sexta-feira, 4 de novembro de 2005

02.40 Am


"Beer an lamp" Rich Bach

Toca o telemóvel. Miguel pisca no display. Ela põe em silêncio e considera não atender.

“É melhor atender… afinal gosto do cheiro dele.”

"E dos peitorais".
Ainda hesita e pensa: "Será que estou pronta para isto?!"

Atende e geme-lhe ao ouvido o desejo de estar com ele. Com experiência na voz desculpa-se (nas entrelinhas) da hora das sms. Não é de hoje nem de um passado recente, é a continuação do que deveria acontecer.

A relação sempre foi frugal, demais para o seu gosto. Estivera alheada dele muitas vezes. Era uma relação estranha: conheciam-se há muito tempo mas nunca nada se concretizara. A provocação foi sempre uma constante: olhares profundos a meio milímetro de distância, lábios quase a tocar-se, as auras a tocar-se (o calor das bocas não dirigido aos ouvidos mas à outra boca, como se a comunicação não necessitasse de mais nada, só de contacto).

Uma noite em que estavam juntos nestes jogos algo aconteceu: ele consegue exprimir por palavras o que lhe corria nas veias como um rio de lava. Ardia de desejo físico e intelectual e resolvera fazê-lo naquele momento em que todas as suas baterias anímicas se encontravam no máximo da carga.

Miguel pensava com o seu ziper: “Hoje consigo tudo o que quiser. Dois crofts no bucho e não há quem me pare!”

No ambiente de fumo ela estava indescritível mas os olhos azuis diziam:

- Presente.

Miguel intrometeu-se entre ela e a cerveja. Cuspiu palavras secas e confessou que tinha companhia. Como se nada fosse, a mão dela deslizou para o rabo dele e sentiu a firmeza de muitos quilómetros percorridos.

- Sabes que sempre foste a minha mulher fetiche?! Que pergunta estúpida! Claro que sabes, é impossível disfarçar, muito embora eu ande a tentar deixar de ser m livro aberto que se lê de trás para a frente e depois se rasgam as páginas.

- Qual é a relação disso com a minha mão?!

- Nenhuma, apeteceu-me.

Com a mão a tremer, Miguel segura no telefone e propõe uma garrafa de vinho e uma "pasta".

15.25. Pm


"Destino" Pantyuk-Zhukovsky Alexey - 1995

Não é fácil afastar a atenção daquilo. Vai consumindo os recursos intelectuais necessários para as tarefas profissionais.

À dentada vai rasgando os sacos coloridos e, no íntimo, só pensa nas marcas de dentes que deixou (com um pedido de desculpas) na pele dela.

Algum tempo se passara desde o episódio apimentado por provocações mútuas e continuava a guardar o agridoce daquele momento na carteira. Abriu-a e tirou o bilhete da CP. O destino não interessa, muito menos a hora, só o sofá de couro, os livros.

Fecha os olhos e sente o tabaco a secar-lhe a boca. O contacto da pele liberta e contagia; a meia-luz que entra pelas frinchas do estore desenha pontos de luz animados na pele. Os seus olhos salgados de prazer e emoções percorrem as curvas daquela que pacientemente deseja há muito tempo.

Sorri derretido de emoções confusas, escondidas, acutilantes e diz-lhe ao ouvido:

- Valeu a pena esperar tanto tempo. Gostava de ser lamechas e piroso mas não é o momento; ainda te assusto como costumo fazer.

- Shiu, usa os lábios em silêncio.

Beija-a e sorri. Palavras para quê? Amanhã, depois do pequeno-almoço, com um pouco de sorte, depois do almoço, não a verá durante algum tempo; mais vale aproveitar.

Descansa a cabeça no peito dela e deixa que as mãos lhe percorram o corpo sem malícia numa mescla única de sinceridade/prazer pós coito. Assim vale a pena, pensa. Não se vai sentir vazio…

- Já está pronto?

- É claro que sim, agora só nos resta esperar.

Senta-se numa pedra e puxa de um cigarro, o último.

- Que merda, só posso comprar tabaco daqui a três horas.

Começa a chover e a primeira pinga acerta-lhe na ponta em brasa.

11.25 Am


"O mito de Sísifo" Ticiano

Muita carga nas costas; trinta quilos e o guia a dizer:

- Miguel, quando quiseres trocar avisa.

A caminhada não é fácil mas isso já sabia; pedras escorregadias como algumas pessoas que conhece; joelhos há muito estragados por saltos acrobáticos estalam como madeira seca; a mochila carregada… sente-se Sísifo a carregar o penedo pela montanha acima.

“Não vou dar parte de fraco, afinal ainda sou novo e isto é uma questão de princípios e tempo até lá chegar.”

O guia ultrapassa-o como uma gazela, aos saltos, destruindo a imagem dos seus quarenta e cinco anos. Homem da montanha, seco e rijo, só fibra mesmo no carácter. É saudável ser e estar assim.

Volta a pensar nela. Mais vale não o fazer, afinal só vai poder encontrá-la dali a muito tempo, quando voltar a ter rede no telemóvel, e aqui é impossível.

Finalmente o topo. Pousa a mochila e senta-se durante algum tempo a recuperar o fôlego. Não consegue ver a paisagem embora a conheça de tantas vezes que a contemplou. Um edredão de nevoeiro frio espeta-se-lhe no reumatismo e impede a visão.

Com a ajuda do guia começa a arrumar o sítio da reunião, a espalhar o conteúdo da mochila. O telemóvel dá sinal de vida. Sorri ao ver a sms.

“Isto é tortura!”


1.10 Am


"Squeaky Bed" 1999

Revira-se na cama: os lençóis já foram mudados, e sem saber se é impressão ou desejo, o cheiro dele continua ali entre as fibras.

Associar um cheiro a uma pessoa é comum; com o advento dos perfumes ainda mais. É bom poder fazê-lo mas mais ainda é ter a sorte de reconhecer o cheiro único de uma pessoa; depois de um bom banho sem gel de banho, champô, cremes, perfumes, a neutralidade do cheiro do outro revela-nos a essência, aquela que Jean-Baptiste Grenouille, de Süskind, procura n’ O Perfume.
Todos temos essa essência irresistível sendo reconhecida por poucas pessoas e isso é mágico.

Vai na rua e sente-lhe o odor vira-se e não está lá. Entra no carro e volta a sentir: em casa pior ainda: ele esteve em contacto com muitos objectos. Onde estará? Será tarde para ligar?

“Que se lixe, mando uma mensagem, se responder respondeu, que perco com isso?

Liga o leitor de Cd com Lounge e inspira-se; resume o testamento para uma linha. Envia, hesitante. Carrega no Ok.

“Já está.”


quinta-feira, 3 de novembro de 2005

10.30 AM


"O Jardim das delícias" Hieronymous Bosch - 1504

O vento agita, convulsiona o exterior e o interior. Assobia melodias atormentadas pelas frinchas do telhado e da Alma. Silêncio, é tudo o que pede, para pensar para dormir. Algo mudara; tudo o que desejara até ao momento: um pouco de atenção. Percorria os trilhos da montanha, em silêncio melancólico, enquanto que a chuva agreste e a ventania ciclónica espelhavam o que no fundo se passava na sua mente.

A vida transformara-se num jardim de tentações e não sabia como resistir. Todos os dias se deparava com mulheres diabo que faziam os possíveis para lhe estender as redes da sedução. No entanto a sua sinceridade provocava o afastamento imediato, ou quase.

Foi para a cama com uma (já há muito tempo que ela o perseguia com o olhar, com os gestos) e sentiu-se espoliado (seria da máscara de couro que ela vestia); bonita a e bem feita, mas depois mais nada, desilusão.
Acordou e ficou satisfeito por ela já não partilhar os cobertores. A ressaca batia-lhe na cabeça e na porta também.
“Quem é que me acorda a estas horas pornográficas num domingo?!”
Veste os boxers e abre a porta.

- Temos um problema com um carro.
Trabalha até ao Domingo. Porca miséria, italianiza.

Pega no telefone e resolve o problema. Olha para a cama e lá está a colega de trabalho com olhos de mel e nozes em forma de convite. Desolado (secretamente satisfeito) olha para ela e deita-se a seu lado. Falam de trabalho e, aos poucos, ela começa a encostar-se. Mais uma que lhe quer saltar à espinha. Sorri e adormece.

- Ressonas muito, diz-lhe a colega ao pequeno-almoço.
Não desejando mais conversa replica:
- Pois.

Nos olhos leu-lhe a desilusão e o desejo. Sentiu que ela não se importaria de partilhar o suor e o ressonar mas não estava para aí virado; desejava uma e não era aquela, muito menos o sucedâneo que lhe manchara os lençóis horas antes.

Algo mudara.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

1.35 AM

- Acorda Miguel, são seis e meia.
- Hummmm, gnharrrlll.
- Acorda, tens que trabalhar.

Os lençóis ainda estão húmidos e não teve descanso suficiente; nestas condições nunca é suficiente, nada é suficiente.

- Que é que se passa?!
- Tens que te levantar! Os clientes têm que ser acordados!
- Eu quero é que eles se fodam! Que vão para o caralho!
- Não sejas resmungão.

Há pessoas que deviam ser presas por acordar alguém a esta hora criminosa, é homicida tirar alguém da cama a horas tão indecentes.
Ensonado, friorento arrasta a carcaça para fora da cama. Tudo podia correr melhor mas não havia nada a indicar tal. O vento soprava com muita energia, a que lhe faltava; a chuva lavava as paredes da habitação sazonal e o seu corpo ansiava por alguma água que havia de aparecer. Chuveiro a correr e quinze minutos depois de óculos de sol a tapar as olheiras de três dias de mau sono (com muitos sonhos e interrupções) desloca-se à habitação principal.

