a iria encontrar se não fosse desta inventiva forma de ler nas interlinhas. Espaço, espaço, ponto final.Levantou o papel pautado e viu a frase original.

A ARMATA MEN GUN VIS.
O autor brincara com uma espécie de latim macarrónico e inglês. Repetia ideias.
Traduzia-se como:
A força (Armata) dos homens (Men) é a quantidade (Vis) de armas (Gun).
Não lhe interessava esta frase.
Não fazia sentido nem nunca fizera, mas agora parecia que estava no caminho certo. A frase do texto que dava origem a esta era:
Quanto pesa o Amor?
Vinte e um anagramas.

Mais uma brincadeirinha. Divirtam-se

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Olhos bem abertos

"Venus e Cupido" - Artemisia Gentileschi - 1625-30
Insónia, mais uma vez insónia. Dentro do saco cama não consegue fechar os olhos. Todo o seu corpo sonha, já há horas largas e compridas, mas os olhos não se fecham.
Sonhar acordado é bom, nunca sabemos qual a dimensão da realidade mas também não chega a ter importância. Os pensamentos são só nossos, a dormir ou despertos.

O contacto com o poliéster fá-lo sentir sexy como um gato; não um tigre; melhor, uma pantera. Sente o tecido a gemer e faz coro com ele. Suspira de prazer… ronrona lascivamente e sente-se poderoso como dentro do corpo de uma mulher. Sente o corpo a ser beijado gradualmente. Invisíveis lábios tocam-no – não consegue ver a cara – tudo está claro, repleto de luz. Chora de prazer com a secreta esperança que tudo se repita em breve.

Abraça o saco cama e a textura modifica-se, parece carne. De olhos (agora) abertos, salta do sonho e da boca escapa-se
- Nunca tinha feito o Amor com um saco cama.
- Nem eu com um gato.
O corpo liso e suave, em contraluz, sorri-lhe; todos os poros sorriem. A lágrima de satisfação surge ao canto do ser quando descobre que não foi um sonho.
Trinca-lhe o pescoço para provar o mundo real, e o sal sobe-lhe a tensão. Poças de suor espalham-se pela cama e pergunta
- Posso ficar dentro de ti para sempre?!
- Já estás.
Acorda estremunhado e não reconhece o ambiente. Ao seu lado uma mulher de olhos abertos. Não a reconhece mas também não se preocupa; o sentimento é bom. Das últimas vezes não tinha sido nada bom, antes péssimo, tanto é que ganhara pavor ao risco. Arrependia-se sempre no dia seguinte.

Naquele momento, com aquela mulher, com aqueles lençóis, naquela cama, sentia-se bem, tão bem que nem havia mau hálito.

A felicidade relativa coagula-nos os sentidos.

A expressão de paz nos olhos da desconhecida agrada-lhe. Por muito tempo fica em êxtase; contempla aquele momento, pintura, escultura; controla a respiração para não a acordar dos olhos abertos.
Simples mas portadora de felicidade. A sensação.
- Porque choras?
Acordara.
- Quase que consigo acreditar em Deus só de olhar para ti.
- A Abstinência é uma droga fodida, não é?!

E agora para algo completamente diferente

Passados uns meses aqui vai a solução do puzzle.

Ora boas! Falaram-me disto e achei que era uma óptima ideia para comer a cabeça ao pessoal. Código binário, conhecem?! Quero ver qual é o tipo de comentário que vai sair daqui. a primeira pessoa que conseguir descodificar vai poder saber o meu nome verdadeiro e ver a minha foto! ehehehehehehe
Com jeitinho bebemos um copo! Beijos e abraços para os meus amigos palhaços!

Para mais informações

http://nickciske.com/tools/binary.php

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Futuro v 9.35

"The Art of Painting" - Vermeer - 1666-1668

Deserta, é assim que está a sua mente. Procura, em vão, algo que mostre que a consciência está activa; frustrado verifica que só areia fina permanece agregada em estado bruto.
Como uma máquina a carvão, barulhenta, fumacenta, começa a funcionar. Fumo fá-lo espirrar; no outro lado do renque de árvores um homem de fato preto e gravata branca diz-lhe algo.
Ao longe um altifalante de uma igreja ou capela que seja, ecoa o Ave Maria, prologando o anunciar das nove da noite. Neste sítio é sempre escuro mas é noite, como assim foi declarado pelos antigos que ainda testemunharam a existência da luz; agora é artificial, amarela baça, que transforma todos em fantasmas alaranjados.

