quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Alfaiate


"Woman at the mirror" - Sigmur Polke, 1966

Por entre as pedras da levada corriam pequenos fios de água. Não era muita mas era de alguma forma suficiente para alimentar os pequenos insectos que pairavam na água. Há quem lhes chame alfaiates e nunca se percebeu a razão de tal nomenclatura.

Com delicadeza pousam os apêndices na água e aos poucos, com as movimentações, vão tecendo cortinas e mantos de água. Com muitos insectos desta espécie tecer-se-iam massas brutais de água mas, como neste momento há pouca também há poucos alfaiates, assim o rio está condenado à seca (pelo menos até à próxima estação das chuvas).

Há uma reciprocidade entre os alfaiates e a água, são eles que a criam e ela é o seu combustível.

Os fios de água em contacto com as pedras da levada, dão origem, como num ritual de acasalamento e criação, ao lodo e ao musgo. Os alfaiates, com as inveja no olhar, desejavam ser eles a tecer o musgo, mas deviam contentar-se com a sua missão: criar água para criar lodo e musgo.

Nesse dia o sol estava alaranjado, melhor, quase castanho, fruto do fumo e da cinza que conjugados davam uma tonalidade estranha ao ambiente. Aos poucos as árvores foram ficando cinzentas, o verde desapareceu e, a partir de um certo momento, não se via um palmo à frente do nariz.

As gotas escorreram-lhe pelo corpo acariciando com cuidado a pele e, por momentos, criou-se a ilusão que seriam estas mesmas gotas a esculpir aquele belo corpo. Com a delicadeza à flor da pele sacudiu as formas que não sendo as perfeitas conseguiam encarcerar o olhar.

Querer o que é perfeito é uma perda de tempo. É preferível desejar algo à mediada das nossas capacidades porque tudo o que é perfeito, no fundo, tem um defeito que vai desiludir.

O cabelo molhado tornava-a sexy. Ela é sexy, mas a forma como o cabelo caía sobre a cabeça bem feita, tornava-a infindavelmente desejável. Os olhos castanhos, consoante a quantidade de luz que sobre eles incidia, podiam atingir uma tonalidade de verde azeitona, adquirindo aos poucos nuances hipnóticas.

Desde o primeiro momento em que foi vista soube que era desejada e ele não precisava de saber, estava-lhe no sangue.

Bonita, genuinamente bonita, com sorriso enigmático e um olhar que por vezes lhe trespassava o coração e outras a alma.

Não se conheciam pessoalmente mas, de alguma forma, sabiam muito sobre o outro. Há empatias que assim funcionam.

Ele, galante e movido pelo Super Ego a que não resistia, ia-lhe dizendo, com o olhar, todas as coisas bonitas que tinha guardadas há muito tempo, à espera de alguém muito especial.

Não que ele quisesse ficar com ela até ao fim dos dias, não era desses, mas gostava do que via, acima de tudo, do que observava.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Platobot


Vem daqui

Algures num laboratório de engenharia de sistemas informáticos

- Acho que temos que modificar um pouco as emoções disto.

- Explica lá isso.

- Bem, eu acho que temos que ser mais específicos. Acho que podíamos aliar ao comportamento do robot mais alguma coisa.

- Estás a ser muito vago.

- Não há dúvida que o algoritmo está a funcionar mais, mas os utilizadores pedem um pouco mais. Não vês a insatisfação deles. O programa reconheceu que chega uma altura que o platonismo não chega. Tem que ser calibrado com alguns estímulos visuais ou então a pessoa do outro lado vai desistir.

- Achas que sim?!

- Claro que sim. Vê lá: se estiveres a ser seduzido por alguém e ficares pelo beicinho mas não chega a acontecer nada de físico o que é que tu fazes?

- Salto fora e parto para outra. É tão simples como isso.

- Pois. Agora vê. O algoritmo identifica as emoções das pessoas nas palavras escritas, depura-as e descodifica-as com a inteligência artificial, criando uma resposta automática que faça com que o cliente fique “agarrado” e continue a escrever. Tudo muito bem até um certo ponto.

Temos dois tipos de pessoas: as que gostam deste tipo de relação sem nome, sem cara, sem sofrimento directo e ficam dependentes; as que gostam deste tipo de jogo mas quando não tem os estímulos necessários fazem como tu e partem para outra.

O tipo 1 (chamemos-lhe assim) está garantido, há-de continuar embeiçado e cliente; o tipo 2 não porque se cansa e eventualmente desistirá.

Ora para agarrar o tipo 2 temos que ir além do que já temos, e no fundo temos os recursos. Se conectarmos o platobot ao ibot, partilhamos a base de dados conseguindo prolongar a dependência.

- Estou a perceber, mas como tencionas conectar os dois, que resultados esperas?

- Se criarmos um algoritmo que descodifique as preferências estéticas dos utilizadores, podemos criar uma imagem no ibot da pessoa que escreve os mail’s e consequentemente estimular a retina dos utilizadores. Pelo menos já não é um fantasma, uma máquina, uma coisa sem cara.

- Achas que a base de dados geral tem a informação necessária?! É necessário um volume de informação brutal para criar uma imagem satisfatória. O hedonismo não se contenta com pouca coisa.

- A base de dados pode estar incompleta mas não te esqueças que o platobot de cada vez que envia uma mensagem introduz um trojan no mail do receptor e varre todos os mail’s, catalogando toda a informação. Como todos tem servidores de mail com mais de 2 gb de espaço guardam lá toda a informação, pessoal, profissional, you name it.

O que precisamos de fazer agora é mandá-lo filtrar conteúdos emocionais dos outros mail’s que não os nossos.

- Isto já me está a dar ideias! Podemos a seguir a isso pôr o platobot como contacto de messenger!

- As possibilidades são imensas!

- E eu que pensava que isto era pouco ético.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Mail

Dois meses depois.

Sabes bem que desde o início me fascinaste mas esta relação pseudo-cibernética (que estou eu a escrever?!) efectivamente cibernética, e disso não há dúvidas, não tem muitas pernas para andar, pelo menos assim.

Porventura, para ti, será fácil mas para mim não é. Já experimentei andar com canadianas, com cadeira de rodas mas nenhum desses auxiliares é satisfatório.
Por muitas vezes te sugeri um encontro físico mas estou a ver essa possibilidade a anos-luz de distância.
Quero que saibas que estou apaixonado por ti, que se era isso que querias conseguiste, e se gostas realmente de mim, revela-te; encontra-te comigo e depois logo se vê. O que é certo é que eu não consigo aguentar mais esta curiosidade e impasse estúpidos.

O teu

(ilegível)


To Be continued

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Mail

“Recebeu uma nova mensagem de €£&$@”.

É indiferente que sejam letras ou números, até podiam ser 1’s e 0’s, on’s e off’s (e não é disto que se trata?), é um email. A curiosidade, em menor ou maior escala, pode protelar a sua consulta mas, mais tarde ou mais cedo, acabará por consultar a caixa de entrada e saber do que se trata. Muito naturalmente, se o assunto for “penis enlargement” ou afins, será movido para o lixo (quer dizer que o filtro não está a funcionar correctamente), senão lê-se, arquiva-se ou apaga-se.

Até pode ser daqueles que ficam na caixa durante uma semana ou duas, aqueles que te FW no assunto, e que depois é visto com todos os outros da mesma categoria.

Não vamos esperar afinal está à espera deste email, daquela newsletter diária de paixão, sedução, que o motiva. Sabe que há uma pessoa sem cara, cheiro, aparência que todos os dias escreve só para ele.

Sem cobranças, ciúmes, compromisso, dirige-lhe todos os dias cerca de meia página de mistério e revelação e ele gosta.

Há meses que troca palavras com esta desconhecida. Correcção: não troca, dá. As suas palavras são dadas, são para ela e só para ela. Tanto quanto lhe é dado a saber é uma desconhecida; também pode ser um desconhecido, mas já nem está preocupado com isso. Escreve como uma mulher, exprime-se como uma mulher, esconde-se como uma mulher e ele não se importa se for um homem: já tem as defesas preparadas.

Para ele é mulher.

Declara-se jogador defensivo neste jogo de teclado e rato e não se preocupa, sabe que está protegido. Aos poucos vai tentando retirar novos elementos da ilustre desconhecida e vai conseguindo,

Apesar de tudo é uma pessoa inteligente e os tempos de viciado no mirc serviram para alguma coisa: deram-lhe calo.

Abre o mail. Como sempre é o seu pequeno-almoço mas tenta não estar a comer quando o abre: há frases que o podem engasgar. Fuma o primeiro cigarro da manhã enquanto lê.

O conteúdo é aquele que esperava e em simultâneo deixa um gosto inacabado na língua, na boca, na pele.