- Bom dia, exclama o sorriso do cozinheiro.
- Só se for para ti.

Resmunga o que o corpo lhe faz sentir: má disposição, mau humor, cansaço… Senta-se e volta à noite anterior.

- Olá! Estás a dormir?!
- Agora não.
- Acordei-te?!
- Claro que sim!
- Leste as minhas mensagens?
- Claro que não!
- Então lê.

Desliga o telefone e fica confuso. Por momentos pensou estar a sonhar. Aquele episódio onírico é estranho e o despertar ainda mais. Aquele nome a piscar no telemóvel parecia saído de uma dimensão paralela.

Desejara todos os dias que aquilo acontecesse e agora que se tornara realidade (seria?), temia que tivesse sido demasiado frio e seco. Ela era especial e não merecia a sua má disposição ou o granito que lhe saltava da boca quando acordava a meio da noite. Não respondeu. Leu as mensagens e tentou dormir sem sucesso.
A insónia turbilhonou-lhe os pensamentos e deu-lhe um descanso às prestações. Sonhou com ela e agora era real; ela a linha de crédito que o fazia continuar.

- Hã?!
- Café ou chã?!
- Café, preto como o inferno e amargo como a minha alma.

Toca o telemóvel. Miguel pisca no display. Ela põe em silêncio e considera não atender.
“É melhor atender… afinal gosto do cheiro dele.”

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Uma revolução intestina estalou neste blog o que faz com que o autor seja exilado durante uma semana na Serra da Peneda.

The Author as been removed by the blog

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Título (ponha aqui o que resume este texto)

Rapariga gira como o raio sozinha.

Rapaz com olhar nº7 (se te apanho conto-te uma história).
Aborda-a.
- Será que é hoje que vou manter uma conversa contigo por mais de trinta segundos?
Ela sorri.
- Tenho medo de falar contigo mais de trinta segundos; ainda me transformo num monte de cinza.
Ela sorri.
- Não tenho sorte nenhuma; uma mulher bonita aqui sozinha e é muda.
Ela ri à gargalhada.
Faz-me perguntas - diz ela.
- Qual é a idade da terra? pergunta ele.
Ela fica aturdida e ri-se.
-Tens namorado?
- Sim.

Pensa "Foda-se para esta merda, não tenho sorte nenhuma!" e diz:

Agora é a vossa vez. Mandem a punchline.

Monólogo a três

Riddle: Isto não se faz, pôr a nossa conversa como post! Não fico chateada mas um pouco envergonhada.BeijosP.S. Estou a ver que estás a ter sucesso com os anónimos...
Terceleiros: Foi só um exemplo como outro qualquer... Desculpa ter provocado rubor mas é um dos riscos do anonimato, exposição. Isto ajuda a consolidar a teoria do anonimato. Beijo
P.S. O sucesso com os anónimos é-me indiferente mas agradável (um pouco). Continuo a preferir pessoas reais.
Riddle: É agradável contribuir para a tua teoria do anonimato, se bem que acho que devias continuar com os teus contos. Acho que é por aí que tens que ir e não perder tempo com estas miudezas. Acho que me vou inibir de fazer mais elogios, não vá estar a tua namorada/mulher a ver isto. Beijo
Terceleiros: Se já me fizeste algum elogio, não reparei (a não ser este subliminar de que tenho talento para os contos). A minha aliança já me está a fazer comichão!
Riddle: Desculpa.
Terceleiros: O que é que tenho de desculpar?!
Riddle: Não sabia que eras casado, por isso peço desculpa.
Terceleiros: Tenho alergia a alianças (metálicas)!
Riddle: Achas que as pessoas precisam de uma aliança para Criar um compromisso?
Terceleiros: Criar um compromisso?! A criação (Gore Vidal) bom livro. O compromisso é entendido de formas diferentes por cada pessoa; é um conceito um pouco abstrato. O que é um compromisso para ti?! Talvez assim te saiba responder.
Riddle 2: O compromisso é aquilo que tu quiseres.
Riddle: Alguém está assinar com o meu nome. Em relação a Vidal só li o Juliano mas fica registado. O compromisso... é difícil... uma conversa para se ter olhos nos olhos.
Terceleiros (Resposta a Riddle 2): Ora explica lá isso...
Terceleiros: Ui... Dupla personalidade! Riddle nº2: Esse nome já está tomado. Tire outra ficha por favor. Riddle: Juliano é bom mas vais gostar d' A Criação. Isso dos olhos nos olhos é complicado sabias. Não te conheço de lado nenhum e blind dates... hum, cheira-me a perigo. Sei lá se és uma Cereal Killer, é que sabes eu sou 90% cevada.
Riddle 2: Não sei o que essa pessoa está dizer. Eu é que sou a riddle, não vou tirar ticket.
Apóstata (aka riddle): Não me deixa outro remédio... Assino assim, acho que vais perceber. 331-336 d.C. Não sou do género de blind dates a não ser que seja mesmo necessário. Cevada fermentada?
Terceleiros: Riddle do ticket: Não perturbe as pessoas. Pode-se chamar Loki se desejar.
Riddle 2: Apóstata por mim podes ir buscar referências de livros aqui
Wikipedia(aka Riddle): Pois posso. Mas isto não posso. Elêusis.
Terceleiros: Bem... Porrada verbal no meu blog não. Já chega de confusão.
Wikipedia: se quiseres manda mail para não haver mais confusão (encriptado é claro). beijo
Elêusis(aka Riddle): estou pensar mandar um mail com um post secret ;)!
Esta conversa passou-se neste post, na minha caixa de comentários e é um caso grave de tripla personalidade. Desdobrei-me em três personagens. A mais fácil é o Terceleiros; Riddle é um bocadinho complicado (pensar como uma mulher não é fácil); Riddle 2 é bem mais difícil, é criada para semear a confusão na cabeça de Riddle e na de Terceleiros.
Riddle, a certa altura, tem que mudar o pseudônimo e vai buscar palavras que estão ligadas à única leitura que para já tem em comum com Terceleiros.
Um exercicio de abstracção ou de loucura...
Digam-me vocês.

P.s. leiam Juliano e A Criação

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Lama Gémea

Felo
"Moonlight Reflection" Linda Merk-Gould
Aos poucos deixou-se levar. Não sabia muito bem qual o caminho a seguir; o mapa mental desdobrou-se dimensionalmente e ele ficou sem referência. Sempre a tivera acoplada às certezas, mas neste momento não. Perdera-as como a chave de casa e não podia fazer uma cópia.
Aos poucos deixou-se levar. O sentimento conduzia-lhe o coração; derretia a calote de frieza que lhe toldara a emoção nos últimos tempos. Lia nas árvores algo indefinido que recordava algo que tinha desaprendido, com tantas barreiras que criara, e aos poucos começava a acreditar que seria possível.
Do outro lado do nevoeiro alguém pensava como ele. Chorava lágrimas doces como absinto e embriagava-se com elas. Consolava-se secretamente e secava-se com os cabelos: a única coisa que lhe cobria o corpo.

A lama gémea, dos dois lados do fosso, cercava os corpos que, aos poucos, sentiam a necessidade de se encontrar. Impelia-os mas não era daquela forma que se iam unir.

Ele adquiriu novos hábitos: lambia as feridas do passado e via que estavam a cicatrizar. Acreditava que dentro em pouco as suas pernas estariam prontas para andar. Arrastava-se à procura de comida para a alma que estava perto, tão perto.

Ela corria mas não via. Tacteava a absorver a luz que o corpo necessitava.
Um dia viu.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Do Anonimato

Bene bene...
Estou a ver que o post anterior produziu reacções e afinal não foi surpresa nenhuma para mim. O anonimato cria uma aura de mistério que atrai toda a gente. É irresistível tentar saber o que está por trás de um nome, e todos já passamos por isso, ou quase todos...
Os encontros de Bloggers não são mais do que dar a cara às letras e imagens que vemos todos os dias. É um Blind date, sem que saibamos o que dali vai sair. É giro imaginar quem são as pessoas: será aquele que está a ler; aquela com o portátil; aquele senhor que fuma cachimbo e observa toda a gente?!
Nem o género é certo; no profile pode lá estar male/female, mas nada é garantido. Podemos pôr uma foto mas até isso pode ser falso. Até as pessoas se conhecerem realmente, em carne e osso nada é certo, aliás nem isto é certo.
Qual é a diferença entre um comentador anónimo e um que está registado? Nenhuma. É exactamente a mesma coisa, nada é garantido.
Todos temos capas: no trabalho temos uma; na nossa família é suposto não termos; para um amigo mostramos um lado e para outros se calhar mostramos tudo... Ninguém nos conhece completamente, nem nós próprios e não será isso uma capa também, uma espécie de anonimato?!
Por isso é que tem piada responder a comentários anónimos; destrinçar a outra pessoa estimula a inteligência, é um jogo de forças. Se assina anónimo é por que tem algo a esconder e essa é a razão para provocar e tentar saber quem é.
Os comentários fazem-me pensar que ainda não perdi a capacidade de provocar.
Mais uma transcrição.
Anónimo(a)
Não te conhecia esta faceta de resmungão.No entanto agradas-me jovem. É sempre bom saber que as pessoas se revelam em estados de pressão e que também és humano. Será que também és sensível???Beijo
Terceleiros
Anónima: Presumo que sejas uma mulher...
Sou o que sou ou gostam de mim assim ou então...
Sensível... Convido-te a descobrir. Não mando beijos porque a minha mãe sempre me disse para não beijar desconhecidas.
Isto começa a ser demais (já estou farto de rir).Agora isto é um repositório de anónimos?!Venham todos ao Tercelerios, Reunião dos CA (comentadores Anónimos!)
Bem Senhores anónimos ou anónimas: Assinem por favor!
Anónima
Miguel ou deverei dizer Ricardo?! A época das descobertas já passou mas até arriscava. Sou viciada em adrenalina! É bom ver que tens carácter mas até gostava de saber se é mesmo assim - é tão fácil encapar-nos na internet... Beijo
Riddle
Terceleiros
Riddle: Obrigado por se identificar. É fácil saber que eu sou Ricardo, é só ler o último Post. Cuidado que tenho alma de Vasco da Gama! A adrenalina é boa quando em doses regradas e se é assim eu faço parte da mesma equipa e acho que nisso já tenho mestrado! Talvez possamos trocar experiências... acerca das capas: acho que temos sempre algo a esconder. É o nosso Post Secret.
E este acabou por aqui... ou será que não?!