A vida vai prosseguir. Ligaram-se os motores e há que apanhá-la. Corre com a respiração a servir de pernas e consegue, com a ponta dos dedos agarrar o varão metálico que o impele para o futuro que só existe nos filmes.

Sabe (é o único) que o dia de amanhã será o dia de hoje, repetirá a mesma rotina de sempre: por isso o futuro é nos filmes, não é real nem será.
O grande relógio que controla as vidas marca sempre a mesma hora, a anunciada pela Ave Maria.

Sabendo da verdade (que bem poderá ser uma falsa questão) resolve atacar a imobilidade mental que o rodeia. Pega em dois cubos de granito e faz pontaria. Falha o primeiro com estrondo. O segundo, quando lhe sai projectado das mãos, arranca um grito morto da boca do fato preto e destrói os ponteiros do relógio. Sente o chão a fugir-lhe dos pés; uma tontura empurra-o para o chão alaranjado que se torna vermelho e negro; Ave Maria torna-se difusa.

Acorda, luz branca na retina, por momentos julga-se cego. É o dia há muito esquecido, há muito esperado, dos antigos. Tudo é branco e ele é escuro. Carrega a noite consigo. Tacteia e encontra o relógio caído; o som dos ponteiros chamou-o e mostrou-lhe

9.35

Começara a vida; sentia os ponteiros em movimento.
O Futuro estava próximo.
Inspire me 1001
Na estação de Nine um homem de fato preto mexia no ponteiros tentando acertar (inutilmente) um dos relógios parados. Serão sempre nove horas naquela estação, a não ser que venha o homem do fato preto acertá-lo durante um minuto.
9.35
a vida continua chega a ligação para Viana do Castelo.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Combóio

"Train toy ride" - Claire Wolf Krantz - 1999

Calcou a gravilha com prazer. A dimensão das pedrinhas produzia um som estimulante. Como Amélie sentia prazer a mergulhar a mão nos sacos de cereais, ele comprazia-se com a fricção dos minerais. Coisa pouca.


Passou para o outro lado da linha e com o cérebro aos solavancos tentou juntar as letras desenhadas nos vasos da estação. Via mas não compreendia, como se tivesse perdido a capacidade de ler. Tinha chegado à boleia; num inglês básico respondera à pergunta do condutor

- To a train station, i'll get along.

Tinha saudades, muitas, e desejava estar com ela. Não sabia muito bem para onde ia mas se chegara até ali, nalguma altura ia encontrar. Sem mapa, só podia confiar na intuição ou numa informação dada por alguém. Como era muito desconfiado e tendencialmente do contra, não acatava os conselhos que lhe davam. Não sabia muito bem porque raio se dava ao trabalho de perguntar; seria uma manobra rebuscada de manipular o seu livre arbítrio. Não era muito de tomar decisões espontâneas, assim eram tomadas à força pela opinião dos outros.

A estação estava deserta, o que não era de espantar, perdida no meio da serra, pouca gente devia usufruir da sua existência. Ao fundo, no vale, via uma série de casas que pela vegetação envolvente e pelos buracos escuros das janelas, indicavam que já há muito estariam abandonadas. À esquerda carris perfuravam uma elevação e as vagonetas explicavam tudo.

Mas que raio de ideia, a do homem, de o deixar ali ao abandono.

Ouviu um trote, um cavalo ou algo parecido aproximava-se. Virá acompanhado?! O mais certo é que fosse um dos cavalos selvagens que vira quando o seu transporte cruzara os estradões da montanha. A solidão estava a saber bem e não queria que aparecesse alguém para estragar o momento, mas, simultaneamente, queria tirar as suas dúvidas. Primeiro surgiu uma cabeça com cabelo bem tratado e barba impecavelmente penteada; um corpo coberto por farrapos de cor impossível de discernir do uso exaustivo; por fim o cavalo branco, brilhante a combinar com a cabeça do homem.

