terça-feira, 18 de outubro de 2005

Do Anonimato

Bene bene...
Estou a ver que o post anterior produziu reacções e afinal não foi surpresa nenhuma para mim. O anonimato cria uma aura de mistério que atrai toda a gente. É irresistível tentar saber o que está por trás de um nome, e todos já passamos por isso, ou quase todos...
Os encontros de Bloggers não são mais do que dar a cara às letras e imagens que vemos todos os dias. É um Blind date, sem que saibamos o que dali vai sair. É giro imaginar quem são as pessoas: será aquele que está a ler; aquela com o portátil; aquele senhor que fuma cachimbo e observa toda a gente?!
Nem o género é certo; no profile pode lá estar male/female, mas nada é garantido. Podemos pôr uma foto mas até isso pode ser falso. Até as pessoas se conhecerem realmente, em carne e osso nada é certo, aliás nem isto é certo.
Qual é a diferença entre um comentador anónimo e um que está registado? Nenhuma. É exactamente a mesma coisa, nada é garantido.
Todos temos capas: no trabalho temos uma; na nossa família é suposto não termos; para um amigo mostramos um lado e para outros se calhar mostramos tudo... Ninguém nos conhece completamente, nem nós próprios e não será isso uma capa também, uma espécie de anonimato?!
Por isso é que tem piada responder a comentários anónimos; destrinçar a outra pessoa estimula a inteligência, é um jogo de forças. Se assina anónimo é por que tem algo a esconder e essa é a razão para provocar e tentar saber quem é.
Os comentários fazem-me pensar que ainda não perdi a capacidade de provocar.
Mais uma transcrição.
Anónimo(a)
Não te conhecia esta faceta de resmungão.No entanto agradas-me jovem. É sempre bom saber que as pessoas se revelam em estados de pressão e que também és humano. Será que também és sensível???Beijo
Terceleiros
Anónima: Presumo que sejas uma mulher...
Sou o que sou ou gostam de mim assim ou então...
Sensível... Convido-te a descobrir. Não mando beijos porque a minha mãe sempre me disse para não beijar desconhecidas.
Isto começa a ser demais (já estou farto de rir).Agora isto é um repositório de anónimos?!Venham todos ao Tercelerios, Reunião dos CA (comentadores Anónimos!)
Bem Senhores anónimos ou anónimas: Assinem por favor!
Anónima
Miguel ou deverei dizer Ricardo?! A época das descobertas já passou mas até arriscava. Sou viciada em adrenalina! É bom ver que tens carácter mas até gostava de saber se é mesmo assim - é tão fácil encapar-nos na internet... Beijo
Riddle
Terceleiros
Riddle: Obrigado por se identificar. É fácil saber que eu sou Ricardo, é só ler o último Post. Cuidado que tenho alma de Vasco da Gama! A adrenalina é boa quando em doses regradas e se é assim eu faço parte da mesma equipa e acho que nisso já tenho mestrado! Talvez possamos trocar experiências... acerca das capas: acho que temos sempre algo a esconder. É o nosso Post Secret.
E este acabou por aqui... ou será que não?!

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

CA - Comentadores Anónimos

O Monte da Lua

Vem daqui

Como blogger, e já lá vai algum tempo, sempre mantive o meu anonimato. Durante todo o tempo que mantive este blog (bem como o outro) resolvi “esconder-me” atrás de um pseudónimo e de uma imagem que não é a minha.
Já muitas vezes me perguntaram o que quer dizer o pseudónimo, e desenganem-se, não foi criado para o blog: tem 13 anos. Foi criado quando publiquei o meu primeiro texto no Jornal de Esposende, com a preciosa ajuda do meu professor de Latim, director do jornal na altura.
O meu Tio sugeriu o nome; Miguel é o meu segundo nome; Terceleiros é o micro-topónimo onde está localizada a casa dos meus pais que significa acima do Celeiro.
Como devem ter reparado, finalmente pus uma foto minha no Blog.
Isto tudo para quê?! Não sei se têm notado mas tenho sido invadido por anónimos, que presumo sejam do género feminino.

Isto dá-me alento. Gosto de descobrir, sou curioso, procurar no sitemeter e descobrir não a cara mas, por cruzamento de dados, a localização. Esta Internet é um Big Brother!

O Hugo dizia há dias que os comentários são um outro post, quando não são a continuação. No post Livro surgiu um Anónimo(a) que originou esta bela conversa.

Anónimo(a)
Ficaste preso nos meus favoritos, e cada vez que teclo um “t”, cá estou eu... Pena não ter olhos que cheguem para ler os teus textos todos...

Terceleiros
Anónimo(a): Fico contente por gostares, aliás feliz. Os meus leitores é que me inspiram na maior parte das vezes. Para a próxima uma assinatura, se não for pedir muito.

Anónimo(a)
Não estou no anonimato para me esconder... Por agora, quero apenas estar aqui, no meu sossegadinho cantinho... Escreve-me :)... se precisares de dar vida ao teu livro no mundo das figuras!!! Bom fim de Semana

Terceleiros
Anónimo(a): Não digo que te estejas a esconder. Peço uma assinatura para poder saber se é sempre o mesmo anónimo :). Posso escrever-te a tinta ou a caracteres, como preferes?!Desenhar a tua imagem com letras. Posso:idealizar; infra-idealizar; supra idealizar... Qual o teu tipo de idealização perfeita?

Anónimo(a)
Para alem de ser amante das tintas, prefiro que me escrevas em carácter. É mais rápido e indolor... A imaginação é perfeita... dá-me tu um nome!!

Terceleiros
Anónimo(a): Seja, caracter será. (é andrógino) Nunca se soube se era realmente uma mulher ou se era a cara do Leonardo por isso como não sei o teu sexo ficas Mona Lisa. Para além disso aquela aura de mistério...agrada-me.
Mona Lisa. pinta-me manda a cor por mail. Miguelterceleiros@gmail.com A moeda tem sempre duas faces. Pode ser com pincéis de photoshop.

Mona Lisa
Tu és da cor da folha da arvore outonal, da lua e do sol. Da chuva e da noite. Tinta fresca que vai secando na tela rabiscada por ti próprio. Afinal não somos todos assim?! Sim... o mistério muitas vezes é o que nos guia na imaginação... Já ouviste falar do monte da lua?

Terceleiros
Mona Lisa: Monte da Lua?! Gostava de conhecer. Boa pintura a tua, é Impressionismo?

Mona Lisa
É abstracção do ser humano para representar imagens :D. O monte da lua é o nome que designa a uma Serra... Onde lutaram Mouros e cristão... e viveram reis e rainhas... onde existem duendes mágicos e mouras encantadas a espera do derradeiro beijo. É onde existem castelos protegidos por gárgulas que acordam do sono profundo com o brilho da lua... O monte da lua é envolto num mistério fantástico e poucos são aqueles que se aventuram a andar por lá depois do sol posto. É o cenário perfeito para um dos teus contos...

Se quiseres, mais tarde envio-te imagens... e som...

Terceleiros
Mona Lisa: O Monte da Lua onde a Pena é mais forte que a Espada?! Palácios e castelos ameados... já passeei por lá numa outra vida mas morri pelos olhos de uma encantada. Manda o reflexo de um espelho, as imagens em anagrama lógico.beijo
Só uma coisa para os anónimos. O mistério é óptimo até cansar.

Insurgimento

Tenho que escrever isto. Os bois que me andam a pôr Spam na caixa são os mais deslavados descaradões à face da Internet.
Não é que me mandam um spam com 124 (!) links e no fim, ironicamente, dois deles rezam o seguinte:
- 122 PAL Popup Eliminator - Blocks all pop-up and pop-under ads.
- 124 PAL Spyware Remover - Every day internet surfers install SpyWare and AdWare components on their PC's without even knowing it by clicking on pop up ads, downloading music files, installing free programs and so on.

Só cá faltava um a dizer:
PAL Spam Remover.

São estes caralhos que fazem o Spam, os reservoir oxes de merda que depois nos obrigam a comprar a cura para a doença que eles criaram.

Apeteceu-me dizer uns palavrões.

Só fizeram com que activasse o Word Verification do Blogger.

P. S. Carreguem nos links vão ter uma boa surpresa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Livro


Acorda num sítio muito estranho. Por muito que queira descrevê-lo não tem sucesso (satisfatório). No centro da divisão (acha) encontram-se duas estantes que devem ter dois metros e meio de altura. Tocam o tecto. Aí está colocada uma série de livros que devem contabilizar 450 volumes em cada face da estante (se bem que possa estar enganado), num total de 900 mais coisa menos coisa.

Todos os livros são diferentes em tamanho e cor, formando um arco-íris desordenado, uma manta de retalhos de cultura (assim julga). As formas, uma muralha de legos misturados com blocos de construção lógica infantis e meccano. Uma Babilónia lógica; tem que haver uma lógica nisto.

Quando se aproxima, o tecto transforma-se num gigantesco espelho, fazendo com que os livros se tornem numa gigantesca torre infinita. Todo o conhecimento está ali em reflexo.
Com mais atenção vê que os livros se invertem, como é natural num espelho, criando ilusão: os reflexos não correspondem à imagem original.

Olha em redor e toda a sala é um gigantesco e único espelho multiplicando os livros e a sua imagem até à exaustão. O medo acorda-lhe a mente. Tem que sair dali. Tacteia, bate com os nós dos dedos para sair, não para entrar, obtendo sempre o mesmo resultado, nada. Está preso.
Um sonho, espero estar num sonho maluco.

Dirige-se às estantes e retira o primeiro livro do topo esquerdo. Não tem título nem autor, mas sim, índice.
Ao que parece é um livro de Contos.

Absorto na leitura descobre, com espanto, que a sua história, desde que acordara na sala espelhada, está lá escrita, mas por alguma razão interrompida no ponto em que ele pega no livro.
Os contos acabam todos de uma forma que indica que o autor tem gosto em brincar com a vida das personagens que cria. Vai criando expectativas dando migalhas, semeando a confusão para, no final, os deixar com a vida destroçada ou com uma experência traumática que lhes mude a vida.