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

CA - Comentadores Anónimos

O Monte da Lua

Vem daqui

Como blogger, e já lá vai algum tempo, sempre mantive o meu anonimato. Durante todo o tempo que mantive este blog (bem como o outro) resolvi “esconder-me” atrás de um pseudónimo e de uma imagem que não é a minha.
Já muitas vezes me perguntaram o que quer dizer o pseudónimo, e desenganem-se, não foi criado para o blog: tem 13 anos. Foi criado quando publiquei o meu primeiro texto no Jornal de Esposende, com a preciosa ajuda do meu professor de Latim, director do jornal na altura.
O meu Tio sugeriu o nome; Miguel é o meu segundo nome; Terceleiros é o micro-topónimo onde está localizada a casa dos meus pais que significa acima do Celeiro.
Como devem ter reparado, finalmente pus uma foto minha no Blog.
Isto tudo para quê?! Não sei se têm notado mas tenho sido invadido por anónimos, que presumo sejam do género feminino.

Isto dá-me alento. Gosto de descobrir, sou curioso, procurar no sitemeter e descobrir não a cara mas, por cruzamento de dados, a localização. Esta Internet é um Big Brother!

O Hugo dizia há dias que os comentários são um outro post, quando não são a continuação. No post Livro surgiu um Anónimo(a) que originou esta bela conversa.

Anónimo(a)
Ficaste preso nos meus favoritos, e cada vez que teclo um “t”, cá estou eu... Pena não ter olhos que cheguem para ler os teus textos todos...

Terceleiros
Anónimo(a): Fico contente por gostares, aliás feliz. Os meus leitores é que me inspiram na maior parte das vezes. Para a próxima uma assinatura, se não for pedir muito.

Anónimo(a)
Não estou no anonimato para me esconder... Por agora, quero apenas estar aqui, no meu sossegadinho cantinho... Escreve-me :)... se precisares de dar vida ao teu livro no mundo das figuras!!! Bom fim de Semana

Terceleiros
Anónimo(a): Não digo que te estejas a esconder. Peço uma assinatura para poder saber se é sempre o mesmo anónimo :). Posso escrever-te a tinta ou a caracteres, como preferes?!Desenhar a tua imagem com letras. Posso:idealizar; infra-idealizar; supra idealizar... Qual o teu tipo de idealização perfeita?

Anónimo(a)
Para alem de ser amante das tintas, prefiro que me escrevas em carácter. É mais rápido e indolor... A imaginação é perfeita... dá-me tu um nome!!

Terceleiros
Anónimo(a): Seja, caracter será. (é andrógino) Nunca se soube se era realmente uma mulher ou se era a cara do Leonardo por isso como não sei o teu sexo ficas Mona Lisa. Para além disso aquela aura de mistério...agrada-me.
Mona Lisa. pinta-me manda a cor por mail. Miguelterceleiros@gmail.com A moeda tem sempre duas faces. Pode ser com pincéis de photoshop.

Mona Lisa
Tu és da cor da folha da arvore outonal, da lua e do sol. Da chuva e da noite. Tinta fresca que vai secando na tela rabiscada por ti próprio. Afinal não somos todos assim?! Sim... o mistério muitas vezes é o que nos guia na imaginação... Já ouviste falar do monte da lua?

Terceleiros
Mona Lisa: Monte da Lua?! Gostava de conhecer. Boa pintura a tua, é Impressionismo?

Mona Lisa
É abstracção do ser humano para representar imagens :D. O monte da lua é o nome que designa a uma Serra... Onde lutaram Mouros e cristão... e viveram reis e rainhas... onde existem duendes mágicos e mouras encantadas a espera do derradeiro beijo. É onde existem castelos protegidos por gárgulas que acordam do sono profundo com o brilho da lua... O monte da lua é envolto num mistério fantástico e poucos são aqueles que se aventuram a andar por lá depois do sol posto. É o cenário perfeito para um dos teus contos...

Se quiseres, mais tarde envio-te imagens... e som...

Terceleiros
Mona Lisa: O Monte da Lua onde a Pena é mais forte que a Espada?! Palácios e castelos ameados... já passeei por lá numa outra vida mas morri pelos olhos de uma encantada. Manda o reflexo de um espelho, as imagens em anagrama lógico.beijo
Só uma coisa para os anónimos. O mistério é óptimo até cansar.

Insurgimento

Tenho que escrever isto. Os bois que me andam a pôr Spam na caixa são os mais deslavados descaradões à face da Internet.
Não é que me mandam um spam com 124 (!) links e no fim, ironicamente, dois deles rezam o seguinte:
- 122 PAL Popup Eliminator - Blocks all pop-up and pop-under ads.
- 124 PAL Spyware Remover - Every day internet surfers install SpyWare and AdWare components on their PC's without even knowing it by clicking on pop up ads, downloading music files, installing free programs and so on.

Só cá faltava um a dizer:
PAL Spam Remover.

São estes caralhos que fazem o Spam, os reservoir oxes de merda que depois nos obrigam a comprar a cura para a doença que eles criaram.

Apeteceu-me dizer uns palavrões.

Só fizeram com que activasse o Word Verification do Blogger.

P. S. Carreguem nos links vão ter uma boa surpresa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Livro


Acorda num sítio muito estranho. Por muito que queira descrevê-lo não tem sucesso (satisfatório). No centro da divisão (acha) encontram-se duas estantes que devem ter dois metros e meio de altura. Tocam o tecto. Aí está colocada uma série de livros que devem contabilizar 450 volumes em cada face da estante (se bem que possa estar enganado), num total de 900 mais coisa menos coisa.

Todos os livros são diferentes em tamanho e cor, formando um arco-íris desordenado, uma manta de retalhos de cultura (assim julga). As formas, uma muralha de legos misturados com blocos de construção lógica infantis e meccano. Uma Babilónia lógica; tem que haver uma lógica nisto.

Quando se aproxima, o tecto transforma-se num gigantesco espelho, fazendo com que os livros se tornem numa gigantesca torre infinita. Todo o conhecimento está ali em reflexo.
Com mais atenção vê que os livros se invertem, como é natural num espelho, criando ilusão: os reflexos não correspondem à imagem original.

Olha em redor e toda a sala é um gigantesco e único espelho multiplicando os livros e a sua imagem até à exaustão. O medo acorda-lhe a mente. Tem que sair dali. Tacteia, bate com os nós dos dedos para sair, não para entrar, obtendo sempre o mesmo resultado, nada. Está preso.
Um sonho, espero estar num sonho maluco.

Dirige-se às estantes e retira o primeiro livro do topo esquerdo. Não tem título nem autor, mas sim, índice.
Ao que parece é um livro de Contos.

Absorto na leitura descobre, com espanto, que a sua história, desde que acordara na sala espelhada, está lá escrita, mas por alguma razão interrompida no ponto em que ele pega no livro.
Os contos acabam todos de uma forma que indica que o autor tem gosto em brincar com a vida das personagens que cria. Vai criando expectativas dando migalhas, semeando a confusão para, no final, os deixar com a vida destroçada ou com uma experência traumática que lhes mude a vida.

Pega numa esferográfica e resolve escrever.

15.00
Está sentado como é costume em frente ao computador. A sala é decorada com azulejos do Estado Novo; citações de Salazar e outros coevos da Ideologia.
Com a rotina no rato e a retina no monitor, liga o Messenger, o Morpheus e o Media player.; clica no Firefox e escreve
gmail.com
Durante trinta minutos consulta os mail's e troca algumas palavras com os habitués. Muda o estado para ocupado e escreve o post para o blog. 15 minutos de escrita, dez de correcções; google images para encontrar o quadro relativo ao texto; formata e publica.
Passa agora para a ronda pelos blogs habituais. O primeiro fá-lo esfregar os olhos, o segundo arregalá-los; vai clicando em pânico em todos e as mãos crispam-se sobre o rato com tanta força que um estalido revela que o partiu em vários fragmentos.
Confere a hora dos posts e comprova através das lágrimas de raiva que todos foram escritos antes do seu. Ele é a cópia, uma farsa. O seu texto estava em todos os blogs.

Ora toma lá que é para não andares a torturar as tuas personagens. Vê lá se gostas quando brincam contigo.

Acabara o livro do escritor deconhecido e nada o podia mudar. Esgotara o espaço para texto a tinta preta sobre o papel amarelo. Não havia correcção possível.
Com um sorriso nos lábios volta a colocar o livro na prateleira. Volta-se com um sentimento de justiça e, no espelho, vê tinta preta a escorrer pela lombada do livro.
Volta a segurá-lo e algumas letras estão a compor palavras lentamente na lombada.

