quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Abstinência

Quando só, só me apetece companhia, quando acompanhado aconchego-me na solidão, é a necessidade de espaço
"Esplanada de café" Van Gogh - 1888

Quando estás muito tempo abstinente e provas de novo aquilo que esteve ausente, sentes as sensações ampliadas de uma forma tal que tudo se torna infinitamente claro.

Só sentimos as coisas na sua verdadeira essência quando delas estivemos privados. A pele é um transmissor natural de intimidade.

Já há muito tempo que não estava com um homem. O medo sobrepunha-se a tudo e a possibilidade de um envolvimento, fazia com que evitasse a proximidade. Muitas vezes sentira o desejo de tocar em alguém, mas havia sempre algo, um alarme interno que a retraía.

O último relacionamento não acabara mal, mas de alguma forma criara uma barreira que afastava mesmo aqueles que a desejavam muito. Estava na casa dos vinte e tais. Alta, elegante, bonita, um charme e uma sensualidade que, não fosse aquela barreira inconsciente que levantara, lhe garantiria todos os homens aos seus pés a fazer todo o tipo de galanteios e salamaleques só para a conquistar.

O muro auto defensivo devia-se à perfeição da relação anterior. Bem... como todas as que não são perfeitas, também esta tinha algum dia que terminar. Assim foi, mas a sua teimosia natural pugnava para manter viva a recordação perfeita, fechava-se em copas e não deixava ninguém aproximar-se.

Às vezes é preciso um momento de distracção para se encontrar a fissura que promove a destruição das defesas.

Estávamos em Julho. Sentada a contar as aventuras e desventuras das férias em Paris, estava acompanhada por um casal amigo. Riam-se com gosto e chamavam a atenção do resto da esplanada. O ar do mar dava uma frescura e um cheiro característico ao ambiente, prenunciando uma bela tarde.

- Posso?!
Perto dos 30, moreno, alto, com um sorriso nos lábios e um cigarro na mão, caderno de mercearia na outra, espalhou um pouco mais de luz pela mesa abafando a sombra do guarda-sol.

A anuência geral deu-lhe o lugar desejado e satisfeito instalou-se. Era amigo do casal, para ela, desconhecido. Uma franzir de sobrolho mútuo indicou que ambos eram antagonistas no tema que repousava na mesa. A discussão evolui e ela começa a sentir uma pontada de irritação que lhe nasce na tiróide e lhe salta pela boca.

Ele, divertido, contra argumenta com calma e num tom neutro estudado, provocando-a cada vez mais. Quando provocada, tenta sempre ser a melhor, e como ele lhe põe os nervos à flor da pele, mais vontade tem de ficar com a última palavra, e como golpe fatal, resolve ser condescendente, paternalista. Com um sorriso irónico pousa a mão sobre o braço dele e sopra-lhe:

Porque é que tens que ter sempre razão?!
O toque é automático, elaborado e provoca nele uma reacção inesperada, o corpo é percorrido por uma corrente energética que lhe eriça todos os pêlos do corpo. Fica sem palavras e confuso, afinal não é fácil emudecê-lo.
Abstraem-se de quem os rodeia e continuam com a discussão. Só deseja que lhe volte a tocar, e ela na sua ânsia de razão, que nunca é de ninguém, cada um tem a sua, continua a provocar, a esticar a corda.

- Não olhes assim para mim, diz-lhe em tom ameaçador.
- Assim como, diz ela divertida, deixando-se levar.
- Assim, devolve-lhe o olhar o melhor que pode e levanta-se.

Deixando-a a saborear a conquista prematuramente, pede desculpa e com um “Volto Já”, sai da esplanada com destino incerto.
Fica sentada alheia aos comentários do casal. Só pensa na fórmula que vai usar para dar uma lição àquele convencido, arrogante, teimoso. Com o discurso já preparado, sorri ao vê-lo chegar com um jornal e um livro debaixo do braço.

- Pensei que tinhas abandonando a luta!
- Eu nunca abandono nada, diz com um sorriso e um tom firme. Toma.

Depõe na mesa o Livro. Espantada e incapaz de disfarçar abre-o e vê uma dedicatória.

«Uma surpresa para a maior das surpresas. Já senti o teu toque, a tua pele, prendi a tua voz e a tua atenção, só me falta isto.»

“O Perfume” Patrick Suskind.

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

A mulher Um

As barbaridades são pequenas coisas que só são entendidas pelos comedores de pão, acho que sou um desses glutões
O nascimento de Vénus - Sandro Botticelli 1485/86

Borges defende que se cruzarmos todas a s referências bibliográficas de todos os livros do mundo, chegaremos ao livro Um, o que dá origem a todos os outros. Às relações amorosas também se pode aplicar esta teoria.

Como diz um amigo meu, “A mulher Um é citada por todas as outras que se seguem”. Não é a mulher do primeiro beijo, a mulher do primeiro apalpanço, mas a mulher, a mulher Um.

Desculpem centrar todo o discurso na mulher, mas não consigo transpor a minha consciência para o sexo oposto. Devemos ter a humildade de escrever sobre aquilo que sabemos.

Há, algures no nosso passado, uma mulher que marca toda a nossa existência, condicionando todas as nossas escolhas a partir daí. Todas as outras vão ser objecto de comparação, porque esta foi, por alguma razão ou uma série delas, marcante para se tornar a base de tudo.

É díficil traduzir por palavras mas algo dá o clique, que invariavelmente coincide com a nossa passagem à idade adulta. Marcante pela cultura, pela inteligência, ou por um je ne sai quoi que nos envolve e nos aprisiona àquela imagem.

Muitos anos mais tarde estaremos felizes e contentes com a nossa mulher, não a Um mas a 543, felizes e contentes no aconchego do lar, e de vez em quando virá um flash da mulher Um.

Se porventura ficássemos com essa mulher Um, nunca saberíamos que ela era efectivamente a mulher Um, porque o termo de comparação não existiria. Pura e simplesmente estaríamos vazios desse conceito. Comparar com o que está para trás não é a mesma coisa que comparar com o que está para a frente. Estamos satisfeitos com o que temos e não temos necessidade de comparar.

As mulheres que se seguem à Um vão ser sempre comparadas a ela e com frequência espumam de raiva com a referência ao nome, mesmo que desconheçam a importância que ela teve para nós. Sentem no ar a emoção disfarçada, cheiram as feromonas quando se fala dela, é o sexto sentido a disparar. Podemos ser os maiores actores do mundo, mas é impossível disfarçar os sentimentos quando a ela nos referimos.

É curioso que a mulher Um se torna num elemento platónico da nossa história da vida. Vem-nos a memória em certas situações, e quando vem não temos a mínima esperança real de voltar a ter alguma coisa com ela. É a bibliografia de referência dos nossos relacionamentos amorosos que só é consultada inconscientemente.

E quem nunca teve a mulher Um?! Provavelmente está acompanhado por ela e se permanecer com ela até ao fim da vida, nunca saberá que ela é a Um. Também podemos incorrer no engano, na falácia intelectual de considerar uma como a Um e no fundo ainda não a termos encontrado. Que o padrão que encaixa no nosso está para aparecer de chofre na nossa vida, ou então já está ao nosso lado e não nos apercebemos disso.

E vocês, já encontraram a mulher 1?

Génesis III


"Soldado da 1ª Divisão" Kasimir Malevich - 1914

O Gerador tinha sido consciencioso, quando cumprira o serviço militar obrigatório. Não é que esta república das bananas estivesse constantemente ameaçada por um inimigo invisível extra-fronteiras, mas era necessário cumprir marcialmente este dever para com a nação.

Devido a uma providencial manopla do Destino, estivera sempre isento de comissões contra inimigos reais, o que não invalidava de todo, todos os ensinamentos teórico-práticos que lhe foram incutidos durante os três longos anos de fogo real e comezainas de carne de burro regada com whisky de contrabando.

É claro que a aprendizagem, de tão zeloso militar, invariavelmente resultava numa faca de dois gumes quando transmitida à prole. Se por um lado ia ensinando às crias como agir furtivamente quando se roubava o anual pinheiro de Natal, por outro ensinava-lhes máximas como “não delatarás o teu companheiro” ou “quando um faz merda comem todos”.

Em casa dos petizes a segunda era sempre consequência da primeira. Quando algo acontecia, o “nunca é ninguém” brotava em forma de urro louco da garganta do progenitor, e logo se providenciava um castigo para as pestes militarizadas de espírito, que não raras vezes ainda gozavam dizendo “a culpa é tua”.