Que figura mais estranha.

Quando as coisas são fora do comum não sabemos muito bem como reagir. O efeito surpresa ataca o estereótipo e depois de breve escaramuça moral, a confusão fica entranhada. Quando cavalo e cavaleiro se aproximaram, notou que o ginete tinha as mãos tingidas de vermelho. Recuou em sobressalto e vendo uma lata de tinta e um pincel vermelho atados ao alforge tranquilizou-se.

Não dava jeito nenhum encontrar um assassino no meio do nada.

Fez um gesto para entabular conversa mas o homem, como se ele não existisse, passou-lhe ao lado e, poucos metros adiante, desmontou. Do alforge retirou luvas brancas de borracha, colocou-as, pegou na lata e com o pincel começou a pintar os carris. Com cuidado, para a sua sombra não denunciar a sua posição, aproximou-se e observou o que o homem estava a fazer. Pintava uma espécie de serrilhado, como se o carril se tornasse num gigantesco serrote que cortaria a serra em todo o comprimento. Encolheu os ombros desistindo de perceber o que aquele estranho personagem estava para ali a maquinar.

Afastou-se e sentou-se à espera do combóio. Tirou o caderno e começou a escrever.

O eco de um apito estridente cruzou os ouvidos. Era o seu transporte a uivar.
Ao fundo uma máquina Branca deslocava-se a alta velocidade. Como estava longe ainda devia demorar uns bons três minutos a chegar.

O Pintor interrompeu a tarefa; pegou na lata e no pincel e recolocou-os no alforge; tirou as luvas grotescamente imaculadas, e com as suas mãos vermelhas-sangue – ainda não conseguia entender porquê – agarrou nas rédeas e montou. Pela primeira vez olhou para ele e com um sorriso, que parecia ter algo de mefistofélico, afastou-se a galope.
Na direcçaõ oposta aproximava-se o comboio sem diminuiçao de velocidade. Não me digas que vou ficar em terra. Quando atingiu a zona pintada, o início do serrote, descarrilou fazendo com que as pessoas que não se viam gritassem em pânico.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

L00p?S


Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.

“Nas tuas veias corre acetato.” Lês e algo se transforma. Necessitas de te mover, a inércia solidifica o acetato e corta as tuas veias e artérias. Não és sábio na fisiologia mas sabes o que te pode acontecer, e nestas coisas da sobrevivência nunca se sabe.

Sabes agora que não podes parar. Mexes-te para que a tua cinética mantenha a liquefacção do acetato. Caminhas sem destino e caminhas. Os semáforos tentam parar-te e arriscas tudo, atravessas a rua por entre carros e buzinadelas, com a mente a arder entre a vida e a morte. Parar é morrer, andar também pode levar ao mesmo fim.

Diriges-te a casa, agora sabes onde ir. A morrer que seja em casa a discutir com a tua mulher. Pelo menos vai ficar com remorsos, até receber os resultados da autópsia. Que estupidez, que crueldade, nem ela merece isso.

Vagueias e inquires quanto tempo mais vais aguentar. Afinal qualquer dia terás que dormir. Entras num restaurante e pedes algo para levar, não interessa o quê, desde que seja rápido. Freneticamente vais convulsionando os músculos. Chega a comida então consegues comer. A tua garganta está bloqueada a comida, só entra ar. Não podes alimentar-te, vais morrer de uma forma ou outra.

Encontras um livro no chão.

Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.
“Nas tuas veias corre acetato.”