O Livro e outros contos – Miguel de Terceleiros
Pega na carteira, como que duvidando da própria identidade, e os espelhos partem-se.
Ricardo Brochado AKA Miguel de Terceleiros

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Somos todos malucos

Guarany 21.30

Não sou das pessoas mais pontuais mas desta vez cheguei a tempo. Sento-me com os meus iscos na mão. O meu caderninho e caneta; Ficções de Jorge Luís Borges. Não sei qual foi o sinal combinado mas qualquer pessoa com dois dedos de testa chega lá.
Ora porra, ninguém no seu perfeito juízo vem para o Guarany escrever e ler, a não ser que tenha um propósito obscuro por trás disso.
Observo tudo em volta e começo a adivinhar. Será que é este, aquele; os cromos do portátil?! Desisto. Hugo entra e não me vê. Estou a um metro dele e penso que a melhor forma de ficar invisível é ficar no sítio mais visível, na mesa da entrada.
- Então?!
- Nada ainda. Somos os primeiros.
- Um descafeínado.
O empregado vai e volta com o líquido.
Fico só outra vez. Amie e Freddy entram e sentam-se.
- Estás sozinho?!
- Não já cá está o Hugo. Olha.
Apresentações e mudamos para uma mesa maior. Apostas e mais apostas de quem seria e eu aposto no desconhecido na mesa do canto. Depois de cinco minutos de risota e punchlines para tirar a dúvida Amie lá se enche de coragem e vai lá.
Não sei o que disse mas era mesmo. Cláudio senta-se e junta-se à conversa. Mais uns minutos chega a guerrilheira de serviço, Guevara e uma pessoa que não esteve lá (esta é private mas estiveste lá).
Piadas nervosas; que fazes; qual é o teu blog e tal; porquê o nome, enfim tudo o que queriamos saber, mas acima de tudo a curiosidade satisfeita de conhecer fisicamente as pessoas que estão por trás dos teclados e monitores.
Mais tarde chegou Malamack e ficou (quase) completa a pandilha.
Ernesto traidor! Onde te meteste!!!! Estivemos à tua espera montes de tempo. Imaginámos que fosses o saxofonista, o tipo de óculos no canto, a comer com a boca cheia de dentes, que estavas dentro do piano, que eras o empregado e não eras.
Isto não se faz! Deixar assim as pessoas à espera!
00.00
Fechou o Guarany e fomos expulsos com promessas de repetir a dose.
Gostei muito, diverti-me e vamos lá trocar uns poemas (lol) e mais umas coisas (lol).

terça-feira, 11 de outubro de 2005

21

Andrajosamente lúcido revira os olhos à procura da página certa. Lê na diagonal, com pressa, embora saiba que esta leitura nunca resulta (pelo menos com ele). Obtém produtividade na leitura com atenção; ao sobrevoar as páginas sente que está a perder tempo; não vai encontrar o que deseja mas teima.

O mofo invade as narinas e fá-lo abafar um espirro. Não podem saber que está ali, pelo menos agora. Há que esticar (alargar) os limites cronológicos para lá do razoável. Esquartejar os relógios do mundo para ter o tempo multiplicado por quatro. Não é possível nesta história, nesta sala, com este corpo; há que aproveitar [(explorar (exaurir)] ao máximo, o tempo.
Demorara a encontrar o livro e agora, que o tinha na mão, a passagem teimava e escapava. Procura nas entrelinhas.

Olhou para as linhas e atingiu a forma de encontrar o que queria. Da pasta de couro coçada e áspera como a vida, retirou papel pautado, com um allegro que estava a compor já há anos, e colocou-o sobre as páginas do livro. Semitransparente, misturava as letras com os símbolos musicais e concentrava nas entrelinhas só o essencial.

Esta procura tornava-se uma obsessão e instava-o a prolongar a demanda. A felicidade dependia daquilo ou talvez não. Da mesma forma que outros procuravam Graal’s de múltiplas formas e conteúdos, este era o seu.

Horas sem fio nem textura aparente entraram nos seus olhos atingindo os neurónios construindo cansaço com tijolos de informação. 110 páginas absorvidas com atenção, lidas de uma forma nunca antes lida; música e letra em conjunção absoluta de uma forma que agora a música era lida pelos olhos e a leitura pelos ouvidos.

Vinte e um anagramas. Aqui está a linha que procurava. Nunca a iria encontrar se não fosse desta inventiva forma de ler nas interlinhas. Espaço, espaço, ponto final.Levantou o papel pautado e viu a frase original.

A ARMATA MEN GUN VIS.
O autor brincara com uma espécie de latim macarrónico e inglês. Repetia ideias.
Traduzia-se como:
A força (Armata) dos homens (Men) é a quantidade (Vis) de armas (Gun).
Não lhe interessava esta frase.
Não fazia sentido nem nunca fizera, mas agora parecia que estava no caminho certo. A frase do texto que dava origem a esta era:
Quanto pesa o Amor?
Vinte e um anagramas.

Mais uma brincadeirinha. Divirtam-se

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Olhos bem abertos

"Venus e Cupido" - Artemisia Gentileschi - 1625-30
Insónia, mais uma vez insónia. Dentro do saco cama não consegue fechar os olhos. Todo o seu corpo sonha, já há horas largas e compridas, mas os olhos não se fecham.
Sonhar acordado é bom, nunca sabemos qual a dimensão da realidade mas também não chega a ter importância. Os pensamentos são só nossos, a dormir ou despertos.

O contacto com o poliéster fá-lo sentir sexy como um gato; não um tigre; melhor, uma pantera. Sente o tecido a gemer e faz coro com ele. Suspira de prazer… ronrona lascivamente e sente-se poderoso como dentro do corpo de uma mulher. Sente o corpo a ser beijado gradualmente. Invisíveis lábios tocam-no – não consegue ver a cara – tudo está claro, repleto de luz. Chora de prazer com a secreta esperança que tudo se repita em breve.

Abraça o saco cama e a textura modifica-se, parece carne. De olhos (agora) abertos, salta do sonho e da boca escapa-se
- Nunca tinha feito o Amor com um saco cama.
- Nem eu com um gato.
O corpo liso e suave, em contraluz, sorri-lhe; todos os poros sorriem. A lágrima de satisfação surge ao canto do ser quando descobre que não foi um sonho.
Trinca-lhe o pescoço para provar o mundo real, e o sal sobe-lhe a tensão. Poças de suor espalham-se pela cama e pergunta
- Posso ficar dentro de ti para sempre?!
- Já estás.
Acorda estremunhado e não reconhece o ambiente. Ao seu lado uma mulher de olhos abertos. Não a reconhece mas também não se preocupa; o sentimento é bom. Das últimas vezes não tinha sido nada bom, antes péssimo, tanto é que ganhara pavor ao risco. Arrependia-se sempre no dia seguinte.

Naquele momento, com aquela mulher, com aqueles lençóis, naquela cama, sentia-se bem, tão bem que nem havia mau hálito.

A felicidade relativa coagula-nos os sentidos.

A expressão de paz nos olhos da desconhecida agrada-lhe. Por muito tempo fica em êxtase; contempla aquele momento, pintura, escultura; controla a respiração para não a acordar dos olhos abertos.
Simples mas portadora de felicidade. A sensação.
- Porque choras?
Acordara.
- Quase que consigo acreditar em Deus só de olhar para ti.
- A Abstinência é uma droga fodida, não é?!

E agora para algo completamente diferente

Passados uns meses aqui vai a solução do puzzle.

Ora boas! Falaram-me disto e achei que era uma óptima ideia para comer a cabeça ao pessoal. Código binário, conhecem?! Quero ver qual é o tipo de comentário que vai sair daqui. a primeira pessoa que conseguir descodificar vai poder saber o meu nome verdadeiro e ver a minha foto! ehehehehehehe
Com jeitinho bebemos um copo! Beijos e abraços para os meus amigos palhaços!

Para mais informações

http://nickciske.com/tools/binary.php

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Futuro v 9.35

"The Art of Painting" - Vermeer - 1666-1668

Deserta, é assim que está a sua mente. Procura, em vão, algo que mostre que a consciência está activa; frustrado verifica que só areia fina permanece agregada em estado bruto.
Como uma máquina a carvão, barulhenta, fumacenta, começa a funcionar. Fumo fá-lo espirrar; no outro lado do renque de árvores um homem de fato preto e gravata branca diz-lhe algo.
Ao longe um altifalante de uma igreja ou capela que seja, ecoa o Ave Maria, prologando o anunciar das nove da noite. Neste sítio é sempre escuro mas é noite, como assim foi declarado pelos antigos que ainda testemunharam a existência da luz; agora é artificial, amarela baça, que transforma todos em fantasmas alaranjados.

A vida vai prosseguir. Ligaram-se os motores e há que apanhá-la. Corre com a respiração a servir de pernas e consegue, com a ponta dos dedos agarrar o varão metálico que o impele para o futuro que só existe nos filmes.

Sabe (é o único) que o dia de amanhã será o dia de hoje, repetirá a mesma rotina de sempre: por isso o futuro é nos filmes, não é real nem será.
O grande relógio que controla as vidas marca sempre a mesma hora, a anunciada pela Ave Maria.

Sabendo da verdade (que bem poderá ser uma falsa questão) resolve atacar a imobilidade mental que o rodeia. Pega em dois cubos de granito e faz pontaria. Falha o primeiro com estrondo. O segundo, quando lhe sai projectado das mãos, arranca um grito morto da boca do fato preto e destrói os ponteiros do relógio. Sente o chão a fugir-lhe dos pés; uma tontura empurra-o para o chão alaranjado que se torna vermelho e negro; Ave Maria torna-se difusa.

Acorda, luz branca na retina, por momentos julga-se cego. É o dia há muito esquecido, há muito esperado, dos antigos. Tudo é branco e ele é escuro. Carrega a noite consigo. Tacteia e encontra o relógio caído; o som dos ponteiros chamou-o e mostrou-lhe

9.35

Começara a vida; sentia os ponteiros em movimento.
O Futuro estava próximo.
Inspire me 1001
Na estação de Nine um homem de fato preto mexia no ponteiros tentando acertar (inutilmente) um dos relógios parados. Serão sempre nove horas naquela estação, a não ser que venha o homem do fato preto acertá-lo durante um minuto.
9.35
a vida continua chega a ligação para Viana do Castelo.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Combóio

"Train toy ride" - Claire Wolf Krantz - 1999

Calcou a gravilha com prazer. A dimensão das pedrinhas produzia um som estimulante. Como Amélie sentia prazer a mergulhar a mão nos sacos de cereais, ele comprazia-se com a fricção dos minerais. Coisa pouca.