Que raio, que mais posso eu dizer, como dar o passo?

Lê, relê e responde.

To be continued

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Festival




Cronologicamente pareciam sete ou oito da manhã, mas o efeito do álcool deixa sempre uma anacronia suspeita no relógio biológico dos festivaleiros. Estes dois sorvedouros de cerveja, como todas as noites – madrugadas - carregavam o fardo corporal em esforço para tenda.

Várias vezes tinham caído ao rio, mas esta noite a surpresa, que as havia todas as noites, havia de ser postulada em moldes diferentes. Ao fundo, lá muito ao fundo, na direcção que parecia ser a da tenda, vinham, sons hipnóticos, fruto de Djembé's, panelas, Djiridou’s, e tudo o que permitisse entoar som para a continuação da festa. Os concertos nunca fecham a noite, enquanto houver alma há festa.

Hipnotizados deixaram-se levar e chegam às lonas que serviam de tecto há já três alcoólicos dias. Cá fora, o caos tinha sido espalhado com fuminhos de perlimpimpim. Dois dos colegas, dançavam de boxers ao som da parafernália musical que ecoava no pequeno vale. Com uma máquina digital iam registando imagens para a posteridade.

Não se desafia o caos, junta-se a ele senão quebra-se a corrente e destrói-se o equilíbrio cósmico.

Os dois recém chegados juntam-se à festa e começam a aliviar o corpo das vestimentas empoeiradas. Do nada, duas das vizinhas - eram cerca de doze raparigas de Barcelos, “as porquinhas” dado que eram baixas e gordinhas - juntam-se à festa mantendo o pudor. Perguntam ao grupo:

- Há vinho?!

- Há mas só trocamos, rosnou Pepe.

- Martini, pode ser, voltou ao ataque a vizinha.

- Ah pois, disse Miguel inundado de alegria só provocado pela sua bebida preferida.

Feita a troca, Miguel abre a garganta e bebe de uma só vez o conteúdo da garrafa. Dois segundos bastaram para ter um acesso de loucura e começar a tirar a roupa. Pepe adivinhando-lhe os pensamentos já o tinha feito.

As vizinhas ficaram primeiro de boca aberta, mas logo de seguida pega na mão de Pepe e leva-o até uma das tendas e começa a chamar:

- Ó fulana, olha o que tenho aqui para ti!

A rapariga, ensonada, abre a tenda e dá de caras com o badalo de Pepe. Cara de espanto e de susto. Nestas lides dos festivais, ganhou o epíteto de Capitão Sacos, por ter os sacos maiores que a compra.

Pepe apanhou igual susto ao olhar para a cara da assustada e bate em retirada. Junta-se a Miguel e vão os dois comer uma sandes mista, nus com a mão no bolso, enquanto vão dançando ao som das cores do amanhecer.

Nunca mais viram “as porquinhas” mas elas não se devem esquecer.

Viram foi o filme com todas as peripécias; Zundapp estava a filmar toda a brincadeira.

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

10.29 Am

“Às vezes parece que está na lua mas faz tudo direito, bem demais. Por vezes sinto inveja da capacidade de trabalho dele e ridícula por lhe estar sempre a perguntar se já fez isto e aquilo… sou insegura. Gostava de saber em que pensa; neste momento nem por isso.
Ressona que se farta! Já ouvi muito boa gente a ressonar mas ele é um exagero; pelo menos tem um defeito. Vamos lá a ver se é desta que me ouve.”
Miguel… Miguel, grita enquanto bate à porta pela centésima vez. O ressonar acaba e Miguel abre a porta só de boxers.
- Temos um problema com um carro.
“Coitado, estava a dormir mas isto tem que ser resolvido já e eu não consigo. Um decanter vazio… patife, bebeu-o sozinho! Espera que já vais ver.”
Deita-se na cama ainda quente e espera que se resolva a questão. Miguel pousa o telemóvel e inexpressivo deita-se ao lado dela; passados segundos sente-lhe o corpo quente encostado à pele. Adormece e volta a ressonar.
“Como é possível, será que não me acha atraente? Uma mulher que se deita na cama de um homem está à espera de algo! Ou isso ou então já não percebo nada.”
Passados uns minutos com o rei da selva a roncar, procura reservas de amor-próprio e vai para o seu quarto.

O sexo é uma das necessidades básicas do ser humano. Custou, mas acabamos por reconhecer e na sociedade actual encaramos isso de uma forma cada vez mais natural. O equilíbrio é sempre importante: abre-se uma porta fecha-se outra; a sedução para tornar as coisas mais difíceis e saborosas, quando se alcançam, encriptou-se. Já ninguém sabe como agir, mas resume-se tudo a instintos básicos.
Os animais, como os humanos usam o sexo para um fim específico, a continuação da espécie. Para isso as fêmeas procuram um macho fisicamente forte, mal disposto, com carácter agressivo para que as suas crias possam sobreviver. Não procuram machos fracos e lamechas porque à partida intuem que se os genes (nem sabem o que é isto) forem transmitidos as crias não terão a mínima hipótese de vingar. Em contrapartida, com um macho agressivo…
Daqui vem o ditado “ Quanto mais me bates mais eu gosto de ti”. Homens e mulheres querem é personalidades fortes.
O que acontece com a relação homem/mulher (salvo raras excepções) é que a resposta é automática quando do outro lado se sente indiferença, agressividade, um jogo em que nada é claro. É o isco quase perfeito.
Quando se tenta a aproximação com falinhas mansas o mais certo é que o conquistando(a) perca de imediato o interesse.

Já votaram?!

Eu apoio este blog!!!

Já votaram?! Estou quase a ser ultrapassado pelo Objectos!!!

Carreguem aí na imagem e podem votar quanto mais não seja no adversário. Carreguem na imagem, não dói. Juro. Palavra de Escuteiro que nunca fui (nem gosto muito de escuteiros).

Eu sei que há cerca de 70 pessoas que lêem diariamente aquilo que escrevo, por isso manifestem-se!

É um segundo. Minto, dois. Bem... três. Pronto são dez.

VOTEM!

E leiam o post aí em baixo

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

18.55 Pm

"A persistência da memória" Salvador Dali - 1931
- Um princípe por favor.
A noite foi longa e o melhor para curar uma ressaca é uma cerveja fresquinha.
- Pode ser sagres?
- Ainda bem que disse essa palavra em minúsculas. Se não tem cerveja já podia ter dito.
- Temos Super Bock de garrafa, diz o empregado com o sorriso nº7 (mais um que não gosta de Sagres).
- Traga lá a Super, mas sem copo.
É religioso, para não dizer fanático, na questão das cervejas: ou Super Bock ou então nada.
Com tantos caminhos para escolher e vai sempre pelo campo minado. Já está pronto a roer os braços mas precisa deles para beber e fumar. Apalpa o bolso e certifica-se que tem a chave das algemas.
“Lá vem ela. Respira fundo; conta até dez; não custa nada, já fizeste isto um cento de vezes.”
Tenta dar-lhe um beijo na boca mas Miguel diverge o gesto para dois enquanto dispara:
- Olá.
- Bem disposto?
- So, so.
- Olha, não tenho muito tempo hoje por isso este café – faz o olhar nº 51: Já estás a beber cerveja – vai ser curtinho.
- Calha bem que hoje tenho muito que fazer; tenho que acabar umas cenas para poder ir de férias.
- Ainda bem…
- E por falar em tempo, esqueceste-te disto no meu quarto.
Estende-lhe as algemas cronográficas suíças em versão skin.
- Nem tinha reparado. Sabes, tenho tantos relógios…
“Ai não que não tinhas reparado, pensas que sou burro ou quê?!”
- Costumas ver o Seinfeld?
- Costumo, porquê?
- Por nada.
Na cabeça de Miguel: George Constanza a esquecer um objecto no quarto das “one night standers” para ter desculpa para repetir o encontro.
- Bem vemo-nos por aí.
“Pleonasmo simpático” pensa ela e responde:
- Ok.
- Tenho mesmo que ir.
Miguel levanta-se, paga no balcão e vai à luta.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

16.55 Pm



Boceja e esfrega os olhos. A cama pequena para um, óptima para dois (amantes) está a ferver. Ouve o sorriso dela mas a obscuridade impede que a veja.

Enrola-se no edredão e sorve o cheiro aos poucos com medo de o gastar todo de uma vez.

-Dá-me aí as medidas dos clientes.

“Tinhas que interromper logo agora”.

-Qual das listas queres?

-A colorida.

Remexe na mochila e retira quatro folhas amarrotadas e húmidas. O olhar da colega trespassa-lhe o pensamento mas não consegue adivinhar.

- E se fossemos beber umas cervejas depois de acabarmos isto, propõe enquanto retira um cigarro.

- Estou dentro, sabes que estou sempre pronto para cerveja.

Dez minutos depois a conversa já é outra.

Bebia mais rapidamente um Vinho do Porto.

Ok, vou tratar disso.

Miguel calça as sandálias e dirige-se à casa principal. É pena que a lua esteja escondida pelas nuvens senão a descrição arrancava suspiros à respiração.

Vai à cozinha mas o staff não está lá. 1.35, não imaginava que fosse tão tarde.

Vasculha os armários da cozinha sem resultado. Lembra-se que existe uma cozinha de serviço no rés-do-chão. Os corredores estão pejados de fotografias, daguerreótipos, livros antigos abertos numa página ao calhas, réplicas de armas (a nobreza já há muito que vendeu as verdadeiras) nas paredes, móveis e mais móveis e loiças do século XVIII coevas da construção do edifício.

Numa cómoda estão dezenas de pequenas molduras com caras a sépia, réplicas do dono da casa. Pega numa e vira-a ao contrário, “será que alguém vai notar” e no íntimo ri-se.

Na cozinha encontra caixotes carregados até à boca de vinho poeirento. Escolhe um Vintage de 1991, verte o conteúdo para um decanter e agrega-lhe dois cálices.

- Boa noite Miguel, como está?

Apanhado com o nariz no decanter pela filha do dono da casa. Morena, olhos castanhos, dedos finos e uma fama secreta de ninfomaníaca. Este encontro já estivera para acontecer vezes demais, sempre interrompido por alguém.

- Bem, e a menina?

- Agora estou melhor; já tinha sido informada que estavam cá, mas ainda não tinha tido o prazer de me cruzar consigo.

Os olhos faiscavam de convite e Miguel sentia-se estúpido com o decanter e os cálices.

- O prazer é sempre nosso.

- Como sempre um homem desenrascado: Porto e dois cálices… Quem é a sortuda?

- Ainda não sei… Diga-me a menina.

Já não conseguia evitar. Não fazia muito o seu tipo mas algo ali accionava todas as sinapses da sedução. Ficava desorientado com aquela mistura de atracção/indiferença e tinha que resolver isso agora.

- Estou cansado, acho que vou desistir do Vinho do Porto.

- É pena, diz a colega com despeito desenhado nos lábios finos.

- Até amanhã.

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

blogcup

Não sei se reparam no selo na sidebar... Deu-me uma maluqueira e resolvi meter-me num concurso de blogs.
A primeira eliminatória foi passada com sucesso (sem saber ler nem escrever) nem estava cá para fazer publicidade, e até tive direito a uma notícia na página dos organizadores. Passo a citar:
"Entretanto, há jogos em que a soma de votos dois 2, não atingem a votação de alguns Blogs individualmente:

Jogo 9 ( 28 votos) - Jogo 19 (27 votos)

O que passar à fase seguinte, terá de se aplicar muito mais no incentivo ao voto ou terá a vida muito complicada."
Só me posso rir em relação a isto.
Agora vou-me aplicar, e de certeza que vou ficar pelo caminho. Assim criei uma tag que poderão pôr no vosso blog a apoiar o meu (menos o Humor Negro, o Objectos, o Webcedário e o ABCity que também estão a concurso).
A tag é pequenina e discreta e linka directamente para a área de voto do blogcup. Se quiserem votar nos outros não fico triste; farto-me de rir.
A votação para a segunda eliminatória começou no dia 5 de Novembro às 23 horas e acaba dia 12 à mesma hora.

Nâo se esqueçam: Votar é um dever cívico.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

02.40 Am


"Beer an lamp" Rich Bach

Toca o telemóvel. Miguel pisca no display. Ela põe em silêncio e considera não atender.

“É melhor atender… afinal gosto do cheiro dele.”

"E dos peitorais".
Ainda hesita e pensa: "Será que estou pronta para isto?!"

Atende e geme-lhe ao ouvido o desejo de estar com ele. Com experiência na voz desculpa-se (nas entrelinhas) da hora das sms. Não é de hoje nem de um passado recente, é a continuação do que deveria acontecer.

A relação sempre foi frugal, demais para o seu gosto. Estivera alheada dele muitas vezes. Era uma relação estranha: conheciam-se há muito tempo mas nunca nada se concretizara. A provocação foi sempre uma constante: olhares profundos a meio milímetro de distância, lábios quase a tocar-se, as auras a tocar-se (o calor das bocas não dirigido aos ouvidos mas à outra boca, como se a comunicação não necessitasse de mais nada, só de contacto).

Uma noite em que estavam juntos nestes jogos algo aconteceu: ele consegue exprimir por palavras o que lhe corria nas veias como um rio de lava. Ardia de desejo físico e intelectual e resolvera fazê-lo naquele momento em que todas as suas baterias anímicas se encontravam no máximo da carga.

Miguel pensava com o seu ziper: “Hoje consigo tudo o que quiser. Dois crofts no bucho e não há quem me pare!”

No ambiente de fumo ela estava indescritível mas os olhos azuis diziam:

- Presente.

Miguel intrometeu-se entre ela e a cerveja. Cuspiu palavras secas e confessou que tinha companhia. Como se nada fosse, a mão dela deslizou para o rabo dele e sentiu a firmeza de muitos quilómetros percorridos.

- Sabes que sempre foste a minha mulher fetiche?! Que pergunta estúpida! Claro que sabes, é impossível disfarçar, muito embora eu ande a tentar deixar de ser m livro aberto que se lê de trás para a frente e depois se rasgam as páginas.

- Qual é a relação disso com a minha mão?!

- Nenhuma, apeteceu-me.

Com a mão a tremer, Miguel segura no telefone e propõe uma garrafa de vinho e uma "pasta".

15.25. Pm


"Destino" Pantyuk-Zhukovsky Alexey - 1995

Não é fácil afastar a atenção daquilo. Vai consumindo os recursos intelectuais necessários para as tarefas profissionais.

À dentada vai rasgando os sacos coloridos e, no íntimo, só pensa nas marcas de dentes que deixou (com um pedido de desculpas) na pele dela.

Algum tempo se passara desde o episódio apimentado por provocações mútuas e continuava a guardar o agridoce daquele momento na carteira. Abriu-a e tirou o bilhete da CP. O destino não interessa, muito menos a hora, só o sofá de couro, os livros.

Fecha os olhos e sente o tabaco a secar-lhe a boca. O contacto da pele liberta e contagia; a meia-luz que entra pelas frinchas do estore desenha pontos de luz animados na pele. Os seus olhos salgados de prazer e emoções percorrem as curvas daquela que pacientemente deseja há muito tempo.

Sorri derretido de emoções confusas, escondidas, acutilantes e diz-lhe ao ouvido:

- Valeu a pena esperar tanto tempo. Gostava de ser lamechas e piroso mas não é o momento; ainda te assusto como costumo fazer.

- Shiu, usa os lábios em silêncio.

Beija-a e sorri. Palavras para quê? Amanhã, depois do pequeno-almoço, com um pouco de sorte, depois do almoço, não a verá durante algum tempo; mais vale aproveitar.

Descansa a cabeça no peito dela e deixa que as mãos lhe percorram o corpo sem malícia numa mescla única de sinceridade/prazer pós coito. Assim vale a pena, pensa. Não se vai sentir vazio…

- Já está pronto?

- É claro que sim, agora só nos resta esperar.

Senta-se numa pedra e puxa de um cigarro, o último.

- Que merda, só posso comprar tabaco daqui a três horas.

Começa a chover e a primeira pinga acerta-lhe na ponta em brasa.

11.25 Am


"O mito de Sísifo" Ticiano

Muita carga nas costas; trinta quilos e o guia a dizer:

- Miguel, quando quiseres trocar avisa.

A caminhada não é fácil mas isso já sabia; pedras escorregadias como algumas pessoas que conhece; joelhos há muito estragados por saltos acrobáticos estalam como madeira seca; a mochila carregada… sente-se Sísifo a carregar o penedo pela montanha acima.

“Não vou dar parte de fraco, afinal ainda sou novo e isto é uma questão de princípios e tempo até lá chegar.”

O guia ultrapassa-o como uma gazela, aos saltos, destruindo a imagem dos seus quarenta e cinco anos. Homem da montanha, seco e rijo, só fibra mesmo no carácter. É saudável ser e estar assim.

Volta a pensar nela. Mais vale não o fazer, afinal só vai poder encontrá-la dali a muito tempo, quando voltar a ter rede no telemóvel, e aqui é impossível.

Finalmente o topo. Pousa a mochila e senta-se durante algum tempo a recuperar o fôlego. Não consegue ver a paisagem embora a conheça de tantas vezes que a contemplou. Um edredão de nevoeiro frio espeta-se-lhe no reumatismo e impede a visão.

Com a ajuda do guia começa a arrumar o sítio da reunião, a espalhar o conteúdo da mochila. O telemóvel dá sinal de vida. Sorri ao ver a sms.

“Isto é tortura!”


1.10 Am


"Squeaky Bed" 1999

Revira-se na cama: os lençóis já foram mudados, e sem saber se é impressão ou desejo, o cheiro dele continua ali entre as fibras.

Associar um cheiro a uma pessoa é comum; com o advento dos perfumes ainda mais. É bom poder fazê-lo mas mais ainda é ter a sorte de reconhecer o cheiro único de uma pessoa; depois de um bom banho sem gel de banho, champô, cremes, perfumes, a neutralidade do cheiro do outro revela-nos a essência, aquela que Jean-Baptiste Grenouille, de Süskind, procura n’ O Perfume.
Todos temos essa essência irresistível sendo reconhecida por poucas pessoas e isso é mágico.

Vai na rua e sente-lhe o odor vira-se e não está lá. Entra no carro e volta a sentir: em casa pior ainda: ele esteve em contacto com muitos objectos. Onde estará? Será tarde para ligar?

“Que se lixe, mando uma mensagem, se responder respondeu, que perco com isso?

Liga o leitor de Cd com Lounge e inspira-se; resume o testamento para uma linha. Envia, hesitante. Carrega no Ok.

“Já está.”


quinta-feira, 3 de novembro de 2005

10.30 AM


"O Jardim das delícias" Hieronymous Bosch - 1504

O vento agita, convulsiona o exterior e o interior. Assobia melodias atormentadas pelas frinchas do telhado e da Alma. Silêncio, é tudo o que pede, para pensar para dormir. Algo mudara; tudo o que desejara até ao momento: um pouco de atenção. Percorria os trilhos da montanha, em silêncio melancólico, enquanto que a chuva agreste e a ventania ciclónica espelhavam o que no fundo se passava na sua mente.

A vida transformara-se num jardim de tentações e não sabia como resistir. Todos os dias se deparava com mulheres diabo que faziam os possíveis para lhe estender as redes da sedução. No entanto a sua sinceridade provocava o afastamento imediato, ou quase.

Foi para a cama com uma (já há muito tempo que ela o perseguia com o olhar, com os gestos) e sentiu-se espoliado (seria da máscara de couro que ela vestia); bonita a e bem feita, mas depois mais nada, desilusão.
Acordou e ficou satisfeito por ela já não partilhar os cobertores. A ressaca batia-lhe na cabeça e na porta também.
“Quem é que me acorda a estas horas pornográficas num domingo?!”
Veste os boxers e abre a porta.

- Temos um problema com um carro.
Trabalha até ao Domingo. Porca miséria, italianiza.

Pega no telefone e resolve o problema. Olha para a cama e lá está a colega de trabalho com olhos de mel e nozes em forma de convite. Desolado (secretamente satisfeito) olha para ela e deita-se a seu lado. Falam de trabalho e, aos poucos, ela começa a encostar-se. Mais uma que lhe quer saltar à espinha. Sorri e adormece.

- Ressonas muito, diz-lhe a colega ao pequeno-almoço.
Não desejando mais conversa replica:
- Pois.

Nos olhos leu-lhe a desilusão e o desejo. Sentiu que ela não se importaria de partilhar o suor e o ressonar mas não estava para aí virado; desejava uma e não era aquela, muito menos o sucedâneo que lhe manchara os lençóis horas antes.

Algo mudara.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

1.35 AM

- Acorda Miguel, são seis e meia.
- Hummmm, gnharrrlll.
- Acorda, tens que trabalhar.

Os lençóis ainda estão húmidos e não teve descanso suficiente; nestas condições nunca é suficiente, nada é suficiente.

- Que é que se passa?!
- Tens que te levantar! Os clientes têm que ser acordados!
- Eu quero é que eles se fodam! Que vão para o caralho!
- Não sejas resmungão.

Há pessoas que deviam ser presas por acordar alguém a esta hora criminosa, é homicida tirar alguém da cama a horas tão indecentes.
Ensonado, friorento arrasta a carcaça para fora da cama. Tudo podia correr melhor mas não havia nada a indicar tal. O vento soprava com muita energia, a que lhe faltava; a chuva lavava as paredes da habitação sazonal e o seu corpo ansiava por alguma água que havia de aparecer. Chuveiro a correr e quinze minutos depois de óculos de sol a tapar as olheiras de três dias de mau sono (com muitos sonhos e interrupções) desloca-se à habitação principal.

- Bom dia, exclama o sorriso do cozinheiro.
- Só se for para ti.

Resmunga o que o corpo lhe faz sentir: má disposição, mau humor, cansaço… Senta-se e volta à noite anterior.

- Olá! Estás a dormir?!
- Agora não.
- Acordei-te?!
- Claro que sim!
- Leste as minhas mensagens?
- Claro que não!
- Então lê.

Desliga o telefone e fica confuso. Por momentos pensou estar a sonhar. Aquele episódio onírico é estranho e o despertar ainda mais. Aquele nome a piscar no telemóvel parecia saído de uma dimensão paralela.

Desejara todos os dias que aquilo acontecesse e agora que se tornara realidade (seria?), temia que tivesse sido demasiado frio e seco. Ela era especial e não merecia a sua má disposição ou o granito que lhe saltava da boca quando acordava a meio da noite. Não respondeu. Leu as mensagens e tentou dormir sem sucesso.
A insónia turbilhonou-lhe os pensamentos e deu-lhe um descanso às prestações. Sonhou com ela e agora era real; ela a linha de crédito que o fazia continuar.

- Hã?!
- Café ou chã?!
- Café, preto como o inferno e amargo como a minha alma.

Toca o telemóvel. Miguel pisca no display. Ela põe em silêncio e considera não atender.
“É melhor atender… afinal gosto do cheiro dele.”

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Uma revolução intestina estalou neste blog o que faz com que o autor seja exilado durante uma semana na Serra da Peneda.

The Author as been removed by the blog

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Título (ponha aqui o que resume este texto)

Rapariga gira como o raio sozinha.

Rapaz com olhar nº7 (se te apanho conto-te uma história).
Aborda-a.
- Será que é hoje que vou manter uma conversa contigo por mais de trinta segundos?
Ela sorri.
- Tenho medo de falar contigo mais de trinta segundos; ainda me transformo num monte de cinza.
Ela sorri.
- Não tenho sorte nenhuma; uma mulher bonita aqui sozinha e é muda.
Ela ri à gargalhada.
Faz-me perguntas - diz ela.
- Qual é a idade da terra? pergunta ele.
Ela fica aturdida e ri-se.
-Tens namorado?
- Sim.

Pensa "Foda-se para esta merda, não tenho sorte nenhuma!" e diz:

Agora é a vossa vez. Mandem a punchline.