Pega numa esferográfica e resolve escrever.

15.00
Está sentado como é costume em frente ao computador. A sala é decorada com azulejos do Estado Novo; citações de Salazar e outros coevos da Ideologia.
Com a rotina no rato e a retina no monitor, liga o Messenger, o Morpheus e o Media player.; clica no Firefox e escreve
gmail.com
Durante trinta minutos consulta os mail's e troca algumas palavras com os habitués. Muda o estado para ocupado e escreve o post para o blog. 15 minutos de escrita, dez de correcções; google images para encontrar o quadro relativo ao texto; formata e publica.
Passa agora para a ronda pelos blogs habituais. O primeiro fá-lo esfregar os olhos, o segundo arregalá-los; vai clicando em pânico em todos e as mãos crispam-se sobre o rato com tanta força que um estalido revela que o partiu em vários fragmentos.
Confere a hora dos posts e comprova através das lágrimas de raiva que todos foram escritos antes do seu. Ele é a cópia, uma farsa. O seu texto estava em todos os blogs.

Ora toma lá que é para não andares a torturar as tuas personagens. Vê lá se gostas quando brincam contigo.

Acabara o livro do escritor deconhecido e nada o podia mudar. Esgotara o espaço para texto a tinta preta sobre o papel amarelo. Não havia correcção possível.
Com um sorriso nos lábios volta a colocar o livro na prateleira. Volta-se com um sentimento de justiça e, no espelho, vê tinta preta a escorrer pela lombada do livro.
Volta a segurá-lo e algumas letras estão a compor palavras lentamente na lombada.

O Livro e outros contos – Miguel de Terceleiros
Pega na carteira, como que duvidando da própria identidade, e os espelhos partem-se.
Ricardo Brochado AKA Miguel de Terceleiros

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Somos todos malucos

Guarany 21.30

Não sou das pessoas mais pontuais mas desta vez cheguei a tempo. Sento-me com os meus iscos na mão. O meu caderninho e caneta; Ficções de Jorge Luís Borges. Não sei qual foi o sinal combinado mas qualquer pessoa com dois dedos de testa chega lá.
Ora porra, ninguém no seu perfeito juízo vem para o Guarany escrever e ler, a não ser que tenha um propósito obscuro por trás disso.
Observo tudo em volta e começo a adivinhar. Será que é este, aquele; os cromos do portátil?! Desisto. Hugo entra e não me vê. Estou a um metro dele e penso que a melhor forma de ficar invisível é ficar no sítio mais visível, na mesa da entrada.
- Então?!
- Nada ainda. Somos os primeiros.
- Um descafeínado.
O empregado vai e volta com o líquido.
Fico só outra vez. Amie e Freddy entram e sentam-se.
- Estás sozinho?!
- Não já cá está o Hugo. Olha.
Apresentações e mudamos para uma mesa maior. Apostas e mais apostas de quem seria e eu aposto no desconhecido na mesa do canto. Depois de cinco minutos de risota e punchlines para tirar a dúvida Amie lá se enche de coragem e vai lá.
Não sei o que disse mas era mesmo. Cláudio senta-se e junta-se à conversa. Mais uns minutos chega a guerrilheira de serviço, Guevara e uma pessoa que não esteve lá (esta é private mas estiveste lá).
Piadas nervosas; que fazes; qual é o teu blog e tal; porquê o nome, enfim tudo o que queriamos saber, mas acima de tudo a curiosidade satisfeita de conhecer fisicamente as pessoas que estão por trás dos teclados e monitores.
Mais tarde chegou Malamack e ficou (quase) completa a pandilha.
Ernesto traidor! Onde te meteste!!!! Estivemos à tua espera montes de tempo. Imaginámos que fosses o saxofonista, o tipo de óculos no canto, a comer com a boca cheia de dentes, que estavas dentro do piano, que eras o empregado e não eras.
Isto não se faz! Deixar assim as pessoas à espera!
00.00
Fechou o Guarany e fomos expulsos com promessas de repetir a dose.
Gostei muito, diverti-me e vamos lá trocar uns poemas (lol) e mais umas coisas (lol).

terça-feira, 11 de outubro de 2005

21

Andrajosamente lúcido revira os olhos à procura da página certa. Lê na diagonal, com pressa, embora saiba que esta leitura nunca resulta (pelo menos com ele). Obtém produtividade na leitura com atenção; ao sobrevoar as páginas sente que está a perder tempo; não vai encontrar o que deseja mas teima.

O mofo invade as narinas e fá-lo abafar um espirro. Não podem saber que está ali, pelo menos agora. Há que esticar (alargar) os limites cronológicos para lá do razoável. Esquartejar os relógios do mundo para ter o tempo multiplicado por quatro. Não é possível nesta história, nesta sala, com este corpo; há que aproveitar [(explorar (exaurir)] ao máximo, o tempo.
Demorara a encontrar o livro e agora, que o tinha na mão, a passagem teimava e escapava. Procura nas entrelinhas.

Olhou para as linhas e atingiu a forma de encontrar o que queria. Da pasta de couro coçada e áspera como a vida, retirou papel pautado, com um allegro que estava a compor já há anos, e colocou-o sobre as páginas do livro. Semitransparente, misturava as letras com os símbolos musicais e concentrava nas entrelinhas só o essencial.

Esta procura tornava-se uma obsessão e instava-o a prolongar a demanda. A felicidade dependia daquilo ou talvez não. Da mesma forma que outros procuravam Graal’s de múltiplas formas e conteúdos, este era o seu.

Horas sem fio nem textura aparente entraram nos seus olhos atingindo os neurónios construindo cansaço com tijolos de informação. 110 páginas absorvidas com atenção, lidas de uma forma nunca antes lida; música e letra em conjunção absoluta de uma forma que agora a música era lida pelos olhos e a leitura pelos ouvidos.

Vinte e um anagramas. Aqui está a linha que procurava. Nunca a iria encontrar se não fosse desta inventiva forma de ler nas interlinhas. Espaço, espaço, ponto final.Levantou o papel pautado e viu a frase original.

A ARMATA MEN GUN VIS.
O autor brincara com uma espécie de latim macarrónico e inglês. Repetia ideias.
Traduzia-se como:
A força (Armata) dos homens (Men) é a quantidade (Vis) de armas (Gun).
Não lhe interessava esta frase.
Não fazia sentido nem nunca fizera, mas agora parecia que estava no caminho certo. A frase do texto que dava origem a esta era:
Quanto pesa o Amor?
Vinte e um anagramas.

Mais uma brincadeirinha. Divirtam-se

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Olhos bem abertos

"Venus e Cupido" - Artemisia Gentileschi - 1625-30
Insónia, mais uma vez insónia. Dentro do saco cama não consegue fechar os olhos. Todo o seu corpo sonha, já há horas largas e compridas, mas os olhos não se fecham.
Sonhar acordado é bom, nunca sabemos qual a dimensão da realidade mas também não chega a ter importância. Os pensamentos são só nossos, a dormir ou despertos.

O contacto com o poliéster fá-lo sentir sexy como um gato; não um tigre; melhor, uma pantera. Sente o tecido a gemer e faz coro com ele. Suspira de prazer… ronrona lascivamente e sente-se poderoso como dentro do corpo de uma mulher. Sente o corpo a ser beijado gradualmente. Invisíveis lábios tocam-no – não consegue ver a cara – tudo está claro, repleto de luz. Chora de prazer com a secreta esperança que tudo se repita em breve.

Abraça o saco cama e a textura modifica-se, parece carne. De olhos (agora) abertos, salta do sonho e da boca escapa-se
- Nunca tinha feito o Amor com um saco cama.
- Nem eu com um gato.
O corpo liso e suave, em contraluz, sorri-lhe; todos os poros sorriem. A lágrima de satisfação surge ao canto do ser quando descobre que não foi um sonho.
Trinca-lhe o pescoço para provar o mundo real, e o sal sobe-lhe a tensão. Poças de suor espalham-se pela cama e pergunta
- Posso ficar dentro de ti para sempre?!
- Já estás.
Acorda estremunhado e não reconhece o ambiente. Ao seu lado uma mulher de olhos abertos. Não a reconhece mas também não se preocupa; o sentimento é bom. Das últimas vezes não tinha sido nada bom, antes péssimo, tanto é que ganhara pavor ao risco. Arrependia-se sempre no dia seguinte.

Naquele momento, com aquela mulher, com aqueles lençóis, naquela cama, sentia-se bem, tão bem que nem havia mau hálito.

A felicidade relativa coagula-nos os sentidos.

A expressão de paz nos olhos da desconhecida agrada-lhe. Por muito tempo fica em êxtase; contempla aquele momento, pintura, escultura; controla a respiração para não a acordar dos olhos abertos.
Simples mas portadora de felicidade. A sensação.
- Porque choras?
Acordara.
- Quase que consigo acreditar em Deus só de olhar para ti.
- A Abstinência é uma droga fodida, não é?!

E agora para algo completamente diferente

Passados uns meses aqui vai a solução do puzzle.

Ora boas! Falaram-me disto e achei que era uma óptima ideia para comer a cabeça ao pessoal. Código binário, conhecem?! Quero ver qual é o tipo de comentário que vai sair daqui. a primeira pessoa que conseguir descodificar vai poder saber o meu nome verdadeiro e ver a minha foto! ehehehehehehe
Com jeitinho bebemos um copo! Beijos e abraços para os meus amigos palhaços!

