Só sentimos as coisas na sua verdadeira essência quando delas estivemos privados. A pele é um transmissor natural de intimidade.
Já há muito tempo que não estava com um homem. O medo sobrepunha-se a tudo e a possibilidade de um envolvimento, fazia com que evitasse a proximidade. Muitas vezes sentira o desejo de tocar em alguém, mas havia sempre algo, um alarme interno que a retraía.
O último relacionamento não acabara mal, mas de alguma forma criara uma barreira que afastava mesmo aqueles que a desejavam muito. Estava na casa dos vinte e tais. Alta, elegante, bonita, um charme e uma sensualidade que, não fosse aquela barreira inconsciente que levantara, lhe garantiria todos os homens aos seus pés a fazer todo o tipo de galanteios e salamaleques só para a conquistar.
O muro auto defensivo devia-se à perfeição da relação anterior. Bem... como todas as que não são perfeitas, também esta tinha algum dia que terminar. Assim foi, mas a sua teimosia natural pugnava para manter viva a recordação perfeita, fechava-se em copas e não deixava ninguém aproximar-se.
Às vezes é preciso um momento de distracção para se encontrar a fissura que promove a destruição das defesas.
Estávamos em Julho. Sentada a contar as aventuras e desventuras das férias em Paris, estava acompanhada por um casal amigo. Riam-se com gosto e chamavam a atenção do resto da esplanada. O ar do mar dava uma frescura e um cheiro característico ao ambiente, prenunciando uma bela tarde.
- Posso?!
Perto dos 30, moreno, alto, com um sorriso nos lábios e um cigarro na mão, caderno de mercearia na outra, espalhou um pouco mais de luz pela mesa abafando a sombra do guarda-sol.
A anuência geral deu-lhe o lugar desejado e satisfeito instalou-se. Era amigo do casal, para ela, desconhecido. Uma franzir de sobrolho mútuo indicou que ambos eram antagonistas no tema que repousava na mesa. A discussão evolui e ela começa a sentir uma pontada de irritação que lhe nasce na tiróide e lhe salta pela boca.
Ele, divertido, contra argumenta com calma e num tom neutro estudado, provocando-a cada vez mais. Quando provocada, tenta sempre ser a melhor, e como ele lhe põe os nervos à flor da pele, mais vontade tem de ficar com a última palavra, e como golpe fatal, resolve ser condescendente, paternalista. Com um sorriso irónico pousa a mão sobre o braço dele e sopra-lhe:
Porque é que tens que ter sempre razão?!
O toque é automático, elaborado e provoca nele uma reacção inesperada, o corpo é percorrido por uma corrente energética que lhe eriça todos os pêlos do corpo. Fica sem palavras e confuso, afinal não é fácil emudecê-lo.
Abstraem-se de quem os rodeia e continuam com a discussão. Só deseja que lhe volte a tocar, e ela na sua ânsia de razão, que nunca é de ninguém, cada um tem a sua, continua a provocar, a esticar a corda.
- Não olhes assim para mim, diz-lhe em tom ameaçador.
- Assim como, diz ela divertida, deixando-se levar.
- Assim, devolve-lhe o olhar o melhor que pode e levanta-se.
Deixando-a a saborear a conquista prematuramente, pede desculpa e com um “Volto Já”, sai da esplanada com destino incerto.
Fica sentada alheia aos comentários do casal. Só pensa na fórmula que vai usar para dar uma lição àquele convencido, arrogante, teimoso. Com o discurso já preparado, sorri ao vê-lo chegar com um jornal e um livro debaixo do braço.
- Pensei que tinhas abandonando a luta!
- Eu nunca abandono nada, diz com um sorriso e um tom firme. Toma.
Depõe na mesa o Livro. Espantada e incapaz de disfarçar abre-o e vê uma dedicatória.
«Uma surpresa para a maior das surpresas. Já senti o teu toque, a tua pele, prendi a tua voz e a tua atenção, só me falta isto.»
“O Perfume” Patrick Suskind.





