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Cartago delenda est



Numa varanda sobre a Cidade das Carabóias. As estrelas são encobertas pelo smog das onze da noite mas as mais brilhantes assomam tímidas oferecendo luz aos olhos verdes e castanho mogno.
Debruçados fumam tabaco negro como a alma momêntanea dos pares. As cervejas ficaram pra trás e da banheira vizinha o convite dos baixos de C’mere entra-lhes nos ouvidos.
"The trouble is that you're in love with someone else"
Com lágrimas nos olhos, secas, como ele deseja que a alma esteja, Siecle Retro geme
- Detesto histórias de Amor. Acabam sempre mal.
Borg Hotui, que querendo chorar não pode, todo o sal fora usado para queimar a sua Cartago e impedir que nada mais lá crescesse, seca
- Arriscar dá nisto.
"And so may, we make time
To try and find somebody else
Who has a line"
Na rua um gato preto com pantufas brancas espera pacientemente que um carro lhe passe por cima. No último momento arrepende-se e desaparece.
Siecle dirige o olhar para uma clarabóia e finalmente chora, só no interior, para não dar motivos a Borg. Despede-se e vai para casa. O gato está à espera dele e abre-lhe a porta. Ainda não é desta que vai ser atropelado.
"And in the evening, when we are sleeping
We are sleeping. Oh, we are sleeping"

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

cris.pt


"O homicida" Munch - 1919

É luminosa. De carro vago as ruas que não o são na sua essência. Difusas, as paredes mostram o interior das casas. Não é vidro nem acrílico, antes uma sensação estranha tipo twilight zone. Onde circulo só vejo paredes que são transponíveis pelo meu olhar e o céu, que sei que está azul por cima de mim, é castanho cor de madeira. Descubro sem surpresa que é coberto a telha verde, não de cerâmica mas de algodão tingido por cobre.

A minha mente tempera o carro a electricidade para silenciar o incómodo que poderia atirar às pessoas que não existem dentro das casas.
Castanho, tudo o é à minha volta, e conforta-me. De uma bifurcação com sentido obrigatório vermelho com barra branca no centro sai um carro fantasma, atravesso-o e sinto-me frio na emoção, quente no corpo.

Corto a correia que me salva a vida e com a certeza que vou transpor um qualquer limite bocejo ao ver que nada acontece.
O inesperado faz-me sempre viver, mas agora sou deixado à ceifa. Amarelo como estou, vejo um foco de luz que me prepara para o que se segue e no entanto considero-me nulo, como cheio de toda informação mas sem os mecanismos para a manipular. Sou um computador sem sistema operativo.

Saio do carro que era e passou a bloco de gelo seco. Não me molha mas a minha transpiração cria cubos de fumo que corto com a minha linha de realidade aparente. Quebro-a e vejo uma árvore a correr na minha direcção. Não tem olhos e boca como eu esperava mas fala comigo em arvorês.
- Fica comigo e ama-me. Sente o que eu sinto e diz-me como crescer sem seiva, seca e mole. Feliz.

(Five minutes later after a fade to black)

Cut to the original text. Out of the movie but always important if you want to see it.

One thread of olive oil covers Leugim eye, left one and blinds him with white light. He needs a beer.
Get it now please, for the sake of your sanity.
A Nice Surprise
Messenger 1915
script
Leugim diz:
acordei,
Leugim diz:
tinha qualquer coisa na cabeça
Leugim diz:
e não sabia descodificar.
Kaim diz:
sim
Kaim diz:
e então...
Leugim diz:
continuava o sonho que estava a ter
Leugim diz:
entrava numa cidade com um carro barulhento
Leugim diz:
e descobria que as ruas eram o interior das casas.
Leugim diz:
o resto veio por acrescento
Leugim diz:
deu nisto.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Clockwise

Melting Clock - Salvador Dali

Vejo-o com a mão a tapar a boca, controla o vómito, saboreia-o. As entranhas revolvem-se, acidulam a língua, destroem tudo aquilo em que acredita.
Algo se perdia e tinha o fio na mão. Um puxão seria o suficiente para inverter o fluxo activo. Os calos impediam o atrito e não sabia como encontrar o caminho para o destino desejado odiado.
Não era uma questão de indecisão que lhe criava problemas antes as certezas.

Na noite encontra-se tudo aquilo que mais tememos e essa noite estava pejada de sentimentos confusos que lhe mordiam a consciência, a moralidade. Assombravam-no como nunca antes o haviam feito. Aos poucos sentia que deixava de ser dono de si e que um sentimento anti ego agarrava as rédeas com mãos de vidro.

Prolekult proclama: - Melhor seria deixar essa moralidade amedrontada para trás.

Seria esta a solução do problema?! Se assim agisse as coisas seriam mais fáceis… não de todo. Quando vemos a vida dos outros através da nossa visão prismática tudo se torna fácil e é tentador dar a nossa opinião. Emprestar.

Escuteiro dirige: - Não quero que aceites os meus conselhos, sente o teu coração.

Já não sente o coração nem nada que se compare. O sentimento de urgência atravessa-lhe os neurónios e tudo o que quer é terminar com aquilo.
O fim dos dias está próximo, a espuma lambe-lhe a moral mas não a lava.

Bleab estava sentado a beber um copo, uma fracção de uma imagem inspirou-me. A mão a tapar a boca e um prenúncio de agonia, o suficiente para criar este turbilhão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Sevilha




Em Sevilha tive uma série de agradáveis surpresas. A cidade para a quem conhece como vulgar turista é capaz de não impressionar muito, embora a Giralda e toda a zona histórica tirem a respiração a qualquer um. Mas…

Eu e o meu luso companheiro resolvemos ir à aventura sem mapa, só para ver no que dava. Ir sem rumo traz-nos sempre agradáveis surpresas e assim foi. Pelas ruas estreitas da zona histórica encontrámos praças, pracetas, cantos e recantos de inigualável beleza. De boca aberta e com a baba a escorrer íamos comentando, na medida do possível, pequenos pormenores arquitectónicos como as varandas em ferro forjado, as marquises em vidro e ferro com revolteios dignos de um bom escultor, imitando lanças e flores. Os estores em palha castanha que quando recolhidos iludiam a vista e singularmente se tornavam belos a cair em duas partes iguais só sustentados por uma cordita.

Os panais que cobriam as ruas para ocultar o branco e castanho das ruas do sol do meio dia que dizem, em Agosto ser o mais impiedoso da Península. Atravessam a rua lá nas alturas de um edifício ao outro dançando quando tocados por uma pequena brisa. Era capaz de me sentar e ficar horas a observar estas ondulações deste mar branco no céu.

As ruas estreitas mais que uma sensação de claustrofobia davam uma sensação de conforto e calor, muito graças às cores alegres com que os sevilhanos decoram as suas casas.
Em cada esquina hotéis simpáticos de duas e três estrelas que mais pareciam de 4 e 5 quando dávamos uma espreitadela no interior, sempre com uma sorridente e bonita sevilhana no balcão da recepção.

A simpatia é aliás um ex-libris desta cidade, mas também não é de admirar, a cidade respira turismo, no entanto não fazem como no Algarve em que é raro encontrar a simpatia. Arrisco-me a dizer que esta característica foi canalizada toda para aqui.

As pessoas parecem rudes no trato mas é uma espécie de capa, um pouco da amostra do seu humor. Cinco minutos depois já piscam o olho e riem-se enquanto mandam uma piadinha cáustica, bem ao meu gosto. Devem ter tirado um curso de humor negro.

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Andaluzia

Estava eu no aeroporto de Sevilha e deparei-me com estes poemas que ilustram a Andaluzia. Com eles vos deixo.

Vinieras y te fueras dulcemente,
De outro camino
A outro camino verte,
Y ya outra vez no verte.
Pasar por un puente a outro puente.

Vicente Aleixandre


Cuerpo feliz que fluye entre mis manos,
rostro amado donde contemplo el mundo,
Donde graciosos pájaros se copian fugitivos,
volando a la región donde nada se olvida.

Vicente Aleixandre


Qizá mis lentos ojos no verán mas el sur
De ligeros paisajes dormidos en el Aire,
Com cuerpos a la sombra de rams como flores
O huyendo en un galope de caballos furiosos.

Luís Cernuda

terça-feira, 20 de setembro de 2005

Vamos a comer

Nos primeiros dias estranhei um bocadillo a comida… Pudera, quem está habituado à nossa gastronomia não vê com bons olhos a comida espanhola, mas há sempre boas surpresas.
Descobrindo-se as tapas todo e qualquer português fica contente, e na Andaluzia são sem dúvida fabulosas.