Para mais informações

http://nickciske.com/tools/binary.php

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Futuro v 9.35

"The Art of Painting" - Vermeer - 1666-1668

Deserta, é assim que está a sua mente. Procura, em vão, algo que mostre que a consciência está activa; frustrado verifica que só areia fina permanece agregada em estado bruto.
Como uma máquina a carvão, barulhenta, fumacenta, começa a funcionar. Fumo fá-lo espirrar; no outro lado do renque de árvores um homem de fato preto e gravata branca diz-lhe algo.
Ao longe um altifalante de uma igreja ou capela que seja, ecoa o Ave Maria, prologando o anunciar das nove da noite. Neste sítio é sempre escuro mas é noite, como assim foi declarado pelos antigos que ainda testemunharam a existência da luz; agora é artificial, amarela baça, que transforma todos em fantasmas alaranjados.

A vida vai prosseguir. Ligaram-se os motores e há que apanhá-la. Corre com a respiração a servir de pernas e consegue, com a ponta dos dedos agarrar o varão metálico que o impele para o futuro que só existe nos filmes.

Sabe (é o único) que o dia de amanhã será o dia de hoje, repetirá a mesma rotina de sempre: por isso o futuro é nos filmes, não é real nem será.
O grande relógio que controla as vidas marca sempre a mesma hora, a anunciada pela Ave Maria.

Sabendo da verdade (que bem poderá ser uma falsa questão) resolve atacar a imobilidade mental que o rodeia. Pega em dois cubos de granito e faz pontaria. Falha o primeiro com estrondo. O segundo, quando lhe sai projectado das mãos, arranca um grito morto da boca do fato preto e destrói os ponteiros do relógio. Sente o chão a fugir-lhe dos pés; uma tontura empurra-o para o chão alaranjado que se torna vermelho e negro; Ave Maria torna-se difusa.

Acorda, luz branca na retina, por momentos julga-se cego. É o dia há muito esquecido, há muito esperado, dos antigos. Tudo é branco e ele é escuro. Carrega a noite consigo. Tacteia e encontra o relógio caído; o som dos ponteiros chamou-o e mostrou-lhe

9.35

Começara a vida; sentia os ponteiros em movimento.
O Futuro estava próximo.
Inspire me 1001
Na estação de Nine um homem de fato preto mexia no ponteiros tentando acertar (inutilmente) um dos relógios parados. Serão sempre nove horas naquela estação, a não ser que venha o homem do fato preto acertá-lo durante um minuto.
9.35
a vida continua chega a ligação para Viana do Castelo.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Combóio

"Train toy ride" - Claire Wolf Krantz - 1999

Calcou a gravilha com prazer. A dimensão das pedrinhas produzia um som estimulante. Como Amélie sentia prazer a mergulhar a mão nos sacos de cereais, ele comprazia-se com a fricção dos minerais. Coisa pouca.


Passou para o outro lado da linha e com o cérebro aos solavancos tentou juntar as letras desenhadas nos vasos da estação. Via mas não compreendia, como se tivesse perdido a capacidade de ler. Tinha chegado à boleia; num inglês básico respondera à pergunta do condutor

- To a train station, i'll get along.

Tinha saudades, muitas, e desejava estar com ela. Não sabia muito bem para onde ia mas se chegara até ali, nalguma altura ia encontrar. Sem mapa, só podia confiar na intuição ou numa informação dada por alguém. Como era muito desconfiado e tendencialmente do contra, não acatava os conselhos que lhe davam. Não sabia muito bem porque raio se dava ao trabalho de perguntar; seria uma manobra rebuscada de manipular o seu livre arbítrio. Não era muito de tomar decisões espontâneas, assim eram tomadas à força pela opinião dos outros.

A estação estava deserta, o que não era de espantar, perdida no meio da serra, pouca gente devia usufruir da sua existência. Ao fundo, no vale, via uma série de casas que pela vegetação envolvente e pelos buracos escuros das janelas, indicavam que já há muito estariam abandonadas. À esquerda carris perfuravam uma elevação e as vagonetas explicavam tudo.

Mas que raio de ideia, a do homem, de o deixar ali ao abandono.

Ouviu um trote, um cavalo ou algo parecido aproximava-se. Virá acompanhado?! O mais certo é que fosse um dos cavalos selvagens que vira quando o seu transporte cruzara os estradões da montanha. A solidão estava a saber bem e não queria que aparecesse alguém para estragar o momento, mas, simultaneamente, queria tirar as suas dúvidas. Primeiro surgiu uma cabeça com cabelo bem tratado e barba impecavelmente penteada; um corpo coberto por farrapos de cor impossível de discernir do uso exaustivo; por fim o cavalo branco, brilhante a combinar com a cabeça do homem.

Que figura mais estranha.

Quando as coisas são fora do comum não sabemos muito bem como reagir. O efeito surpresa ataca o estereótipo e depois de breve escaramuça moral, a confusão fica entranhada. Quando cavalo e cavaleiro se aproximaram, notou que o ginete tinha as mãos tingidas de vermelho. Recuou em sobressalto e vendo uma lata de tinta e um pincel vermelho atados ao alforge tranquilizou-se.

Não dava jeito nenhum encontrar um assassino no meio do nada.

Fez um gesto para entabular conversa mas o homem, como se ele não existisse, passou-lhe ao lado e, poucos metros adiante, desmontou. Do alforge retirou luvas brancas de borracha, colocou-as, pegou na lata e com o pincel começou a pintar os carris. Com cuidado, para a sua sombra não denunciar a sua posição, aproximou-se e observou o que o homem estava a fazer. Pintava uma espécie de serrilhado, como se o carril se tornasse num gigantesco serrote que cortaria a serra em todo o comprimento. Encolheu os ombros desistindo de perceber o que aquele estranho personagem estava para ali a maquinar.

Afastou-se e sentou-se à espera do combóio. Tirou o caderno e começou a escrever.

O eco de um apito estridente cruzou os ouvidos. Era o seu transporte a uivar.
Ao fundo uma máquina Branca deslocava-se a alta velocidade. Como estava longe ainda devia demorar uns bons três minutos a chegar.

O Pintor interrompeu a tarefa; pegou na lata e no pincel e recolocou-os no alforge; tirou as luvas grotescamente imaculadas, e com as suas mãos vermelhas-sangue – ainda não conseguia entender porquê – agarrou nas rédeas e montou. Pela primeira vez olhou para ele e com um sorriso, que parecia ter algo de mefistofélico, afastou-se a galope.
Na direcçaõ oposta aproximava-se o comboio sem diminuiçao de velocidade. Não me digas que vou ficar em terra. Quando atingiu a zona pintada, o início do serrote, descarrilou fazendo com que as pessoas que não se viam gritassem em pânico.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

L00p?S


Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.

“Nas tuas veias corre acetato.” Lês e algo se transforma. Necessitas de te mover, a inércia solidifica o acetato e corta as tuas veias e artérias. Não és sábio na fisiologia mas sabes o que te pode acontecer, e nestas coisas da sobrevivência nunca se sabe.

Sabes agora que não podes parar. Mexes-te para que a tua cinética mantenha a liquefacção do acetato. Caminhas sem destino e caminhas. Os semáforos tentam parar-te e arriscas tudo, atravessas a rua por entre carros e buzinadelas, com a mente a arder entre a vida e a morte. Parar é morrer, andar também pode levar ao mesmo fim.

Diriges-te a casa, agora sabes onde ir. A morrer que seja em casa a discutir com a tua mulher. Pelo menos vai ficar com remorsos, até receber os resultados da autópsia. Que estupidez, que crueldade, nem ela merece isso.

Vagueias e inquires quanto tempo mais vais aguentar. Afinal qualquer dia terás que dormir. Entras num restaurante e pedes algo para levar, não interessa o quê, desde que seja rápido. Freneticamente vais convulsionando os músculos. Chega a comida então consegues comer. A tua garganta está bloqueada a comida, só entra ar. Não podes alimentar-te, vais morrer de uma forma ou outra.

Encontras um livro no chão.

Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.
“Nas tuas veias corre acetato.”

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Cartago delenda est



Numa varanda sobre a Cidade das Carabóias. As estrelas são encobertas pelo smog das onze da noite mas as mais brilhantes assomam tímidas oferecendo luz aos olhos verdes e castanho mogno.
Debruçados fumam tabaco negro como a alma momêntanea dos pares. As cervejas ficaram pra trás e da banheira vizinha o convite dos baixos de C’mere entra-lhes nos ouvidos.
"The trouble is that you're in love with someone else"
Com lágrimas nos olhos, secas, como ele deseja que a alma esteja, Siecle Retro geme
- Detesto histórias de Amor. Acabam sempre mal.
Borg Hotui, que querendo chorar não pode, todo o sal fora usado para queimar a sua Cartago e impedir que nada mais lá crescesse, seca
- Arriscar dá nisto.
"And so may, we make time
To try and find somebody else
Who has a line"
Na rua um gato preto com pantufas brancas espera pacientemente que um carro lhe passe por cima. No último momento arrepende-se e desaparece.
Siecle dirige o olhar para uma clarabóia e finalmente chora, só no interior, para não dar motivos a Borg. Despede-se e vai para casa. O gato está à espera dele e abre-lhe a porta. Ainda não é desta que vai ser atropelado.
"And in the evening, when we are sleeping
We are sleeping. Oh, we are sleeping"

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

cris.pt


"O homicida" Munch - 1919

É luminosa. De carro vago as ruas que não o são na sua essência. Difusas, as paredes mostram o interior das casas. Não é vidro nem acrílico, antes uma sensação estranha tipo twilight zone. Onde circulo só vejo paredes que são transponíveis pelo meu olhar e o céu, que sei que está azul por cima de mim, é castanho cor de madeira. Descubro sem surpresa que é coberto a telha verde, não de cerâmica mas de algodão tingido por cobre.

A minha mente tempera o carro a electricidade para silenciar o incómodo que poderia atirar às pessoas que não existem dentro das casas.
Castanho, tudo o é à minha volta, e conforta-me. De uma bifurcação com sentido obrigatório vermelho com barra branca no centro sai um carro fantasma, atravesso-o e sinto-me frio na emoção, quente no corpo.