As crianças coziam-se em copas e não deixavam escapar um indício que pudesse incriminar um dos camaradas, porque hoje és tu amanhã sou eu (legenda sob a foto dos miúdos com cara de quem acabou de foder qualquer coisa). Este tipo de situação exasperava o pai mas secretamente enchia-o de orgulho, os ensinamentos estavam a entrar.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Génesis II


"A casa de Essoyes" Pierre Renoir - 1850-1900

Vem daqui

A inevitabilidade geracional masculina do casal fez com que tentassem continuamente gerar um ente feminino. Anos mais tarde eram detentores de uma equipa de futebol de 11, sem suplentes.
Pois eis que Orniciteplático é levado pelo carinho da sua recém adquirida família para a casa que habitará até ao preciso dia de hoje, não de amanhã, mas hoje, mesmo que leia estas linhas daqui a 24 horas ou 34 anos, será sempre hoje. A obra de ficção é instantaneamente real quando regida por um autor autocrata e ditador, e não nos inibimos de fazer parecer o texto ainda mais real reafirmando certas premissas.
O autor define a qualidade temporal, espacial, e outras coisas acabadas em –al, já que ele que manda no seu pequeno universo. Mas voltaremos a este tema mais tarde.
Era uma vivenda com três quartos, nesta altura perfeitamente adequada às necessidades do agregado, mas dali a dois anos com o nascimento de mais dois pequenos seres, os dois quartos das crianças seriam equipados com beliches duplos, mais tarde triplos, aumentando o número de camas exponencialmente ao número de elementos da prole. Quando chegaram ao número 11 o Gerador passou a chamar à zona da casa ocupada pelos filhos de Babel.
Seis miúdos num quarto e cinco no outro convém referir que pelo menos era potenciar o caos. Muito embora os quartos fossem amplos e os beliche dessem uma arrumação especial, não havia espaço nas paredes que não estivesse já ocupado por rabiscos indefinidos de grafite, autocolantes de jogadores de futebol, posters de actrizes e cantoras, fotografias de amigos e papéis febrilmente manuscritos, da autoria de Orniciteplático que amareleceriam, inevitavelmente, com o tempo.
A população dava razão ao progenitor, no epíteto dado à área, com a vasta profusão de elementos visíveis, materializantes dos seus mais secretos pensamentos e emoções.
Orniciteplático desde cedo que manteve uma relação muito próxima e cúmplice com o seu irmão mais velho. Até ao ingresso na escola primária eram inseparáveis. Se um dizia mata o outro já há muito que tinha esfolado. Faziam asneiras a todo o minuto e segundo, provocando a exasperação da figura paterna, mas de certa forma a culpa era dele.

Razão

Hoje sou eu que tenho Razão!

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Genesis

"Criação de Adão" Miguel Ângelo - 1541

Exactamente há 26 anos atrás, nasceu uma criança, que queria a onomástica dos seus pais, padrinhos, vizinhos e demais familiares, tomasse por verdadeiro e intransmissível nome, Orniciteplático. Há exactamente 26 anos atrás, porque por desejo da narração dos acontecimentos relativos à vida deste indivíduo, deveria e deverá ficar uma personagem intemporal, e por isso terá sempre 26 anos quando o leitor começar a ler este digitaluscrito.

Desta forma também não se refere o local de nascimento porque podia ser em qualquer lugar, para além de não enquadrado num tempo também não o será no espaço.

No hospital da Misericórdia, as mobílias de cinza acetinado, os bisturis, a máquina de radiografias, o doseador de água do corredor, as batas, as máscaras cirúrgicas, os médicos, enfermeiros e anestesistas, parteiras e parturientes agiam com indiferença perante o nascimento desta, para já, inclassificável personagem, que como já referimos tomará o nome de Orniciteplático.

Ora, anos mais tarde este mesmo Orniciteplático seria encontrado, de uma forma muito descontraída e indiscutivelmente divertido na companhia de uma pessoa que seria responsável por – é melhor parar por aqui porque senão iremos na página vinte sem ainda termos saído do hospital.

Como narrávamos, antes de sermos rudemente interrompidos por uma pressinha de acrescentar elementos contemporâneos à história, Orniciteplático nasceu na indiferença de um frio hospital, mas de um amor quente e sincero, gerido inteligentemente pelos seus pais. Quente... bem, tinha que ser quente para gerar uma forma de vida que se tornaria algo tresloucada, que não louca, com o passar dos tempos. À semelhança de seu irmão, Orniciteplático fora gerado às portas do Outono, sem que ninguém tivesse tocado à campainha.
Nesse tempo, o casal gerador não era possuidor do vulgar cinescópio, conversor de feixes hertzianos em raios catódicos, criando imagens que divertem e aparvalham a audiência, ou num palavreado mais acessível, não tinham televisão. Assim a única forma de diversão e distracção era a aplicação de todas as energias em estudos de anatomia do sexo oposto.

Os Geradores, novos e ainda com privilégios de descobridores de novas sensações e emoções, primavam por dia após dia, levantar pelo menos um novo Padrão dos Descobrimentos, como marca conclusiva da dádiva de novos mundos ao mundo. E deram, Orniciteplático, ao mundo. A noite fria entrou-lhes pelas frinchas da porta insuficientemente calafetada. Esta, com o último quarto inferior da área forrado a chapa, era um convite à junção de corpos, como se isto fosse necessário.

Do quarto dos Geradores ouvia-se o choro do, que seria o, futuro irmão de Orniciteplático na divisão ao lado. A Geradora levantou-se e remediou a situação com carinho e calor, de mãe dedicada, e acalmado o petiz juntou-se ao companheiro. Sem mais imagens, que não a dos seus corpos, socorreram-se destes para ilustrar a felicidade a que estavam condenados e, aquecendo-se de forma já sobejamente conhecida, geraram uma nova vida.

Anos mais tarde Orniciteplático gozaria com os pais dizendo que naquele tempo quando o frio apertava e não havia televisão, os pais também de alguma forma se apertavam mutuamente, fazendo verdadeiras longa-metragens. Quando mês e meio depois a Terra disse ao Seminador que nova safra lhe brotava já no útero, o Gerador ficou feliz e com esperança que fosse uma menina, compunha-se o desejado casal e fechava-se a linha de produção.
Sete meses e meio depois, mais coisa menos coisa, ainda a suar em bica, ao vislumbrar o pequeno apêndice viril entre as pernas do seu secundigénito pensou, posso voltar a tentar, alguma vez há-de acontecer.

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

O Ardina

"O Ardina" Edward Mitchell Bannister - 1869

Ao frio e à chuva, ao sol e ao vento, todos os dias saía de casa para cumprir a sua obrigação. Calcorreava as ruas da Baixa incansavelmente apregoando o jornal.


Não ganhava muito com o que fazia mas era sempre o suficiente para pôr o pão na mesa lá de casa. Os filhos, três, esperavam com impaciência a chegada do progenitor, que chegado a casa, uma casa térrea com um quarto, lá para os lados do Prado do Repouso, se sentava nos degraus da entrada a contar-lhes as histórias que lia no produto que vendia.


Não era um homem instruído, possuía a quarta classe, mas era senhor de uma imaginação prodigiosa. Os filhos frequentavam a escola primária e ficavam atentos à interpretação das histórias do pai. Descodificava a linguagem dos jornalistas para uma acessível às crianças.


Nunca lhes contava as histórias da guerra, preferia mantê-los na inocência da idade, mais tarde iria pô-los ao corrente. Ainda era cedo para começar, deixá-los lá com as brincadeiras de trepar às árvores e a descoberta na rua de um mundo sempre novo.


A mulher era costureira. Cozia e remendava os casacos e os vestidos das famílias das casas da Rua do Heroísmo. Esperava pacientemente que o marido chegasse com o pecúlio do dia para ajudar às despesas que a costura não rendia o suficiente para a comida. Para a roupa dos catraios lá ia ajudando a esmola dos clientes que cediam roupas usadas dos filhos. O que ela e o Ardina ganhavam chegava só para a comida.


Um dia a espera tornou-se insuportável. O marido tardava em chegar. Geralmente chegava por volta das nove, no máximo às nove e meia, mas isso foi num dia que ficou distraído na conversa com um cliente. Era um homem comunicador que gostava de dar duas de letra com qualquer pessoa, e tinha conversa para todos.

Nesse dia ela começou a ficar angustiada, já passava das dez e nem sinal do esforçado trabalhador. Os miúdos sem clara noção do tempo lá continuavam nos degraus à espera das histórias, mas nem a sombra provocada pelos candeeiros de gás indiciava a chegada.
Por volta da meia noite a senhora, a secar as lágrimas para os filhos não perceberem, chamou-os para dentro. Inventou uma desculpa fugaz para justificar a ausência do marido e depois de os ter aconchegado na sala, foi para o quarto chorar.


Muitos anos depois, nunca se soube o que acontecera ao valente Ardina e as crianças transformaram-se, graças ao esforço da mãe, em rapazes bem constituídos e cultos.

Um dia um deles foi pela primeira vez à Baixa e qual não foi o seu espanto quando viu o pai, como que petrificado na esquina, junto à Igreja dos Congregados, a segurar um jornal, cigarro ao canto da boca, a boina a ensombrar os olhos…


Esculpido em bronze ali estava, ao frio e à chuva, ao sol e ao vento, todos os dias.

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Última Hora



Numa manobra de bastidores bem congeminada, Miguel de Terceleiros estabelece parceria com Humor Negro!

Em entrevista a este periódico cibernético Terceleiros exprimiu o seu contentamento por poder colaborar com tão brilhante escritor. Adiantou ainda que de futuro tentará estar à altura da qualidade literária praticado pelo escritor residente do blog “A razão tem sempre cliente”.

Referiu ainda que continuará a escrever nos seus blogs, Terceleiros e Gera Dores.