Passou para o outro lado da linha e com o cérebro aos solavancos tentou juntar as letras desenhadas nos vasos da estação. Via mas não compreendia, como se tivesse perdido a capacidade de ler. Tinha chegado à boleia; num inglês básico respondera à pergunta do condutor

- To a train station, i'll get along.

Tinha saudades, muitas, e desejava estar com ela. Não sabia muito bem para onde ia mas se chegara até ali, nalguma altura ia encontrar. Sem mapa, só podia confiar na intuição ou numa informação dada por alguém. Como era muito desconfiado e tendencialmente do contra, não acatava os conselhos que lhe davam. Não sabia muito bem porque raio se dava ao trabalho de perguntar; seria uma manobra rebuscada de manipular o seu livre arbítrio. Não era muito de tomar decisões espontâneas, assim eram tomadas à força pela opinião dos outros.

A estação estava deserta, o que não era de espantar, perdida no meio da serra, pouca gente devia usufruir da sua existência. Ao fundo, no vale, via uma série de casas que pela vegetação envolvente e pelos buracos escuros das janelas, indicavam que já há muito estariam abandonadas. À esquerda carris perfuravam uma elevação e as vagonetas explicavam tudo.

Mas que raio de ideia, a do homem, de o deixar ali ao abandono.

Ouviu um trote, um cavalo ou algo parecido aproximava-se. Virá acompanhado?! O mais certo é que fosse um dos cavalos selvagens que vira quando o seu transporte cruzara os estradões da montanha. A solidão estava a saber bem e não queria que aparecesse alguém para estragar o momento, mas, simultaneamente, queria tirar as suas dúvidas. Primeiro surgiu uma cabeça com cabelo bem tratado e barba impecavelmente penteada; um corpo coberto por farrapos de cor impossível de discernir do uso exaustivo; por fim o cavalo branco, brilhante a combinar com a cabeça do homem.

Que figura mais estranha.

Quando as coisas são fora do comum não sabemos muito bem como reagir. O efeito surpresa ataca o estereótipo e depois de breve escaramuça moral, a confusão fica entranhada. Quando cavalo e cavaleiro se aproximaram, notou que o ginete tinha as mãos tingidas de vermelho. Recuou em sobressalto e vendo uma lata de tinta e um pincel vermelho atados ao alforge tranquilizou-se.

Não dava jeito nenhum encontrar um assassino no meio do nada.

Fez um gesto para entabular conversa mas o homem, como se ele não existisse, passou-lhe ao lado e, poucos metros adiante, desmontou. Do alforge retirou luvas brancas de borracha, colocou-as, pegou na lata e com o pincel começou a pintar os carris. Com cuidado, para a sua sombra não denunciar a sua posição, aproximou-se e observou o que o homem estava a fazer. Pintava uma espécie de serrilhado, como se o carril se tornasse num gigantesco serrote que cortaria a serra em todo o comprimento. Encolheu os ombros desistindo de perceber o que aquele estranho personagem estava para ali a maquinar.

Afastou-se e sentou-se à espera do combóio. Tirou o caderno e começou a escrever.

O eco de um apito estridente cruzou os ouvidos. Era o seu transporte a uivar.
Ao fundo uma máquina Branca deslocava-se a alta velocidade. Como estava longe ainda devia demorar uns bons três minutos a chegar.

O Pintor interrompeu a tarefa; pegou na lata e no pincel e recolocou-os no alforge; tirou as luvas grotescamente imaculadas, e com as suas mãos vermelhas-sangue – ainda não conseguia entender porquê – agarrou nas rédeas e montou. Pela primeira vez olhou para ele e com um sorriso, que parecia ter algo de mefistofélico, afastou-se a galope.
Na direcçaõ oposta aproximava-se o comboio sem diminuiçao de velocidade. Não me digas que vou ficar em terra. Quando atingiu a zona pintada, o início do serrote, descarrilou fazendo com que as pessoas que não se viam gritassem em pânico.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

L00p?S


Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.

“Nas tuas veias corre acetato.” Lês e algo se transforma. Necessitas de te mover, a inércia solidifica o acetato e corta as tuas veias e artérias. Não és sábio na fisiologia mas sabes o que te pode acontecer, e nestas coisas da sobrevivência nunca se sabe.

Sabes agora que não podes parar. Mexes-te para que a tua cinética mantenha a liquefacção do acetato. Caminhas sem destino e caminhas. Os semáforos tentam parar-te e arriscas tudo, atravessas a rua por entre carros e buzinadelas, com a mente a arder entre a vida e a morte. Parar é morrer, andar também pode levar ao mesmo fim.

Diriges-te a casa, agora sabes onde ir. A morrer que seja em casa a discutir com a tua mulher. Pelo menos vai ficar com remorsos, até receber os resultados da autópsia. Que estupidez, que crueldade, nem ela merece isso.

Vagueias e inquires quanto tempo mais vais aguentar. Afinal qualquer dia terás que dormir. Entras num restaurante e pedes algo para levar, não interessa o quê, desde que seja rápido. Freneticamente vais convulsionando os músculos. Chega a comida então consegues comer. A tua garganta está bloqueada a comida, só entra ar. Não podes alimentar-te, vais morrer de uma forma ou outra.

Encontras um livro no chão.

Livro Dois. Primeira página de +∞. A leitura é suave e automática. De alguma forma consegues antever o que vem a seguir mas não consegues entender que todo o texto que lês é um extenso anagrama que misturado dará um novo texto.
“Nas tuas veias corre acetato.”

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Cartago delenda est



Numa varanda sobre a Cidade das Carabóias. As estrelas são encobertas pelo smog das onze da noite mas as mais brilhantes assomam tímidas oferecendo luz aos olhos verdes e castanho mogno.
Debruçados fumam tabaco negro como a alma momêntanea dos pares. As cervejas ficaram pra trás e da banheira vizinha o convite dos baixos de C’mere entra-lhes nos ouvidos.
"The trouble is that you're in love with someone else"
Com lágrimas nos olhos, secas, como ele deseja que a alma esteja, Siecle Retro geme
- Detesto histórias de Amor. Acabam sempre mal.
Borg Hotui, que querendo chorar não pode, todo o sal fora usado para queimar a sua Cartago e impedir que nada mais lá crescesse, seca
- Arriscar dá nisto.
"And so may, we make time
To try and find somebody else
Who has a line"
Na rua um gato preto com pantufas brancas espera pacientemente que um carro lhe passe por cima. No último momento arrepende-se e desaparece.
Siecle dirige o olhar para uma clarabóia e finalmente chora, só no interior, para não dar motivos a Borg. Despede-se e vai para casa. O gato está à espera dele e abre-lhe a porta. Ainda não é desta que vai ser atropelado.
"And in the evening, when we are sleeping
We are sleeping. Oh, we are sleeping"

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

cris.pt


"O homicida" Munch - 1919

É luminosa. De carro vago as ruas que não o são na sua essência. Difusas, as paredes mostram o interior das casas. Não é vidro nem acrílico, antes uma sensação estranha tipo twilight zone. Onde circulo só vejo paredes que são transponíveis pelo meu olhar e o céu, que sei que está azul por cima de mim, é castanho cor de madeira. Descubro sem surpresa que é coberto a telha verde, não de cerâmica mas de algodão tingido por cobre.

A minha mente tempera o carro a electricidade para silenciar o incómodo que poderia atirar às pessoas que não existem dentro das casas.
Castanho, tudo o é à minha volta, e conforta-me. De uma bifurcação com sentido obrigatório vermelho com barra branca no centro sai um carro fantasma, atravesso-o e sinto-me frio na emoção, quente no corpo.

Corto a correia que me salva a vida e com a certeza que vou transpor um qualquer limite bocejo ao ver que nada acontece.
O inesperado faz-me sempre viver, mas agora sou deixado à ceifa. Amarelo como estou, vejo um foco de luz que me prepara para o que se segue e no entanto considero-me nulo, como cheio de toda informação mas sem os mecanismos para a manipular. Sou um computador sem sistema operativo.

Saio do carro que era e passou a bloco de gelo seco. Não me molha mas a minha transpiração cria cubos de fumo que corto com a minha linha de realidade aparente. Quebro-a e vejo uma árvore a correr na minha direcção. Não tem olhos e boca como eu esperava mas fala comigo em arvorês.
- Fica comigo e ama-me. Sente o que eu sinto e diz-me como crescer sem seiva, seca e mole. Feliz.

(Five minutes later after a fade to black)

Cut to the original text. Out of the movie but always important if you want to see it.

One thread of olive oil covers Leugim eye, left one and blinds him with white light. He needs a beer.
Get it now please, for the sake of your sanity.
A Nice Surprise
Messenger 1915
script
Leugim diz:
acordei,
Leugim diz:
tinha qualquer coisa na cabeça
Leugim diz:
e não sabia descodificar.
Kaim diz:
sim
Kaim diz:
e então...
Leugim diz:
continuava o sonho que estava a ter
Leugim diz:
entrava numa cidade com um carro barulhento
Leugim diz:
e descobria que as ruas eram o interior das casas.
Leugim diz:
o resto veio por acrescento
Leugim diz:
deu nisto.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Clockwise

Melting Clock - Salvador Dali

Vejo-o com a mão a tapar a boca, controla o vómito, saboreia-o. As entranhas revolvem-se, acidulam a língua, destroem tudo aquilo em que acredita.
Algo se perdia e tinha o fio na mão. Um puxão seria o suficiente para inverter o fluxo activo. Os calos impediam o atrito e não sabia como encontrar o caminho para o destino desejado odiado.
Não era uma questão de indecisão que lhe criava problemas antes as certezas.

Na noite encontra-se tudo aquilo que mais tememos e essa noite estava pejada de sentimentos confusos que lhe mordiam a consciência, a moralidade. Assombravam-no como nunca antes o haviam feito. Aos poucos sentia que deixava de ser dono de si e que um sentimento anti ego agarrava as rédeas com mãos de vidro.

Prolekult proclama: - Melhor seria deixar essa moralidade amedrontada para trás.

Seria esta a solução do problema?! Se assim agisse as coisas seriam mais fáceis… não de todo. Quando vemos a vida dos outros através da nossa visão prismática tudo se torna fácil e é tentador dar a nossa opinião. Emprestar.

Escuteiro dirige: - Não quero que aceites os meus conselhos, sente o teu coração.

Já não sente o coração nem nada que se compare. O sentimento de urgência atravessa-lhe os neurónios e tudo o que quer é terminar com aquilo.
O fim dos dias está próximo, a espuma lambe-lhe a moral mas não a lava.

Bleab estava sentado a beber um copo, uma fracção de uma imagem inspirou-me. A mão a tapar a boca e um prenúncio de agonia, o suficiente para criar este turbilhão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Sevilha




Em Sevilha tive uma série de agradáveis surpresas. A cidade para a quem conhece como vulgar turista é capaz de não impressionar muito, embora a Giralda e toda a zona histórica tirem a respiração a qualquer um. Mas…

Eu e o meu luso companheiro resolvemos ir à aventura sem mapa, só para ver no que dava. Ir sem rumo traz-nos sempre agradáveis surpresas e assim foi. Pelas ruas estreitas da zona histórica encontrámos praças, pracetas, cantos e recantos de inigualável beleza. De boca aberta e com a baba a escorrer íamos comentando, na medida do possível, pequenos pormenores arquitectónicos como as varandas em ferro forjado, as marquises em vidro e ferro com revolteios dignos de um bom escultor, imitando lanças e flores. Os estores em palha castanha que quando recolhidos iludiam a vista e singularmente se tornavam belos a cair em duas partes iguais só sustentados por uma cordita.

Os panais que cobriam as ruas para ocultar o branco e castanho das ruas do sol do meio dia que dizem, em Agosto ser o mais impiedoso da Península. Atravessam a rua lá nas alturas de um edifício ao outro dançando quando tocados por uma pequena brisa. Era capaz de me sentar e ficar horas a observar estas ondulações deste mar branco no céu.

As ruas estreitas mais que uma sensação de claustrofobia davam uma sensação de conforto e calor, muito graças às cores alegres com que os sevilhanos decoram as suas casas.
Em cada esquina hotéis simpáticos de duas e três estrelas que mais pareciam de 4 e 5 quando dávamos uma espreitadela no interior, sempre com uma sorridente e bonita sevilhana no balcão da recepção.

A simpatia é aliás um ex-libris desta cidade, mas também não é de admirar, a cidade respira turismo, no entanto não fazem como no Algarve em que é raro encontrar a simpatia. Arrisco-me a dizer que esta característica foi canalizada toda para aqui.

As pessoas parecem rudes no trato mas é uma espécie de capa, um pouco da amostra do seu humor. Cinco minutos depois já piscam o olho e riem-se enquanto mandam uma piadinha cáustica, bem ao meu gosto. Devem ter tirado um curso de humor negro.

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Andaluzia

Estava eu no aeroporto de Sevilha e deparei-me com estes poemas que ilustram a Andaluzia. Com eles vos deixo.

Vinieras y te fueras dulcemente,
De outro camino
A outro camino verte,
Y ya outra vez no verte.
Pasar por un puente a outro puente.

Vicente Aleixandre


Cuerpo feliz que fluye entre mis manos,
rostro amado donde contemplo el mundo,
Donde graciosos pájaros se copian fugitivos,
volando a la región donde nada se olvida.

Vicente Aleixandre


Qizá mis lentos ojos no verán mas el sur
De ligeros paisajes dormidos en el Aire,
Com cuerpos a la sombra de rams como flores
O huyendo en un galope de caballos furiosos.

Luís Cernuda

terça-feira, 20 de setembro de 2005

Vamos a comer

Nos primeiros dias estranhei um bocadillo a comida… Pudera, quem está habituado à nossa gastronomia não vê com bons olhos a comida espanhola, mas há sempre boas surpresas.
Descobrindo-se as tapas todo e qualquer português fica contente, e na Andaluzia são sem dúvida fabulosas.

Em Almonte, já referida no artigo sobre el Rocio, encontrei um restaurante delicioso que recomendo a todos. Chama-se Mesón El Tamborilero com o slogan “Selecta cocina casera” e é bem verdade. Escondido numa das ruas pintadas de branco e azul, é um local muito simpático e acolhedor, e pelo que me disseram é uma espécie de local tradicional na região, já em extinção, o que é pena.

Quinze minutos à espera de mesa e o camarero diz-me que já posso escolher. Fico à espera da lista e nem sombra dela. Leva-me e ao meu companheiro andaluz até à cozinha e o cozinheiro, dono do estabelecimento, mostra uma parafernália de pratos semeados em panelas, tachos, fornos, travessas enquanto vai descrevendo em andaluz cerradíssimo.

Júan, o meu guia diz-lhe que sou português para ele falar mais devagar. A resposta foi um aperto de mão à homem e “qué te voy a preparar algo especial”.
Vamos lá para a mesa. Como entrada feijão branco com presunto pata negra e como segundo duas postas de peixe fresco com molhos divinais, e o mesmo para o Juán. Simplesmente divinal. Um dos peixes era atum e o outro não me lembro do nome, paciência. Preço com duas cervejas cada um:
€22.60

Voltei lá com o meu companheiro português por volta da meia-noite. O senhor Rosendo fez uma festa quando me viu e perguntou se queria comer. À anuência disse sentem-se. Foi o que fizemos e um minuto depois tínhamos uma posta de bacalhau fresco com bechamel, lombo com um molho indecifrável e uma garrafa de Rioja. Sem questões e uma palmada nas costas lá nos deliciamos. Tudo muito bom, volto lá concerteza.

Em Gerena duas surpresas fenomenais. Salvi e La Laguna, dois tascos manhosos que servem comida fabulosa a preços muito em conta.
No Salvi destacam-se o Filet de Buey, qual picanha qual quê, e o Solomillo al whisky, carnes fabulosas que dão vontade de repetir.

La Laguna… Salmorejo, uma sopa fria muito bem ralada, com um prato ao lado com ovo picado e presunto pata negra para misturar, de comer e chorar por mais. E porque não seguir o exemplo dos nuestros hermanos e meter uns picos ao barulho (tostas de todas as formas e feitios, até nos desafiam a tentar comer todos os existentes no mercado, é virtualmente impossível!).

Aliño, ai a minha perdição! Tomate, pimento verde, cebola, tudo muito picadinho, como se fosse cebola, regado com azeite e vinagre e com uma pitada de pimenta preta, levando o nome do último elemento: pulpo, pollo, huevas de merluza, you name it. É simplesmente delicioso e refrescante!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

La Vírgen del Rocío

El Rocío - Fonte Google Earth
Começa hoje uma série de escritos acerca das minhas andanças pela Andaluzia.
Para começar escolhi um tema que me intrigou e divertiu, mas já lá vamos.

Para que todos fiquem informados, não fui de férias mas sim em trabalho, se bem que é um tipo de trabalho que é muito parecido com férias, mas depois de verem as fotos vão perceber mais ou menos com que linhas se coze a minha manta.

El Rocío é um pequeno lugar que pertence a Almonte e está carregadinho de pormenores interessantes e deliciosos.
Em primeiro lugar parece uma daquelas cidades do Farwest americano a roçar os vilarejos mexicanos. As ruas são todas em areia devido ao intenso tráfego de cavalos – os puro sangue andaluz – enchendo os sapatos de areia e atolando qualquer viatura motorizada que ali queira passar. É uma realidade diferente daquela que estamos habituados e sentimo-nos abraçados por uma mística ambiental fora de série. Quase que vemos o Clint Eastwood a aparecer ao dobrar da esquina com a banda sonora de Morricone… É fantástico!

Mas o lugar tem mais, muito mais! Nasceu da devoção à Vírgen del Rocio, que possui uma história que vos vou contar num outro artigo, que constitui um exemplo perfeito de fanatismo religioso.

Todos os anos no Pentecostes, 1 milhão de peregrinos, leram bem 1 000 000(!), dirige-se às ruas poeirentas para ver a virgem e tentar a todo custo tocar na imagem que desfila por um percurso pré definido.
Os almonteños cercam o andor criando uma barreira intransponível e quem tentar furá-la é gentilmente tratado a soco e pontapé. Morrem cerca de seis pessoas na peregrinação em cada ano. É de loucos!

Neste momento, contadas por mim, há 101 confrarias da virgem, com nomes curiosos como Hermandad de Pilas. Não é brincadeira, depois mostro a foto.
De sete em sete anos a imagem é levada a braços para Almonte que fica a cerca de vinte quilómetros. Por acaso este é o ano em que está lá depositada, por isso lá fui ver a senhora. Mal a vi percebi porque raio é que foi virgem até morrer. Feia como a noite e dada a adiposidade denunciada pelas vestes deve ter vindo das baleares. Aqui é que eu presenciei o fanatismo, qual senhora de Fátima qual quê. Estava numa esplanada a beber uma caña cruz campo, bem boa por sinal, por volta das onze e meia da noite e ouvi uma senhora a gritar “viva la vírgen del Rocio” e a multidão respondeu em fervor “viva”. Na igreja vi pessoas a chorar só de ver a dita senhora, deviam estar a pensar “Coitadita, tan fea qué era”.

Talhos, Ferreterias, restaurantes, mésons, tudo o que é estabelecimento só tem dois nomes ou qualquer coisa Vírgen del Rocio ou qualquer coisa pastorcito, já que a virgem foi vista por um pastorzinho… Não vos traz nada à memória?

Qué fea es!

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Para todos aqueles que adoro, gosto de vocês e sabem que sim.
"As mulheres amigas" Gustav Klimt - 1916/17
- Gosto de ti.
- Que raio…
- Apeteceu-me, que queres?!
- Ok… mas se estás à espera de uma resposta consensual…
- Nada disso, só me apeteceu que soubesses que gosto de ti.

Quando exprimo os sentimentos não estou à espera de uma resposta à altura do meu expressionismo, ou será que estou? Talvez uma parte de mim queira uma resposta à mesma cota emocional que a minha transmissão, mas nunca é propositado, por isso é que enviei um Spam a todos os meus contactos

- Gosto de ti.

E descobri que há pessoas que reagem muito bem ao estímulo, outras que ficam incomodadas sem saber o que dizer e outras ainda mantém-se silenciosas, muito embora eu saiba exactamente qual é o sentimento que nutrem por mim, ou pelo menos calculo...

Não é que eu goste de Spam, mas se me enviassem isto ia gostar. Se fosse uma carta em corrente provavelmente ia destruí-la, mas é uma simples expressão que não custa ler e faz muito bem, se bem que seria muito mais honesto da minha parte dizê-lo nos olhos, mas à distância é difícil.

Difícil também é dizê-lo nos olhos. Acho que não estamos habituados a expressar-nos da forma correcta. Até parece que ficamos engasgados, que uma coisa tão simples e tão pura possa ser mal interpretada ou provocar uma demolição numa relação.

Acho que também temos medo de a gastar. Quando se diz muitas vezes deixa de ter tanto sentido, as pessoas habituam-se e não lhe dão o devido valor. Se a dissermos poucas vezes provoca um brilho nos olhos que é a melhor recompensa para a ousadia ou a coragem que temos ao pô-la cá para fora.

Meus amigos, com estes pensamentos vos deixo e durante duas semanas estarei ausente pela Hispânia, mais exactamente pela Andaluzia. Espero voltar com o Moleskine carregado.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Os hóspedes


"Viajante em frente ao mar" Caspar Friedrich - 1818

Residencial D’Ouro – Praça dos Leões, Porto

Dois senhores estão à espera de ser atendidos. Um, já com os pés nos cinquenta, carrega um chouriço de marinheiro. A barba de dois dias, grisalha na sua quase totalidade, encobre algumas rugas e uma pele vincada pelo tempo e pelo trabalho. Pelo aspecto trabalha nas obras.

O outro, moreno também, aparenta 30 e pela metro-sexualidade do trato sugere um turista acabado de chegar à cidade. Carrega duas mochilas, uma de montanha e outra de trekking mais pequena. Está vestido para caminhada e dentro em pouco vamos encontrá-lo a beber umas cervejas na esplanada do Piolho.

Será um desses jovens que se lança à aventura pelo mundo fora?! Não desses que compra um bilhete de inter rail, mas dos outros, que vai sobrevivendo por aqui e por ali, sem raízes, só com o ideal de conhecer novas pessoas e novas culturas, o recolector de experiências.

De uma porta surge o recepcionista com o sobrolho carregado e informa que só existem dois quartos sem televisão. O mais velho insiste que só quer um quarto com televisão

- Não tenho vida para me deitar às nove e meia nem para andar aí a dar água sem caneco

o mais novo, indiferente,

- Desde que tenha uma cama para dormir já é suficiente.

Informa que um dos quartos é pequeno e custa €15 e o outro, maior €20. Aqui o jovem já faz questão, quanto mais barato melhor. Dissipadas as dúvidas do mais velho, fecha-se o negócio, há que fazer o check in.

Pensão pequena só exige o BI para a ficha e como é pago adiantado não há necessidade de conservar o documento. Faz a ficha primeiro ao jovem.

João Miguel da Silva; natural de Vinhais, Bragança; Filho de António Ribeiro da Silva e Maria da Encarnação Almeida da Silva; nascido a 07-11-1974.

- Ok, o seu quarto é o número 26, suba as escadas, primeira porta à direita.

Pegou na documentação do senhor e com o automatismo começou a escrever os dados.

António Ribeiro da Silva; natural de Vinhais, Bragança; filho de Mário da Silva e Joana Ribeiro; nascido a 03-06-1950.

- O seu quarto é o número 25, suba as escadas, segunda porta à direita.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Lector in Studio


"Batalla de Aljubarrota" Mariano Maella - 1791

Vem Daqui

Frequentemente existiam confrontos entre os manos e a facção supracitada, acabando regularmente com cabeças rachadas fruto das armas utilizadas, pedras e paus. Desta forma, recheada de tropelias e cumplicidade nasceu uma amizade coesa entre a trupe de rapazes, só perturbada com a intromissão de novos amigos, adquiridos na escola.

As insignificâncias da idade como o complexo de irmão mais velho - não vais comigo para a escola nem vens ter comigo no recreio - ou o moralismo de irmão mais novo - não consigo perceber como podes fazer isso, quando tiver a tua idade nunca o vou fazer - foram as únicas coisas que podiam ter azedado a relação mas nunca conseguiram superar a cumplicidade que vinha sempre à tona.

Desde cedo que Orniciteplático se mostrou inteligente de uma forma muito camuflada, no início os professores achavam que era meio estúpido. Tudo o que lhe era mandado fazer em casa ficava confortavelmente instalado na prateleira, aparecendo incumprido na aula seguinte. Tabuadas, fichas, contas cópias, enfim tudo a que era obrigado ficava por fazer. As reguadas que lhe eram distribuídas em igualdade pelas duas mãos, para não haver invejas, funcionavam de forma contrária à esperada. Reforçavam-lhe o carácter teimoso. Quanto mais lhe mandavam fazer, menos fazia.

Ainda hoje tem uma dívida acumulada à escola de 12353 cópias, 7352 tabuadas, 12435 fichas e 98098 contas. Em compensação tudo o que fosse feito dentro das paredes da sala de aula, era cumprido à risca e com a melhor das perfeições, não obstante passar as aulas concentrado nos painéis de azulejo que a decoravam. Sabia de trás para a frente a quantidade de armas, qual as suas formas, quem lhes pegava e como, e a história que estava por trás daquela cena guerreira.

A Batalha de Aljubarrota, representada por um azulejeiro do Estado Novo, inspirava-o para fora da monotonia das aulas e punha-o a imaginar o que as personagens estavam a dizer, muito embora as bocas dos senhores não exprimissem o mínimo gesto que fosse. Via histórias e, em muitas, o cavalo, que estava em primeiro plano na imagem, confidenciava-lhe na hora das reguadas “daqui a uns anos vais ser como eles, grande, enorme e vais poder ter uma espada como a do Condestabre, novinha em folha”. Se fosse hoje dir-lhe-ia “está descansado que nós vamos aí e espetámos coices e uma destas espadas, a maior de preferência, no cú do cão raivoso que é o teu professor!” atravessada é claro.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Génesis IV

"Guernica" Pablo Picasso - 1937

Vem daqui

Já fora subentendido que esta família não era propriamente abastada, e a bem da verdade classificar-se-ia como remediada.
Todos os brinquedos que alguma vez teriam, seriam na sua maioria, um remediado sucedâneo dos brinquedos das crianças com quem se relacionavam. Esclareça-se também que, no Natal, eram presenteados, com um sacrifício extra dos progenitores e restante família, com brinquedos fora de série, que automaticamente eram desmontados, dada a curiosidade latente no cérebro dos jovens, em perceber como funcionavam aquelas maquinetas fascinantes.

É lógico que depois de perdidas algumas peças os objectos deixavam de ter a funcionalidade para que tinham sido concebidos. Eram então refeitos de uma forma algo cubista-minimalista e utilizados noutras tarefas, coadjuvando os brinquedos preferidos dos terríveis irmãos, preferencialmente artesanais.
Latas de sardinhas ganhavam portas, com uma tesoura de poda, e transformavam-se em carros que futuristicamente deslizavam em vez de rodar. Os homenzinhos surgiam na forma de caricas que eram fervorosamente catadas junto ao café mais próximo por entre borras de café, sacos de açúcar vazios e outras coisas que não convém descrever ao pormenor.
Com pregos e pedaços de madeira faziam-se tanques com múltiplos canhões, criando toda uma parafernália marcial que era exaustivamente discutida e regida pelo Estado Maior do Exército de Babel.

Cascas de pinheiro, habilmente escavadas com as facas de cozinha, que não raramente apareciam com os bicos partidos, transformavam-se em barcos de todas as formas e feitios, porta-aviões sem aviões, corvetas, fragatas e todos os nomes que iam aprendendo relativos à realidade naval, com a vantagem de flutuarem realmente e nunca se afundarem por muita pedrada que levassem. Com o crescimento veio a mudança de brincadeiras, com os índios e cowboys.
As espingardas eram troços de couve, que também funcionavam como sticks de hóquei; arcos feitos com mimosas e fio de pesca surripiado ao pai; lanças com os arejões que estacavam os tomateiros de um cada vez mais raivoso pai; penachos com fio de lã roubado à mãe e penas roubadas às galinhas, que muito ofendidas não paravam de cacarejar; e os lenços dos cowboys tirados à socapa do roupeiro do avó, que passava dias intermináveis com o mesmo lenço de assoar.

