terça-feira, 8 de novembro de 2005

16.55 Pm



Boceja e esfrega os olhos. A cama pequena para um, óptima para dois (amantes) está a ferver. Ouve o sorriso dela mas a obscuridade impede que a veja.

Enrola-se no edredão e sorve o cheiro aos poucos com medo de o gastar todo de uma vez.

-Dá-me aí as medidas dos clientes.

“Tinhas que interromper logo agora”.

-Qual das listas queres?

-A colorida.

Remexe na mochila e retira quatro folhas amarrotadas e húmidas. O olhar da colega trespassa-lhe o pensamento mas não consegue adivinhar.

- E se fossemos beber umas cervejas depois de acabarmos isto, propõe enquanto retira um cigarro.

- Estou dentro, sabes que estou sempre pronto para cerveja.

Dez minutos depois a conversa já é outra.

Bebia mais rapidamente um Vinho do Porto.

Ok, vou tratar disso.

Miguel calça as sandálias e dirige-se à casa principal. É pena que a lua esteja escondida pelas nuvens senão a descrição arrancava suspiros à respiração.

Vai à cozinha mas o staff não está lá. 1.35, não imaginava que fosse tão tarde.

Vasculha os armários da cozinha sem resultado. Lembra-se que existe uma cozinha de serviço no rés-do-chão. Os corredores estão pejados de fotografias, daguerreótipos, livros antigos abertos numa página ao calhas, réplicas de armas (a nobreza já há muito que vendeu as verdadeiras) nas paredes, móveis e mais móveis e loiças do século XVIII coevas da construção do edifício.

Numa cómoda estão dezenas de pequenas molduras com caras a sépia, réplicas do dono da casa. Pega numa e vira-a ao contrário, “será que alguém vai notar” e no íntimo ri-se.

Na cozinha encontra caixotes carregados até à boca de vinho poeirento. Escolhe um Vintage de 1991, verte o conteúdo para um decanter e agrega-lhe dois cálices.

- Boa noite Miguel, como está?

Apanhado com o nariz no decanter pela filha do dono da casa. Morena, olhos castanhos, dedos finos e uma fama secreta de ninfomaníaca. Este encontro já estivera para acontecer vezes demais, sempre interrompido por alguém.

- Bem, e a menina?

- Agora estou melhor; já tinha sido informada que estavam cá, mas ainda não tinha tido o prazer de me cruzar consigo.

Os olhos faiscavam de convite e Miguel sentia-se estúpido com o decanter e os cálices.

- O prazer é sempre nosso.

- Como sempre um homem desenrascado: Porto e dois cálices… Quem é a sortuda?

- Ainda não sei… Diga-me a menina.

Já não conseguia evitar. Não fazia muito o seu tipo mas algo ali accionava todas as sinapses da sedução. Ficava desorientado com aquela mistura de atracção/indiferença e tinha que resolver isso agora.

- Estou cansado, acho que vou desistir do Vinho do Porto.

- É pena, diz a colega com despeito desenhado nos lábios finos.

- Até amanhã.

6 comentários:

noasfalto disse...

Orientem-se!!!!

Hugo Brito disse...

Já tinhas desenrolhado?

Periférico disse...

"Sinapses da sedução" é uma imagem brilhante!:-)

Gostei!

Um abraço

kiko disse...

:D:D:D:D:D:D:D Bom, isto está a tornar-se complicado, não me queres dar a morada da rapariga para ver o que se passa!?!?!?! Ainda por cima com um Vintage por lá, ficava e não voltava! ;) abraço

Hugo Brito disse...

Ah, ainda não tinha percebido, é uma rapariga de 20 anos.

Miguel de Terceleiros disse...

Não tinha desenrolhado, cortado o gargalo a ferro e fogo!!!