O artigo de debut foi acolhido com grande satisfação pela crítica, muito embora alguns dos leitores tivessem vontade de cobrir o autor com alcatrão e penas.

Linda de Suza, exprimiu alegria incondicional por ver a sua imagem associada a estes dois autores!

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

O Frasco

"Cinzas" - Edvard Munch 1894
Todos os dias cobiçava aquele frasquinho, atraía-o e não sabia porquê. O rapaz era feliz, tinha tudo o que sempre desejara e o que mais desejava era aquele frasco. Tinha oito anos e todos os amigos olhavam com inveja para os brinquedos último modelo e os jogos de computador acabados de chegar aos escaparates das lojas.

Era mimado como uma criança de oito anos podia ser. Os pais adoravam-no e não havia nada que lhe recusassem. Tinha uma vida feliz recheada de todas as coisas boas da vida que uma criança desta idade pode desejar. Os pais ao contrário de muitos não estavam separados, viviam felizes e em harmonia, com empregos estáveis que permitiam passar tempo de qualidade com o pequeno.

Conheciam-no tão bem que até lhe adivinhavam os pensamentos. Quando notavam aquele brilho nos olhos, momento seguinte, tinha o que desejava.

Até ao dia…

Da janela do seu quarto via-se a casa em frente. Na janela do 2ºandar apareceu um frasco, vítreo com reflexos alaranjados. O líquido, fantasmagórico, parecia flutuar e um vento interno agitava-o provocando nuances, como se algum ser lá dentro habitasse.

Desejou-o desde o primeiro momento em que lhe pôs a vista em cima, mas os seus pais não estavam presentes para lhe adivinhar a cobiça.
Lentamente, por não ver o desejo satisfeito, começou a definhar fisicamente, mas sempre com p pequeno cérebro a engendrar forma de obter o misterioso objecto.

Como trepava muito bem, fruto de muitas brincadeiras nas árvores com os amigos, que nesta idade não há colegas, decidiu que ia roubar o frasco.

Durante dias a fio observou as movimentações da vivenda, que não existiam. Estranhamente chegou à conclusão que a casa não era habitada, muito embora alguns objectos fossem movidos. Seriam duendes invisíveis, como nas histórias que o pai lhe contava, que ao abrigo da sua vista mexiam nas coisas?!

Da janela o frasco continuava a chamá-lo, cada vez com mais intensidade.
Um algeroz passava a escassos centímetros do caixilho que enquadrava a sua obra de arte. Então porque não trepar? Seria uma questão de minutos e a coberto da noite teria sucesso concerteza. Consciente marcou para a noite seguinte.

Saiu de casa depois de ter escutado em sobressalto as movimentações dos pais. Três horas de espera deram-lhe cabo dos nervos mas aumentaram a adrenalina.
O coração estava pequenino e sorrateiro chegou à parede. Tocou no algeroz frio e sentiu um calafrio na espinha. Virou-se com medo de estar a ser observado. Ninguém. Respirou fundo e começou a ascensão. Com muito esforço chegou ao vislumbre do objectivo. Estendeu a mão, tacteou e estranhamente nada encontrou.

Procurou outra vez, e com alívio sentiu quente e frio no contacto com uma superfície lisa em forma de pêra.
Um ranger assusta-o, desequilibra-o e faz com que caia na sebe em segurança. Ao seu lado, também incólume, cai o frasco, agora tingido de vermelho.
Senta-se, e com as mãos a tremer, olha o frasco. Fica maravilhado, finalmente tem-no em sua posse, é seu e ninguém o vai impedir.

Algo perturba o ambiente. Olha em frente e vê rapidamente a sua casa a apodrecer, a cair, até se transformar num monte de cinzas.
Nem pânico sente quando as suas mãos já enrugadas começam a descarnar.

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Malaquias

O Edifício - "O Nome da Rosa"
Jean Jacques Annaud - Umberto Eco
Malaquias acordou com um ligeiro formigueiro nos pés. Tudo estava escuro e não se conseguia mover. Não lhe causou estranheza, já que por várias vezes a posição em que adormecia provocava pressão nas articulações e nervos, adormecendo o corpo completamente e já se sabia, era aquele despertar do torpor dolorosamente masoquista. Primeiro sentia um formigueiro, começava a recuperar a sensibilidade, depois brincava com as mãos batendo com elas em qualquer lado sem sentir nada. Achava graça a esta parte. Lembrava-lhe a infância de noviço a brincar com os ex-votos do Santo Amaro do mosteiro, só que estes não eram de cera.
O catre onde dormia era duro, coberto a palha, onde pululavam bichos de todas as formas e feitios. A cela de dimensões reduzidas possuía uma janela que estava sempre fechada, e de Inverno não deixava passar uma gota de luz que fosse.
Malaquias era bibliotecário no Mosteiro. Passava a vida rodeado de livros e fólios. Catalogava, lia e relia e tinha o hábito, para além daquele que envergava, de escrever resumos que cuidadosamente arquivava alfabeticamente.
Se vivesse no mundo extra-muros, seria garantidamente colega de tertúlia de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, dada a quantidade de cultura que absorvia, mas a humilddae religiosa não lhe permitia tais liberdades. Sabe o que sabe e não faz publicidade, nem tem com quem.
Começa a sentir uma espécie de raspagem nas pernas, e em simultâneo frio nos pés, no entanto continua sem conseguir mexer nada.
Serão as baratas a trepar em direcção a um sítio mais húmido e quente como é costume?! Muitas vezes acordou com esses infectos insectos a tentar aninhar-se e só de pensar nisso arrepia-se todo. Hoje a sensação é diferente, e como não consegue mover-se, ainda, nada lhe resta senão deixar que o sangue corra e lhe anime as carnes.
O Abade bem lhe dizia para purificar as carnes com oração e alguns castigos físicos, e ele bem se esquecia disso. Com o tempo dedicado à leitura descuidava essa e outras regras monásticas.
Esta sensação que lhe estava a fazer cócegas na zona da bacia seria um castigo por ler livros que não eram aceites pela abadia?! De futuro teria de ser mais cuidadoso com os deveres da Ordem e não os esquecer.
Um vazio de pânico instalou-se na sua caixa torácica. O pecado que cometera e estava ainda sem confesso. O desejo que lhe percorrera o corpo quando vira a jovem lavadeira que, uma semana antes, visitara o mosteiro. Todo o seu corpo correspondera à intensidade do olhar usado para apreciar as formas da cachopa. Era isso, devia estar a a ser castigado.
Era estranho que estivesse naquele estado de dormência há tanto tempo. Podia ser a confusão que o sono lhe causava que aumentava o espaço temporal. Para além disso, ao formigueiro, sucedia uma espécie de calor, e até agora sentia cada vez mais frio. Um frio que lhe chegava agora ao queixo.
Sente um sabor a terra de vasos. O nariz corresponde e reconhece o aroma neutro do húmus, esse solo carregado de substrato, e de repente todo o mundo se ilumina, exclusivamente para o olho esquerdo. A imagem, mais que a luz cega-o, e devolve-lhe as trevas, finalmente.
- Então, ainda falta muito para acabares de limpar esse esqueleto?!
- Mais vinte minutos e o Malaquias está pronto para a fotografia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Falo de Babel


"Torre de Babel" Pieter Bruegel o Velho - 1563

A minha almofada cheira a bola da traça, os meus pés não cabem na cama, ficam fora dela pelo menos quinze centímetros! Quem é que no seu perfeito juízo faz camas deste tamanho e fornece uma almofada a cheirar a bolas da traça!? A naftalina pode matar, de enjoo.


No quarto ao lado, um casal de gregos, pela língua parecem, estão a dar a trancada há cerca de duas horas, como é que vou conseguir dormir?
- Hey you fuckers, shut the fuck up, berro com a esperança que me ouçam e parem de bater com a cama na minha parede.
Reparo que a frase faz todo o sentido e rio à gargalhada. É claro que com esta brincadeira também perdi a razão. Eles continuam a partir lenha.


Acendo a luz e começo a escrever na vã tentativa de ignorar os gregos e chamar o sono.
Ainda por cima os meus lençóis têm borboletas azuis! Deve ser para combinar com a colcha em cetim. Onde é que eu vim parar, isto parece um bordel.
Já sei o que sentia o Gabito nos seus primeiros tempos de contista.
Nada mais pode correr mal. Os gregos ou turcos, ou o raio que os parta, acabam por se calar e que bom que é o silêncio.


O que é isto?! Lenhadores no lado oposto, bem perto da minha cabeça! Como é possível, não tenho sorte nenhuma!?
Franceses, com estes gemidos amaricados só podem ser franceses!
- POUCO BARULHO CARALHO, como não sei falar francês, tem que ser assim. Ignoram-me e continuam. Foda-se, porque caralho é que só eu é que trabalho no mês de Agosto?
Horas depois lá consigo adormecer, não sem antes ter berrado os pulmões em todas as nacionalidades em direcção a este Falo de Babel. Até fizeram turnos.


Acordo estremunhado com o despertador e vou tomar banho para tentar pensar, que não andei a rachar lenha durante a noite.
Acabo o banho e descubro que a toalha é nova, cheia de goma, molha mais que seca!
Conto até dez e anoto mentalmente a explicação a dar à recepção. "As toalhas podem ser lavadas para tirar a goma!"


Saio a pingar e dirijo-me ao quarto, não sem antes espalhar uma generosa quantidade de pasta de dentes nas maçanetas dos lenhadores.

"Torre de Babel" Pieter Bruegel o Velho - 1564

Ossos



Há muitos anos atrás estava num buraco rodeado de ossos. Para onde olhasse via ossos. Tíbias, úmeros, clavículas, atlas e nada me impressionava. Não havia carne naquela cova excepto a minha, com sangue a correr nas artérias, fervilhante.

Tirava terra, pazada atrás de pazada e nada me incomodava, excepto a pequena sensação de estar a cavar a minha sepultura, mas não me afectava, fazia-o com algumas piadas à mistura. Não tentava animar o espírito, que estava sempre em constante festa.

Uma chuva miudinha ia lavando o corpo nu de preconceitos, vestido de frieza, continuava a cavar.

Século XIX, diziam-me de cima, tudo o que te rodeia é século XIX. Olhava para as ossadas e pensava em Oliveira Martins, Antero de Quental, com dois tiros na boca a agonizar num banco de jardim, e todos os outros da Geração, assim como eu.
Olhei e vi toda a filosofia e cultura desse século e fiquei impávido, sereno.
Um círculo branco, dois orifícios no centro sobressaíram no castanho da terra. Um metro e oitenta e dois de profundidade, a minha altura exacta. Não consigo ver nada para o exterior, só olhando para cima.

A minha boca está ao nível de um crânio que numa posição anti natura, para quem foi enterrado pelos cânones, sorri. O maxilar, ligeiramente descaído, já me parece um grito em forma de sorriso.

No fundo, na terra que revolvi, está o círculo branco a chamar a minha mão. Sem luvas, sempre, para poder sentir a textura da terra e o branco osteológico pego nele. A minha consciência agita-se e tudo o que aprendi abalroa-me. O plástico é extraído do petróleo a partir da década de 30 do século XX. A proximidade cronológica provoca-me um arrepio frio e o meu estômago faz-me vomitar o pão e a manteiga prontamente absorvidos pela terra.

Uma coisa só, só uma me ocupa o pensamento “o meu avô foi contemporâneo destas ossadas”.
Tomar consciência da possibilidade de contacto físico ou social entre estes restos e o patriarca da minha família incomoda-me, muito.
Saio do buraco, ou tento, já não sei.

Anos passados voltei ao local e lá, em câmara ardente, estava o cunhado do meu avô, acabado de falecer.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

A Porta entreaberta

Nada é acessório Giraça!


Henri Matisse - "A Porta da Casbah"

Acabou de sair de uma relação de dez meses, esquecendo-se de fechar a porta. Na caixa de correio deixou uma conta inflacionada de sofrimento. Relação conturbada esta. A doença dela, emocionalmente transmissível, barra todo o bom humor e optimismo impossibilitando a cura.

Aí está ele morfologicamente farrapo. Se puxares um fio desfaz-se em raiva e frustração.
Quando se fecha uma porta abre-se logo outra, o problema é quando a anterior fica entreaberta.

<> Luísa acha isto acessório <>

A porta aberta chama-se Ana, parece alentejana, tal é o cromatismo que lhe enche a face. Pele morena, cabelos loiros, grandes olhos azuis, dentes brancos. Chama a atenção como um pregão de flores.

Sempre o desejara, ele nunca tivera tempo para saciar a sede. Deixada a porta entreaberta, a melhor opção é esta, está predisposta. Já se vêem os raios de luz no compartimento.
Envolvem-se e começa o relacionamento desprendido que encaixa na forma de ser dele.

23:30 Festa Académica.

Chega ao ponto de encontro e já alguém entrou na porta. O seu espaço estava ocupado e mais uma vez se sente enganado. Duas seguidas, duas portas que teima em fechar e deixar frinchas.

Desabafa com um amigo e algumas loiras. Decide deixar tudo para trás e um encontrão devolve-lhe o contacto com a terra firme.

- Que foi ó filho da puta, diz o outro cambaleante.
O seu sorriso “não quero problemas” não resulta.
- Desculpa, não percebi.
- Sim tu ó filho da puta, alcooliza o latagão.
- Filho da puta és tu!
Desvia-se do soco e coloca tudo nos devidos lugares. Os nós dos dedos estalam e a t-shirt cor de tijolo fica vermelha. Olha para o chão e só vê preto e um nariz partido.

Agarram-lhe num braço e vê-se rodeado de armários.
Um sabor a serrim enche-lhe a boca e vê uma porta ao fundo, sem luz.

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

Guarda



"Viver das memórias é como guardar um cemitério" Hugo Pratt

Fazia a ronda como era costume. Primeiro pelo talhão vinte e um, descendo para o catorze, acabando no sete. Recomeçava no vinte, quinze, dez, cinco, até que os visitava todos.

Tudo em ordem, afinal o que poderia correr mal num sítio daqueles?! Era uma vida como outra qualquer, a única diferença era conviver com os mortos.

São os vizinhos mais sossegados que se podem arranjar, costumava dizer quando lhe perguntavam se não tinha medo dos inquilinos do espaço guardado.

Não era difícil a sua missão. Calcorreava os talhões e verificava se tudo estava bem. Evitava que algum vândalo esclarecido viesse pôr em causa o descanso da eternidade.

Não acreditava que houvesse vida para além da morte ou coisa que se parecesse, mas era o seu trabalho e debitava da cartilha: “não somos nada nesta vida”; “do pó viemos e ao pó tornaremos”; “descanse em paz”.

Jovens, velhos, homens, mulheres, crianças, nenhum lhe provocava qualquer tipo de emoção, só não podia ver-lhes a cara. Não suportava ver a cara de um morto, pálida, de queixo caído depois de tanta vida que lhe correra nas veias.

Acabada a ronda, gostava de deambular, observar a pluralidade morfológica de campas. Cruzes e anjos, pietás e Cristos cravejados, enfim tudo o que se vê aqui, um exorcismo, a corda de fé que puxa as almas para o outro mundo, o melhor.

A quebra de rotina pode muitas vezes afectar o destino de um guarda de cemitério.

Alterou a ronda e quebrou a monotonia que lhe devorava a mente.

Rondou na diagonal e quando chegou ao talhão 7 algo lhe chamou a atenção. Uma campa era um amontoado de ferro, vidro, madeira e plástico, esculpindo um quadro de alto relevo infernal. Em vinte e um anos de guarda nunca reparara naquela escuridão na alvura dos mármores.

Largos minutos foram passados a contemplar as nuances pictóricas dos diferentes materiais. Algo lhe desvia o olhar. Um corvo aterra no mármore vizinho. Ao encarar o guarda, sorri com sorriso de corvo e voa para longe.

Podia ter seguido o voo do corvo, mas o tempo parou na data da morte da pessoa ali sepultada, 26 de Junho de 1949, um dia antes de ter nascido.

“Competente guarda deste cemitério durante 21 ano”.

Sem vontade e com o pavor na íris leu na campa seguinte, sete palmos de fundo, escura, negra:

“Competente guarda deste cemitério durante 21 ano.

26 de Junho de 1990.”


quarta-feira, 3 de agosto de 2005

Deus




Um rapaz de vinte e nove anos decidiu que não ia acabar o seu curso universitário para se dedicar a uma coisa mais terra a terra. Mudou-se com os seus livros para o Alentejo e comprou um monte isolado de tudo e todos.

Começou a plantar formigas. Com paciência e sabedoria aprendida nos livros começou aos poucos a construir a sua pequena colónia. Com uma rainha que parecia ter sido educada em Eton, criou uma sociedade produtiva que não lhe dava alimento ao corpo, mas uma enorme sensação de poder. Ter o poder sobre uma colónia de seres que são capazes de carregar cerca de oito vezes o seu próprio peso, mina-nos por dentro.

Sentava-se e observava a acção dos pequenos seres. Um dia acordou com uma ideia que não lhe saia da cabeça.

Foi até à colónia com um instrumento que tinha fabricado a partir de uma pua, na forja improvisada no celeiro, começou a criar túneis alternativos àqueles que eram minados pelas formigas.

Passados três dias concluiu a arquitectura auxiliar formiguesca e dormiu descansado, sentindo ter ajudado os pequenos seres na expansão do seu território subterrâneo.

No dia seguinte, com horror, descobriu que os túneis criados tinham sido invadidos por outra espécie de formigas, maiores e mais fortes que estavam a matar todas aquelas que considerava como suas.

Percebeu que cometera um erro e que já não havia forma de o reparar. Mexera com o livre arbítrio das formigas e conseguira que elas fossem destruídas.

O maquiavelismo começou a entranhar-se nas suas sinapses. Reformulou o instrumento que provocara a morte das formigas semeadas e construiu novos túneis que foram invadidos por formigas maiores que devoraram as formigas residentes.

Um dia, durante o dia, com toda a luz diurna que lhe cegava a alma, a casa foi invadida por gigantescas formigas brancas que o cobriram e devoraram o corpo durante muitos dias até ao Fim.