Corto a correia que me salva a vida e com a certeza que vou transpor um qualquer limite bocejo ao ver que nada acontece.
O inesperado faz-me sempre viver, mas agora sou deixado à ceifa. Amarelo como estou, vejo um foco de luz que me prepara para o que se segue e no entanto considero-me nulo, como cheio de toda informação mas sem os mecanismos para a manipular. Sou um computador sem sistema operativo.

Saio do carro que era e passou a bloco de gelo seco. Não me molha mas a minha transpiração cria cubos de fumo que corto com a minha linha de realidade aparente. Quebro-a e vejo uma árvore a correr na minha direcção. Não tem olhos e boca como eu esperava mas fala comigo em arvorês.
- Fica comigo e ama-me. Sente o que eu sinto e diz-me como crescer sem seiva, seca e mole. Feliz.

(Five minutes later after a fade to black)

Cut to the original text. Out of the movie but always important if you want to see it.

One thread of olive oil covers Leugim eye, left one and blinds him with white light. He needs a beer.
Get it now please, for the sake of your sanity.
A Nice Surprise
Messenger 1915
script
Leugim diz:
acordei,
Leugim diz:
tinha qualquer coisa na cabeça
Leugim diz:
e não sabia descodificar.
Kaim diz:
sim
Kaim diz:
e então...
Leugim diz:
continuava o sonho que estava a ter
Leugim diz:
entrava numa cidade com um carro barulhento
Leugim diz:
e descobria que as ruas eram o interior das casas.
Leugim diz:
o resto veio por acrescento
Leugim diz:
deu nisto.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Clockwise

Melting Clock - Salvador Dali

Vejo-o com a mão a tapar a boca, controla o vómito, saboreia-o. As entranhas revolvem-se, acidulam a língua, destroem tudo aquilo em que acredita.
Algo se perdia e tinha o fio na mão. Um puxão seria o suficiente para inverter o fluxo activo. Os calos impediam o atrito e não sabia como encontrar o caminho para o destino desejado odiado.
Não era uma questão de indecisão que lhe criava problemas antes as certezas.

Na noite encontra-se tudo aquilo que mais tememos e essa noite estava pejada de sentimentos confusos que lhe mordiam a consciência, a moralidade. Assombravam-no como nunca antes o haviam feito. Aos poucos sentia que deixava de ser dono de si e que um sentimento anti ego agarrava as rédeas com mãos de vidro.

Prolekult proclama: - Melhor seria deixar essa moralidade amedrontada para trás.

Seria esta a solução do problema?! Se assim agisse as coisas seriam mais fáceis… não de todo. Quando vemos a vida dos outros através da nossa visão prismática tudo se torna fácil e é tentador dar a nossa opinião. Emprestar.

Escuteiro dirige: - Não quero que aceites os meus conselhos, sente o teu coração.

Já não sente o coração nem nada que se compare. O sentimento de urgência atravessa-lhe os neurónios e tudo o que quer é terminar com aquilo.
O fim dos dias está próximo, a espuma lambe-lhe a moral mas não a lava.

Bleab estava sentado a beber um copo, uma fracção de uma imagem inspirou-me. A mão a tapar a boca e um prenúncio de agonia, o suficiente para criar este turbilhão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Sevilha




Em Sevilha tive uma série de agradáveis surpresas. A cidade para a quem conhece como vulgar turista é capaz de não impressionar muito, embora a Giralda e toda a zona histórica tirem a respiração a qualquer um. Mas…

Eu e o meu luso companheiro resolvemos ir à aventura sem mapa, só para ver no que dava. Ir sem rumo traz-nos sempre agradáveis surpresas e assim foi. Pelas ruas estreitas da zona histórica encontrámos praças, pracetas, cantos e recantos de inigualável beleza. De boca aberta e com a baba a escorrer íamos comentando, na medida do possível, pequenos pormenores arquitectónicos como as varandas em ferro forjado, as marquises em vidro e ferro com revolteios dignos de um bom escultor, imitando lanças e flores. Os estores em palha castanha que quando recolhidos iludiam a vista e singularmente se tornavam belos a cair em duas partes iguais só sustentados por uma cordita.

Os panais que cobriam as ruas para ocultar o branco e castanho das ruas do sol do meio dia que dizem, em Agosto ser o mais impiedoso da Península. Atravessam a rua lá nas alturas de um edifício ao outro dançando quando tocados por uma pequena brisa. Era capaz de me sentar e ficar horas a observar estas ondulações deste mar branco no céu.

As ruas estreitas mais que uma sensação de claustrofobia davam uma sensação de conforto e calor, muito graças às cores alegres com que os sevilhanos decoram as suas casas.
Em cada esquina hotéis simpáticos de duas e três estrelas que mais pareciam de 4 e 5 quando dávamos uma espreitadela no interior, sempre com uma sorridente e bonita sevilhana no balcão da recepção.

A simpatia é aliás um ex-libris desta cidade, mas também não é de admirar, a cidade respira turismo, no entanto não fazem como no Algarve em que é raro encontrar a simpatia. Arrisco-me a dizer que esta característica foi canalizada toda para aqui.

As pessoas parecem rudes no trato mas é uma espécie de capa, um pouco da amostra do seu humor. Cinco minutos depois já piscam o olho e riem-se enquanto mandam uma piadinha cáustica, bem ao meu gosto. Devem ter tirado um curso de humor negro.

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Andaluzia

Estava eu no aeroporto de Sevilha e deparei-me com estes poemas que ilustram a Andaluzia. Com eles vos deixo.

Vinieras y te fueras dulcemente,
De outro camino
A outro camino verte,
Y ya outra vez no verte.
Pasar por un puente a outro puente.

Vicente Aleixandre


Cuerpo feliz que fluye entre mis manos,
rostro amado donde contemplo el mundo,
Donde graciosos pájaros se copian fugitivos,
volando a la región donde nada se olvida.

Vicente Aleixandre


Qizá mis lentos ojos no verán mas el sur
De ligeros paisajes dormidos en el Aire,
Com cuerpos a la sombra de rams como flores
O huyendo en un galope de caballos furiosos.

Luís Cernuda

terça-feira, 20 de setembro de 2005

Vamos a comer

Nos primeiros dias estranhei um bocadillo a comida… Pudera, quem está habituado à nossa gastronomia não vê com bons olhos a comida espanhola, mas há sempre boas surpresas.
Descobrindo-se as tapas todo e qualquer português fica contente, e na Andaluzia são sem dúvida fabulosas.

Em Almonte, já referida no artigo sobre el Rocio, encontrei um restaurante delicioso que recomendo a todos. Chama-se Mesón El Tamborilero com o slogan “Selecta cocina casera” e é bem verdade. Escondido numa das ruas pintadas de branco e azul, é um local muito simpático e acolhedor, e pelo que me disseram é uma espécie de local tradicional na região, já em extinção, o que é pena.

Quinze minutos à espera de mesa e o camarero diz-me que já posso escolher. Fico à espera da lista e nem sombra dela. Leva-me e ao meu companheiro andaluz até à cozinha e o cozinheiro, dono do estabelecimento, mostra uma parafernália de pratos semeados em panelas, tachos, fornos, travessas enquanto vai descrevendo em andaluz cerradíssimo.

Júan, o meu guia diz-lhe que sou português para ele falar mais devagar. A resposta foi um aperto de mão à homem e “qué te voy a preparar algo especial”.
Vamos lá para a mesa. Como entrada feijão branco com presunto pata negra e como segundo duas postas de peixe fresco com molhos divinais, e o mesmo para o Juán. Simplesmente divinal. Um dos peixes era atum e o outro não me lembro do nome, paciência. Preço com duas cervejas cada um:
€22.60

Voltei lá com o meu companheiro português por volta da meia-noite. O senhor Rosendo fez uma festa quando me viu e perguntou se queria comer. À anuência disse sentem-se. Foi o que fizemos e um minuto depois tínhamos uma posta de bacalhau fresco com bechamel, lombo com um molho indecifrável e uma garrafa de Rioja. Sem questões e uma palmada nas costas lá nos deliciamos. Tudo muito bom, volto lá concerteza.

Em Gerena duas surpresas fenomenais. Salvi e La Laguna, dois tascos manhosos que servem comida fabulosa a preços muito em conta.
No Salvi destacam-se o Filet de Buey, qual picanha qual quê, e o Solomillo al whisky, carnes fabulosas que dão vontade de repetir.

La Laguna… Salmorejo, uma sopa fria muito bem ralada, com um prato ao lado com ovo picado e presunto pata negra para misturar, de comer e chorar por mais. E porque não seguir o exemplo dos nuestros hermanos e meter uns picos ao barulho (tostas de todas as formas e feitios, até nos desafiam a tentar comer todos os existentes no mercado, é virtualmente impossível!).

Aliño, ai a minha perdição! Tomate, pimento verde, cebola, tudo muito picadinho, como se fosse cebola, regado com azeite e vinagre e com uma pitada de pimenta preta, levando o nome do último elemento: pulpo, pollo, huevas de merluza, you name it. É simplesmente delicioso e refrescante!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

La Vírgen del Rocío

El Rocío - Fonte Google Earth
Começa hoje uma série de escritos acerca das minhas andanças pela Andaluzia.
Para começar escolhi um tema que me intrigou e divertiu, mas já lá vamos.

Para que todos fiquem informados, não fui de férias mas sim em trabalho, se bem que é um tipo de trabalho que é muito parecido com férias, mas depois de verem as fotos vão perceber mais ou menos com que linhas se coze a minha manta.

El Rocío é um pequeno lugar que pertence a Almonte e está carregadinho de pormenores interessantes e deliciosos.
Em primeiro lugar parece uma daquelas cidades do Farwest americano a roçar os vilarejos mexicanos. As ruas são todas em areia devido ao intenso tráfego de cavalos – os puro sangue andaluz – enchendo os sapatos de areia e atolando qualquer viatura motorizada que ali queira passar. É uma realidade diferente daquela que estamos habituados e sentimo-nos abraçados por uma mística ambiental fora de série. Quase que vemos o Clint Eastwood a aparecer ao dobrar da esquina com a banda sonora de Morricone… É fantástico!

