quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Cãozinho da palha



Personagens:

Miguel (pode ser um qualquer)

Carla (definida; indomada)

Não havia ponta de interesse; parafraseando a ex-namorada, que lhe assaltava a mente com demasiada frequência, “não estava para amar”. Quando se sente assim parece que as mulheres brotam da terra. O estado letárgico-amoroso é naturalmente afrodisíaco.

Carla é ruiva e bem feita, olha para ele com olhos de carnívora. Não lhe chega o que tem em casa; só lhe apetece comer fora e pelo olhar ele vai ser o prato principal.

Não se manifesta, vai dando sinais muito explícitos da intenção mas para ele são setas de Cupido demasiado rombas.

A sedução está encriptada. Ela sabia exactamente como conquistar um homem, e à vista dos resultados, sente que perdeu a habilidade, já que este continua isento. Pensa que teve sorte em ter conseguido agarrar aquele que tem em casa.

Ele, na indiferença impiedosa, vai ferindo o orgulho desfasado de alguém que lhe devota uma admiração obsessiva e tem um cuteleiro (não é uma escultura) em casa.

Um dia guiando-se com uns bagaços, perde a vergonha numa curva do caminho, e por atalhos que têm tendência a bifurcar-se, bebe dos lábios dele a paixão e a revolta.

Miguel não concorda com a ideia de acrescentar apêndices ao cuteleiro e manifesta discordância, não sem antes lhe ter arrancado a asa delta e arranhado as costas com o granito frio da calçada.

Chovia lá fora e, partido o retrovisor do passado, ela sentiu-se leoa satisfeita. Tempos passados tocou-lhe à campainha com a intuição que ele tinha algo para lhe dizer. Desejava um numa mão e outro no bolso. Um enchia-lhe a carteira e o outro o corpo.

Miguel, que era muito raro perceber este tipo de jogos, disse-lhe:

- Não sei o que queres da vida, mas eu nunca vou ser número dois. Serei sempre Um e tu não conseguirás satisfazer-me nesse campo. Precisas de dois.

Cãozinho da palha: termo usado em Lisboa para quem não come nem deixa comer.

9 comentários:

kiko disse...

Encripta, desencripta, encripta, desencripta.... cheira-me a caminho sem saída.... Abraço forte, com saudades do maninho

mfc disse...

Aqui em cima existe uma frase mais prosaica, mas não menos verdadeira: nem pina, nem sai de cima!

noasfalto disse...

Ainda bem que o miguel (neste caso) não é um fantoche. Dou plena razão ao quiosk.

Abração

Morwen disse...

oh, sim... aquelas que burbujam dentro da boca e cuja carga cerebral permitem monólogos do emissor... oh, sim. isso é que é uma mulher!

beijinhos...

Hugo Brito disse...

Mas onde é que estão as gajas??? Pergunta o ADSL

Poor disse...

ninguém quer ser nº2.
ainda assim há coisas com que é muito difícil competir.

Hugo Brito disse...

Mas onde é que estão as gajas ??? Pergunta o ADSL, enquanto o Peugeot suspira visivelmente irritado com mais esta intromissão.

Anónimo disse...

E qual é o problema de dois?! O que seria das sandes de pão de forma, ahn, ahn?...

Maria João Resende disse...

E eu convencida que sou lisboeta de gema! Nunca tinha ouvido semelhante expressão, mas é bom estar sempre a aprender. Obrigada pela lição, e, já agora, pelo texto, mais uma vez muito bom!