O Espelho

Durante muito tempo teve uma vida de gato feliz. O dono fazia-lhe festas, a dona dava-lhe carinho, comia o que bem lhe apetecia e era feliz assim.

Quando os donos não estavam em casa refastelava-se e fazia tudo o que as suas patas de gato deixavam fazer. Independente, como um gato tem orgulho em ser, fazia só aquilo que realmente lhe passava pela vontade de gato.

Miava como um gato, e quando apareciam visitas no seu espaço, ia roçar-se impregnando as fibras das roupas com pêlos da finura de átomos, cinzentos. As pessoas levavam assim uma recordação de gato, lembrando-se com prazer ou repugnância, mas é este o efeito dos felinos. Há quem goste.

O que é certo é que não era um gato que deixasse ninguém indiferente, por vezes até mordia os ignorantes que lhe negavam atenção.

Nunca tivera um gato na vida, era muito independente e não gostava de criar laços. Para além disso não havia gato que lhe suscitasse interesse para possível relação.
Poderia até tratar-se de ter conhecido tantos gatos na sua vida de gato, que se tornara exigente demais para abrir o seu pequeno coração ao primeiro que lhe aparecesse.
Podiam ser gatos com tantas características marcantes, que ela desejasse encontrar um gato que tivesse todas as qualidades e defeitos dos seus pretendentes possuídos.

Continua

terça-feira, 2 de agosto de 2005

Caos

Não me perguntem o que aconteceu, depois explico. Hoje é uma excepção. Apeteceu-me.
Amigo, há uma coisa que se cham sintonia, empatia, talvez padrão similar, o que é certo é que me saiu isto, e há uma relação com o que escreveste.
Há dias em que realmente se deve sair da tenda. Quando se está rodeado de boas pessoas que falam a mesma língua, nunca nada corre mal.

Estás bloqueado por pensamentos que querem sair mas nunca se atrevem apor as antenas fora da carapaça, pelo menos para a realidade exterior. A tua concha é demasiado frágil, e sabes que basta uma pequena acção para que todo o caos interior que gira contido seja colocado na luz do dia, e destrua toda a paz aparente que sentes já há muito tempo.

Passeias na praia e chutas a areia sem intenção. Sem querer perturbas o microcosmos envolvente e tudo se vira contra ti. O vento envolve o teu corpo e entra dentro da tua mente deixando-te à beira do colapso espiritual. Um guarda-sol atropela-te e recomenda-te com cores que vejas o lado bom da vida. Para catastrofista já basta a tua mão direita, que o que toca transforma em carvão. É o toque do ferreiro só é pena que não sejas ferreiro, ser-te-ia muito útil.

A noite cai, evoluis para o estado A fotofobia deixa de te incomodar. És animal da noite e consegues exprimir o que te preocupa de forma natural. Depuras a visão e vês que o teu desejo se torna realidade. O encontro com o maior desejo transforma-se no maior medo, mas não há que o ter, enfrentá-lo é talvez a melhor forma de o ultrapassar, por muitas feridas difíceis de fechar que resultem do confronto.

Pensas e deixas de pensar, o teu cérebro trabalha só com sins e nãos , os dois levam-te à atitude.
Tudo nela te agrada. A paleta cromática, as dimensões, a forma como as formas se mostram, o som que produz na nota certa, a raiz de tudo. Deixa-te ansioso.

A adrenalina pesa no sentido frontal e avanças. Tocas nas suas formas e o com o teu olhar, fixo, reconheces que tudo se encaixa. É o saber antigo transmitido pelos genes que formata a tua consciência e sabes a profundidade da experiência sem nunca ter passado por ela. Sem preconceitos encostas um dedo e a sensação é única, encontraste a tua paz. Abres o coração e ficas descansado a ver as estrelas por entre os ramos dessa árvore que procuravas.
A árvore és tu, e sabes bem.

Raquel

quinta-feira, 28 de julho de 2005

E vou de férias

Meus Amigos: como já devem ter percebido vou fazer o meu retiro espiritual durante os próximos dias.
Muito embora me apetecesse fazer uma loucura e ficar pelo Porto, a correr todas as Noites da Mulher das abjectas mega discotecas da zona industrial, e torrar montes de dinheiro (há pessoas que fazem isto), preferi torturar-me com um fim de semana de qualidade musical, e muita gente.
Depois rumarei até à Galiza, em direcção a Finisterra, quero saber se acaba mesmo lá. Quem quiser vir é bem-vindo, mochila às costas e tenda e já está!
O Moleskine vai comigo, por isso não se preocupem que escritos não faltarão!
Quem for para Vilarejo de Muçulmanos para apoiar a nossa luta, poderá encontrar-me junto a qualquer barraca de Super Bock!
Até à minha volta!

quarta-feira, 27 de julho de 2005

Vilarejo de Muçulmanos


Prontos para a peleja!

Ano da graça de nosso senhor Jesus Cristo de dois mil e cinco. A Reconquista continua.
Não obstante os esforços de alguns cavaleiros deste mui nobre Reino de Portugal e dos Algarves, ainda há focos de resistência da mouraria nas coutadas a Norte do território. Sabei pois, Sua Alteza Sereníssima, que almejaremos mais uma vez, neste sagrado ano, reconquistar aquela parcela, nomenclada como Vilarejo de Muçulmanos, para completar as Vossas posses.
Não deveis ignorar que o valoroso cavaleiro António Barge, tentou nos longínquos anos de mil novecentos e sessenta e sete e mil novecentos e setenta e um, conquistar os infiéis, sendo no entanto os seus esforços infrutíferos.
Sabei mais, as campanhas foram objecto de tentativas de sabotagem pela espionagem de Marcelo Caetano “O Usurpador”, pelas mãos da temível PIDE. Não fosse a preciosa colaboração do comandante das milícias locais e do Governador da comarca anexa e tudo estaria perdido.

No ano de mil novecentos e oitenta e dois, quando os infiéis pareciam desorganizados, organizou-se uma incursão com resultados nos antípodas do ideal. De facto, a mourama reforçara-se com mercenários estrangeiros, destacando-se a encarniçada resistência dos frígios U II, dos saxões Homens Coelho, liderados pelo cavaleiro Eco, e o dissidente das nossas fileiras, António Vitorino de Almeida, “O Maestro”.
Para aumentar a desvantagem os infantes estavam fornecidos de ervas que lhes davam forças adicionais, concerteza as usadas pelo “Velho da Montanha” para controlar os seus “assassinos”. Perante esta conjuntura batemos em retirada.

Vossa alteza: no ano de Nosso Senhor de mil novecentos e noventa e seis começou a peleja que é agora epitetada de “Guerra dos X anos”.
As campanhas anuais de nada servem, as nossas tropas vão moralizadas, mas existe sempre um qualquer devaneio do inimigo que nos deixa em desvantagem.

A falta de mantimentos é um dos problemas basilares que deita a perder as campanhas, só podendo o nosso exército manter o assédio por não mais de quatro noites.
Todos os anos reforçam os infiéis as suas hostes, com novas armas e elementos, apanhando os nossos sempre de surpresa.
O recrutamento e o aprovisionamento estão concluídos e só nos resta calcorrear a estrada real que nos levará ao destino, se Deus Nosso Senhor assim o quiser.

Permitai que Vos diga, com estas parcas palavras e humilde opinião, que esta será mais uma batalha perdida, mas os homens estão dispostos a servir Vossa Alteza até às últimas consequências.
Quando os Vossos iluminados olhos passearem por esta missiva, já lá estaremos a pelejar a mouraria.

A escreeveu
Miguel de Terceleiros
Para saber mais:
Blitz 26 Julho - edição papel

terça-feira, 26 de julho de 2005

Amie para Presidente!

Nomearam-me por isso lá vai ter que ser.
Eu não sei se posso fazer este tipo de promessas, mas garanto que se a Excelentíssima Candidata vencer, vamos em caravana pelo país todo, para saciar a sede de cultura de toda a gente.
Facultaremos garrafas de Bollinger e flutes a todos os que se puserem do nosso lado, e ainda mais, clarinhas de Fão!
Quem não tiver blog passa a ter e quem não quiser passa a ter na mesma.
Ofereceremos esculturas e serigrafias!
E mais é só pedir!

O Adido Cultural da Presidência

Miguel de Terceleiros

Já agora não se esqueçam de ler o outro post!

Ajudem-me!

Chega uma altura na vida em que é necessária uma mudança, e como tal, este vosso modesto escravo anda com a ideia de mudar de ninho, este já não satisfaz as minhas necessidades prementes.

Peço então a vossa ajuda.
Tripeiros solidarizem-se comigo! Se souberem de apartamentos T2, T3, T4, no Porto, para arrendar na zona da Boavista, Cedofeita, S. Nicolau ou Miragaia, avisem!
Não me deixem sem telhado!

domingo, 24 de julho de 2005

E agora para algo completamente diferente

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Obrigado companheiro por esta ferramenta!

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Yin

Através do reflexo do espelho, olho para ela e descubro-lhe nas feições, expressões que me agradam e que automaticamente tento reter na memória.
Nunca fui bom de memória. Parece um aquário que não tem silicone suficiente para evitar que a água saia. Vai vertendo devagar, e por azar, são as melhores que se escapam pelas frinchas. Volto a encher o aquário memorabilico e as melhores memórias voltam a sair, por isso escrevo-as.