Mas o lugar tem mais, muito mais! Nasceu da devoção à Vírgen del Rocio, que possui uma história que vos vou contar num outro artigo, que constitui um exemplo perfeito de fanatismo religioso.

Todos os anos no Pentecostes, 1 milhão de peregrinos, leram bem 1 000 000(!), dirige-se às ruas poeirentas para ver a virgem e tentar a todo custo tocar na imagem que desfila por um percurso pré definido.
Os almonteños cercam o andor criando uma barreira intransponível e quem tentar furá-la é gentilmente tratado a soco e pontapé. Morrem cerca de seis pessoas na peregrinação em cada ano. É de loucos!

Neste momento, contadas por mim, há 101 confrarias da virgem, com nomes curiosos como Hermandad de Pilas. Não é brincadeira, depois mostro a foto.
De sete em sete anos a imagem é levada a braços para Almonte que fica a cerca de vinte quilómetros. Por acaso este é o ano em que está lá depositada, por isso lá fui ver a senhora. Mal a vi percebi porque raio é que foi virgem até morrer. Feia como a noite e dada a adiposidade denunciada pelas vestes deve ter vindo das baleares. Aqui é que eu presenciei o fanatismo, qual senhora de Fátima qual quê. Estava numa esplanada a beber uma caña cruz campo, bem boa por sinal, por volta das onze e meia da noite e ouvi uma senhora a gritar “viva la vírgen del Rocio” e a multidão respondeu em fervor “viva”. Na igreja vi pessoas a chorar só de ver a dita senhora, deviam estar a pensar “Coitadita, tan fea qué era”.

Talhos, Ferreterias, restaurantes, mésons, tudo o que é estabelecimento só tem dois nomes ou qualquer coisa Vírgen del Rocio ou qualquer coisa pastorcito, já que a virgem foi vista por um pastorzinho… Não vos traz nada à memória?

Qué fea es!

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Para todos aqueles que adoro, gosto de vocês e sabem que sim.
"As mulheres amigas" Gustav Klimt - 1916/17
- Gosto de ti.
- Que raio…
- Apeteceu-me, que queres?!
- Ok… mas se estás à espera de uma resposta consensual…
- Nada disso, só me apeteceu que soubesses que gosto de ti.

Quando exprimo os sentimentos não estou à espera de uma resposta à altura do meu expressionismo, ou será que estou? Talvez uma parte de mim queira uma resposta à mesma cota emocional que a minha transmissão, mas nunca é propositado, por isso é que enviei um Spam a todos os meus contactos

- Gosto de ti.

E descobri que há pessoas que reagem muito bem ao estímulo, outras que ficam incomodadas sem saber o que dizer e outras ainda mantém-se silenciosas, muito embora eu saiba exactamente qual é o sentimento que nutrem por mim, ou pelo menos calculo...

Não é que eu goste de Spam, mas se me enviassem isto ia gostar. Se fosse uma carta em corrente provavelmente ia destruí-la, mas é uma simples expressão que não custa ler e faz muito bem, se bem que seria muito mais honesto da minha parte dizê-lo nos olhos, mas à distância é difícil.

Difícil também é dizê-lo nos olhos. Acho que não estamos habituados a expressar-nos da forma correcta. Até parece que ficamos engasgados, que uma coisa tão simples e tão pura possa ser mal interpretada ou provocar uma demolição numa relação.

Acho que também temos medo de a gastar. Quando se diz muitas vezes deixa de ter tanto sentido, as pessoas habituam-se e não lhe dão o devido valor. Se a dissermos poucas vezes provoca um brilho nos olhos que é a melhor recompensa para a ousadia ou a coragem que temos ao pô-la cá para fora.

Meus amigos, com estes pensamentos vos deixo e durante duas semanas estarei ausente pela Hispânia, mais exactamente pela Andaluzia. Espero voltar com o Moleskine carregado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Os hóspedes


"Viajante em frente ao mar" Caspar Friedrich - 1818

Residencial D’Ouro – Praça dos Leões, Porto

Dois senhores estão à espera de ser atendidos. Um, já com os pés nos cinquenta, carrega um chouriço de marinheiro. A barba de dois dias, grisalha na sua quase totalidade, encobre algumas rugas e uma pele vincada pelo tempo e pelo trabalho. Pelo aspecto trabalha nas obras.

O outro, moreno também, aparenta 30 e pela metro-sexualidade do trato sugere um turista acabado de chegar à cidade. Carrega duas mochilas, uma de montanha e outra de trekking mais pequena. Está vestido para caminhada e dentro em pouco vamos encontrá-lo a beber umas cervejas na esplanada do Piolho.

Será um desses jovens que se lança à aventura pelo mundo fora?! Não desses que compra um bilhete de inter rail, mas dos outros, que vai sobrevivendo por aqui e por ali, sem raízes, só com o ideal de conhecer novas pessoas e novas culturas, o recolector de experiências.

De uma porta surge o recepcionista com o sobrolho carregado e informa que só existem dois quartos sem televisão. O mais velho insiste que só quer um quarto com televisão

- Não tenho vida para me deitar às nove e meia nem para andar aí a dar água sem caneco

o mais novo, indiferente,

- Desde que tenha uma cama para dormir já é suficiente.

Informa que um dos quartos é pequeno e custa €15 e o outro, maior €20. Aqui o jovem já faz questão, quanto mais barato melhor. Dissipadas as dúvidas do mais velho, fecha-se o negócio, há que fazer o check in.

Pensão pequena só exige o BI para a ficha e como é pago adiantado não há necessidade de conservar o documento. Faz a ficha primeiro ao jovem.

João Miguel da Silva; natural de Vinhais, Bragança; Filho de António Ribeiro da Silva e Maria da Encarnação Almeida da Silva; nascido a 07-11-1974.

- Ok, o seu quarto é o número 26, suba as escadas, primeira porta à direita.

Pegou na documentação do senhor e com o automatismo começou a escrever os dados.

António Ribeiro da Silva; natural de Vinhais, Bragança; filho de Mário da Silva e Joana Ribeiro; nascido a 03-06-1950.

- O seu quarto é o número 25, suba as escadas, segunda porta à direita.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Lector in Studio


"Batalla de Aljubarrota" Mariano Maella - 1791

Vem Daqui

Frequentemente existiam confrontos entre os manos e a facção supracitada, acabando regularmente com cabeças rachadas fruto das armas utilizadas, pedras e paus. Desta forma, recheada de tropelias e cumplicidade nasceu uma amizade coesa entre a trupe de rapazes, só perturbada com a intromissão de novos amigos, adquiridos na escola.

As insignificâncias da idade como o complexo de irmão mais velho - não vais comigo para a escola nem vens ter comigo no recreio - ou o moralismo de irmão mais novo - não consigo perceber como podes fazer isso, quando tiver a tua idade nunca o vou fazer - foram as únicas coisas que podiam ter azedado a relação mas nunca conseguiram superar a cumplicidade que vinha sempre à tona.

Desde cedo que Orniciteplático se mostrou inteligente de uma forma muito camuflada, no início os professores achavam que era meio estúpido. Tudo o que lhe era mandado fazer em casa ficava confortavelmente instalado na prateleira, aparecendo incumprido na aula seguinte. Tabuadas, fichas, contas cópias, enfim tudo a que era obrigado ficava por fazer. As reguadas que lhe eram distribuídas em igualdade pelas duas mãos, para não haver invejas, funcionavam de forma contrária à esperada. Reforçavam-lhe o carácter teimoso. Quanto mais lhe mandavam fazer, menos fazia.

Ainda hoje tem uma dívida acumulada à escola de 12353 cópias, 7352 tabuadas, 12435 fichas e 98098 contas. Em compensação tudo o que fosse feito dentro das paredes da sala de aula, era cumprido à risca e com a melhor das perfeições, não obstante passar as aulas concentrado nos painéis de azulejo que a decoravam. Sabia de trás para a frente a quantidade de armas, qual as suas formas, quem lhes pegava e como, e a história que estava por trás daquela cena guerreira.

A Batalha de Aljubarrota, representada por um azulejeiro do Estado Novo, inspirava-o para fora da monotonia das aulas e punha-o a imaginar o que as personagens estavam a dizer, muito embora as bocas dos senhores não exprimissem o mínimo gesto que fosse. Via histórias e, em muitas, o cavalo, que estava em primeiro plano na imagem, confidenciava-lhe na hora das reguadas “daqui a uns anos vais ser como eles, grande, enorme e vais poder ter uma espada como a do Condestabre, novinha em folha”. Se fosse hoje dir-lhe-ia “está descansado que nós vamos aí e espetámos coices e uma destas espadas, a maior de preferência, no cú do cão raivoso que é o teu professor!” atravessada é claro.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Génesis IV

"Guernica" Pablo Picasso - 1937

Vem daqui

Já fora subentendido que esta família não era propriamente abastada, e a bem da verdade classificar-se-ia como remediada.
Todos os brinquedos que alguma vez teriam, seriam na sua maioria, um remediado sucedâneo dos brinquedos das crianças com quem se relacionavam. Esclareça-se também que, no Natal, eram presenteados, com um sacrifício extra dos progenitores e restante família, com brinquedos fora de série, que automaticamente eram desmontados, dada a curiosidade latente no cérebro dos jovens, em perceber como funcionavam aquelas maquinetas fascinantes.

É lógico que depois de perdidas algumas peças os objectos deixavam de ter a funcionalidade para que tinham sido concebidos. Eram então refeitos de uma forma algo cubista-minimalista e utilizados noutras tarefas, coadjuvando os brinquedos preferidos dos terríveis irmãos, preferencialmente artesanais.
Latas de sardinhas ganhavam portas, com uma tesoura de poda, e transformavam-se em carros que futuristicamente deslizavam em vez de rodar. Os homenzinhos surgiam na forma de caricas que eram fervorosamente catadas junto ao café mais próximo por entre borras de café, sacos de açúcar vazios e outras coisas que não convém descrever ao pormenor.
Com pregos e pedaços de madeira faziam-se tanques com múltiplos canhões, criando toda uma parafernália marcial que era exaustivamente discutida e regida pelo Estado Maior do Exército de Babel.