Monólogo a três

Riddle: Isto não se faz, pôr a nossa conversa como post! Não fico chateada mas um pouco envergonhada.BeijosP.S. Estou a ver que estás a ter sucesso com os anónimos...
Terceleiros: Foi só um exemplo como outro qualquer... Desculpa ter provocado rubor mas é um dos riscos do anonimato, exposição. Isto ajuda a consolidar a teoria do anonimato. Beijo
P.S. O sucesso com os anónimos é-me indiferente mas agradável (um pouco). Continuo a preferir pessoas reais.
Riddle: É agradável contribuir para a tua teoria do anonimato, se bem que acho que devias continuar com os teus contos. Acho que é por aí que tens que ir e não perder tempo com estas miudezas. Acho que me vou inibir de fazer mais elogios, não vá estar a tua namorada/mulher a ver isto. Beijo
Terceleiros: Se já me fizeste algum elogio, não reparei (a não ser este subliminar de que tenho talento para os contos). A minha aliança já me está a fazer comichão!
Riddle: Desculpa.
Terceleiros: O que é que tenho de desculpar?!
Riddle: Não sabia que eras casado, por isso peço desculpa.
Terceleiros: Tenho alergia a alianças (metálicas)!
Riddle: Achas que as pessoas precisam de uma aliança para Criar um compromisso?
Terceleiros: Criar um compromisso?! A criação (Gore Vidal) bom livro. O compromisso é entendido de formas diferentes por cada pessoa; é um conceito um pouco abstrato. O que é um compromisso para ti?! Talvez assim te saiba responder.
Riddle 2: O compromisso é aquilo que tu quiseres.
Riddle: Alguém está assinar com o meu nome. Em relação a Vidal só li o Juliano mas fica registado. O compromisso... é difícil... uma conversa para se ter olhos nos olhos.
Terceleiros (Resposta a Riddle 2): Ora explica lá isso...
Terceleiros: Ui... Dupla personalidade! Riddle nº2: Esse nome já está tomado. Tire outra ficha por favor. Riddle: Juliano é bom mas vais gostar d' A Criação. Isso dos olhos nos olhos é complicado sabias. Não te conheço de lado nenhum e blind dates... hum, cheira-me a perigo. Sei lá se és uma Cereal Killer, é que sabes eu sou 90% cevada.
Riddle 2: Não sei o que essa pessoa está dizer. Eu é que sou a riddle, não vou tirar ticket.
Apóstata (aka riddle): Não me deixa outro remédio... Assino assim, acho que vais perceber. 331-336 d.C. Não sou do género de blind dates a não ser que seja mesmo necessário. Cevada fermentada?
Terceleiros: Riddle do ticket: Não perturbe as pessoas. Pode-se chamar Loki se desejar.
Riddle 2: Apóstata por mim podes ir buscar referências de livros aqui
Wikipedia(aka Riddle): Pois posso. Mas isto não posso. Elêusis.
Terceleiros: Bem... Porrada verbal no meu blog não. Já chega de confusão.
Wikipedia: se quiseres manda mail para não haver mais confusão (encriptado é claro). beijo
Elêusis(aka Riddle): estou pensar mandar um mail com um post secret ;)!
Esta conversa passou-se neste post, na minha caixa de comentários e é um caso grave de tripla personalidade. Desdobrei-me em três personagens. A mais fácil é o Terceleiros; Riddle é um bocadinho complicado (pensar como uma mulher não é fácil); Riddle 2 é bem mais difícil, é criada para semear a confusão na cabeça de Riddle e na de Terceleiros.
Riddle, a certa altura, tem que mudar o pseudônimo e vai buscar palavras que estão ligadas à única leitura que para já tem em comum com Terceleiros.
Um exercicio de abstracção ou de loucura...
Digam-me vocês.

P.s. leiam Juliano e A Criação

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Lama Gémea

Felo
"Moonlight Reflection" Linda Merk-Gould
Aos poucos deixou-se levar. Não sabia muito bem qual o caminho a seguir; o mapa mental desdobrou-se dimensionalmente e ele ficou sem referência. Sempre a tivera acoplada às certezas, mas neste momento não. Perdera-as como a chave de casa e não podia fazer uma cópia.
Aos poucos deixou-se levar. O sentimento conduzia-lhe o coração; derretia a calote de frieza que lhe toldara a emoção nos últimos tempos. Lia nas árvores algo indefinido que recordava algo que tinha desaprendido, com tantas barreiras que criara, e aos poucos começava a acreditar que seria possível.
Do outro lado do nevoeiro alguém pensava como ele. Chorava lágrimas doces como absinto e embriagava-se com elas. Consolava-se secretamente e secava-se com os cabelos: a única coisa que lhe cobria o corpo.

A lama gémea, dos dois lados do fosso, cercava os corpos que, aos poucos, sentiam a necessidade de se encontrar. Impelia-os mas não era daquela forma que se iam unir.

Ele adquiriu novos hábitos: lambia as feridas do passado e via que estavam a cicatrizar. Acreditava que dentro em pouco as suas pernas estariam prontas para andar. Arrastava-se à procura de comida para a alma que estava perto, tão perto.

Ela corria mas não via. Tacteava a absorver a luz que o corpo necessitava.
Um dia viu.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Do Anonimato

Bene bene...
Estou a ver que o post anterior produziu reacções e afinal não foi surpresa nenhuma para mim. O anonimato cria uma aura de mistério que atrai toda a gente. É irresistível tentar saber o que está por trás de um nome, e todos já passamos por isso, ou quase todos...
Os encontros de Bloggers não são mais do que dar a cara às letras e imagens que vemos todos os dias. É um Blind date, sem que saibamos o que dali vai sair. É giro imaginar quem são as pessoas: será aquele que está a ler; aquela com o portátil; aquele senhor que fuma cachimbo e observa toda a gente?!
Nem o género é certo; no profile pode lá estar male/female, mas nada é garantido. Podemos pôr uma foto mas até isso pode ser falso. Até as pessoas se conhecerem realmente, em carne e osso nada é certo, aliás nem isto é certo.
Qual é a diferença entre um comentador anónimo e um que está registado? Nenhuma. É exactamente a mesma coisa, nada é garantido.
Todos temos capas: no trabalho temos uma; na nossa família é suposto não termos; para um amigo mostramos um lado e para outros se calhar mostramos tudo... Ninguém nos conhece completamente, nem nós próprios e não será isso uma capa também, uma espécie de anonimato?!
Por isso é que tem piada responder a comentários anónimos; destrinçar a outra pessoa estimula a inteligência, é um jogo de forças. Se assina anónimo é por que tem algo a esconder e essa é a razão para provocar e tentar saber quem é.
Os comentários fazem-me pensar que ainda não perdi a capacidade de provocar.
Mais uma transcrição.
Anónimo(a)
Não te conhecia esta faceta de resmungão.No entanto agradas-me jovem. É sempre bom saber que as pessoas se revelam em estados de pressão e que também és humano. Será que também és sensível???Beijo
Terceleiros
Anónima: Presumo que sejas uma mulher...
Sou o que sou ou gostam de mim assim ou então...
Sensível... Convido-te a descobrir. Não mando beijos porque a minha mãe sempre me disse para não beijar desconhecidas.
Isto começa a ser demais (já estou farto de rir).Agora isto é um repositório de anónimos?!Venham todos ao Tercelerios, Reunião dos CA (comentadores Anónimos!)
Bem Senhores anónimos ou anónimas: Assinem por favor!
Anónima
Miguel ou deverei dizer Ricardo?! A época das descobertas já passou mas até arriscava. Sou viciada em adrenalina! É bom ver que tens carácter mas até gostava de saber se é mesmo assim - é tão fácil encapar-nos na internet... Beijo
Riddle
Terceleiros
Riddle: Obrigado por se identificar. É fácil saber que eu sou Ricardo, é só ler o último Post. Cuidado que tenho alma de Vasco da Gama! A adrenalina é boa quando em doses regradas e se é assim eu faço parte da mesma equipa e acho que nisso já tenho mestrado! Talvez possamos trocar experiências... acerca das capas: acho que temos sempre algo a esconder. É o nosso Post Secret.
E este acabou por aqui... ou será que não?!

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

CA - Comentadores Anónimos

O Monte da Lua

Vem daqui

Como blogger, e já lá vai algum tempo, sempre mantive o meu anonimato. Durante todo o tempo que mantive este blog (bem como o outro) resolvi “esconder-me” atrás de um pseudónimo e de uma imagem que não é a minha.
Já muitas vezes me perguntaram o que quer dizer o pseudónimo, e desenganem-se, não foi criado para o blog: tem 13 anos. Foi criado quando publiquei o meu primeiro texto no Jornal de Esposende, com a preciosa ajuda do meu professor de Latim, director do jornal na altura.
O meu Tio sugeriu o nome; Miguel é o meu segundo nome; Terceleiros é o micro-topónimo onde está localizada a casa dos meus pais que significa acima do Celeiro.
Como devem ter reparado, finalmente pus uma foto minha no Blog.
Isto tudo para quê?! Não sei se têm notado mas tenho sido invadido por anónimos, que presumo sejam do género feminino.

Isto dá-me alento. Gosto de descobrir, sou curioso, procurar no sitemeter e descobrir não a cara mas, por cruzamento de dados, a localização. Esta Internet é um Big Brother!

O Hugo dizia há dias que os comentários são um outro post, quando não são a continuação. No post Livro surgiu um Anónimo(a) que originou esta bela conversa.

Anónimo(a)
Ficaste preso nos meus favoritos, e cada vez que teclo um “t”, cá estou eu... Pena não ter olhos que cheguem para ler os teus textos todos...

Terceleiros
Anónimo(a): Fico contente por gostares, aliás feliz. Os meus leitores é que me inspiram na maior parte das vezes. Para a próxima uma assinatura, se não for pedir muito.

Anónimo(a)
Não estou no anonimato para me esconder... Por agora, quero apenas estar aqui, no meu sossegadinho cantinho... Escreve-me :)... se precisares de dar vida ao teu livro no mundo das figuras!!! Bom fim de Semana

Terceleiros
Anónimo(a): Não digo que te estejas a esconder. Peço uma assinatura para poder saber se é sempre o mesmo anónimo :). Posso escrever-te a tinta ou a caracteres, como preferes?!Desenhar a tua imagem com letras. Posso:idealizar; infra-idealizar; supra idealizar... Qual o teu tipo de idealização perfeita?