Mantenho um diário apoiado nas notas do meu caderninho preto, que religiosamente conservo junto ao fígado, que isto de lamechices tipo: “Conservo-o junto ao coração”, não encaixam na pusilanimidade do meu feitio. De facto sou como o elefante, onde passo fodo tudo.


Vejo-a brincar com uma moeda yin yang. Que estará a perguntar, que perguntas tu a essa moeda? De quem estás à espera, acreditas nisso, é o que apetece dizer, chegar perto dela e metralhá-la com perguntas, mas, para variar, não me sinto capaz de o fazer. Basta um pouco de interesse por uma mulher e perco toda a espontaneidade.


Convido-me para outra Super Bock. Bebo e lembro-me que devia ter tirado notas de uma coisa que já esqueci. Como é possível, és sempre a mesma merda!
Tiro o moleskine determinado a tirar notas sobre ela, é melhor escrever com maiúsculas, porque passará a ser o sujeito da história. Não tem nome, mas o Ela vai funcionar como tal.

Nota: - morena, não de pele mas de cabelo;
- Olhos castanho escuro;
- Dedos compridos como gosto;
- A ganga fica-lhe bem (demais até);
- Aparenta entre vinte e cinco e trinta anos, mas mais puxada para a primeira hipótese;
- Tem um sorriso bonito (vi-a a falar ao telemóvel e sorriu)
- Bom gosto na roupa;
- Expressões faciais inteligentes.


Acho que não está a falhar nada para uma primeira observação.
Aproveito que há uma mesa livre junto à dela, e sento-me. Não terá sido nem boa nem má ideia, porque um cromo acaba de se meter com ela. É engraçado que quando estamos à caça, se alguém chega à presa primeiro que nós, passa a ser cromo (para não dizer mais).
Realmente não me enganei.

Nota 2 – conversa entre o Cromo e Ela.

- Essa moedinha para que serve?
- Fazes uma concha com as mãos e agitas a moeda, se sair yin é não, se sair yang é sim. Fazes uma pergunta que tenha como resposta sim ou não e a moeda responde.
- Ah, já sei. Gostas dessas cenas de isotermismo!

Pronto, já meteu a pata em areias movediças, já se fodeu, que cromo!!! Como dizia o meu irmão, “não vás por aí que há mato!”


Continua aqui

Para quem gosta da ficção...

Eu sou um bocadinho chato, mas é só para lembrar que há mais um conto no Geradores. Passem por lá.

Abraços e beijos a todos

Acerca da Ficção

Para quem não sabe o que é um Moleskine.

Jacarandá foi muito bem aceite pelos leitores dos meus blogs, Terceleiros e Geradores. Os comentários puseram-me a pensar. De facto não foram comentários insípidos e reveladores de uma leitura transversal ou diagonal, como lhe quiserem chamar.
Pensei e analisei o que me escreveram e há alguns reparos que devo fazer.

Umberto Eco em “Seis passeios no bosque da ficção” faz referência a um leitor que toma por verdadeiras as palavras que Eco usa para descrever a fuga de Jacopo Belbo n’ O Pêndulo de Foucaut, do mesmo autor. Refere-se especificamente à fuga deste personagem pelas ruas de Paris, e numa determinada rua descreve-se um incêndio com uma barreira cronológica bem definida, ou seja a hora o dia e o local estavam bem explícitos. Ora o leitor, imbuído pelo realismo do escritor, escreve-lhe uma carta dizendo que nessa noite, a essa hora, no sítio determinado por Eco, não houve incêndio nenhum.

Alguns comentários às postas, Jacarandá e Jacarandá #2, assumem como certa a minha participação directa no conto. Mea culpa, tenho-vos habituado mal, ou então os blogs estão mal habituados, ou ainda, já consigo ficcionar de tal forma que soa a verdade.
Gabriel García Márquez, n’ O Perfume da Goiaba, escrito em conjunto com Plínio Apuleyo Mendonza, diz o seguinte: «A ficção tem sempre um fundo de verdade».

Já antes de ler esta passagem, comentara por várias vezes com o Quiosk – nos nossos bilóquios – que para se fazer ficção é necessário pegar em âncoras reais. Isso é que vai criar o alicerce, não podemos pretender criar uma realidade do nada, do vácuo.
A ficção ou se nasce com ela, ou é difícil de se encontrar. Quanto mais vivências recolhemos, mais probabilidades temos de produzir ficção de qualidade, e para a transpor para o papel, é necessário ler este mundo e o outro, e ganhar influências.

Salmoura disse-me que sempre fui um precoce na literatura. Muito embora eu já o soubesse, não imaginava que tinha adquirido vocabulário antes dele, até porque sempre o achei mais avançado e disciplinado do que eu, no entanto a leitura criou uma estrutura própria dentro de mim, levando-me a interessar-me cada vez mais por ela e pela escrita. Não é segredo para ninguém que me exprimo muito melhor na escrita.

Na minha opinião, um bom ficcionador deve ter os dois pés bem assentes na terra e uma capacidade inventiva fora da média . muitas vezes vou na rua em silêncio e deparo-me com situações básicas e fico a imaginar estórias à volta delas, quando dou por mim já estou encostado num sítio qualquer acompanhado do meu cadernito ou do meu Moleskine, se andar sem mochila, a criar uma história, onde a única coisa aparentemente real é a situação que origina o pensamento.

Neste preciso momento, estou parado na estação da CP de S. Romão. Um senhor com um penteado lambido, dos seus sessenta anos, cara encaixilhada de óculos de massa, grossos, castanhos como árvores, olha para o comboio em que estou. Assumo automaticamente que é um trainspotter – pessoa que se dedica a verificar se os comboios chegam à tabela. Este senhor fica estático cerca de oito horas por dia, movendo-se para escrever no seu caderninho a relação de trânsito dos comboios, ir à casa de banho e alimentar-se. Já está tão ritualizado que sabe exactamente quando ir cumprir qualquer das tarefas que lhe desviem a atenção para a sua excepcional tarefa auto-imposta.

Lá está ele parado a olhar para o meu comboio, mas hoje há algo que vai explicar a sua devoção a esta actividade que conta já vinte longos anos.
Do meu comboio sai uma senhora com entrada garantida nos trinta. Dirige-se ao senhor e pergunta-lhe qualquer coisa, que não percebo e só posso adivinhar, como que horas são – ainda não consigo ler nos lábios.

O senhor com cara de espanto, intercala lágrima de saudade com lágrima de alegria e abraça a senhora. Deixa cair o caderninho no cais, que deixara de fazer sentido, e abraça-a. Neste momento o meu comboio põe-se em movimento e sinto que nunca mais os vou ver.
A única realidade disto tudo é o senhor que está parado na estação, nem parece esperar alguém, só lá está e permanece.
Inspirou-me e assim é imortalizado sem o saber.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Intolerância


Este fim-de-semana tive um casamento. É claro que correu bem, sem quaisquer percalços, e como sempre com grande comezaina e bebezaina.
Saído do casório com mais dois amigos, e como a noite ainda era uma menina, afinal ainda só eram 5 da manhã, decidimos ir até um bar, que recomendo vivamente a todos os meus leitores que gostem de boa música rock e alternativa, A Tendinha dos Clérigos.

Já íamos bem bebidos e comidos e não fazíamos intenção de gastar muito dinheiro, queríamos era dar um pezinho de dança e socializar.

Nem sequer passamos por casa para mudar de roupa, e fomos assim mesmo, de fato e gravata. Como podem calcular, toda a gente ficou especada a olhar para nós, mas continuou a dançar. Nós lá fomos buscar uma cerveja e lá nos embrenhamos nos sons que andavam à solta na pista. Passado pouco tempo, uma rapariga de cerca de 22/24 anos, vem ter comigo e pergunta “Não achas que estás demasiado formal para estares num bar deste tipo?!”. É claro que lhe respondi que não é a roupa que faz as pessoas e que me enquadro em qualquer sítio independentemente da roupa que vista.
A rapariga lá voltou para junto das amigas a cochichar e a rir, e dali a pouco voltou a abordar-me “Desculpa aquilo de há bocado, não sabia que eras amigo da Joana” ao que eu lhe respondi “quer dizer que por ser amigo da Joana já posso vir para o bar de fato?!” ela encolheu os ombros sorriu e virou costas.

É lógico que este tipo de preconceito me faz ficar furioso. Eu tento ser uma pessoa correcta e bem-educada e depois levo com isto.

Mas isto não foi o pior. Entretanto chegou a polícia e fomos todos postos lá fora. Quando estava na fila para pagar um tipo de camisola caveada mete-se comigo e com os meus colegas. Começamos com aqueles aparvalhanços de fim de noite, mas muito tranquilo, até que ele se vira para mim e diz “Mas olha, achas que havia necessidade de vir assim para aqui com o teu fatinho à Al Capone, camisinha branca, gravata vermelha, lenço e botões de punho a condizer?!”