Em Almonte, já referida no artigo sobre el Rocio, encontrei um restaurante delicioso que recomendo a todos. Chama-se Mesón El Tamborilero com o slogan “Selecta cocina casera” e é bem verdade. Escondido numa das ruas pintadas de branco e azul, é um local muito simpático e acolhedor, e pelo que me disseram é uma espécie de local tradicional na região, já em extinção, o que é pena.

Quinze minutos à espera de mesa e o camarero diz-me que já posso escolher. Fico à espera da lista e nem sombra dela. Leva-me e ao meu companheiro andaluz até à cozinha e o cozinheiro, dono do estabelecimento, mostra uma parafernália de pratos semeados em panelas, tachos, fornos, travessas enquanto vai descrevendo em andaluz cerradíssimo.

Júan, o meu guia diz-lhe que sou português para ele falar mais devagar. A resposta foi um aperto de mão à homem e “qué te voy a preparar algo especial”.
Vamos lá para a mesa. Como entrada feijão branco com presunto pata negra e como segundo duas postas de peixe fresco com molhos divinais, e o mesmo para o Juán. Simplesmente divinal. Um dos peixes era atum e o outro não me lembro do nome, paciência. Preço com duas cervejas cada um:
€22.60

Voltei lá com o meu companheiro português por volta da meia-noite. O senhor Rosendo fez uma festa quando me viu e perguntou se queria comer. À anuência disse sentem-se. Foi o que fizemos e um minuto depois tínhamos uma posta de bacalhau fresco com bechamel, lombo com um molho indecifrável e uma garrafa de Rioja. Sem questões e uma palmada nas costas lá nos deliciamos. Tudo muito bom, volto lá concerteza.

Em Gerena duas surpresas fenomenais. Salvi e La Laguna, dois tascos manhosos que servem comida fabulosa a preços muito em conta.
No Salvi destacam-se o Filet de Buey, qual picanha qual quê, e o Solomillo al whisky, carnes fabulosas que dão vontade de repetir.

La Laguna… Salmorejo, uma sopa fria muito bem ralada, com um prato ao lado com ovo picado e presunto pata negra para misturar, de comer e chorar por mais. E porque não seguir o exemplo dos nuestros hermanos e meter uns picos ao barulho (tostas de todas as formas e feitios, até nos desafiam a tentar comer todos os existentes no mercado, é virtualmente impossível!).

Aliño, ai a minha perdição! Tomate, pimento verde, cebola, tudo muito picadinho, como se fosse cebola, regado com azeite e vinagre e com uma pitada de pimenta preta, levando o nome do último elemento: pulpo, pollo, huevas de merluza, you name it. É simplesmente delicioso e refrescante!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

La Vírgen del Rocío

El Rocío - Fonte Google Earth
Começa hoje uma série de escritos acerca das minhas andanças pela Andaluzia.
Para começar escolhi um tema que me intrigou e divertiu, mas já lá vamos.

Para que todos fiquem informados, não fui de férias mas sim em trabalho, se bem que é um tipo de trabalho que é muito parecido com férias, mas depois de verem as fotos vão perceber mais ou menos com que linhas se coze a minha manta.

El Rocío é um pequeno lugar que pertence a Almonte e está carregadinho de pormenores interessantes e deliciosos.
Em primeiro lugar parece uma daquelas cidades do Farwest americano a roçar os vilarejos mexicanos. As ruas são todas em areia devido ao intenso tráfego de cavalos – os puro sangue andaluz – enchendo os sapatos de areia e atolando qualquer viatura motorizada que ali queira passar. É uma realidade diferente daquela que estamos habituados e sentimo-nos abraçados por uma mística ambiental fora de série. Quase que vemos o Clint Eastwood a aparecer ao dobrar da esquina com a banda sonora de Morricone… É fantástico!

Mas o lugar tem mais, muito mais! Nasceu da devoção à Vírgen del Rocio, que possui uma história que vos vou contar num outro artigo, que constitui um exemplo perfeito de fanatismo religioso.

Todos os anos no Pentecostes, 1 milhão de peregrinos, leram bem 1 000 000(!), dirige-se às ruas poeirentas para ver a virgem e tentar a todo custo tocar na imagem que desfila por um percurso pré definido.
Os almonteños cercam o andor criando uma barreira intransponível e quem tentar furá-la é gentilmente tratado a soco e pontapé. Morrem cerca de seis pessoas na peregrinação em cada ano. É de loucos!

