terça-feira, 24 de agosto de 2004

Traição do Destino IV

Perdido nestas contemplações, deparou-se com uma cena deveras curiosa. Um casal de namorados insultava-se em altos berros no meio da rua, chamando para si a atenção dos transeuntes. Repentinamente o rapaz irrompe pelo corredor dos autocarros a gritar “sempre foste uma grande puta”, e é pronta e violentamente abalroado pelo 78 que vinha a descer a alta velocidade em direcção ao Campo 24 de Agosto. Parou uns metros à frente, completamente inerte, como se não tivesse sentido o que acabara de acontecer. Os curiosos aproximaram-se para ver o espectáculo, neste caso a tragédia, notando da vidraça do táxi, a falta dos corifeus para lamentar o sucedido. Lamentando dele para ele o sucedido, reparou que afinal os havia. Uns consolavam a menina, que entretanto se prostrara para arrancar o último suspiro ao desgraçado, outros perguntavam “como se passou esta desgraça”, e concluiu que “afinal os gregos eram uns gajos do caraças, criaram estilos teatrais que não precisam ser encenados para funcionar”.
Reparou que a menina dizia as deixas da praxe, e por momentos frio e distante achou aquilo ridículo, e perante o pasmo de todos dirigiu-se ao corpo e deu-lhe um chuto para se certificar que aquela inércia não era fingida. Realmente depois daquele impacto o homem só podia estar vivo a beber cervejas na esplanada cheia de miúdas a comentar o acidente e a mandar as primeiras piadas a frio.
Recompondo a compostura, insistiu mentalmente com o trânsito para que se demorasse e não o fizesse chegar ao ninho da viúva negra, já que de certeza que a mulher ia descobrir a trama e o ia comer vivo. Imerso nestas confrontações internas, esbofeteou-se acordando do estupor. Tinha que enfrentar o touro pelos cornos. Ir rapidamente para casa e resolver a questão de uma vez por todas. Indicou ao taxista um caminho alternativo. Pela primeira vez aquele caminho que sempre lhe facilitara a vida, tornou-a mais difícil. Doeu-lhe o coração à medida que se aproximava do destino.
O taxista falava da esposa de um futebolista e das farras que este fazia em casa. Desatento a estas futilidades continuou a remoer a sua traição e o destino daí decorrente. A quebra do Continuum provocada pela sua atitude, ia reflectir-se na sua vida, e na de todos de forma irremediável. Chegou a casa. O arrumador pediu-lhe a “moedinha para a cerveja”, e sendo ignorado, respondeu um cabrão de ricochete, que numa outra altura teria um potente gancho de esquerda encravado no nariz. Mas o nosso herói não estava para isso. Preocupava-o mais a fera enjaulada no seu lar cor de rosa.
Meteu a chave na porta e reparou que não estava trancada, Ela estava em casa. Sentiu o odor familiar de truta assada com bacon a entrar-lhe pelas narinas, e pensou que não conseguiria saborear o repasto. Um odor adocicado e ferrugento invadiu-lhe os sentidos e a estranheza fê-lo correr para a cozinha. Entrou de rompante, escorregou num líquido vermelho e caiu de bruços sobre a mulher. Sentiu a falta dos corifeus, das deixas da praxe, dela e de tudo. Não sentiu falta da amante. Olhou em volta à procura do 78, e viu-o claramente. Um rolo da massa ensanguentado, que provavelmente iria ser usado nele se por acaso ela sonhasse...! Mas não sonhava... nunca mais sonharia.
As lágrimas caíram-lhe e o amor por ela voltou... tarde de mais!

Sem comentários: