Era mimado como uma criança de oito anos podia ser. Os pais adoravam-no e não havia nada que lhe recusassem. Tinha uma vida feliz recheada de todas as coisas boas da vida que uma criança desta idade pode desejar. Os pais ao contrário de muitos não estavam separados, viviam felizes e em harmonia, com empregos estáveis que permitiam passar tempo de qualidade com o pequeno.
Conheciam-no tão bem que até lhe adivinhavam os pensamentos. Quando notavam aquele brilho nos olhos, momento seguinte, tinha o que desejava.
Até ao dia…
Da janela do seu quarto via-se a casa em frente. Na janela do 2ºandar apareceu um frasco, vítreo com reflexos alaranjados. O líquido, fantasmagórico, parecia flutuar e um vento interno agitava-o provocando nuances, como se algum ser lá dentro habitasse.
Desejou-o desde o primeiro momento em que lhe pôs a vista em cima, mas os seus pais não estavam presentes para lhe adivinhar a cobiça.
Lentamente, por não ver o desejo satisfeito, começou a definhar fisicamente, mas sempre com p pequeno cérebro a engendrar forma de obter o misterioso objecto.
Como trepava muito bem, fruto de muitas brincadeiras nas árvores com os amigos, que nesta idade não há colegas, decidiu que ia roubar o frasco.
Durante dias a fio observou as movimentações da vivenda, que não existiam. Estranhamente chegou à conclusão que a casa não era habitada, muito embora alguns objectos fossem movidos. Seriam duendes invisíveis, como nas histórias que o pai lhe contava, que ao abrigo da sua vista mexiam nas coisas?!
Da janela o frasco continuava a chamá-lo, cada vez com mais intensidade.
Um algeroz passava a escassos centímetros do caixilho que enquadrava a sua obra de arte. Então porque não trepar? Seria uma questão de minutos e a coberto da noite teria sucesso concerteza. Consciente marcou para a noite seguinte.
Saiu de casa depois de ter escutado em sobressalto as movimentações dos pais. Três horas de espera deram-lhe cabo dos nervos mas aumentaram a adrenalina.
O coração estava pequenino e sorrateiro chegou à parede. Tocou no algeroz frio e sentiu um calafrio na espinha. Virou-se com medo de estar a ser observado. Ninguém. Respirou fundo e começou a ascensão. Com muito esforço chegou ao vislumbre do objectivo. Estendeu a mão, tacteou e estranhamente nada encontrou.
Procurou outra vez, e com alívio sentiu quente e frio no contacto com uma superfície lisa em forma de pêra.
Um ranger assusta-o, desequilibra-o e faz com que caia na sebe em segurança. Ao seu lado, também incólume, cai o frasco, agora tingido de vermelho.
Senta-se, e com as mãos a tremer, olha o frasco. Fica maravilhado, finalmente tem-no em sua posse, é seu e ninguém o vai impedir.
Algo perturba o ambiente. Olha em frente e vê rapidamente a sua casa a apodrecer, a cair, até se transformar num monte de cinzas.
Nem pânico sente quando as suas mãos já enrugadas começam a descarnar.