Neste momento, contadas por mim, há 101 confrarias da virgem, com nomes curiosos como Hermandad de Pilas. Não é brincadeira, depois mostro a foto.
De sete em sete anos a imagem é levada a braços para Almonte que fica a cerca de vinte quilómetros. Por acaso este é o ano em que está lá depositada, por isso lá fui ver a senhora. Mal a vi percebi porque raio é que foi virgem até morrer. Feia como a noite e dada a adiposidade denunciada pelas vestes deve ter vindo das baleares. Aqui é que eu presenciei o fanatismo, qual senhora de Fátima qual quê. Estava numa esplanada a beber uma caña cruz campo, bem boa por sinal, por volta das onze e meia da noite e ouvi uma senhora a gritar “viva la vírgen del Rocio” e a multidão respondeu em fervor “viva”. Na igreja vi pessoas a chorar só de ver a dita senhora, deviam estar a pensar “Coitadita, tan fea qué era”.

Talhos, Ferreterias, restaurantes, mésons, tudo o que é estabelecimento só tem dois nomes ou qualquer coisa Vírgen del Rocio ou qualquer coisa pastorcito, já que a virgem foi vista por um pastorzinho… Não vos traz nada à memória?

Qué fea es!

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Para todos aqueles que adoro, gosto de vocês e sabem que sim.
"As mulheres amigas" Gustav Klimt - 1916/17
- Gosto de ti.
- Que raio…
- Apeteceu-me, que queres?!
- Ok… mas se estás à espera de uma resposta consensual…
- Nada disso, só me apeteceu que soubesses que gosto de ti.

Quando exprimo os sentimentos não estou à espera de uma resposta à altura do meu expressionismo, ou será que estou? Talvez uma parte de mim queira uma resposta à mesma cota emocional que a minha transmissão, mas nunca é propositado, por isso é que enviei um Spam a todos os meus contactos

- Gosto de ti.

E descobri que há pessoas que reagem muito bem ao estímulo, outras que ficam incomodadas sem saber o que dizer e outras ainda mantém-se silenciosas, muito embora eu saiba exactamente qual é o sentimento que nutrem por mim, ou pelo menos calculo...

Não é que eu goste de Spam, mas se me enviassem isto ia gostar. Se fosse uma carta em corrente provavelmente ia destruí-la, mas é uma simples expressão que não custa ler e faz muito bem, se bem que seria muito mais honesto da minha parte dizê-lo nos olhos, mas à distância é difícil.

Difícil também é dizê-lo nos olhos. Acho que não estamos habituados a expressar-nos da forma correcta. Até parece que ficamos engasgados, que uma coisa tão simples e tão pura possa ser mal interpretada ou provocar uma demolição numa relação.

Acho que também temos medo de a gastar. Quando se diz muitas vezes deixa de ter tanto sentido, as pessoas habituam-se e não lhe dão o devido valor. Se a dissermos poucas vezes provoca um brilho nos olhos que é a melhor recompensa para a ousadia ou a coragem que temos ao pô-la cá para fora.

Meus amigos, com estes pensamentos vos deixo e durante duas semanas estarei ausente pela Hispânia, mais exactamente pela Andaluzia. Espero voltar com o Moleskine carregado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Os hóspedes


"Viajante em frente ao mar" Caspar Friedrich - 1818

Residencial D’Ouro – Praça dos Leões, Porto

Dois senhores estão à espera de ser atendidos. Um, já com os pés nos cinquenta, carrega um chouriço de marinheiro. A barba de dois dias, grisalha na sua quase totalidade, encobre algumas rugas e uma pele vincada pelo tempo e pelo trabalho. Pelo aspecto trabalha nas obras.

O outro, moreno também, aparenta 30 e pela metro-sexualidade do trato sugere um turista acabado de chegar à cidade. Carrega duas mochilas, uma de montanha e outra de trekking mais pequena. Está vestido para caminhada e dentro em pouco vamos encontrá-lo a beber umas cervejas na esplanada do Piolho.