Anónimo(a)
Para alem de ser amante das tintas, prefiro que me escrevas em carácter. É mais rápido e indolor... A imaginação é perfeita... dá-me tu um nome!!

Terceleiros
Anónimo(a): Seja, caracter será. (é andrógino) Nunca se soube se era realmente uma mulher ou se era a cara do Leonardo por isso como não sei o teu sexo ficas Mona Lisa. Para além disso aquela aura de mistério...agrada-me.
Mona Lisa. pinta-me manda a cor por mail. Miguelterceleiros@gmail.com A moeda tem sempre duas faces. Pode ser com pincéis de photoshop.

Mona Lisa
Tu és da cor da folha da arvore outonal, da lua e do sol. Da chuva e da noite. Tinta fresca que vai secando na tela rabiscada por ti próprio. Afinal não somos todos assim?! Sim... o mistério muitas vezes é o que nos guia na imaginação... Já ouviste falar do monte da lua?

Terceleiros
Mona Lisa: Monte da Lua?! Gostava de conhecer. Boa pintura a tua, é Impressionismo?

Mona Lisa
É abstracção do ser humano para representar imagens :D. O monte da lua é o nome que designa a uma Serra... Onde lutaram Mouros e cristão... e viveram reis e rainhas... onde existem duendes mágicos e mouras encantadas a espera do derradeiro beijo. É onde existem castelos protegidos por gárgulas que acordam do sono profundo com o brilho da lua... O monte da lua é envolto num mistério fantástico e poucos são aqueles que se aventuram a andar por lá depois do sol posto. É o cenário perfeito para um dos teus contos...

Se quiseres, mais tarde envio-te imagens... e som...

Terceleiros
Mona Lisa: O Monte da Lua onde a Pena é mais forte que a Espada?! Palácios e castelos ameados... já passeei por lá numa outra vida mas morri pelos olhos de uma encantada. Manda o reflexo de um espelho, as imagens em anagrama lógico.beijo
Só uma coisa para os anónimos. O mistério é óptimo até cansar.

Insurgimento

Tenho que escrever isto. Os bois que me andam a pôr Spam na caixa são os mais deslavados descaradões à face da Internet.
Não é que me mandam um spam com 124 (!) links e no fim, ironicamente, dois deles rezam o seguinte:
- 122 PAL Popup Eliminator - Blocks all pop-up and pop-under ads.
- 124 PAL Spyware Remover - Every day internet surfers install SpyWare and AdWare components on their PC's without even knowing it by clicking on pop up ads, downloading music files, installing free programs and so on.

Só cá faltava um a dizer:
PAL Spam Remover.

São estes caralhos que fazem o Spam, os reservoir oxes de merda que depois nos obrigam a comprar a cura para a doença que eles criaram.

Apeteceu-me dizer uns palavrões.

Só fizeram com que activasse o Word Verification do Blogger.

P. S. Carreguem nos links vão ter uma boa surpresa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Livro


Acorda num sítio muito estranho. Por muito que queira descrevê-lo não tem sucesso (satisfatório). No centro da divisão (acha) encontram-se duas estantes que devem ter dois metros e meio de altura. Tocam o tecto. Aí está colocada uma série de livros que devem contabilizar 450 volumes em cada face da estante (se bem que possa estar enganado), num total de 900 mais coisa menos coisa.

Todos os livros são diferentes em tamanho e cor, formando um arco-íris desordenado, uma manta de retalhos de cultura (assim julga). As formas, uma muralha de legos misturados com blocos de construção lógica infantis e meccano. Uma Babilónia lógica; tem que haver uma lógica nisto.

Quando se aproxima, o tecto transforma-se num gigantesco espelho, fazendo com que os livros se tornem numa gigantesca torre infinita. Todo o conhecimento está ali em reflexo.
Com mais atenção vê que os livros se invertem, como é natural num espelho, criando ilusão: os reflexos não correspondem à imagem original.

Olha em redor e toda a sala é um gigantesco e único espelho multiplicando os livros e a sua imagem até à exaustão. O medo acorda-lhe a mente. Tem que sair dali. Tacteia, bate com os nós dos dedos para sair, não para entrar, obtendo sempre o mesmo resultado, nada. Está preso.
Um sonho, espero estar num sonho maluco.

Dirige-se às estantes e retira o primeiro livro do topo esquerdo. Não tem título nem autor, mas sim, índice.
Ao que parece é um livro de Contos.

Absorto na leitura descobre, com espanto, que a sua história, desde que acordara na sala espelhada, está lá escrita, mas por alguma razão interrompida no ponto em que ele pega no livro.
Os contos acabam todos de uma forma que indica que o autor tem gosto em brincar com a vida das personagens que cria. Vai criando expectativas dando migalhas, semeando a confusão para, no final, os deixar com a vida destroçada ou com uma experência traumática que lhes mude a vida.

Pega numa esferográfica e resolve escrever.

15.00
Está sentado como é costume em frente ao computador. A sala é decorada com azulejos do Estado Novo; citações de Salazar e outros coevos da Ideologia.
Com a rotina no rato e a retina no monitor, liga o Messenger, o Morpheus e o Media player.; clica no Firefox e escreve
gmail.com
Durante trinta minutos consulta os mail's e troca algumas palavras com os habitués. Muda o estado para ocupado e escreve o post para o blog. 15 minutos de escrita, dez de correcções; google images para encontrar o quadro relativo ao texto; formata e publica.
Passa agora para a ronda pelos blogs habituais. O primeiro fá-lo esfregar os olhos, o segundo arregalá-los; vai clicando em pânico em todos e as mãos crispam-se sobre o rato com tanta força que um estalido revela que o partiu em vários fragmentos.
Confere a hora dos posts e comprova através das lágrimas de raiva que todos foram escritos antes do seu. Ele é a cópia, uma farsa. O seu texto estava em todos os blogs.

Ora toma lá que é para não andares a torturar as tuas personagens. Vê lá se gostas quando brincam contigo.

Acabara o livro do escritor deconhecido e nada o podia mudar. Esgotara o espaço para texto a tinta preta sobre o papel amarelo. Não havia correcção possível.
Com um sorriso nos lábios volta a colocar o livro na prateleira. Volta-se com um sentimento de justiça e, no espelho, vê tinta preta a escorrer pela lombada do livro.
Volta a segurá-lo e algumas letras estão a compor palavras lentamente na lombada.

O Livro e outros contos – Miguel de Terceleiros
Pega na carteira, como que duvidando da própria identidade, e os espelhos partem-se.
Ricardo Brochado AKA Miguel de Terceleiros

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Somos todos malucos

Guarany 21.30

Não sou das pessoas mais pontuais mas desta vez cheguei a tempo. Sento-me com os meus iscos na mão. O meu caderninho e caneta; Ficções de Jorge Luís Borges. Não sei qual foi o sinal combinado mas qualquer pessoa com dois dedos de testa chega lá.
Ora porra, ninguém no seu perfeito juízo vem para o Guarany escrever e ler, a não ser que tenha um propósito obscuro por trás disso.
Observo tudo em volta e começo a adivinhar. Será que é este, aquele; os cromos do portátil?! Desisto. Hugo entra e não me vê. Estou a um metro dele e penso que a melhor forma de ficar invisível é ficar no sítio mais visível, na mesa da entrada.
- Então?!
- Nada ainda. Somos os primeiros.
- Um descafeínado.
O empregado vai e volta com o líquido.
Fico só outra vez. Amie e Freddy entram e sentam-se.
- Estás sozinho?!
- Não já cá está o Hugo. Olha.
Apresentações e mudamos para uma mesa maior. Apostas e mais apostas de quem seria e eu aposto no desconhecido na mesa do canto. Depois de cinco minutos de risota e punchlines para tirar a dúvida Amie lá se enche de coragem e vai lá.
Não sei o que disse mas era mesmo. Cláudio senta-se e junta-se à conversa. Mais uns minutos chega a guerrilheira de serviço, Guevara e uma pessoa que não esteve lá (esta é private mas estiveste lá).
Piadas nervosas; que fazes; qual é o teu blog e tal; porquê o nome, enfim tudo o que queriamos saber, mas acima de tudo a curiosidade satisfeita de conhecer fisicamente as pessoas que estão por trás dos teclados e monitores.
Mais tarde chegou Malamack e ficou (quase) completa a pandilha.
Ernesto traidor! Onde te meteste!!!! Estivemos à tua espera montes de tempo. Imaginámos que fosses o saxofonista, o tipo de óculos no canto, a comer com a boca cheia de dentes, que estavas dentro do piano, que eras o empregado e não eras.
Isto não se faz! Deixar assim as pessoas à espera!
00.00
Fechou o Guarany e fomos expulsos com promessas de repetir a dose.
Gostei muito, diverti-me e vamos lá trocar uns poemas (lol) e mais umas coisas (lol).

terça-feira, 11 de outubro de 2005

21

Andrajosamente lúcido revira os olhos à procura da página certa. Lê na diagonal, com pressa, embora saiba que esta leitura nunca resulta (pelo menos com ele). Obtém produtividade na leitura com atenção; ao sobrevoar as páginas sente que está a perder tempo; não vai encontrar o que deseja mas teima.