A imaginação dava para tudo. Cartografaram toda a rede de canalização de água das redondezas, como forma de reconhecimento técnico-táctico, para as mini-manobras militares a que se dedicavam no intervalo das actividades de faroestianos, sendo também sobremaneira úteis quando resolveram tornar-se ecologistas desmontando as armadilhas dos rivais do Lugar de Cima, que tinham como objectivo apanhar coelhos, raposas, texugos e afins.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Pai

Assentava praça em Gondarém. Tinha uma série de “clientas” fixas que faziam valer a pena dedicar-se só àquele local. Era capaz de fazer uma viagem até Campanha e voltar à sua postura, em vez de optar pela solução mais confortável, esperar pelos clientes que não faltavam na estação.


As senhoras da Foz que lhe aclientavam a viatura tornavam o negócio bom o suficiente para a sobrevivência da sua casa, as viagens casuais funcionavam mais como gorjetas, recompensa da sua fidelidade àquela praça de táxi.

Aproveitava, todos os dias, e levava a esposa de 25 anos, 25 anos mais nova que ele, para a loja onde trabalhava, também na Foz.
Conhecera-a quando ela tinha 19. Andava enterrada na droga e na prostituição. Crescera na Sé, mais exactamente na Rua Escura, fazendo parte de uma das muitas famílias numerosas daquela zona. Cresceu e tornou-se numa rapariga bonita, apetecível, aos 14, devido às más companhias e fraqueza de espírito típica da idade, optou pelo caminho dos estupefacientes. Escusadas foram as vigias constantes dos irmãos e as sovas do pai para evitar a progressão em direcção ao fundo do poço. Teimosa e agarrada ao vício abraçou a prostituição até ao dia em que entrou no táxi para ir comprar o cavalo.
Ficou-se pela estrebaria que era a casa do taxista. Um pouco ao jeito de Ted Mundy, o homem recolheu-a e tratou dela, e passados largos meses, quando estava já limpa de tudo, ou quase, com o amor e a dedicação dele, apresentou-o à família.

As famílias humildes são muito orgulhosas em relação às esmolas, mas aquilo era um milagre. Ele pusera a menina outra vez no caminho. Automaticamente foi aceite no clã e no bairro, estava finalmente em casa.

Tenho uma filha, conta-me com a lágrima no canto da alma, que um homem não chora à frente de outro. Está em Lisboa com a mãe
- A minha primeira mulher
e com o padrasto e quando o vem visitar, a menina queixa-se
- ó paizinho, ele bate-me
e as marcas não enganam. Tem marcas no corpo que se passarem vão continuar no interior durante muito tempo.

Com a raiva a provocar tremuras no canto da boca, fustiga-me e a ele em simultâneo.
Sabe doutor, há dois anos tive uma trombose e felizmente até recuperei bem, mas não tenho a força que tinha.
De facto não se nota que sofreu o AVC, fala correctamente e não tivesse ele dado a informação nem desconfiaria de tal facto.

- É que mesmo não podendo fazer o que um homem deve fazer numa situação destas, eu juro-lhe, pela alma dos meus pais e pela felicidade da minha filhinha, que vou lá baixo em Agosto, é quando tenho férias, e vou tratar da saúde àquele filho da puta!
Ouvi com os sentimentos em frangalhos e como já estava à porta de casa disse-lhe:
- Dê-lhe umas por mim.

Paguei a corrida e afastei-me com a revolta a provocar as lágrimas. Pensei muito no assunto, e nos dias que se seguiram não consegui deixar de pensar no senhor e na filha. Um coração tão bom e altruísta tinha uma recompensa destas.

Romanticamente idealizei a situação. Sem forças para acertar o passo ao padrasto da filha, o senhor entrou em casa dele e espetou-lhe um balázio, à queima-roupa, em cada um dos cotovelos, e cuspiu-lhe:
- Bate agora em alguém ò Filho da Puta.

sábado, 27 de agosto de 2005

O encontro

O que desejamos pode voltar-se contra nós
"Estrada para Pourville" Claude Monet - 1882

Um brilho esbatido lambia a superfície da água. Pequenos raios transpunham o tecido composto pelas folhagens dos salgueiros e incidiam difusos na superfície da margem criando pequenas ilhas de sombra, desenhando um mapa irregular com uma forte predominância de formas arredondadas.

Marcara encontro ali, por ser um lugar carregado de magia e, onde com frequência se dirigia para pensar nas questões que a afligiam.

A azenha da margem direita ia, com o girar da roda, criando um som hipnotizante, que em conjunto com o correr da água pelo canal de descarga, formava notas de uma sinfonia indistinta mas agradável.

Desagradável era o motivo que a levara ali. Não era muito de marcar encontros fosse para o que fosse, mas bem lhe parecera a ideia de resolver tudo de uma vez por todas, naquele local que lhe inspirava tranquilidade e segurança.

Quando nos sentimos em casa tudo nos flui melhor, e água, com o destino natural que era o mar, acentuava a mudança e evidenciava a continuidade. Nada termina mas antes continua. Pelo menos assim estavam arrumadas as ideias na sua cabeça.

O problema residia só na sua cabeça e, de alguma forma, reconhecia isso mas não o queria aceitar, não o queria aceitar.
A chamada dessa manhã, autoritária, confiante, esmagou-o como uma coluna militar no deserto, com força, deixando marcas na areia, seriam apagadas com a próxima ventania. Sentiu uma espécie de irritação interior, não era bem raiva, muito imenso indiferença mas um pouco de ambas.

Os sentimentos em turbilhão, incendiavam o sangue, mas o racionalismo pedia calma. Sabia na perfeição que se deixasse aquela maré subir ia explodir e estragar tudo.

Por muito que se tente, todas as relações são recheadas com uma pitada de calculismo, pelo menos na fase da conquista, em que tudo é indistinto e não se consegue vislumbrar por entre a névoa da incerteza, só apalpar.

Lembrou-se das palavras trocados, dos beijos sofridos, conquista árdua, dos corpos suados, do roçar dos sentidos, da pele em contacto. Dos carinhos não trocados mas oferecidos numa forma elementar d altruísmo/egoísmo. Quando acariciamos alguém sentimo-nos bem e desperta o nosso egoísmo, é uma grande ilusão.

Tudo o que passaram lhe pareceu lógico e óbvio, mas ele já conhecia as mulheres, nunca se sabe o que lhes passa pela cabeça e toda a estabilidade ganha com a solidão vai por água abaixo em direcção ao Mar, largo e vago, sem pré-aviso.

A carta que lhe chegara às mãos, avisava-o, apontando um dedo acusador a obrigação de pagar uma multa nessa tarde. Estava sem carro e tinha marcado o Encontro com ela.
Caga na multa, pensou, pagas juros de um dia, até é um exercício de coerência para o teu carácter.

Pegou na bicicleta e pedalou em direcção certa e indesejada. “This is what you’ll get when you mess with love”, sibilinas as palavras no Ipod. Continuando a ouvir só lhe apetece perder-se pelos caminhos, no meio dos pinheiros, mais uma vez nos braços dela e esquecer toda a realidade envolvente. Afinal não é isto que interessa, de mapa na mão com uma bússola de endorfinas e encontrar o caminho?! É mesmo só isso que lhe apetece fazer mesmo que seja por breves momentos, minutos, horas, poucos dias e sentir que aquilo é momentâneo, mas real.

Nada a fazer e o passado já lhe calejou a capacidade de sofrimento. Não foram poucas as vezes em que assistiu de camarote a discursos como aquele que calculava ouvir. Os sinais estavam todos lá, os ataques premeditados, a frieza, o desvio de olhares, a ausência de toque, tudo lhe indicava o Fim, aquele que estava longe de desejar. Um interregno sim, agora o terminus…


Costuma chegar atrasado, não há motivo para preocupações. A ânsia da espera prolonga os minutos transformando-os em finos instrumentos de tortura. Sente-se ainda mais torturada com tudo o que lhe avassala o fio condutor do pensamento.

Como se foi meter numa história destas?! Não se ganha nada com relações passageiras mas, a bem da verdade, também nada se perde, e convenhamos que se deliciara com os parcos momentos, intensos, que tivera na companhia dele.

Será que o medo de sentia era mais vigoroso que o desejo e que no futuro, continuaria a evitar ser levada pelas sensações que a faziam vibrar de felicidade? Estaria a tornar-se fria e fechada ao exterior? Quando nos sentimos bem com um companheiro e a balança equilibra porque não aproveitar sem remorso ou culpa, afinal do outro lado também não existe.

Não podia deixar de sentir algo por ele, não era puro companheirismo, amizade, algo mais lhe perturbava as certezas e estava na altura de cortar a árvore pela raiz.

Lembrou-se de algo que lera há uns tempos atrás, em que o rapaz da história cabara uma possível história de amor pelas razões erradas e ficara a vida toda com naquele fardo nas costas, tudo porque não tivera coragem para continuar a enfrentar a vida e a outra pessoa. Investira muito e desistira. Saltara noventa e nove muros e quando chegou ao centésimo baixou os braços e desistiu.
Será que a atitude dela seria a mais correcta? Logo se veria.

Finalmente. Desmonta da bicicleta e sorri com a cara dura, os lábios carnudos a desejar em negação interna, não podia dar parte de fraco agora.
- Vieste, a certeza e a dúvida espelham-se no verbo.
- Sim… aconteça o que acontecer não me vou arrepender de ter vindo.
- Acaba por aqui, o soluço agarra-se com garras às cordas vocais e luta contra a vontade de gritar:
- Agarra-me!
Ele agarra-a pela cintura e beija-a.
- Quem sabe esta história possa continuar no futuro, não lhe vou pôr um ponto final, mas antes reticências.

Mergulha na água do rio e esconde as lágrimas. Quando emerge ela já lá não está, e o sal que sai do seu corpo corre em direcção ao Mar.