Vi isto como uma provocação, mas como nem parto muito para a ignorância resolvi responder-lhe à letra “Desculpa lá, mas a minha paleta cromática afecta de alguma forma a tua visão estética do mundo?!” e ele dentro da sua camisola vermelha caveada, com um ar que tendia para a esquerda (parecia ser militante do bloco de esquerda) diz “Desculpa” e eu repito “Afecto de alguma forma a percepção estética da tua realidade reducionista?!”.
Ele aborrecido porque não tinha pedalada para a argumentação e o vocabulário usado, diz “Pensas lá por te vestires de fatinho podes vir para cima das pessoas com essas merdas?!” é claro que eu lhe expliquei calmamente, com toda a arrogância que quem tinha começado com as merdas tinha sido ele e para rematar disse “Tu estás vestido como uma pessoa de esquerda mas a tua intolerância é toda de direita, extremamente à direita”. Nesta altura apareceu uma amiga que o levou, e ainda bem porque já lhe saltavam chispas dos olhos.

Não sei se o moço percebeu que lhe chamei fascista nas entrelinhas, mas no fundo se não o é, consegue disfarçar bem. Julgar as pessoas pela capa exterior não é a melhor atitude num mundo com tanta variedade cultural, e os que tem aspecto de mais tolerantes acabam por não o ser.
Se calhar estou a julgar uma pessoa que estava com os copos e fora de si, mas nem tenho o direito de o fazer, mas o que posso fazer é argumentar sempre que me deparar com uma situação semelhante.
Por tentar não perco nada.
Amie bem vinda!

domingo, 17 de julho de 2005

Jacarandá




Cedo descobri que as coisas não eram exactamente como pareciam. Todos os dias olhava pela janela e os ramos do jacarandá me indicavam as puras verdades e as deslavadas mentiras. Era o meu confessor, tutor e elucidador. Descansava-me olhar para ele e pensar nos degraus que ia subindo. Aos poucos descobria tudo o que havia para descobrir.

Tornara-me calculista por força das circunstâncias. A vida dera-me tanta bofetada e facada que modificara a minha forma de me relacionar com as pessoas.

A chama que acendera o rastilho havia sido ignada pela mesma mão eu tanta vez me fremitara de prazer. O que dá o bom também o tira e eu já o devia saber.

Estávamos em 1996 e o tempo era de alegria despreocupada. Eu era um adolescente acabado de ingressar na faculdade, e a maldade para mim não existia. Atirava-me de braços abertos para as mãos e corações de toda a gente e ignorava que me pudessem fazer mal, que tivessem inveja de mim, que secretamente me odiassem.

Por entre as frinchas da sociedade que me rodeava, espreitavam-me e planeavam, seguiam os meus passos e cozinhavam em lume brando o intento de me destruir.

Foi nessa altura que conheci Rebeca, essa odalisca de olhos verdes e pele escura. Foi como uma revelação para mim, pôs-me na câmara escura e encheu os meus dias de cor e as noites de amor.

Com jeito e paciência, ensinou-me os truques de bem fazer o amor. Professora paciente, com a experiência dos seus trinta e dois anos, consegui transformar a minha insegurança e timidez na pior coisa para ela e na melhor para mim. Tornei-me convencido e arrogante, e como sexo pede sempre mais sexo – as hormonas começam a fazer todas as provas olímpicas de saltos – comecei a trai-la com outras.

Muitas vezes chegava a casa sem vontade de fazer fosse o que fosse. Estava esgotado e farto de estar com ela, até que me encostou, com o seu corpo de comer e chorar por mais, à parede «ou eu ou elas» e eu burro fiquei com elas.

Passados dois meses voltei para ela. Satisfazia-me de todas as formas e completava-me, eu é que não o sabia antes. Só quando sentimos a falta de alguma coisa é que percebemos que não podemos viver sem ela, e com Rebeca assim foi. Passados dois anos de aparente felicidade, em que eu me moldei à sua imagem e, muito naturalmente, ela à minha, começou a acontecer aquilo que eu não estava à espera.

Continua aqui

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Estas cenas em corrente!!!

Já tinha visto isto numa resma de blogs, mas agora tenho mesmo que entrar na onda devido ao desafio do Freddy. Então seja.

As minhas músicas preferidas:
1. Pregão da peixeira do Bolhão – executado pelas próprias.
2. Eu sou tuning e gosto – executado pelos carros dos próprios.
3. Buzinão em hora de ponta – executado pelos taxistas em greve.
4. Martelo pneumático em dó menor – executado por um trolha lá na escavação.
5. George Bush – executado por fuzilamento de tomates podres.

Já está, e com não acredito nestas cenas (maldições e afins das cartas em corrente) que vou deixar de comer bolinhos de bacalhau durante um ano e tal e coisa e o camandro, não vou passar isto para ninguém.
Tenho dito.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Pesquisa Google Images

Onde moras?

Recolha de Francos.

Acho que vai haver filas de trânsito.

Depois de uma noite de copos, resolvi fazer uma pesquisa. Imaginem a minha surpresa quando me sairam estas pérolas!

terça-feira, 12 de julho de 2005

O Congro



Nada um gajo a vida toda para acabar nisto!


Este fim-de-semana, estando eu a partilhar umas garrafas de vinho com o meu pai e os meus irmãos, o meu progenitor, contou uma história, digna de registo, que se passou em Viana do Castelo com uma peixeira.

Quando falamos ou ouvimos falar de peixeiras, ficamos, automaticamente, com aquela imagem pré definida da broeira que trabalha nas bancas do Bolhão e dá beijinhos aos políticos – não sei se eles gostam de ficar lambuzados e com os ouvidos em ferida “ò dôtore que gosto taunto de u ber na telebisom” (ler com voz esganiçada) – e descansem que não vos vou desiludir, as peixeiras de Viana são iguais às de todos os outros sítios.

De facto, até acho que as de Londres devem ser feitas do mesmo bloco, só com um sotaque mais polido e afectado “my lord, do you want some badejo?!” – não faço a mínima ideia como se traduz isto para inglês – ou então “we have some fresh rodovalho, do you want it sire?”. Estes peixes têm cada nome…

Voltando ao que interessa. Esta ilustre representante da classe dos vendedores de peixe, entrou numa acesa discussão com um homem, não se sabe muito bem porquê, e no auge da discussão – depois da acção que vou narrar a seguir não houve mais argumentos – a senhora não tem mais nada, e saca de um congro, qual taco de basebol qual quê, e pimba, grande cacetada no pobre desgraçado, estendendo-o no meio do passeio (passeio ou paçeio) no meio do alcatrão.
O atingido, quando recuperou da agressão e da vergonha – abalroado por um peixe e agredido por uma mulher – resolve instaurar um processo em tribunal.

O Sr. Dr. Juiz e os advogados que acompanharam o processo devem ter-se borrado a rir com tão insólita situação, e quando chegou a altura da leitura da sentença, ainda mais se devem ter rido as pessoas que acompanhavam o processo.

O Juiz absolve a agressora, porque o Congro não se enquadrava em nenhum tipo de arma conhecida!
Já estou a ver o juiz “Bem só se eu a condenar por agressão com arma preta” e a engasgar-se com o riso.

Não sei se a história é real ou não, mas que me fartei de rir com isto lá isso fartei.
Se quiserem agredir alguém façam-no com um peixe!

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Carnaval em Terceleiros


Este panegírico da realidade alternativa fez um aninho no passado sábado e eu faço hoje - e não é novidade nenhuma - 29.
Resultado, é o meu Carnaval, três dias de festa, porque ontem os meus sobrinhos pequenitos chegaram de França, aqueles destruidores, semeadores de pânico e caos, os meus Loki's de estimação.
Estou então muito, mas muito feliz!
Nunca cheguei a pensar que o blog chegasse a um ano. Sou pouco disciplinado, mas descobri que o vício da escrita me consegue organizar as ideias e disciplinar o que ao princípio parecia indisciplinável.
Quero então agradecer a todos os meus leitores o apoio, sem vocês eu não era nada, e um abraço especial para esse grande amigo e apoiante incondicional o Quiosk.

29 anos… não me sinto mais velho, mas é sempre a mesma coisa. É um dia como outro qualquer, que só serve para fazermos um balanço do que temos feito, e eu de tanto balançar já estou a ficar tonto!
Não me apetece fazer nada disso, o que me apetece é pegar nos amigos e beber umas cervejas!
Bute lá apanhar uma farda do tamanho do mundo!!!
E se eu fosse beber uma cerveja com o Terceleiros?!

sexta-feira, 8 de julho de 2005

Sinapses e sinopses


Trocamos as sinapses por sinopses e ficou assim!

Não resisto a isto! Tenho que escrever!!!
Sinapse: Região de contacto de dois neurónios ou células nervosas, através da qual passam os impulsos nervosos.

Sinopse: Síntese, resumo, resenha, sumário e mais alguns palavrões esquisitos.

Há pessoas que deviam trocar as sinapses por sinopses; outras deviam trocar as sinopses por sinapses.

O Fidel Castro devia trocar as suas sinapses por sinopses, talvez assim os seus discursos demorassem menos tempo!

Alguns livros deviam trocar as sinopses por sinapses, talvez assim se tornassem mais interessantes.

Quem teve a ideia peregrina de traduzir isto para holandês???