Cascas de pinheiro, habilmente escavadas com as facas de cozinha, que não raramente apareciam com os bicos partidos, transformavam-se em barcos de todas as formas e feitios, porta-aviões sem aviões, corvetas, fragatas e todos os nomes que iam aprendendo relativos à realidade naval, com a vantagem de flutuarem realmente e nunca se afundarem por muita pedrada que levassem. Com o crescimento veio a mudança de brincadeiras, com os índios e cowboys.
As espingardas eram troços de couve, que também funcionavam como sticks de hóquei; arcos feitos com mimosas e fio de pesca surripiado ao pai; lanças com os arejões que estacavam os tomateiros de um cada vez mais raivoso pai; penachos com fio de lã roubado à mãe e penas roubadas às galinhas, que muito ofendidas não paravam de cacarejar; e os lenços dos cowboys tirados à socapa do roupeiro do avó, que passava dias intermináveis com o mesmo lenço de assoar.

A imaginação dava para tudo. Cartografaram toda a rede de canalização de água das redondezas, como forma de reconhecimento técnico-táctico, para as mini-manobras militares a que se dedicavam no intervalo das actividades de faroestianos, sendo também sobremaneira úteis quando resolveram tornar-se ecologistas desmontando as armadilhas dos rivais do Lugar de Cima, que tinham como objectivo apanhar coelhos, raposas, texugos e afins.

Vai para aqui

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Pai

Assentava praça em Gondarém. Tinha uma série de “clientas” fixas que faziam valer a pena dedicar-se só àquele local. Era capaz de fazer uma viagem até Campanha e voltar à sua postura, em vez de optar pela solução mais confortável, esperar pelos clientes que não faltavam na estação.


As senhoras da Foz que lhe aclientavam a viatura tornavam o negócio bom o suficiente para a sobrevivência da sua casa, as viagens casuais funcionavam mais como gorjetas, recompensa da sua fidelidade àquela praça de táxi.

Aproveitava, todos os dias, e levava a esposa de 25 anos, 25 anos mais nova que ele, para a loja onde trabalhava, também na Foz.
Conhecera-a quando ela tinha 19. Andava enterrada na droga e na prostituição. Crescera na Sé, mais exactamente na Rua Escura, fazendo parte de uma das muitas famílias numerosas daquela zona. Cresceu e tornou-se numa rapariga bonita, apetecível, aos 14, devido às más companhias e fraqueza de espírito típica da idade, optou pelo caminho dos estupefacientes. Escusadas foram as vigias constantes dos irmãos e as sovas do pai para evitar a progressão em direcção ao fundo do poço. Teimosa e agarrada ao vício abraçou a prostituição até ao dia em que entrou no táxi para ir comprar o cavalo.
Ficou-se pela estrebaria que era a casa do taxista. Um pouco ao jeito de Ted Mundy, o homem recolheu-a e tratou dela, e passados largos meses, quando estava já limpa de tudo, ou quase, com o amor e a dedicação dele, apresentou-o à família.

As famílias humildes são muito orgulhosas em relação às esmolas, mas aquilo era um milagre. Ele pusera a menina outra vez no caminho. Automaticamente foi aceite no clã e no bairro, estava finalmente em casa.

Tenho uma filha, conta-me com a lágrima no canto da alma, que um homem não chora à frente de outro. Está em Lisboa com a mãe
- A minha primeira mulher
e com o padrasto e quando o vem visitar, a menina queixa-se
- ó paizinho, ele bate-me
e as marcas não enganam. Tem marcas no corpo que se passarem vão continuar no interior durante muito tempo.

Com a raiva a provocar tremuras no canto da boca, fustiga-me e a ele em simultâneo.
Sabe doutor, há dois anos tive uma trombose e felizmente até recuperei bem, mas não tenho a força que tinha.
De facto não se nota que sofreu o AVC, fala correctamente e não tivesse ele dado a informação nem desconfiaria de tal facto.

- É que mesmo não podendo fazer o que um homem deve fazer numa situação destas, eu juro-lhe, pela alma dos meus pais e pela felicidade da minha filhinha, que vou lá baixo em Agosto, é quando tenho férias, e vou tratar da saúde àquele filho da puta!
Ouvi com os sentimentos em frangalhos e como já estava à porta de casa disse-lhe:
- Dê-lhe umas por mim.

Paguei a corrida e afastei-me com a revolta a provocar as lágrimas. Pensei muito no assunto, e nos dias que se seguiram não consegui deixar de pensar no senhor e na filha. Um coração tão bom e altruísta tinha uma recompensa destas.

Romanticamente idealizei a situação. Sem forças para acertar o passo ao padrasto da filha, o senhor entrou em casa dele e espetou-lhe um balázio, à queima-roupa, em cada um dos cotovelos, e cuspiu-lhe:
- Bate agora em alguém ò Filho da Puta.

sábado, 27 de agosto de 2005

O encontro

O que desejamos pode voltar-se contra nós
"Estrada para Pourville" Claude Monet - 1882

Um brilho esbatido lambia a superfície da água. Pequenos raios transpunham o tecido composto pelas folhagens dos salgueiros e incidiam difusos na superfície da margem criando pequenas ilhas de sombra, desenhando um mapa irregular com uma forte predominância de formas arredondadas.

Marcara encontro ali, por ser um lugar carregado de magia e, onde com frequência se dirigia para pensar nas questões que a afligiam.

A azenha da margem direita ia, com o girar da roda, criando um som hipnotizante, que em conjunto com o correr da água pelo canal de descarga, formava notas de uma sinfonia indistinta mas agradável.

Desagradável era o motivo que a levara ali. Não era muito de marcar encontros fosse para o que fosse, mas bem lhe parecera a ideia de resolver tudo de uma vez por todas, naquele local que lhe inspirava tranquilidade e segurança.

Quando nos sentimos em casa tudo nos flui melhor, e água, com o destino natural que era o mar, acentuava a mudança e evidenciava a continuidade. Nada termina mas antes continua. Pelo menos assim estavam arrumadas as ideias na sua cabeça.

O problema residia só na sua cabeça e, de alguma forma, reconhecia isso mas não o queria aceitar, não o queria aceitar.
A chamada dessa manhã, autoritária, confiante, esmagou-o como uma coluna militar no deserto, com força, deixando marcas na areia, seriam apagadas com a próxima ventania. Sentiu uma espécie de irritação interior, não era bem raiva, muito imenso indiferença mas um pouco de ambas.

Os sentimentos em turbilhão, incendiavam o sangue, mas o racionalismo pedia calma. Sabia na perfeição que se deixasse aquela maré subir ia explodir e estragar tudo.

Por muito que se tente, todas as relações são recheadas com uma pitada de calculismo, pelo menos na fase da conquista, em que tudo é indistinto e não se consegue vislumbrar por entre a névoa da incerteza, só apalpar.

Lembrou-se das palavras trocados, dos beijos sofridos, conquista árdua, dos corpos suados, do roçar dos sentidos, da pele em contacto. Dos carinhos não trocados mas oferecidos numa forma elementar d altruísmo/egoísmo. Quando acariciamos alguém sentimo-nos bem e desperta o nosso egoísmo, é uma grande ilusão.

Tudo o que passaram lhe pareceu lógico e óbvio, mas ele já conhecia as mulheres, nunca se sabe o que lhes passa pela cabeça e toda a estabilidade ganha com a solidão vai por água abaixo em direcção ao Mar, largo e vago, sem pré-aviso.

A carta que lhe chegara às mãos, avisava-o, apontando um dedo acusador a obrigação de pagar uma multa nessa tarde. Estava sem carro e tinha marcado o Encontro com ela.
Caga na multa, pensou, pagas juros de um dia, até é um exercício de coerência para o teu carácter.

Pegou na bicicleta e pedalou em direcção certa e indesejada. “This is what you’ll get when you mess with love”, sibilinas as palavras no Ipod. Continuando a ouvir só lhe apetece perder-se pelos caminhos, no meio dos pinheiros, mais uma vez nos braços dela e esquecer toda a realidade envolvente. Afinal não é isto que interessa, de mapa na mão com uma bússola de endorfinas e encontrar o caminho?! É mesmo só isso que lhe apetece fazer mesmo que seja por breves momentos, minutos, horas, poucos dias e sentir que aquilo é momentâneo, mas real.

Nada a fazer e o passado já lhe calejou a capacidade de sofrimento. Não foram poucas as vezes em que assistiu de camarote a discursos como aquele que calculava ouvir. Os sinais estavam todos lá, os ataques premeditados, a frieza, o desvio de olhares, a ausência de toque, tudo lhe indicava o Fim, aquele que estava longe de desejar. Um interregno sim, agora o terminus…


Costuma chegar atrasado, não há motivo para preocupações. A ânsia da espera prolonga os minutos transformando-os em finos instrumentos de tortura. Sente-se ainda mais torturada com tudo o que lhe avassala o fio condutor do pensamento.

Como se foi meter numa história destas?! Não se ganha nada com relações passageiras mas, a bem da verdade, também nada se perde, e convenhamos que se deliciara com os parcos momentos, intensos, que tivera na companhia dele.

Será que o medo de sentia era mais vigoroso que o desejo e que no futuro, continuaria a evitar ser levada pelas sensações que a faziam vibrar de felicidade? Estaria a tornar-se fria e fechada ao exterior? Quando nos sentimos bem com um companheiro e a balança equilibra porque não aproveitar sem remorso ou culpa, afinal do outro lado também não existe.