O mofo invade as narinas e fá-lo abafar um espirro. Não podem saber que está ali, pelo menos agora. Há que esticar (alargar) os limites cronológicos para lá do razoável. Esquartejar os relógios do mundo para ter o tempo multiplicado por quatro. Não é possível nesta história, nesta sala, com este corpo; há que aproveitar [(explorar (exaurir)] ao máximo, o tempo.
Demorara a encontrar o livro e agora, que o tinha na mão, a passagem teimava e escapava. Procura nas entrelinhas.

Olhou para as linhas e atingiu a forma de encontrar o que queria. Da pasta de couro coçada e áspera como a vida, retirou papel pautado, com um allegro que estava a compor já há anos, e colocou-o sobre as páginas do livro. Semitransparente, misturava as letras com os símbolos musicais e concentrava nas entrelinhas só o essencial.

Esta procura tornava-se uma obsessão e instava-o a prolongar a demanda. A felicidade dependia daquilo ou talvez não. Da mesma forma que outros procuravam Graal’s de múltiplas formas e conteúdos, este era o seu.

Horas sem fio nem textura aparente entraram nos seus olhos atingindo os neurónios construindo cansaço com tijolos de informação. 110 páginas absorvidas com atenção, lidas de uma forma nunca antes lida; música e letra em conjunção absoluta de uma forma que agora a música era lida pelos olhos e a leitura pelos ouvidos.

Vinte e um anagramas. Aqui está a linha que procurava. Nunca a iria encontrar se não fosse desta inventiva forma de ler nas interlinhas. Espaço, espaço, ponto final.Levantou o papel pautado e viu a frase original.

A ARMATA MEN GUN VIS.
O autor brincara com uma espécie de latim macarrónico e inglês. Repetia ideias.
Traduzia-se como:
A força (Armata) dos homens (Men) é a quantidade (Vis) de armas (Gun).
Não lhe interessava esta frase.
Não fazia sentido nem nunca fizera, mas agora parecia que estava no caminho certo. A frase do texto que dava origem a esta era:
Quanto pesa o Amor?
Vinte e um anagramas.

Mais uma brincadeirinha. Divirtam-se

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Olhos bem abertos

"Venus e Cupido" - Artemisia Gentileschi - 1625-30
Insónia, mais uma vez insónia. Dentro do saco cama não consegue fechar os olhos. Todo o seu corpo sonha, já há horas largas e compridas, mas os olhos não se fecham.
Sonhar acordado é bom, nunca sabemos qual a dimensão da realidade mas também não chega a ter importância. Os pensamentos são só nossos, a dormir ou despertos.

O contacto com o poliéster fá-lo sentir sexy como um gato; não um tigre; melhor, uma pantera. Sente o tecido a gemer e faz coro com ele. Suspira de prazer… ronrona lascivamente e sente-se poderoso como dentro do corpo de uma mulher. Sente o corpo a ser beijado gradualmente. Invisíveis lábios tocam-no – não consegue ver a cara – tudo está claro, repleto de luz. Chora de prazer com a secreta esperança que tudo se repita em breve.

Abraça o saco cama e a textura modifica-se, parece carne. De olhos (agora) abertos, salta do sonho e da boca escapa-se
- Nunca tinha feito o Amor com um saco cama.
- Nem eu com um gato.
O corpo liso e suave, em contraluz, sorri-lhe; todos os poros sorriem. A lágrima de satisfação surge ao canto do ser quando descobre que não foi um sonho.
Trinca-lhe o pescoço para provar o mundo real, e o sal sobe-lhe a tensão. Poças de suor espalham-se pela cama e pergunta
- Posso ficar dentro de ti para sempre?!
- Já estás.
Acorda estremunhado e não reconhece o ambiente. Ao seu lado uma mulher de olhos abertos. Não a reconhece mas também não se preocupa; o sentimento é bom. Das últimas vezes não tinha sido nada bom, antes péssimo, tanto é que ganhara pavor ao risco. Arrependia-se sempre no dia seguinte.

Naquele momento, com aquela mulher, com aqueles lençóis, naquela cama, sentia-se bem, tão bem que nem havia mau hálito.

A felicidade relativa coagula-nos os sentidos.

A expressão de paz nos olhos da desconhecida agrada-lhe. Por muito tempo fica em êxtase; contempla aquele momento, pintura, escultura; controla a respiração para não a acordar dos olhos abertos.
Simples mas portadora de felicidade. A sensação.
- Porque choras?
Acordara.
- Quase que consigo acreditar em Deus só de olhar para ti.
- A Abstinência é uma droga fodida, não é?!

E agora para algo completamente diferente

Passados uns meses aqui vai a solução do puzzle.

Ora boas! Falaram-me disto e achei que era uma óptima ideia para comer a cabeça ao pessoal. Código binário, conhecem?! Quero ver qual é o tipo de comentário que vai sair daqui. a primeira pessoa que conseguir descodificar vai poder saber o meu nome verdadeiro e ver a minha foto! ehehehehehehe
Com jeitinho bebemos um copo! Beijos e abraços para os meus amigos palhaços!

Para mais informações

http://nickciske.com/tools/binary.php

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Futuro v 9.35

"The Art of Painting" - Vermeer - 1666-1668

Deserta, é assim que está a sua mente. Procura, em vão, algo que mostre que a consciência está activa; frustrado verifica que só areia fina permanece agregada em estado bruto.
Como uma máquina a carvão, barulhenta, fumacenta, começa a funcionar. Fumo fá-lo espirrar; no outro lado do renque de árvores um homem de fato preto e gravata branca diz-lhe algo.
Ao longe um altifalante de uma igreja ou capela que seja, ecoa o Ave Maria, prologando o anunciar das nove da noite. Neste sítio é sempre escuro mas é noite, como assim foi declarado pelos antigos que ainda testemunharam a existência da luz; agora é artificial, amarela baça, que transforma todos em fantasmas alaranjados.

A vida vai prosseguir. Ligaram-se os motores e há que apanhá-la. Corre com a respiração a servir de pernas e consegue, com a ponta dos dedos agarrar o varão metálico que o impele para o futuro que só existe nos filmes.

Sabe (é o único) que o dia de amanhã será o dia de hoje, repetirá a mesma rotina de sempre: por isso o futuro é nos filmes, não é real nem será.
O grande relógio que controla as vidas marca sempre a mesma hora, a anunciada pela Ave Maria.

Sabendo da verdade (que bem poderá ser uma falsa questão) resolve atacar a imobilidade mental que o rodeia. Pega em dois cubos de granito e faz pontaria. Falha o primeiro com estrondo. O segundo, quando lhe sai projectado das mãos, arranca um grito morto da boca do fato preto e destrói os ponteiros do relógio. Sente o chão a fugir-lhe dos pés; uma tontura empurra-o para o chão alaranjado que se torna vermelho e negro; Ave Maria torna-se difusa.

Acorda, luz branca na retina, por momentos julga-se cego. É o dia há muito esquecido, há muito esperado, dos antigos. Tudo é branco e ele é escuro. Carrega a noite consigo. Tacteia e encontra o relógio caído; o som dos ponteiros chamou-o e mostrou-lhe

9.35

Começara a vida; sentia os ponteiros em movimento.
O Futuro estava próximo.
Inspire me 1001
Na estação de Nine um homem de fato preto mexia no ponteiros tentando acertar (inutilmente) um dos relógios parados. Serão sempre nove horas naquela estação, a não ser que venha o homem do fato preto acertá-lo durante um minuto.
9.35
a vida continua chega a ligação para Viana do Castelo.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Combóio

"Train toy ride" - Claire Wolf Krantz - 1999

Calcou a gravilha com prazer. A dimensão das pedrinhas produzia um som estimulante. Como Amélie sentia prazer a mergulhar a mão nos sacos de cereais, ele comprazia-se com a fricção dos minerais. Coisa pouca.


Passou para o outro lado da linha e com o cérebro aos solavancos tentou juntar as letras desenhadas nos vasos da estação. Via mas não compreendia, como se tivesse perdido a capacidade de ler. Tinha chegado à boleia; num inglês básico respondera à pergunta do condutor

- To a train station, i'll get along.