Será um desses jovens que se lança à aventura pelo mundo fora?! Não desses que compra um bilhete de inter rail, mas dos outros, que vai sobrevivendo por aqui e por ali, sem raízes, só com o ideal de conhecer novas pessoas e novas culturas, o recolector de experiências.

De uma porta surge o recepcionista com o sobrolho carregado e informa que só existem dois quartos sem televisão. O mais velho insiste que só quer um quarto com televisão

- Não tenho vida para me deitar às nove e meia nem para andar aí a dar água sem caneco

o mais novo, indiferente,

- Desde que tenha uma cama para dormir já é suficiente.

Informa que um dos quartos é pequeno e custa €15 e o outro, maior €20. Aqui o jovem já faz questão, quanto mais barato melhor. Dissipadas as dúvidas do mais velho, fecha-se o negócio, há que fazer o check in.

Pensão pequena só exige o BI para a ficha e como é pago adiantado não há necessidade de conservar o documento. Faz a ficha primeiro ao jovem.

João Miguel da Silva; natural de Vinhais, Bragança; Filho de António Ribeiro da Silva e Maria da Encarnação Almeida da Silva; nascido a 07-11-1974.

- Ok, o seu quarto é o número 26, suba as escadas, primeira porta à direita.

Pegou na documentação do senhor e com o automatismo começou a escrever os dados.

António Ribeiro da Silva; natural de Vinhais, Bragança; filho de Mário da Silva e Joana Ribeiro; nascido a 03-06-1950.

- O seu quarto é o número 25, suba as escadas, segunda porta à direita.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Lector in Studio


"Batalla de Aljubarrota" Mariano Maella - 1791

Vem Daqui

Frequentemente existiam confrontos entre os manos e a facção supracitada, acabando regularmente com cabeças rachadas fruto das armas utilizadas, pedras e paus. Desta forma, recheada de tropelias e cumplicidade nasceu uma amizade coesa entre a trupe de rapazes, só perturbada com a intromissão de novos amigos, adquiridos na escola.

As insignificâncias da idade como o complexo de irmão mais velho - não vais comigo para a escola nem vens ter comigo no recreio - ou o moralismo de irmão mais novo - não consigo perceber como podes fazer isso, quando tiver a tua idade nunca o vou fazer - foram as únicas coisas que podiam ter azedado a relação mas nunca conseguiram superar a cumplicidade que vinha sempre à tona.

Desde cedo que Orniciteplático se mostrou inteligente de uma forma muito camuflada, no início os professores achavam que era meio estúpido. Tudo o que lhe era mandado fazer em casa ficava confortavelmente instalado na prateleira, aparecendo incumprido na aula seguinte. Tabuadas, fichas, contas cópias, enfim tudo a que era obrigado ficava por fazer. As reguadas que lhe eram distribuídas em igualdade pelas duas mãos, para não haver invejas, funcionavam de forma contrária à esperada. Reforçavam-lhe o carácter teimoso. Quanto mais lhe mandavam fazer, menos fazia.

Ainda hoje tem uma dívida acumulada à escola de 12353 cópias, 7352 tabuadas, 12435 fichas e 98098 contas. Em compensação tudo o que fosse feito dentro das paredes da sala de aula, era cumprido à risca e com a melhor das perfeições, não obstante passar as aulas concentrado nos painéis de azulejo que a decoravam. Sabia de trás para a frente a quantidade de armas, qual as suas formas, quem lhes pegava e como, e a história que estava por trás daquela cena guerreira.

A Batalha de Aljubarrota, representada por um azulejeiro do Estado Novo, inspirava-o para fora da monotonia das aulas e punha-o a imaginar o que as personagens estavam a dizer, muito embora as bocas dos senhores não exprimissem o mínimo gesto que fosse. Via histórias e, em muitas, o cavalo, que estava em primeiro plano na imagem, confidenciava-lhe na hora das reguadas “daqui a uns anos vais ser como eles, grande, enorme e vais poder ter uma espada como a do Condestabre, novinha em folha”. Se fosse hoje dir-lhe-ia “está descansado que nós vamos aí e espetámos coices e uma destas espadas, a maior de preferência, no cú do cão raivoso que é o teu professor!” atravessada é claro.