Não podia deixar de sentir algo por ele, não era puro companheirismo, amizade, algo mais lhe perturbava as certezas e estava na altura de cortar a árvore pela raiz.

Lembrou-se de algo que lera há uns tempos atrás, em que o rapaz da história cabara uma possível história de amor pelas razões erradas e ficara a vida toda com naquele fardo nas costas, tudo porque não tivera coragem para continuar a enfrentar a vida e a outra pessoa. Investira muito e desistira. Saltara noventa e nove muros e quando chegou ao centésimo baixou os braços e desistiu.
Será que a atitude dela seria a mais correcta? Logo se veria.

Finalmente. Desmonta da bicicleta e sorri com a cara dura, os lábios carnudos a desejar em negação interna, não podia dar parte de fraco agora.
- Vieste, a certeza e a dúvida espelham-se no verbo.
- Sim… aconteça o que acontecer não me vou arrepender de ter vindo.
- Acaba por aqui, o soluço agarra-se com garras às cordas vocais e luta contra a vontade de gritar:
- Agarra-me!
Ele agarra-a pela cintura e beija-a.
- Quem sabe esta história possa continuar no futuro, não lhe vou pôr um ponto final, mas antes reticências.

Mergulha na água do rio e esconde as lágrimas. Quando emerge ela já lá não está, e o sal que sai do seu corpo corre em direcção ao Mar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Abstinência

Quando só, só me apetece companhia, quando acompanhado aconchego-me na solidão, é a necessidade de espaço
"Esplanada de café" Van Gogh - 1888

Quando estás muito tempo abstinente e provas de novo aquilo que esteve ausente, sentes as sensações ampliadas de uma forma tal que tudo se torna infinitamente claro.

Só sentimos as coisas na sua verdadeira essência quando delas estivemos privados. A pele é um transmissor natural de intimidade.

Já há muito tempo que não estava com um homem. O medo sobrepunha-se a tudo e a possibilidade de um envolvimento, fazia com que evitasse a proximidade. Muitas vezes sentira o desejo de tocar em alguém, mas havia sempre algo, um alarme interno que a retraía.

O último relacionamento não acabara mal, mas de alguma forma criara uma barreira que afastava mesmo aqueles que a desejavam muito. Estava na casa dos vinte e tais. Alta, elegante, bonita, um charme e uma sensualidade que, não fosse aquela barreira inconsciente que levantara, lhe garantiria todos os homens aos seus pés a fazer todo o tipo de galanteios e salamaleques só para a conquistar.

O muro auto defensivo devia-se à perfeição da relação anterior. Bem... como todas as que não são perfeitas, também esta tinha algum dia que terminar. Assim foi, mas a sua teimosia natural pugnava para manter viva a recordação perfeita, fechava-se em copas e não deixava ninguém aproximar-se.

Às vezes é preciso um momento de distracção para se encontrar a fissura que promove a destruição das defesas.

Estávamos em Julho. Sentada a contar as aventuras e desventuras das férias em Paris, estava acompanhada por um casal amigo. Riam-se com gosto e chamavam a atenção do resto da esplanada. O ar do mar dava uma frescura e um cheiro característico ao ambiente, prenunciando uma bela tarde.

- Posso?!
Perto dos 30, moreno, alto, com um sorriso nos lábios e um cigarro na mão, caderno de mercearia na outra, espalhou um pouco mais de luz pela mesa abafando a sombra do guarda-sol.

A anuência geral deu-lhe o lugar desejado e satisfeito instalou-se. Era amigo do casal, para ela, desconhecido. Uma franzir de sobrolho mútuo indicou que ambos eram antagonistas no tema que repousava na mesa. A discussão evolui e ela começa a sentir uma pontada de irritação que lhe nasce na tiróide e lhe salta pela boca.

Ele, divertido, contra argumenta com calma e num tom neutro estudado, provocando-a cada vez mais. Quando provocada, tenta sempre ser a melhor, e como ele lhe põe os nervos à flor da pele, mais vontade tem de ficar com a última palavra, e como golpe fatal, resolve ser condescendente, paternalista. Com um sorriso irónico pousa a mão sobre o braço dele e sopra-lhe:

Porque é que tens que ter sempre razão?!
O toque é automático, elaborado e provoca nele uma reacção inesperada, o corpo é percorrido por uma corrente energética que lhe eriça todos os pêlos do corpo. Fica sem palavras e confuso, afinal não é fácil emudecê-lo.
Abstraem-se de quem os rodeia e continuam com a discussão. Só deseja que lhe volte a tocar, e ela na sua ânsia de razão, que nunca é de ninguém, cada um tem a sua, continua a provocar, a esticar a corda.

- Não olhes assim para mim, diz-lhe em tom ameaçador.
- Assim como, diz ela divertida, deixando-se levar.
- Assim, devolve-lhe o olhar o melhor que pode e levanta-se.

Deixando-a a saborear a conquista prematuramente, pede desculpa e com um “Volto Já”, sai da esplanada com destino incerto.
Fica sentada alheia aos comentários do casal. Só pensa na fórmula que vai usar para dar uma lição àquele convencido, arrogante, teimoso. Com o discurso já preparado, sorri ao vê-lo chegar com um jornal e um livro debaixo do braço.

- Pensei que tinhas abandonando a luta!
- Eu nunca abandono nada, diz com um sorriso e um tom firme. Toma.

Depõe na mesa o Livro. Espantada e incapaz de disfarçar abre-o e vê uma dedicatória.

«Uma surpresa para a maior das surpresas. Já senti o teu toque, a tua pele, prendi a tua voz e a tua atenção, só me falta isto.»

“O Perfume” Patrick Suskind.

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

A mulher Um

As barbaridades são pequenas coisas que só são entendidas pelos comedores de pão, acho que sou um desses glutões
O nascimento de Vénus - Sandro Botticelli 1485/86

Borges defende que se cruzarmos todas a s referências bibliográficas de todos os livros do mundo, chegaremos ao livro Um, o que dá origem a todos os outros. Às relações amorosas também se pode aplicar esta teoria.

Como diz um amigo meu, “A mulher Um é citada por todas as outras que se seguem”. Não é a mulher do primeiro beijo, a mulher do primeiro apalpanço, mas a mulher, a mulher Um.

Desculpem centrar todo o discurso na mulher, mas não consigo transpor a minha consciência para o sexo oposto. Devemos ter a humildade de escrever sobre aquilo que sabemos.

Há, algures no nosso passado, uma mulher que marca toda a nossa existência, condicionando todas as nossas escolhas a partir daí. Todas as outras vão ser objecto de comparação, porque esta foi, por alguma razão ou uma série delas, marcante para se tornar a base de tudo.

É díficil traduzir por palavras mas algo dá o clique, que invariavelmente coincide com a nossa passagem à idade adulta. Marcante pela cultura, pela inteligência, ou por um je ne sai quoi que nos envolve e nos aprisiona àquela imagem.

Muitos anos mais tarde estaremos felizes e contentes com a nossa mulher, não a Um mas a 543, felizes e contentes no aconchego do lar, e de vez em quando virá um flash da mulher Um.

Se porventura ficássemos com essa mulher Um, nunca saberíamos que ela era efectivamente a mulher Um, porque o termo de comparação não existiria. Pura e simplesmente estaríamos vazios desse conceito. Comparar com o que está para trás não é a mesma coisa que comparar com o que está para a frente. Estamos satisfeitos com o que temos e não temos necessidade de comparar.

As mulheres que se seguem à Um vão ser sempre comparadas a ela e com frequência espumam de raiva com a referência ao nome, mesmo que desconheçam a importância que ela teve para nós. Sentem no ar a emoção disfarçada, cheiram as feromonas quando se fala dela, é o sexto sentido a disparar. Podemos ser os maiores actores do mundo, mas é impossível disfarçar os sentimentos quando a ela nos referimos.

É curioso que a mulher Um se torna num elemento platónico da nossa história da vida. Vem-nos a memória em certas situações, e quando vem não temos a mínima esperança real de voltar a ter alguma coisa com ela. É a bibliografia de referência dos nossos relacionamentos amorosos que só é consultada inconscientemente.

E quem nunca teve a mulher Um?! Provavelmente está acompanhado por ela e se permanecer com ela até ao fim da vida, nunca saberá que ela é a Um. Também podemos incorrer no engano, na falácia intelectual de considerar uma como a Um e no fundo ainda não a termos encontrado. Que o padrão que encaixa no nosso está para aparecer de chofre na nossa vida, ou então já está ao nosso lado e não nos apercebemos disso.

E vocês, já encontraram a mulher 1?

Génesis III


"Soldado da 1ª Divisão" Kasimir Malevich - 1914

O Gerador tinha sido consciencioso, quando cumprira o serviço militar obrigatório. Não é que esta república das bananas estivesse constantemente ameaçada por um inimigo invisível extra-fronteiras, mas era necessário cumprir marcialmente este dever para com a nação.

Devido a uma providencial manopla do Destino, estivera sempre isento de comissões contra inimigos reais, o que não invalidava de todo, todos os ensinamentos teórico-práticos que lhe foram incutidos durante os três longos anos de fogo real e comezainas de carne de burro regada com whisky de contrabando.

É claro que a aprendizagem, de tão zeloso militar, invariavelmente resultava numa faca de dois gumes quando transmitida à prole. Se por um lado ia ensinando às crias como agir furtivamente quando se roubava o anual pinheiro de Natal, por outro ensinava-lhes máximas como “não delatarás o teu companheiro” ou “quando um faz merda comem todos”.

Em casa dos petizes a segunda era sempre consequência da primeira. Quando algo acontecia, o “nunca é ninguém” brotava em forma de urro louco da garganta do progenitor, e logo se providenciava um castigo para as pestes militarizadas de espírito, que não raras vezes ainda gozavam dizendo “a culpa é tua”.