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Cinzas

S. Tomé de Covelas - Douro

Um amigo do coração e da alma levou-me, à cerca de um mês, a visitar este sítio fantástico. Fiquei apaixonado e com o convite de lá voltar fiquei-me pela intenção.
Para grande pena minha, ontem, a margem esquerda ardeu e todo o verde que se vê foi sustituído pelo preto da cinza.

Por favor tenham atenção com as atitudes passíveis de provocar incêndios ou então vamos lembrar-nos destes paraísos só pelas fotografias.

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Ovos


E embalagens de três?! Estes são esquisitos...

Alguém me explica porque raio é que vendem os ovos em caixas de seis?!
Será que é uma estratégia de marketing dos galináceos para vender mais? Tudo bem que ninguém compra um ovo, mas se eu quisesse comprar só um ovo como seria? Não me venham dizer que as galinhas põem seis ovos de cada vez que eu não acredito. Já para pôr um vêem-se aflitas!

Justifiquem-se com “ninguém no seu perfeito juízo compra só um ovo” mas eu quero comprar só um. Prezo muito a unidade e acho que é um desrespeito para com esta quantidade venderem os ovos em caixas de seis.

Nos restaurantes, quando pedimos um bife com um ovo a cavalo, vem só um ovo. Tenho a certeza que as embalagens de um só ovo estão a ser sugadas pelos restaurantes. É mais fácil de armazenar e assim os outros cinco não se estragam, ou já apanharam algum ovo choco num restaurante?! Mas em casa já, tenho quase a certeza absoluta!
Expliquem-me lá porque não há embalagens de um só ovo!

terça-feira, 5 de julho de 2005

5 de Julho de 1975


Este já não é o meu super herói!

Quando era miúdo, lia e relia todos os livros do Capitão América, Homem Aranha, X-Men e muitos mais. Eram os meus super heróis e tu bem os sabias. Fui crescendo e conheci outros, o Pai, a Mãe, o Mestre e… Tu.

Foste sempre um exemplo, uma referência, ouvia a música que ouvias, lia o que lias, ria-me do que rias e ficava sentido por não te rires do que eu dizia como eu me ria do que tu dizias – quanto a isso sempre foste um pedante disfarçado, com uma vontade de rir mas afinal para que servem os irmãos mais velhos?!

Ainda hoje ages da mesma forma, se bem que de vez em quando lá te escape a gargalhada, a diferença é que já te fiz a folha.

Gostava das histórias que me contavas, da tua vida académica em Coimbra, das conversas que tínhamos – não me lembro bem sobre quê - gostava de te ter perto de mim.

Não gostava que evitasses chegar junto comigo à escola, nem que me ignorasses quando estavas com os teus amigos, mas no fundo sabia que tinhas orgulho em mim como eu tinha e tenho em ti.
Já mais velhos descobrimos a cumplicidade que diverte toda a gente. É bom fazer equipa contigo, só é pena que não seja mais frequente.

Tu e o resto dos manos preencheram muitas horas da minha vida, tornando a minha infância em algo invejável, mas tu, sabes bem que foste e serás sempre um super herói!

Parabéns!

P.S. 1 - Hoje estive no Café do Cais, lembras-te?
P.S. 2 - Obrigado pela contribuição para aquilo em que me tornei hoje.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

Despedida de Solteiro


Só queria que a minha fosse assim...

Meus amigos: faltam poucos dias para esta espécie de sanatório festejar o seu primeiro aniversário. De facto a 9 de Julho de 2004 apareceu pela primeira vez alguma coisa escrita na World Wide Web. Tomei-lhe o gosto e deu nisto.
Daqui a 5 dias tragam as sardinhas e o vinho e umas febras para mim, que não gosto de sardinhas, e fazemos cá a festa!
Mas não era isto que queria postar.

Este fim-de-semana estive numa despedida de solteiro de um dos amigos que se agarrou ao meu coração e não quer mais largar, o raio da lapa. Se estiveres a ler isto, que vais ler de certeza, sabe que estás cá e não te vou deixar sair.

O que é certo é que não alinhamos naquelas mariquices, ou deverei dizer machistices, de ir jantar e depois ir todos para um bar de strip ou mesmo um bordel. Como achámos que essas coisas só fazem sentido para quem tem uma vida sexual de MERDA, e como estamos bem satisfeitos com a nossa libido, optamos por uma coisa mais à gajo.
Pegámos em nós e bora lá dar uns tirinhos com bolinhas de tinta. Brincar aos cáubois com armas mais ou menos a sério.

É claro que aquilo foi tudo menos justo. 11 marmelos contra 2 e vimo-nos desgraçados para ganhar, e depois ficamos todos contentes por os termos morto. 11 contra 2, acham isto normal?!
Depois de tombos e mais tombos, pisadelas que parecem chupões, e braços cortados, chouriço assado e bons alvarinhos, ainda não estamos cansados de ser miúdos.
Esta cena dos tiros parecerem chupões dão muito jeito. Quando quiserem ir para a rambóia digam que vão jogar paintball eheheheheh!

“Bora lá para a Maia e jogamos um Indoorzito”. Uma hora foi o suficiente para ficarmos todos com os bofes de fora. Para além dos hematomas que angariáramos no Paintball, toca a juntar umas cacetadas – desculpa lá ò Berto, foi mesmo sem querer – e umas quedas aparatosas (para descansar os pulmões).

Francesinha ao jantar é de homem, e muita cerveja também. Uns croft’s, mais umas cervejas, e mais uns croft’s e quando damos por ela estamos todos bêbados. E vimos para casa a braços.
As melhores são no S. Nicolau e no Encontro

Moral da história: Eu não sirvo para esta vida saudável; estive 22 horas a recuperar (a dormir); ficámos todos pisados e doridos; ainda bem que o casamento é daqui a duas semanas, senão para reconhecer os convidados do noivo era muito fácil, eram os que tinham escoriações.

Amigo noivo, quase casado: és e serás sempre aquele amigo especial que vai ouvir todas as coisas da minha boca e falar de tudo aos meus ouvidos. Não posso esquecer tudo o que já passámos juntos e não posso prever aquilo que vamos passar no futuro, mas uma coisa é certa, vamos ser como os velhotes dos marretas.

Abraço

P.S. Não te enuncies por favor .

sexta-feira, 1 de julho de 2005

Haxixe V


Olha a capa italiana...

Acerca do “Velho da montanha” Hugo Pratt põe na boca de Corto Maltese:

«Mais a Sul, mas montanhas, vivia há muito tempo um povo sarraceno, os Hashãshins, na sua língua, “os segnors de montagna” na dos latinos. Esse povo vivia sem lei.
Alimentava-se carne de porco, apesar do Corão, e abusava de todas as suas mulheres sem distinções, incluindo as suas mães e irmãs.

Nessas montanhas, entrincheirados nos seus castelos fortificados, eram inexpugnáveis. O seu chefe inspirava grande receio quer nos príncipes sarracenos seus vizinhos quer ao aos mais distantes, assim como aos senhores cristãos das fronteiras.
Tudo isso porque os liquidava de um modo bastante original…

Esse chefe, de nome Aladino, possuía, encerrado entre duas montanhas, um vale chamado Alamuth, e tinha-o transformado num maravilhoso jardim com magníficos palácios, fontes de vinho, leite e mel. Aí lindas mulheres tocavam música, dançavam e cultivavam todas as artes do amor…»
_ _

Alamuth
.
Continua
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quinta-feira, 30 de junho de 2005

Viva a Medicina


A minha mãezinha bem me dizia "Vai para medicina"

Estava eu, por acaso, num hospital particular do Porto, quando se me deparou uma situação digna de nota.

Para vos enquadrar, tenho a dizer-vos que é uma das instituições mais ricas da cidade, e não vos vou dizer o nome (começa por “Venerável” e acaba em “Francisco” e no meio tem “Ordem” e “Terceira”) já que posso ferir algumas sensibilidades.

Esta instituição tem um parque de estacionamento que alberga cerca de 15 automóveis, 8 dos quais com um preço acima dos €75 000. Ele é Maseratti’s, Porsche’s, Jaguar’s, Mercedes topo de gama… vou-vos descansar e dizer-vos que não são da instituição mas dos médicos que lá prestam serviço – entram às 15:30 saem às 16:00 e embolsam €2 000. Nada mau.

Ora estes senhores doutores (vénias) que devem trabalhar em muitos hospitais, não sabem uma das regras básicas de comportamento junto a estas instituições. Acho eu, e elucidem-me se estiver errado, que não se pode buzinar junto a hospitais.

Estes senhores doutores (vénia e beijo no anel de curso) quando chegam ao portão da referida instituição, para não desalaparem o rabiosque do estofo de couro do seu bólide caríssimo, buzinam para o segurança ou o porteiro carregar no botão para lhes abrir o portão, incomodando os pacientes, na sua maior parte idosos, que recuperam da operação que o senhor doutor (vénia, beijo no anel de curso e “o senhor é um santo”) efectuou ela módica quantia de €2 000.

Senhor doutor (repreensão severa, chuto na porta do Maseratti e pazada de terra para dentro do carro) esfregue os olhos, para tirar os cifrões, e ponha os pés na terra da humildade e do bom senso.


Pazada de terra lá para dentro!