Tinha saudades, muitas, e desejava estar com ela. Não sabia muito bem para onde ia mas se chegara até ali, nalguma altura ia encontrar. Sem mapa, só podia confiar na intuição ou numa informação dada por alguém. Como era muito desconfiado e tendencialmente do contra, não acatava os conselhos que lhe davam. Não sabia muito bem porque raio se dava ao trabalho de perguntar; seria uma manobra rebuscada de manipular o seu livre arbítrio. Não era muito de tomar decisões espontâneas, assim eram tomadas à força pela opinião dos outros.

A estação estava deserta, o que não era de espantar, perdida no meio da serra, pouca gente devia usufruir da sua existência. Ao fundo, no vale, via uma série de casas que pela vegetação envolvente e pelos buracos escuros das janelas, indicavam que já há muito estariam abandonadas. À esquerda carris perfuravam uma elevação e as vagonetas explicavam tudo.

Mas que raio de ideia, a do homem, de o deixar ali ao abandono.

Ouviu um trote, um cavalo ou algo parecido aproximava-se. Virá acompanhado?! O mais certo é que fosse um dos cavalos selvagens que vira quando o seu transporte cruzara os estradões da montanha. A solidão estava a saber bem e não queria que aparecesse alguém para estragar o momento, mas, simultaneamente, queria tirar as suas dúvidas. Primeiro surgiu uma cabeça com cabelo bem tratado e barba impecavelmente penteada; um corpo coberto por farrapos de cor impossível de discernir do uso exaustivo; por fim o cavalo branco, brilhante a combinar com a cabeça do homem.

Que figura mais estranha.

Quando as coisas são fora do comum não sabemos muito bem como reagir. O efeito surpresa ataca o estereótipo e depois de breve escaramuça moral, a confusão fica entranhada. Quando cavalo e cavaleiro se aproximaram, notou que o ginete tinha as mãos tingidas de vermelho. Recuou em sobressalto e vendo uma lata de tinta e um pincel vermelho atados ao alforge tranquilizou-se.

Não dava jeito nenhum encontrar um assassino no meio do nada.

Fez um gesto para entabular conversa mas o homem, como se ele não existisse, passou-lhe ao lado e, poucos metros adiante, desmontou. Do alforge retirou luvas brancas de borracha, colocou-as, pegou na lata e com o pincel começou a pintar os carris. Com cuidado, para a sua sombra não denunciar a sua posição, aproximou-se e observou o que o homem estava a fazer. Pintava uma espécie de serrilhado, como se o carril se tornasse num gigantesco serrote que cortaria a serra em todo o comprimento. Encolheu os ombros desistindo de perceber o que aquele estranho personagem estava para ali a maquinar.

Afastou-se e sentou-se à espera do combóio. Tirou o caderno e começou a escrever.

O eco de um apito estridente cruzou os ouvidos. Era o seu transporte a uivar.
Ao fundo uma máquina Branca deslocava-se a alta velocidade. Como estava longe ainda devia demorar uns bons três minutos a chegar.

O Pintor interrompeu a tarefa; pegou na lata e no pincel e recolocou-os no alforge; tirou as luvas grotescamente imaculadas, e com as suas mãos vermelhas-sangue – ainda não conseguia entender porquê – agarrou nas rédeas e montou. Pela primeira vez olhou para ele e com um sorriso, que parecia ter algo de mefistofélico, afastou-se a galope.
Na direcçaõ oposta aproximava-se o comboio sem diminuiçao de velocidade. Não me digas que vou ficar em terra. Quando atingiu a zona pintada, o início do serrote, descarrilou fazendo com que as pessoas que não se viam gritassem em pânico.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

L00p?S


Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.

“Nas tuas veias corre acetato.” Lês e algo se transforma. Necessitas de te mover, a inércia solidifica o acetato e corta as tuas veias e artérias. Não és sábio na fisiologia mas sabes o que te pode acontecer, e nestas coisas da sobrevivência nunca se sabe.

Sabes agora que não podes parar. Mexes-te para que a tua cinética mantenha a liquefacção do acetato. Caminhas sem destino e caminhas. Os semáforos tentam parar-te e arriscas tudo, atravessas a rua por entre carros e buzinadelas, com a mente a arder entre a vida e a morte. Parar é morrer, andar também pode levar ao mesmo fim.

Diriges-te a casa, agora sabes onde ir. A morrer que seja em casa a discutir com a tua mulher. Pelo menos vai ficar com remorsos, até receber os resultados da autópsia. Que estupidez, que crueldade, nem ela merece isso.

Vagueias e inquires quanto tempo mais vais aguentar. Afinal qualquer dia terás que dormir. Entras num restaurante e pedes algo para levar, não interessa o quê, desde que seja rápido. Freneticamente vais convulsionando os músculos. Chega a comida então consegues comer. A tua garganta está bloqueada a comida, só entra ar. Não podes alimentar-te, vais morrer de uma forma ou outra.

Encontras um livro no chão.

Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.
“Nas tuas veias corre acetato.”

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Cartago delenda est



Numa varanda sobre a Cidade das Carabóias. As estrelas são encobertas pelo smog das onze da noite mas as mais brilhantes assomam tímidas oferecendo luz aos olhos verdes e castanho mogno.
Debruçados fumam tabaco negro como a alma momêntanea dos pares. As cervejas ficaram pra trás e da banheira vizinha o convite dos baixos de C’mere entra-lhes nos ouvidos.
"The trouble is that you're in love with someone else"
Com lágrimas nos olhos, secas, como ele deseja que a alma esteja, Siecle Retro geme
- Detesto histórias de Amor. Acabam sempre mal.
Borg Hotui, que querendo chorar não pode, todo o sal fora usado para queimar a sua Cartago e impedir que nada mais lá crescesse, seca
- Arriscar dá nisto.
"And so may, we make time
To try and find somebody else
Who has a line"
Na rua um gato preto com pantufas brancas espera pacientemente que um carro lhe passe por cima. No último momento arrepende-se e desaparece.
Siecle dirige o olhar para uma clarabóia e finalmente chora, só no interior, para não dar motivos a Borg. Despede-se e vai para casa. O gato está à espera dele e abre-lhe a porta. Ainda não é desta que vai ser atropelado.
"And in the evening, when we are sleeping
We are sleeping. Oh, we are sleeping"

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

cris.pt


"O homicida" Munch - 1919

É luminosa. De carro vago as ruas que não o são na sua essência. Difusas, as paredes mostram o interior das casas. Não é vidro nem acrílico, antes uma sensação estranha tipo twilight zone. Onde circulo só vejo paredes que são transponíveis pelo meu olhar e o céu, que sei que está azul por cima de mim, é castanho cor de madeira. Descubro sem surpresa que é coberto a telha verde, não de cerâmica mas de algodão tingido por cobre.

A minha mente tempera o carro a electricidade para silenciar o incómodo que poderia atirar às pessoas que não existem dentro das casas.
Castanho, tudo o é à minha volta, e conforta-me. De uma bifurcação com sentido obrigatório vermelho com barra branca no centro sai um carro fantasma, atravesso-o e sinto-me frio na emoção, quente no corpo.

Corto a correia que me salva a vida e com a certeza que vou transpor um qualquer limite bocejo ao ver que nada acontece.
O inesperado faz-me sempre viver, mas agora sou deixado à ceifa. Amarelo como estou, vejo um foco de luz que me prepara para o que se segue e no entanto considero-me nulo, como cheio de toda informação mas sem os mecanismos para a manipular. Sou um computador sem sistema operativo.

Saio do carro que era e passou a bloco de gelo seco. Não me molha mas a minha transpiração cria cubos de fumo que corto com a minha linha de realidade aparente. Quebro-a e vejo uma árvore a correr na minha direcção. Não tem olhos e boca como eu esperava mas fala comigo em arvorês.
- Fica comigo e ama-me. Sente o que eu sinto e diz-me como crescer sem seiva, seca e mole. Feliz.

(Five minutes later after a fade to black)

Cut to the original text. Out of the movie but always important if you want to see it.

One thread of olive oil covers Leugim eye, left one and blinds him with white light. He needs a beer.
Get it now please, for the sake of your sanity.
A Nice Surprise
Messenger 1915
script
Leugim diz:
acordei,
Leugim diz:
tinha qualquer coisa na cabeça
Leugim diz:
e não sabia descodificar.
Kaim diz:
sim
Kaim diz:
e então...
Leugim diz:
continuava o sonho que estava a ter
Leugim diz:
entrava numa cidade com um carro barulhento
Leugim diz:
e descobria que as ruas eram o interior das casas.
Leugim diz:
o resto veio por acrescento
Leugim diz:
deu nisto.