As crianças coziam-se em copas e não deixavam escapar um indício que pudesse incriminar um dos camaradas, porque hoje és tu amanhã sou eu (legenda sob a foto dos miúdos com cara de quem acabou de foder qualquer coisa). Este tipo de situação exasperava o pai mas secretamente enchia-o de orgulho, os ensinamentos estavam a entrar.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Génesis II


"A casa de Essoyes" Pierre Renoir - 1850-1900

Vem daqui

A inevitabilidade geracional masculina do casal fez com que tentassem continuamente gerar um ente feminino. Anos mais tarde eram detentores de uma equipa de futebol de 11, sem suplentes.
Pois eis que Orniciteplático é levado pelo carinho da sua recém adquirida família para a casa que habitará até ao preciso dia de hoje, não de amanhã, mas hoje, mesmo que leia estas linhas daqui a 24 horas ou 34 anos, será sempre hoje. A obra de ficção é instantaneamente real quando regida por um autor autocrata e ditador, e não nos inibimos de fazer parecer o texto ainda mais real reafirmando certas premissas.
O autor define a qualidade temporal, espacial, e outras coisas acabadas em –al, já que ele que manda no seu pequeno universo. Mas voltaremos a este tema mais tarde.
Era uma vivenda com três quartos, nesta altura perfeitamente adequada às necessidades do agregado, mas dali a dois anos com o nascimento de mais dois pequenos seres, os dois quartos das crianças seriam equipados com beliches duplos, mais tarde triplos, aumentando o número de camas exponencialmente ao número de elementos da prole. Quando chegaram ao número 11 o Gerador passou a chamar à zona da casa ocupada pelos filhos de Babel.
Seis miúdos num quarto e cinco no outro convém referir que pelo menos era potenciar o caos. Muito embora os quartos fossem amplos e os beliche dessem uma arrumação especial, não havia espaço nas paredes que não estivesse já ocupado por rabiscos indefinidos de grafite, autocolantes de jogadores de futebol, posters de actrizes e cantoras, fotografias de amigos e papéis febrilmente manuscritos, da autoria de Orniciteplático que amareleceriam, inevitavelmente, com o tempo.
A população dava razão ao progenitor, no epíteto dado à área, com a vasta profusão de elementos visíveis, materializantes dos seus mais secretos pensamentos e emoções.
Orniciteplático desde cedo que manteve uma relação muito próxima e cúmplice com o seu irmão mais velho. Até ao ingresso na escola primária eram inseparáveis. Se um dizia mata o outro já há muito que tinha esfolado. Faziam asneiras a todo o minuto e segundo, provocando a exasperação da figura paterna, mas de certa forma a culpa era dele.

Razão

Hoje sou eu que tenho Razão!

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Genesis

"Criação de Adão" Miguel Ângelo - 1541

Exactamente há 26 anos atrás, nasceu uma criança, que queria a onomástica dos seus pais, padrinhos, vizinhos e demais familiares, tomasse por verdadeiro e intransmissível nome, Orniciteplático. Há exactamente 26 anos atrás, porque por desejo da narração dos acontecimentos relativos à vida deste indivíduo, deveria e deverá ficar uma personagem intemporal, e por isso terá sempre 26 anos quando o leitor começar a ler este digitaluscrito.

Desta forma também não se refere o local de nascimento porque podia ser em qualquer lugar, para além de não enquadrado num tempo também não o será no espaço.

No hospital da Misericórdia, as mobílias de cinza acetinado, os bisturis, a máquina de radiografias, o doseador de água do corredor, as batas, as máscaras cirúrgicas, os médicos, enfermeiros e anestesistas, parteiras e parturientes agiam com indiferença perante o nascimento desta, para já, inclassificável personagem, que como já referimos tomará o nome de Orniciteplático.

Ora, anos mais tarde este mesmo Orniciteplático seria encontrado, de uma forma muito descontraída e indiscutivelmente divertido na companhia de uma pessoa que seria responsável por – é melhor parar por aqui porque senão iremos na página vinte sem ainda termos saído do hospital.

Como narrávamos, antes de sermos rudemente interrompidos por uma pressinha de acrescentar elementos contemporâneos à história, Orniciteplático nasceu na indiferença de um frio hospital, mas de um amor quente e sincero, gerido inteligentemente pelos seus pais. Quente... bem, tinha que ser quente para gerar uma forma de vida que se tornaria algo tresloucada, que não louca, com o passar dos tempos. À semelhança de seu irmão, Orniciteplático fora gerado às portas do Outono, sem que ninguém tivesse tocado à campainha.
Nesse tempo, o casal gerador não era possuidor do vulgar cinescópio, conversor de feixes hertzianos em raios catódicos, criando imagens que divertem e aparvalham a audiência, ou num palavreado mais acessível, não tinham televisão. Assim a única forma de diversão e distracção era a aplicação de todas as energias em estudos de anatomia do sexo oposto.

Os Geradores, novos e ainda com privilégios de descobridores de novas sensações e emoções, primavam por dia após dia, levantar pelo menos um novo Padrão dos Descobrimentos, como marca conclusiva da dádiva de novos mundos ao mundo. E deram, Orniciteplático, ao mundo. A noite fria entrou-lhes pelas frinchas da porta insuficientemente calafetada. Esta, com o último quarto inferior da área forrado a chapa, era um convite à junção de corpos, como se isto fosse necessário.

Do quarto dos Geradores ouvia-se o choro do, que seria o, futuro irmão de Orniciteplático na divisão ao lado. A Geradora levantou-se e remediou a situação com carinho e calor, de mãe dedicada, e acalmado o petiz juntou-se ao companheiro. Sem mais imagens, que não a dos seus corpos, socorreram-se destes para ilustrar a felicidade a que estavam condenados e, aquecendo-se de forma já sobejamente conhecida, geraram uma nova vida.

Anos mais tarde Orniciteplático gozaria com os pais dizendo que naquele tempo quando o frio apertava e não havia televisão, os pais também de alguma forma se apertavam mutuamente, fazendo verdadeiras longa-metragens. Quando mês e meio depois a Terra disse ao Seminador que nova safra lhe brotava já no útero, o Gerador ficou feliz e com esperança que fosse uma menina, compunha-se o desejado casal e fechava-se a linha de produção.
Sete meses e meio depois, mais coisa menos coisa, ainda a suar em bica, ao vislumbrar o pequeno apêndice viril entre as pernas do seu secundigénito pensou, posso voltar a tentar, alguma vez há-de acontecer.

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

O Ardina

"O Ardina" Edward Mitchell Bannister - 1869

Ao frio e à chuva, ao sol e ao vento, todos os dias saía de casa para cumprir a sua obrigação. Calcorreava as ruas da Baixa incansavelmente apregoando o jornal.


Não ganhava muito com o que fazia mas era sempre o suficiente para pôr o pão na mesa lá de casa. Os filhos, três, esperavam com impaciência a chegada do progenitor, que chegado a casa, uma casa térrea com um quarto, lá para os lados do Prado do Repouso, se sentava nos degraus da entrada a contar-lhes as histórias que lia no produto que vendia.


Não era um homem instruído, possuía a quarta classe, mas era senhor de uma imaginação prodigiosa. Os filhos frequentavam a escola primária e ficavam atentos à interpretação das histórias do pai. Descodificava a linguagem dos jornalistas para uma acessível às crianças.


Nunca lhes contava as histórias da guerra, preferia mantê-los na inocência da idade, mais tarde iria pô-los ao corrente. Ainda era cedo para começar, deixá-los lá com as brincadeiras de trepar às árvores e a descoberta na rua de um mundo sempre novo.


A mulher era costureira. Cozia e remendava os casacos e os vestidos das famílias das casas da Rua do Heroísmo. Esperava pacientemente que o marido chegasse com o pecúlio do dia para ajudar às despesas que a costura não rendia o suficiente para a comida. Para a roupa dos catraios lá ia ajudando a esmola dos clientes que cediam roupas usadas dos filhos. O que ela e o Ardina ganhavam chegava só para a comida.


Um dia a espera tornou-se insuportável. O marido tardava em chegar. Geralmente chegava por volta das nove, no máximo às nove e meia, mas isso foi num dia que ficou distraído na conversa com um cliente. Era um homem comunicador que gostava de dar duas de letra com qualquer pessoa, e tinha conversa para todos.

Nesse dia ela começou a ficar angustiada, já passava das dez e nem sinal do esforçado trabalhador. Os miúdos sem clara noção do tempo lá continuavam nos degraus à espera das histórias, mas nem a sombra provocada pelos candeeiros de gás indiciava a chegada.
Por volta da meia noite a senhora, a secar as lágrimas para os filhos não perceberem, chamou-os para dentro. Inventou uma desculpa fugaz para justificar a ausência do marido e depois de os ter aconchegado na sala, foi para o quarto chorar.


Muitos anos depois, nunca se soube o que acontecera ao valente Ardina e as crianças transformaram-se, graças ao esforço da mãe, em rapazes bem constituídos e cultos.

Um dia um deles foi pela primeira vez à Baixa e qual não foi o seu espanto quando viu o pai, como que petrificado na esquina, junto à Igreja dos Congregados, a segurar um jornal, cigarro ao canto da boca, a boina a ensombrar os olhos…


Esculpido em bronze ali estava, ao frio e à chuva, ao sol e ao vento, todos os dias.

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Última Hora



Numa manobra de bastidores bem congeminada, Miguel de Terceleiros estabelece parceria com Humor Negro!

Em entrevista a este periódico cibernético Terceleiros exprimiu o seu contentamento por poder colaborar com tão brilhante escritor. Adiantou ainda que de futuro tentará estar à altura da qualidade literária praticado pelo escritor residente do blog “A razão tem sempre cliente”.

Referiu ainda que continuará a escrever nos seus blogs, Terceleiros e Gera Dores.

O artigo de debut foi acolhido com grande satisfação pela crítica, muito embora alguns dos leitores tivessem vontade de cobrir o autor com alcatrão e penas.

Linda de Suza, exprimiu alegria incondicional por ver a sua imagem associada a estes dois autores!